sexta-feira, julho 30, 2010

lá da travessia

28.07 - em trânsito

Nono and last day

La Strada

Melhor sensação que eu conheço
Que relembrei
Redescobri aqui
Que quero viajar muito pro resto da vida
Viajar é preciso
Viajo porque preciso viver
Aqui é tudo muito.
Tudo tão
Tudo bem
Basta existir e sugar o sangue da vida que me beija na boca de língua
Quero trepar com a vida
Mais e mais
Forte
Devagarinho
Deixar ela entrar e me amar
Porque eu amo ela

domingo, julho 18, 2010

do ente

momento em que te pegam te viram do avesso e te o bri gam a ficar quietinho, descansandinho, tomando chazinho, paradinho, no sofazinho, dormindinho, bonitinho, tomando remedinho, xaropinho, nhé nhé nhé nhé nhé, tudo aquilo que é mais chato de fazer nesta vida.

do ser

ou, para os mais chegados nessa coisa de explorar a fundo o ser humano, quando se fica doente, do ente, é um momento de entrar em contato consigo mesmo, com o seu ser. o corpo pede estes momentos de vez em quando. esta pausa. quando você está se atropelando demais, não se olhando o suficiente, não se respeitando o mínimo. quando tá fumando demais, bebendo demais, trepando demais, se divertindo demais, o corpo pára, pede arrego, não aguenta, pede trégua, pára peloamordedeus!

com clusão

equilíbrio, meus caros, equilíbrio. ele é de fato meio mala, mas, pelo menos, busquem-no.

quinta-feira, julho 15, 2010

o mais maluco disso tudo é que a gente caminha caminha caminha pra voltar pro mesmo lugar. só que diferente. a gente muda na caminhada. e a gente vai andar porque tem alguma coisa errada. e tem alguma coisa errada porque aquele lugar não tá bastando, não tá preenchendo. aí, depois que a gente se bota pra andar, trabalhar, aprender, a gente volta praquele lugar que não tava fazendo sentido mas que agora faz. e não tava fazendo sentido porque faltava andar, trabalhar, aprender. olha que ciclo maluco.

do meu filme particular

cena de filme:

começa com ele me dando um livro do artaud de presente.

eu gosto, digo que será útil na viagem.

aí sentamos, ele desata a falar, chorar, falar, chorar.

aí passa.

aí chegam os pedaços de pizza.
minha portuguesa, dele marguerita.

aí eu. minha vez. tô puta, puta. e falo falo falo. xingo. hipócrita escroto dissimulado canalha. (nunca achei que eu fosse dizer essa palavra). ele diz: viu como dói?
esperneio sapateio no meio do salão. e os outros na mesa do lado naquele fingimento, "vou evitar olhar, mas to ouvindo tudo o que essa louca ta falando". foda-se.

aí - chega. quero ir embora, vamoembora.
tá.

aí lá fora. cigarro molhado, chuva insuportável na cidade que ficou fria do dia pra noite. aí me abraça. me abraça, não quero. e volto a falar. e falo. tudo. cuspo. que você nunca foi homem o suficiente. pra mim.não bastou. não foi. ele me chama de machista. não tem nada a ver com machismo, é questão de macho e de fêmea. simples assim.
ele: pior que eu sei disso. silêncio. olhos fixos.
eu sei disso.
eu sei disso.

aí vou pro carro.
ele parado do lado de fora.
eu desenroscando os fios do fone do ipod. levo horas nesse desatar um nó impossível. ele se aproxima pra ver o que tá acontecendo. eu abro a janela. mais chuva. ele na chuva. eu coloco um fone nele. ó o que eu vou ouvir, digo.
já lhe dei meu corpo minha alegria já estanquei meu sangue quando fervia olha a voz que me resta olha a veia que salta olha a gota que falta pro desfecho da festa por favor deixa em paz meu coração que ele é um pote até aqui de mágoa...

canto: pode ser a gota d'água. ele beija minha boca violento. ele me pega de jeito. homem. me beija e me beija e me beija. ele do lado de fora da janela do carro. ele diz que eu sou todas as mulheres do chico buarque. ele me beija tanto até que acaba entrando no carro pela janela mesmo, de onde ele estava. e a gente se pega e se entrega.
avenida paulista.

e qualquer desatenção, faça não.
pode ser a gota d'água.

terça-feira, julho 13, 2010

sou a assimetria em forma de gente.

sou curvilínea

melancólica

agressiva

eufórica

e

baixinha

segunda-feira, julho 12, 2010

sai culpacristã
me larga moralcatólica
sai seusrepressores estabilizadores da ordem
sai ordem
sai
sai
sai

eu não peço desculpas e nem peço perdão
eu sou assim ué
mais livre que os outros ué
eu sei lidar com essas coisas do desejo ué
"os normais tinham inveja de mim que era louca"
não que eu seja
sou só mais livre em determinados assuntos que os outros não aturam não compreendem não se conformam
que pode ser diferente
sou só diferente ué
não egoísta como ele quer
não escrota como ele quer
não dele como ele quer
não sou de ninguém e obedeço às minhas vontades ué
e não tá escrito em lugar nenhum que isso é crime
que isso é pecado
que isso é feio
não tá escrito
não existe pecado
existe respeitar a nós mesmos e aos nossos desejos isso é saudável não reprimível
não é egoísmo é sobrevivência
é vontade de viver
se ele não consegue me prender o problema é dele
se ele não me basta é ele quem vai ter que rever as suas atitudes como homem

chega de ficar na culpinha na mulherzinha no medinho
na inquisiçãozinha
na fragilidadezinha
sou mais mulher que isso de boa moça boa esposa boa mãe
sentar de perninha fechada e dar risada baixo
ter medo dos homens
ser fiel acima de tudo
sou fiel a mim

domingo, julho 11, 2010

Quero sentir isso tudo. Não pensar. Não agir. Não questionar. Sentir e só. Entender que as coisas chegam na gente e leva um tempo pra maturar. Não adianta querer responder automaticamente a tudo. Receber. Absorver. Amadurecer. E aí sim, responder. Com arte, com palavra, com ação, com música, do jeito que for. Mas deixar as coisas chegarem, abir as portas e janelas: entrem, venham, se acomodem. E fiquem por um tempo aqui comigo. Aí depois, só depois, posso dizer se entendi, se discordei, se odiei, se achei engraçado ou se sofri. Talvez eu seja meio lenta, mesmo. E tudo bem.

sábado, julho 10, 2010

Que chegou num ponto que não me resta mais alternativa. Aqui ficou insustentável. Agora é questão de fuga. Agora é questão de sobrevivência, de saúde. Preciso ir. Logo. E ponto.

quinta-feira, julho 08, 2010

estou eu aqui
dia se desfazendo na minha frente
eu envelhecendo
o tempo
e o tempo

os meus avós
ontem

sinto eu secando
atrofiando
preciso atuar agir criar
to parada
to só das noitadas vazias
falta a arte
ela
plena
nos tirando daqui e levando pra passear

(tava ficando cega e acendi a luz
ufa)

preciso ler me alimentar botar pra fora quebrar paredes

to com a força de um leão paralisada aqui dentro

quero sair

quero tirar daqui.

preciso dançar falar gemer

espremer o músculo da imaginação botá-lo pra trabalhar

lidar com o poético sublime. subjetividade para a minha sobrevivência!

chega de profano
chega de nhénhénhé
blábláblá

problemas insignificantes e conversas babacas

queria me propor a ficar três dias sem falar coisas babacas

queria me propor a só reagir quando fosse extremamente verdadeiro

queria me propor a não pensar em que roupa vou vestir e vestir qualquer uma que aparecer

queria me propor a ler um livro por dia

queria me propor a mudar os caminhos, as conversas, as pessoas sempre as mesmas, as músicas sempre as mesmas

sinto que esse mesmo mesmo mesmo vai acabar mesmo atrofiando o meu cérebro

um artista não pode parar nunca jamais never em hipótese alguma endurecer paralisar estagnar engessar endurecer nunca jamais

e estou meio assim acomodada por causa da viagem

mas a viagem

a viagem vai me tirar daqui me botar pra me virar revirar contorcer espremer te vira no alemão conhece gente teatro vê ouve frui tudo pela primeira vez da mesma forma quando cheguei neste mundo cão - virgem.

voltar a ser virgem
voltar a não entender nada
voltar pro estado de aprendizado profundo
viva o novo

domingo, julho 04, 2010

O amor é um oceano quentinho feito pra você soltar o corpo e boiar boiar boiar sem saber onde vão te encontrar (se é que vão). Pode ser que só encontrem seus restos espalhados, quebrando com as ondas na areia. Aqui uma perna, ali adiante um pedaço de rosto, mais ali uma mão. Pode durar anos. Ou segundos, a viagem. Pode atravessar afundar ou afogar.

E quando você estiver perdido em alto mar, em volta só os azuis que não te deixam definir o que é céu, ou se é mar, e a linha do horizonte te dizendo no ouvido: vem que eu to pertinho, vem que eu to pertinho, pare e desconfie. Se agarre numa ilhota, numa baleia ou pedaço de pau. Finque os pés no chão do mar. E experimente ficar aí, por alguns segundos.

Mas ele não vai deixar. Ele vai fazer de tudo pra continuar te levando. Vai mostrar toda a força que ele tem e escancarar a sua impotência. A sua mortalidade. Aquilo que em você é mais humano. Ele vai passar por cima. Alastrar.

É a ressaca absoluta. A maré enlouquecida, que vem e não quer saber. E toma onda na cabeça. Água no nariz. E você vai se sentir uma formiguinha, um inseto imbecil, correndo no mesmo lugar.

O amor é duro e líquido, como oceano.

O amor é pra valer: divino. e terrível.
escrever é a única arte que eu tenho praticado com constância.
é a única que faço sem me pedirem. faço porque quero. quando quero. e se quero.

mundana.

de tudo o que é de pegar, de comer, de sentir o gosto. de tudo o que é de sentir. de pele, de pelo, saliva, boca carnuda, corpo quente esquenta meu corpo, me embrulha pra presente e me leva pra passear nesta casa confortável que são suas coxas, sua nuca, seu cabelo.

me leva pro mundo, seu corpo, meu corpo encaixa no seu corpo.

sou de mim e do mundo. quem quiser que me leve, aproveite, me tome as rédeas, me oriente.

eu aqui, boiando neste oceano delicioso. solta. e calma.

sou mundana taurina imunda.

da matéria.
do de pegar, do de comer, do de cheirar. são esses que me movem.

agora sim. agora eu quero ficar pra todo o sempre neste edredom vermelho seu corpo cobrindo meu corpo, seu cheiro, seu gosto, seu todo absoluto e eu aqui largada, devota, escancarada. me leve, leve.

sou sua sou sua sou sua sou sua sou sua

só agora. a pro vei te .
só agora. se de lei te .

que eu passaria o resto dos meus dias nesse movimento. de dorme acorda. de amor. de amor. de come, dorme, acorda. me ama. me come.

esse amor que é concreto; tem gosto, tem cara, tem carne - o amor.

eu carnívora insaciável.

sanguinária. eu da raiva e do amor, uma ao lado da outra.

sábado, julho 03, 2010

pegue umas máscaras.
misture com carcaça, armadura, barreira, trincheira.
junte um disfarce.
bata com 2ks de ego.
100g de competitividade.

frite na frigideira, tudo junto.

pronto.

temos um relacionamento explosivo.

B U M

quarta-feira, junho 30, 2010

Grfksifkuerfuefviw3riueckjsiwqyfiqgwfityeiwhgvfiwugf

Queria escrever assim, um trabalho livre, e mandar as normas da ABNT (?) pra puta que o pariu, e mandar a burocracia pra puta que o pariu, e mandar as normas acadêmicas pra puta que o pariu. Se escrevo sobre teatro deveria ter o direito absoluto de escrever do MEU jeito, me utilizando da MINHA expressão verdadeira, artística, com as MINHAS palavras, e não essas palavras que fico pegando emprestadas de sei lá quem e não sei quem lá. Quero relatar a MINHA esperiência e nesta merda eu só posso falar na terceira pessoa. Quero colocar as MINHAS questões e nesta merda eu só posso colocar as questões de não sei quem lá e não sei lá quem, porque não sei quem lá e não sei lá quem já publicaram artigos científicos e teses de mestrado doutorado pós doutorado Deus. É isso, eles se aproximam de Deus porque eles conseguiram galgar posições altíssimas através de um conhecimento chato e inacessível e agora eles estão lá sentados nas altíssimas pilhas de livros, teses e artigos, e agora eles estão bem pertinho de Deus. Que coisa antiga, Meu Deus. Que coisa sem sentido, Deus Meu. Eu quero ficar aqui ó, bem pertinho dos humanos, quero fazer teatro aqui embaixo, ó, aqui no meio do caos, da multidão, quero gritar e ser ouvida, quero escrever e ser lida por quem me interessa. Fodam-se os professores, eles não estão preocupados com a arte. Por quê raios existe faculdade de teatro neste mundo? E por quê eu estou em uma????

terça-feira, junho 29, 2010

Pirata

"Em nossas línguas há uma bela palavra que tem esse per grego de travessia: a palavra peiratês, pirata. O sujeito da experiência tem algo desse ser fascinante que se expõe atravessando um espaço indeterminado e perigoso, pondo-se nele à prova e buscando nele sua oportunidade, sua ocasião. A palavra experiência tem o ex de exterior, de estrangeiro, de exílio, de estranho e também o ex de existência. (...) Tanto nas línguas germânicas como nas latinas, a palavra experiência contém inseparavelmente a dimensão de travessia e perigo (...)."

Por Jorge Larrosa Bondía in NOTAS SOBRE A EXPERIÊNCIA E O SABER DA EXPERIÊNCIA

segunda-feira, junho 28, 2010

sonhei com uma guerra. eu nela, guerreando também. e eu era pega como prisioneira dos inimigos. e tinha navio. e eu fujia tanto, tanto. me livrava, eles me pegavam de novo. aí eu me escondia, armava fugas e sempre, sempre, era recapturada. era terrível. numa hora eu comecei a falar. falei tanto, fiz um discruso tão magnífico sobre a guerra, chamei todos eles de seus bostas e me senti muito bem no final.

sexta-feira, junho 25, 2010

E ONDE BUSCAS O ANJO SOU MULHER
Você é um porco espinho. Fui brincar, me espetei. Aí doeu.

Fiquei longe. Quilômetros de distância me separaram do bichinho.

Um dia, bem depois, eu o vi de novo, sem querer, sem nem esperar que um dia eu pudesse vê-lo de novo. Era lua cheia (perigosa);

Primeiro, meio arredia, não quis me aproximar muito. Peguei um certo trauma desse bicho, porque ele engana bem.
Aí pronto.
Ah, ele é legal o porco espinho. Olha só, todo redondinho, não parece que vai fazer mal pra ninguém. Me enfeitiça, porquinho.
Cheguei perto.
Ai, tem espinho, esse porco espinho. Dá pra ver. Mas é tão bonitinho, coitado. Nunca que vai fazer mal pra alguém. Ah, olha só. Esses espinhos aqui ó, nem devem machucar. Deve ser de mentira, só pra espantar os inimigos – e eu não sou uma predadora (não tanto).
Fui chegando perto e mais perto. E não é que me atrai esse bichinho, me puxa pra perto. Olha!, ele é manso, é até adestrável, eu acho. Eu devo conseguir amansá-lo, claro que sim. Vem aqui, bichinho, pode chegar, vem comigo. Vem que eu te amanso. Vem. Vem. Me enfeitiçou, a presa. E fui chegando chegando.
Quando então finalmente criei coragem e decidi tocá-lo, fui encostar na sua carcaçinha de bichinho fofo e cheguei pertinho pertinho e- aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.












Detesto esses bichos.


E sigo, cheia de cicatrizes.

terça-feira, junho 22, 2010

eu queria falar assim. que essa vida é boa demais. e que ficar sozinha agora é um suplício. depois de dormirmos todos amontoados, depois de nos amarmos nessa intensidade absoluta, todos os corpos, os cheiros que eu já decorei. que essa vida só faz sentido assim, em bando. assim, dividir a vida e a alma com aqueles que nos conhecem mais do que nós mesmos. assim. que a vida não é coisa de guardar pra si. é coisa de gritar aos quatro cantos. de falar, de trocar. de pegar um pouco de cada um pra acrescentar e ir compondo; que a gente nasce assim, cheio de buraco e de vazio, que é pra poder ir completando aos poucos. se nascesse pronto, qual sentido? que eu os amo de alma inteira. minha alma agora é deles. e isso me enlouquece. caminho sem volta. filme maluco. e a travessia mal começou.

quinta-feira, junho 17, 2010

daí eu propus assim pra ele:
eu só tenho um mês. é pegar ou largar.

travessura

preciso cometer alguns assassinatos






então

de mãos manchadas: meus pais irmãos amores e amigos.
o sangue quente deles todos escorre.
daí eu toda entro num estado de transformar, sair do casulo.
daí eu toda diferente, toda outra, cabelo vermelho-sangue, aquela lá que eu busco.
a assassina impiedosa. sem frieza. coração batendo quente. bicho solto cão sem dono.

por enquanto é aguentar esse meio de caminho, de nem ser ou nãoser.

a minha travessia começa com alguns assassinatos.

ouviu, Tom?

terça-feira, junho 15, 2010

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segunda-feira, junho 14, 2010

hoje eu vi um filme lindo e feliz e fiquei tão triste porque eu queria que a vida fosse igualzinha a esse tipo de filme.

domingo, junho 13, 2010

perdi alguma coisa que ligava eu ao mundo. to de observadora nessa história. e observadora não tem graça alguma. legal é ser do time dos que fazem. não dos que assitem. preciso reconectar uns cabos, azeitar uns parafusos, focar. to vivendo louca alucinada fuma bebe fuma bebe fuma bebe bota pra dentro bota pra dentro bota pra dentro. to precisando é botar pra fora. rasgar essa carcaçona. deixar sair o alien lá de dentro, cheio de gosma, com aquela boca faminta de alien recém nascido. com fome de mundo, fome de tudo. to com fome de tudo. e não sacia não sacia nunca nunca. o quê vem pra matar minha fome de coisa maior do que comida cigarro bebida? minha fome é grande, de criar, de explodir a carcaçona, de dançar livre, de mostrar tripa peito do avesso, minha fome de leoa, minha fome de mulher sufocada agonizante respiração presa. quem virá me libertar? e se não vier, se essa história é toda uma grande farsa, não vou esperar coisa nenhuma. vou fazer por mim mesma. eu to com o microfone e tá tudo no meu nome.

sábado, junho 12, 2010

e se arrumou toda, vestido vermelho curto, lacinho preto no pescoço, cabelo preso de um jeito especial, se arrumou, se perfumou, passou lápis nos olhos negros, batom na boca, se arrumou, estava linda, linda, linda. todos diziam: você está linda. uau. que linda.
chegou na festa e se sentiu desajeitada. quis dançar, não conseguiu. quis beber, não engoliu. quis falar, se confundiu. se sentiu não pertencendo, assim linda, mas assim não fazia sentido estar ali, aquele batom todo, aquele vestido todo, aqueles olhos pintados e ninguém a percebia. nunca.

quinta-feira, junho 10, 2010

frio torrencial.
tem alguém aí?
aqui tem mais ou menos
alguém
às vezes mais
e hoje é frio né?
e meus dedos
duros
longos
minhas unhas comidas com algum resquício do esmalte vermelho
anel de espiral contando o tempo
tempo vem e volta
tempo dura
e esbarra nas partes de mim que ficam pelo tempo
que ficam rondando só esperando o momento de, nhac!, chegar


mentira este texto, este texto é uma farsa.
hoje me sinto bem. não densa e trsite como este texto sobre tempo. to feliz da vida.

este texto é uma farsa. em espiral.

terça-feira, junho 08, 2010

hoje eu passei o dia todo com você em mim. agora vou dormir sem você.
É isso:
são tres da manhã eu estou bebada nesta terça feira bêbada total e completamente. Aí eu pensei: vou escrever; tipo o que os surrealistas curtiam fazer, sabe? Livre escrita. Aí eu pensei: vou escrever uma livre escrita surrealista e bêbada e ver no que que dá. O fato é que só amanhã saberei.
Minha amiga Ana Kehl fantástica maravilhosa me acompanhou e me largou bêbada, avenida paulista, luzes inebriantes, eternas. Amo são paulo. Odeio são paulo. Vou-me embora, vou-me embora. Medo da porra. Medo de merda. Medo de nada. Você não é de nada seu medo de merda. Você não me pega. Vem me pegar vem. Pra você ver que você não é de nada. Vou me jogar num outro canto deste globo redondo. Pintar cabelo, heroína, andar de bicicleta, conhecer homens e mulheres, inventar o alemão que eu ainda não sei. Viver diariamente com uma língua que não é a minha língua mãe. Auto exílio, aí vou eu. Me acolham, me escolham. Lá vai uma brasileira arremessada. Lançada em terra estrangeira pra começar outra vida, outra ela. Quem me segura? Quem me cuida? Quem faz minha comida? Me dá bom dia em português? Quem me espera? Nada nem ninguém. E lá vou eu. Agora sim: estrada afora.
Finalmete.

segunda-feira, junho 07, 2010

Desatada dos nós da vida, agora me sinto livre. E perdida.

domingo, junho 06, 2010


as duas primeiras coisas que vou fazer quando chegar em berlim, são:

1- Comprar uma filmadora.

2- Pintar o meu cabelo de vermelho.

terça-feira, junho 01, 2010

de um domingo aí

Ginástica dos dedos. Tec tec tec. Ginástica do cérebro: escrever quando não se tem nada de importante pra dizer. Ainda assim, escrever. Como fumo, por vício. Como um jeito de preencher os buracos. Como um maravilhoso passatempo num domingo esbranquiçado como este. Empoleirada na cadeira giratória. São só dois dedos que digitam todas as palavras: nunca aprendi datilografia. Nunca aprendi a criar coisas profundas com as palavras. Nunca calculei o que estou escrevendo. Nunca fiz aqueles planejamentos para se escrever uma boa redação na Fuvest. Ainda assim, quando me empoleiro, quando os dedos começam tec tec tec, não há o que os faça parar. Uma palavra, outra, e outra e mais uma. E um texto. E eu me descrevendo. E eu me narrando. E eu me escondendo mostrando escondendo mostrando. E eu me deliciando. Fluindo, fluindo. Às vezes sai um bom. Noutras, um inútil.

segunda-feira, maio 31, 2010

E até me esqueci que hoje é segunda feira. E amanhã, terça. E amanhã, cedo. E amanhã muito. Trabalho. Vida labuta de dia de noite. Vida escorrega. Vida entra vida sai. E dói meu corpo o acordar cedo, dói mesmo, machuca acordar cedo. Acordar cedo faz mal à minha saúde. Mental, física, espiritual. Acordar cedo é um estupro aos meus sonhos quentinhos.

Viajo porque preciso. Volto porque te amo.

Viajo porque prciso. Não volto porque ainda te amo.

Viajo porque preciso.

Esse filme do Karim Aïnouz e do Marcelo Gomes que é todo poesia em forma de filme. Que é todo lindo. Todo Brasileiro. Nossos dialetos, nossas putas, nossas estradas de nada pra lugar nenhum. Nossa terra cheia de vida cheia de tudo. Ele começa a viagem contando os dias pra que ela acabe. No final, ele não quer que acabe nunca mais. E que nada é eterno: nem as falhas tectônicas, nem o amor.

quarta-feira, maio 26, 2010

Para o Dr. Maurício que vai me salvar (mesmo que leve 8 anos)

Árvore que quer crescer e é impedida continua crescendo mesmo que torta. Tortuosamente crescendo.

Sou uma árvore de tronco sinuoso.
Tentaram me podar
me impedir
me bloquear

Tenho seqüelas da tortura por todo o meu corpo torto
Na minha língua presa
Na minha coluna em S
No dedinho do meu pé direito que não encosta no chão como o do pé esquerdo
Nas minhas dificuldades de equilíbrio

Mas mesmo tendo me impedido

me atado
e desejado me abortar

Não puderam (nem nunca conseguirão)
me calar.

Se sobrevivi ao parto

à infância

à puberdade cruel e anoréxica

Se cheguei até aqui

é porque fui e sou

forte.

o
bastante.

domingo, maio 23, 2010

Parece que estou vivendo com uma intensidade acima do nível normal de intensidade aceitável. São tantas e tantas coisas que acontecem num dia. Minha vida é feita de dias que amanhecem e quando anoitece eu até já esqueci da hora em que amanheceu. E às vezes anoitece e amanhece de novo, num mesmo dia. Dias de nem me lembrar o que foi que eu vivi na sexta feira, que passou há apenas dois dias. Dois dias são uma eternidade que ao mesmo tempo acontecem na velocidade da luz. Na velocidade de um sonho bom. Já é fim de maio. Onde estive por todo este tempo? Este mês que não vi chegar, não vi passar? Este frio que veio, essa coca cola, esse sítio, essa fogueira, essa bebedeira, esse cair num buraco que abre embaixo de mim enquanto estou dançando, este café com o kenan, estas apresentações lotadas, umas brigas e uns supermercados, umas aulas na usp, uma vaga em berlim, uma viagem para o sertão e uma viagem para a alemanha marcadas, uma vida pra viver e ela passa tão depressa que não consigo sequer saboreá-la. Quero sentir o gosto da vida. Talvez eu tenha começado este texto da maneira errada, O que eu queria dizer é que as coisas acontecem com uma intensidade e velocidade que não dá nem tempo de viver. Me falta tempo de viver intensamente e isso é o opsoto do que eu disse acima. É isso mesmo. Sou profunda e intensamente contraditória. E quem não quiser, não me acompanhe.

quinta-feira, maio 20, 2010

tocar as teclas do computador como se fossem piano e sair escrevendo sons silenciosos.

segunda-feira, maio 17, 2010

agora já foi.
o dia branco dentro e fora. as lembranças esfumaçadas pelo tempo.

quando a gente se encontrou no mundo e era isso que fazia todo o sentido. o que tinha vindo antes e o que viria depois, tanto fazia, já que ali sim o encontro acontecia do jeito mais intenso, mais explosivo, mais certo. e que a gente era foda, exemplo pros outros, até. e que a gente se conheceu todos os dias. e eu esperava ansiosa a hora de chegar na escola livre. umas horas eram muito demoradas. eu queria mais era te ver, fazer as cenas com você, ficar junto no intervalo inteiro, conhecer sua casa, seus pais, interlagos. eu queria mais era viver com você todos os dias sem parar sem respirar, senão parecia que eu ia morrer. porque era tanto amor era tão certo tão justo, o encaixe, o tamanho, a conchinha, o banho, a tv no sofá, as viagens de carro. era tanta coisa em comum. as ideias.
as ideias de vida de arte, de luz, de cena, de nekropolis, de músicas, de estirpe, de club noir, e as discussões, e as inquietações, e a arte e a arte que faríamos juntos, a arte e o amor que faríamos juntos, pra sempre. e o nosso grupo de teatro. e o kenan. e a arte. e o amor.
aí que eu te achava um gênio. e acho ainda.
um gênio chato como todos os gênios são. egocêntrico.
aí que eu achava que juntos a gente ia botar pra quebrar.
você ia me dirigir. e me amar. pra sempre.

domingo, maio 16, 2010

Aí quando dou por mim sinto o peso das tradições sobre os meus ombros. A herança genética. Os jeitos em comum. Os gestos - espera, quem anda assim não é a minha mãe? Ou minha vó? Minha irmã? Não sou eu quem ri assim, quem fala assim, essa voz, a entonação toda, é roubada ou entuxada no meu corpo. Vem com as garfadas de arroz e feijão. Vem das históias do vovô Antônio na mesa das crianças na hora do almoço. Vem com os móveis pesados de madeira escura da casona. Ou do cheiro de remédio no banheiro da Vovó Maria. Vem da mãe. A mãe. A mãe. Que fujo em vão indo cair no mesmo lugar. Nos mesmos erros, mesmas fragilidades. E eu fujo e fujo e corro com fé e nada. E volto pra esse que é o lugar por onde eu cheguei no mundo. Atravessei as suas entranhas, mãe, pra chegar aqui. Como posso fugir das nossas semelhanças?
Não sei se posso. Se sou ingrata. Não sei.

sexta-feira, maio 14, 2010

12/05/2009




Era assim que começava: o dedo indicador dele deslizando sobre o bico do meu peito que fica durinho na mesma hora em que me sobe um arrepio gostoso até o topo da cabeça. Eu enfio a mão entre os seus cabelos e puxo de leve trazendo a sua boca para chupar meus peitos. E de vez em quando ele morde. Era assim que começava. O mesmo dedo entra na minha calcinha e eu gemo enquanto aperto o seu pau com toda a minha mão. Arrancamos as roupas e sentimos o corpo um do outro por inteiro e ele enfia o pau em mim e eu gemo mais alto e aperto ele com a minha boceta. Era sempre assim que começava. E não sei se gemo de tesão ou porque às vezes sinto dor quando o pau entra. E sai. E entra e sai. E entra. E sai. Minha cabeça é minha maior traidora e traz pensamentos de Estêvão e Olívia. De amigas que me esqueceram. Do que comi ontem à noite. Me vejo gemendo pra agradá-lo, pra mostrar que tenho tesão com seu pau entrando e saindo de mim. Os movimentos continuam e se alternam entre reboladas e metidas mais fortes, mais fracas. Eu também rebolo enquanto penso que deveria estar envolvida com a transa e me dói o não sentir meu corpo, chafurdada em pensamentos cruéis. Ele aperta meus peitos. Eu lembro da viagem pra Rio Claro com o Estêvão. Ele segura minha bunda e mete com força. Penso nas rodas de samba quando meus amigos ainda sentiam a minha presença. Ele beija a minha boca. Eu amo esse homem que me come, mas preferia não estar trepando agora. To menstruada, tá ficando tudo sujo e meu pai está dormindo no quarto ao lado. E ainda tem esses pensamentos me aporrinhando enquanto eu gostaria – como gostaria – de estar sentindo tesão com o meu namorado que me fode com tanta vontade. Arranjo uma desculpa – falo que estou sentindo dor, que não estou à vontade, tenho medo de acordar meu pai. Ele pára depois de gozar. Desmorona. Eu saio do quarto para me lavar no banheiro e quando volto ele tem o meu diário nas mãos, aberto na página:
“- Eu posso ser o amante de qualquer pessoa, menos o seu, Sofia – disse o Estêvão. É, ele mesmo, que surgia assim, súbito. Susto. – Por quê não? – respondi perguntando. Engatei a primeira marcha e fui embora rápido. Só o vi apagando o cigarro na calçada molhada, pelo retrovisor. E já o reconheci como se nunca tivesse tido uma separação. Como reconheceria o meu próprio rosto no espelho...”
E as palavras fugiram em revoada, deixando-me quilômetros para trás olhando para ele, meus olhos trêmulos e nus. Agora eu estava nua diante dele. Sem palavras que me escondessem, sem desculpas que disfarçassem. Era eu. Meus olhos e meu corpo expostos verdadeira e dolorosamente. Ele foi embora depois de bater uma punheta ao mesmo tempo em que me masturbou. Levou meu sangue com ele.
E que o meu amor viria à cavalo, rompendo o cimento das calçadas históricas, os discursos super-reproduzidos, as imagens sobre-produzidas e tudo o que é feito de sal. Que viria para me adoçar e me colorir, sendo la dolce vita na Salina Del Hombre Muerto.
Que reconstituiria meus óvulos perdidos este mês e que me devolveria todos aqueles que me disseram tchau. Que me tiraria o teto e me daria o chão.
Este amor-gente-sonho-desejo-ilusão que me apagaria do meu passado e me imporia outro presente. Pessoa feita de nada, de palavra inventada e cara fotografada. Tudo eu de novo e ainda, com fome, com medo e sem sono. Monte de paixão intacta e amor compartilhado. Broto de promessa adiada, de digestão regorgitada. De processo, processo, processo.

Recai novamente meu corpo e, assim, ninguém pelo caminho consegue passar.

Por Joana Elkis, amada amiga,
sensível, forte, foda.

terça-feira, maio 11, 2010

minha queimação no estômago
revolução dentro de mim
eu queria pendurar as minhas tripas num varal
me revirar do avesso no meu próximo projeto artístico
mover minh'alma na direção do público

minha auto-guernica.

Não quero a absolvição

me interessa a coragem

não saber se fiz o certo se disse o que tinha que ser dito se não traí não xinguei

quero estar inteira nesta arte de que escolhi viver

não queria me vender nunca mais

saí tão absolutamente tocada da última reunião com o meu grupo que até chorei. de amor por isso que escolhemos fazer, juntos. por todo esse trabalho. esse empenho. essa paixão que nos move. é lindo e difícil demais fazer teatro. ser fiel a ele. a nós mesmos. ser íntegro. fazer aquilo que de fato nos modifica. que modifica o ao redor. que chega, que toca, que esfrega, convida, que espreme, supera, que cativa, que engrandece, sublima.

sublime o teatro.

sublime a arte.

sublime trabalhar com pessoas pelas quias sou tão apaixonada, admiradora, devota.

a gente pode não estar 100% preparados no quesito atores. mas no quesito seres humanos, vamos indo muito bem.

e não é isso que importa nessa vida?

domingo, maio 09, 2010

porque o mais legal é escrever de amor. pode inventar pode iludir pode desejar. desejar escrever do amor é desejá-lo tão ardentemente que só dentro não dá conta e as palvras vêm pra caber mais, pra ir além daqui, pra pirar no amor.
4 anos de palavras. Trajetos. Planos. Frustrâncias. Successos. Ou não. Até chegar aqui. Quando decido que
a partir de agora, tudo será ficção.

Meus peitos fartos
Meu pelo ruivo
Meu uivo
meu livro que não é mais meu.

Agora é que são outras. Agora é que a palavra faz mais sentido do que nunca. Que a liberdade ganhou outra dimensão. Agora é já.

E já que estamos falando disso,

lá vai o primeiro.

Detesto quem sabe escrever. O que esses não sabem mesmo, é viver. Viver mesmo, com v, com tudo o que é grande nesta palavra.
Me brocha. Me desanima. Não vem escrever cartinha de amor e muito menos bilhete de geladeira.

quinta-feira, maio 06, 2010

curto tuas fotos
teu índice

longos teus cabelos
teu trago
tua língua

sucção lenta

você, ali na janela do outro lado da rua

te decifro
te ignoro

que poderia ter sido

poderíamos ter fugido pra todo o sempre
pra perto ou longe
com você tanto faz

eu do lado de cá
da janela
da cidade
do mundo inteiro

o lado de cá do mundo inteiro
é só o lado de cá da tua presença

terça-feira, maio 04, 2010

felino

Créc.
É.
Esse é o ano do Tigre, meu signo no Zodíaco Chinês.
E é assim que funciona: ou vai, ou racha - você escolhe. Partir ou ficar. Desapegar ou criar nhaca. Ter coragem ou ficar pra trás. Encarar ou sofrer.
É.
To gostando de ver.
O Tigre tá me dando uma puta força.
Voltei pro Kung Fu, descobri que sou uma pessoa agressiva, o oposto de doce, que é o que os outros pensam que eu sou. Tanta doçura pra disfarçar tanta raiva. O lance é canalizar a raiva pro lugar certo. Não deixar virar tristeza, frustração, sofrimento, que é o que acaba acontecendo muitas vezes. O lance é saber se defender, e nem sempre pra se defender precisa atacar. Precisão na defesa. Precisão no ataque. Ser certeiro. É essa a força exata, não mais, não menos, essa. Ié.

segunda-feira, maio 03, 2010

Cisão

Não to enxergando muito bem. Tá embaçando a minha vista. A cabeça dói na região dos olhos. Hoje na faculdade não enxerguei a lousa. Sempre me orgulhei de ser dessas pessoas que não precisam de óculos. Sempre disse assim pras pessoas: "a minha maior qualidade é a visão. Eu enxergo muito bem". Aí eu é que lia as placas de rua, à noite, perdidos pra festa. Eu que via de longe qual era o ônibus certo. Eu que lia a bula de remédios pra minha mãe. A conta do restaurante pro meu pai. Agora sinto como se eu tivesse perdendo meus super poderes. Quer dizer, o meu único super poder. Isso é realmente terrível. Agora, por exemplo, não to nem olhando a tela do computador. Só olho pras teclas. Quando olho pra tela minha cabeça lateja.
Estou me transformando em mais uma reles reles reles mortal.
Detesto ser reles.

domingo, maio 02, 2010

mañana

6 in the fucking morning.
vontade de escrever, do além.
tá foda o teclado. de enxergar as teclas.
o dia ainda não veio. o amor já foi. fico eu e essas letrinhas miúdas. migalhinhas de letras esparramadas.
se esparrama pelo chão.
é migalhinha ou migalinha?
hahaha
mi galinha.
mis galiñas.
vengam galiñas.
vengan com la madrugada ardiente.
la madrugada que se madruga en fiebre.
el suelo, la luna que se pongô.
el suelo que arrebenta la placienta de Diós.
dios el barbado señor, el pobrecito que madruga todos los dias. dios ayuda quien cedo madruga!
estou completa e alucinadamente fora de mim.
é bom registrar esses momentos de inspiração etílica, latina e madrugadora.
és eso. punto final.

sábado, maio 01, 2010

Carta de intenção

Não sei por onde, mas eu começaria mais ou menos assim:

me chamo sofia sou brasileira tenho 23. quero fazer esse curso porque quero sair deste país de merda que não dá espaço pros artistas. quero ir prum país onde os artistas são tratados com seu devido respeito, onde sua importância é reconhecida e cuidada. quero ter espaço pra criar. quero ver novos ares, cansei dos espetáculos daqui. cansei da praça roosevelt, dos sescs, dos sesis, dos antunes, zécelsos, dos musicais, dos alternativos, dos radicais e dos doidões. quero ver coisa nova. quero vocês seus alemães malucos. quero ver como vocês pensam essa coisa arte, esse negócio de teatro deve ser um troço bem diferente pra vocês. isso porque vocês já estavam escrevendo coisas geniais muito antes deste país se entender por gente. isso porque vocês possibilitaram goethes e schillers, e brechts, e heiner mullers. eu quero isso aí, tá? aprender essa cultura aí. posso? vocês aceitam uma brasileira atriz que quer escrever que quer dirigir que quer existir e viver disso pra sempre? vou praí ver como é que vocês fazem. aí quando eu cansar vou pra outro lugar. e outro. e mais outro. e vou assim: vivendo e experimentando. aprendendo umas línguas, tomando uns drinks, curtindo umas paisagens, uns passeios, uns rios e pontes antigas. nos intervalos escrevo, piro, crio. trabalho. aprendo línguas, conheço gente, gente, gente. adoro gente.

sem mais,

sofia.

sexta-feira, abril 30, 2010

Distração


assim: que me distraí
e quando fui
e quando vi
não tinha nada ali
ou aqui
assim: desandei
como faz pra desandar?
simples
só não deixa fugir a vida
eu deixei
escorreu entre os dedos e os joelhos
encolhi
fiquei
e ela foi
sem mim
volta
volta aqui
corre anda rasteja
vem cantar!
como quem resiste!
que eu to me encontrando de novo
debaixo desse pó
dessa fumaceira de cigarro
dessa bebedeira
dessa bobagem toda
vem que eu te aceito
vida
me escolhe
vida
me espera
vida
vamos viajar?
vamos mudar o rumo das coisas?
vamos falar alemão?
vamos estudar em berlim?
vamos vida?
você me aceita de volta?
eu tenho planos
não tenho?
eu tenho desejos de grandeza
de plenitude
de evolução
de trabalho
de teatro
eu tenho, tenho mesmo!
você acredita em mim, agora, depois deste desvio, você me quer de novo, vidinha?
ó vida
ó vida
come on
let´s do it
até o fim
juntas
vamos passear
(se embebedar só de vez em quando)
vamos aprender
esquecer
aprender
esquecer
cair tropeçar
dormir
morrer
rir
uivar
vamos?
estrada afora
colo
ombro
duas partes
do consolo

sábado, abril 24, 2010

As amigas têm sido minhas melhores namoradas.
É bom que são várias e tão diferentes que se eu me canso de uma tem a outra e se gosto tanto disso numa, amo muito aquilo na outra.
Se a gente pudesse ter assim, vários namorados, e que eles se complementassem! Um é incrível nisso e chato naquilo, o outro, ao contrário. E o outro, tem tudo isso, mas não tem aquilo. E aquele outro, às vezes me canso dele, mas ele também é genial em alguma coisa. Não seria mais simples?
Mas aí não pode.
Tem que escolher um e ir até o fim com ele. Tem que esgotar, cansar, saturar, brigar, amar, querer, enjoar, grudar, viver, sugar tudo de apenas um.
E depois a relação fica esturricada.
Já tentou de todos os jeitos.
Já conhece acordando, dormindo, comendo, tomando banho, de mau humor, bêbado, feliz, num ótimo dia, com trabalho, sem trabalho, na rua, no campo, na fazenda, na praia, de roupa, sem roupa, de sunga, de cueca, de regata, de manga comprida, no carro, num barco, no café e na janta.
Não resta mistério, suspense e nem segredo.
Se não fosse apenas um, e de cada um se conhecesse só até um ponto, nunca além, nunca ultrapassando o limite do saudável, seria possível?
O problema é que podem virar várias relações ultra superficiais e nunca nenhuma nos deixaria marcas profundas.
Gosto das marcas que as pessoas importantes deixam na gente. Na alma da gente. É pra sempre.
É. Melhor deixar pras amigas este incrível papel das minhas inúmeras namoradas.
to que to quase desmontando. esparramando. esvaindo indo indo.
que equilíbrio não tem graça nenhuma. estabilidade não leva ninguém a lugar nenhum. nem vontade de escrever dá. a inspiração vem da instabilidade. vem do desmorono, desconsolo. vem do barranco, não da planície. daqui de cima vejo um zilhão de caminhos, todos possíveis. agora é escolher e ir. mirar e acertar. lançar minha flecha pro mundo, botar meu bloco na rua, fazer a invasão, o ato subversivo que é viver. quero ir minha gente. simbora. ver irene rir.

quarta-feira, abril 21, 2010

"...se a solidão passa tão lentamente, será que vou morrer mais tarde que os outros homens? Eu te imploro uma resposta.
Sempre sua,
Lucila."

domingo, abril 18, 2010

"homem é um bicho... (procura a palavra na cabeça), um bicho... (procura a palavra) é... um bicho... (encontra!) O homem é um bicho."
Olha só pra ela, ela não tem mais 17, não tem mais cabelo comprido, nem aparelho nos dentes, nem usa mais a saia de bolinha preta e branca. Não é mais filha. E isso já faz tempo. Mas olha só ela. É meio uma outra ela, não é não? Não sei se cresceu se engordou se amadureceu. Mas é alguma outra coisa que se aproxima mais de uma... mulher? Será? Mulher? Às vezes parece tipo um molequinho. De cabelo curto, quando não pendura brinco nas orelhas, aí confundem na rua. É? Menino? Mulher? Quem será que ela é? Será que sabe ou só intui? Encaretou? Endureceu? Ou relaxou e isso nem importa tanto mais. E depois vem. Depois deve vir. Alguma nova ainda que ninguém sabe. Não se conhece, porque só dá o ar da graça muito de vez em quando. Até lá o cabelo já cresceu, e dizem que aos trinta as mulheres se sentem muito... mulheres. Aí sim.

Veremos.
Viveremos.

sábado, abril 17, 2010

Embasbaque


Abro a porta do elevador e me deparo com um quadro, azul da cor do amanhecer que está ali do lado de fora da janela, o quadro azul encostado na parede. Abro a porta e páro diante do quadro azul. É um presente. Deixaram aqui pra mim. Para que quando eu chegasse em casa, 6 da manhã, já sem distinguir as coisas muito bem, com o dia insistindo em amanhecer na rua, para que eu ficasse ali, embasbacada. E fiquei ali, embasbacada, e não há melhor palavra para aquela sensação.
Ele pintou o quadro, entrou sorrateiro na minha casa e deixou-o encostado ali.
Para que quando eu chegasse em casa eu me deparasse, sem nenhum atenuante, com aquela dor escancarada na minha frente. Aquela dor aguda do quadro azul, do rosto do homem desconfigurado de dor, da mulher, do vermelho.
Nos olhamos por um longo momento, eu e o quadro.
Ele me disse mais coisas do que todas as palavras gastas nos últimos meses entre eu e o seu autor. Ele me disse mais do que todas as letras do alfabeto, todas as palavras de todas as enciclopédias do mundo. Na verdade, ele não disse. Ele gritou. Ele explodiu meus tímpanos, me ensurdeceu, ele me pegou e me virou do avesso.
Embasbacada ainda, pego o quadro em minhas mãos. Ele trêmulo assim. Ele esvaindo se desfazendo. Mas duro. Mas forte. Mas bravo. Eu o acolho. O trago para dentro do meu quarto. Pode passar a noite aí, hoje, falo pro quadro azul. Você tá frágil. Fique aí enquanto precisar ficar.
E o dia já está inteiro claro. E o girassol murchou na minha janela. E as luzes do centro ainda estão acesas. E alguns carros ainda transitam pela rua.

sexta-feira, abril 16, 2010

conversa de maluca

calminho aí, sr. ego, fica aí que eu já te dei bastante atenção até hoje. agora são as minhas outras partes que vão falar. e eu vou ouvir. shhh. você não, ego. você fica aí na sua, baixa a bola, pianinho. quero ouvir a inteligência. quero ouvir a emoção. quero ouvir sei lá quem mais que existe aqui, porque você, sr ego, tomou espaço demais. espaço demais que não é só pra você não, tem que aprender a dividir com os outros. e agora eu vou te deixar no seu devido lugar. porque você não tem me ajudado a tomar as melhores atitudes. você é dos prazeres fáceis rápidos e imediatos. você é do material da preguiça da comida. você é do egoísmo. você é do elogio e da crítica. se prende nessas coisas bestas. você é do consumo do consumo do consumo. da vaidade, é você, viu? eu até reconheço que você pode ser útil em vários impulsos, em vários movimentos que tomei, que me coloquei, que fui e tal. mas é aí que você tem que ficar e deixar eu ouvir o resto, pelamordedeus.

terça-feira, abril 13, 2010

sonhei assim
morria e me transformava numa cobra
uma cobra linda
ela (eu) era sagrada
as pessoas me veneravam
eu, sendo eu uma cobra, usava uma roupinha brilhante, sagrada
eu, sendo eu uma cobra, era mantida presa por uma espécie de teia de aranha
eu ficava presa porque eu era muito perigosa

numa certa altura do sonho
eu começava a comer esta teia que me prendia
e enquanto comia a teia eu me libertava dela
e quando comecei a me libertar
as pessoas em volta fugiram, apavoradas, já que eu era cobra perigosíssima, cheia de dentes
eu comia a teia grudenta esquisita, me lembro da boca aberta da cobra eu, cheia de dentes, comendo a própria teia
acordei pensando naquele lance de que a cobra troca de pele
uma pele morre
pra uma nova nascer
que forte este sonho
minha terapeuta diria: "Sofia, este sonho é um presente!"

segunda-feira, abril 12, 2010

Transcrição de eu mesma

A gente é feito de
A gente é feito de carne e de vácuo
De uns buracos negros que às vezes a gente tapa com cigarro
Não
De buracos negros que a gente tapa
De buraco negro que
Que que a gente tapa com cigarro
ou com amor
Deixa sangrar deixa doer
é boa a sensação do buraco
também é boa a sensação do buraco
por mais que doa que arda que pinique
uma sensação de tá vivo
uma sensação de ser
um ser humano
com sensibilidade
e é isso que eu sou
um ser humano com muita sensibilidade com muito descontrole dessa sensibilidade
Ainda
em busca
não sei se sensibilidade se controla ou se ela é feita pra ser descontrolada mesmo
mas é linda ela
Buraco a gente às vezes até tapa provisoriamente quando a gente tá pleno quando a gente se sente feliz quando a gente encontra alguém (respira) legal
(sussurra) mas ele continua lá
é engano achar que (pausa)
que a gente vai se completar algum dia
a gente é feito de...
pra ser incompleto mesmo
tipo peneira
a gente é feito de carne e de vácuo
é isso
(passa um caminhão)
e
se é pra doer agora deixa doer
já doeu tão mais antes
eu sobrevivi (chora)
a duras penas (chora)
eu me fortaleci (ainda chora)
eu deixei o buraco um pouquinho menor
eu to mais forte to mais resistente (tenho certeza disso)
(respira)
eu realmente queria que tivesse sido ele
o homem
se fosse só a cabeça que escolhesse que mandasse seria ele
mas (expira)
o corpo o sexo
o resto
diz que não
diz que acabou (pausa)
e tá sendo difícil enganar esse resto (pausa)
disfarçar com pensamento elaborado
pensamento elaborado pode me convencer um pouco
mas não por muito tempo não
não mesmo
(funga com o nariz)

(se fosse possível, eu anexava a gravação)

sábado, abril 10, 2010

Garrafa de vinho na mão, pela metade, argentino, barato. Sanguinolento. E quase bato o carro. O vinho me escorre pelo canto da boca, vampiresco. Minha amiga psicóloga me aconselhando, no copiloto: patati patatá. Adoro ouvi-la falar. Fale Ciça. Me ilumine, Ciça. Não me julgue, me entenda Ciça. SOCORRO Ciça! Solto um berro agudo. Foi por bem pouco, quase tive um ataque do coração. Aquele cara do carro prateado deve me xingar tanto a essa altura. Talvez me xingue até amanhã de manhã.
Desço a Consolação, lenta, casaco preto grande, noite fria e boa, vinho argentino barato, e vou dizendo "je suis rimbaud, je suis verlaine, je suis le vin, je suis le pain, je suis la citée". Assim, num francês que eu nem soletro bem. Maquiagem borrada, saindo do teatro. Feliz. Emocionada. Poetisa. Que nem escrevo mais sobre nada. Receita de bolo. Idéias vagas, calçadas, pés. Só importa se as palavras soam bem. E mais nada. E que nestas noites de outono e vinho me sinto livre. Me sinto bem.

Cura

Ar frio, dia branco, sábado.
Eu transbordando. Espirrando. Faltando ar.

Daqui a pouco tenho que chegar no teatro. E dar conta. Meus pulmões, minhas cordas vocais, minha garganta, meu corpo inteiro vão ter que funcionar ali. Mesmo que eu aqui esteja pela metade. E foda-se espirro, catarro, garganta com bola de pus. Foda-se noite de ontem, os sonhos mal assombrados, a cólica. Foda-se. A preguiça, o desânimo, a dor nos ossos.
Aí o teatro vem e passa por cima, atropela, suga. Ainda bem. E sempre que termina a peça eu me sinto curada. Teatro cura sim. Faz bem pra cabeça. Te faz sair de dentro de dentro de dentro. E o que acaba conosco é a cabeça. Sempre ela.

segunda-feira, abril 05, 2010

Eu me interesso pelo de dentro das pessoas. Não tão dentro tipo rim, tripa, coração. Não. Essa parte eu deixo pros médicos se interessarem. Me atraio pelo entre. Entre a tripa e a casca. Sei lá o nome que dá pra essa parte do corpo humano que acho que não pode nem ser considerada corpo humano. Mas sei que é aí que mora o alguma coisa que uns têm e outros não.

domingo, abril 04, 2010

de um domingo aí

Ginástica dos dedos. Tec tec tec. Ginástica do cérebro: escrever quando não se tem nada de importante pra dizer. Ainda assim, escrever. Como fumo, por vício. Como um jeito de preencher os buracos. Como um maravilhoso passatempo num domingo esbranquiçado como este. Empoleirada na cadeira giratória. São só dois dedos que digitam todas as palavras: nunca aprendi datilografia. Nunca aprendi a criar coisas profundas com as palavras. Nunca calculei o que estou escrevendo. Nunca fiz aqueles planejamentos para se escrever uma boa redação na Fuvest. Ainda assim, quando me empoleiro, quando os dedos começam tec tec tec, não há o que os faça parar. Uma palavra, outra, e outra e mais uma. E um texto. E eu me descrevendo. E eu me narrando. E eu me escondendo mostrando escondendo mostrando. E eu me deliciando. Fluindo, fluindo. Às vezes sai um bom. Noutras, um inútil.

sexta-feira, abril 02, 2010

Ode à cidade (de São Paulo)


Apaixonada por São Paulo há uns dias (ou anos?). Intensamente apaixonada por São Paulo. É. Assim, por cada rua que passo, penso que bom que é. Por cada bar boteco sujo. Cada casa de amigo. Cada esquina. Aqui, o Centro, então, nem se fale. Aqui Augusta sempre. Aqui postes de 1800 com luz amarelada iluminando a São Luís. Tão linda minha avenida! Tão linda minha vizinhança. A Cecília Santa com suas putas e travestis e michês. É tão cênico! Higienópolis deslumbrante com seus prédios de janelas imensas que cada um que eu olho penso que bom seria se um dia pudesse morar aí. A Paulista foda. Não tem palavras que descrevam andar de bicicleta pelas calçadas recém reformadas da Paulista. Ouvindo música então nem se fale. A Consolação, como eu amo a consolação. Vivo buscando-a. A Vila Madalena, pra onde me desloco quase todos os dias. Bar do Biro na Rua Simpatia. Mercearia fantástica. Dr. Arnaldo minha passagem obrigatória, como a odeio durante a semana. Mas a amo profundamente num domingo! Aquela vista que dá pra Avenida Sumaré, aquilo é lindo demais. Pegar metrô quando não tá superlotado também é ótimo. E a feira aqui da Praça Roosevelt é incrível. Várias velhinhas da vizinhança! Amo viver aqui. Trabalhar aqui. Me divertir aqui. Amo aqui. Olhar pela janela e ver movimento até de madrugada. Descer no elevador e sair nesta paisagem de Praça Dom José Gaspar, boteco do pagode, biblioteca Mario de Andrade em reforma há dois anos. E quando os metrôs ficarem prontos, aí vai ser ótimo. Amo aqui. Amo escrever sobre aqui. Acordar e dormir aqui. Ter uma história pra lembrar em cada bairro que passo. Cada rua me lembrar uma situação, um amor, um amigo, um caso. Os teatros. Os cinemas. Os restaurantes. Os SESCs. A Oscar Freire. A Benedito Calixto. A feirinha do Bixiga. O MAM. O Ibirapuera. Pinheiros, quanta lembrança. A Vila Madalena. O Butantã. O Sumaré, a casa do Tom! Alto de Pinheiros, minha infância, minha adolescência. Praça do Por do Sol. Quantas vezes Praça do Por do Sol. Casa do Lô. Casa da Bel. Casa do Guto. Casa da Ana. Quantas vezes casa da Ana. Amo as casas. Amo as pessoas. Amo aqui. Amo os shows no Studio SP ou SESC Pompéia. E quando fica de noite a cidade fica tão mais linda. Desde pequena lembro de falar pro meu pai que amava as luzes da cidade quando anoitecia. Lembro de andar de carro com meu pai, na Marginal, sei lá porque na Marginal, e me sentir grande. Me sentir bem quando é de noite já acontecia comigo desde pequena. Tantas casas tantos apartamentos que eu já entrei, saí, deixei marcas ou não, me senti bem, me senti péssima, me diverti, enlouqueci ou dormi. Quantos elevadores escadas rolantes shopping centers motéis botecos já falei dos botecos, mas sempre os botecos, cada fase um. Já foi o Paróquia. Já foi o Platibanda. Já foi o Bar do Zé. Já foi o Bar do Equipe! kBoom. Barusp. Parlapatões. Satyros. Carniceria. Quanta cidade nesta cidade. Quanta Sofia nesta cidade. Quantas horas no trânsito indo pra Sto. ANdré todosantodia durante três anos e meio da minha vidinha. Quanta Avenida do Estado. Quanta Avenida do Estado. Sta. Terezinha. Praça Rui Barbosa. Escola Livre meu segundo lar. Meu primeiro lar fora de São Paulo. Semáforo. Poste. Cuspe. Meio fio. Amo as palavras que se relacionam com a cidade. Amo os fios o encanamento a geladeira os alto falantes os carrinhos de gás cantarolantes. Amo as árvores que ainda restam na Avenida Higienópolis. Amo a minha janela a minha vista a minha avenida encantadora. Quanta cidade. Quanta vida nesta cidade. Quanta tristeza e choro pelas ruas de óculos escuros. Quanto desamparo. Quantos ensaios. Quantos testes. Quantas camas. Quantos chuveiros. Quanta gente! Quanta gente que vejo diferente e não vejo nunca mais na vida. Cada dia vejo muitas pessoas novas nas ruas e penso que nunca mais vou vê-las de novo. Quanta quanta gente! Aí eu. Só mais um serzinho ínfimo passeando por estas calçadas vida afora de Ipod no ouvido. Às vezes canto junto muito alto. Às vezes me controlo. Às vezes quero morrer. Às vezes parece que não tem espaço pra mim. Noutras, que eu sou dona disso tudo. Oscilo e cambaleio cidade de São Paulo adentro. De noite de dia. Eu aqui. Aqui é meu lar e não quero outro por enquanto. Não quero outra vida. Amo aqui. Amo aqui. Amo aqui. Pronto, falei.

Apaixonite Aguda




"Quando estou longe
Quero ficar perto
Quando estou perto
Quero ficar dentro
Quando estou dentro
Quero ficar mudo
Quando estou mudo
Quero dizer tudo"



Itamar Assumpção

Simples assim.

quinta-feira, abril 01, 2010

Nítido que a Humanidade não tem saída. Não é pessimismo. É só uma constatação e aceitação de que a natureza humana não é doce, não é harmoniosa, e nem sempre é feliz.
Essa coisa de ficar acreditando que temos que caminhar para uma elevação é linda, mas é improvável. Dentro do Homem cabem tantas coisas malucas. E é tão difícil juntar todos os Homens num lugar só chamado sociedade. Óbvio que vai sair treta. Óbvio que vai sair festa. Óbvio que vai dar em sexo e com ele um mundo hiperpopuloso. Óbvio que vai ter inveja, medo, solidão. É natural, entende? O nosso lado meio bicho e o outro lado meio ser civilizado ficam brigando um com o outro o tempo todo. Dentro de mim eles fazem uma festa! Deitam e rolam. Civilizadinha X Selvagenzinha. Quem ganha quem perde, aí depende do dia, dos hormônios, da estação do ano. É preciso aceitar que somos luz e trevas, dor e delícia, horror e maravilha, sempre. E isso não é monstruoso. É humano.

sexta-feira, março 26, 2010

Que me faz sentir viva (escrito em 21 de julho de 2009)

Quando olho fotos da minha infância.


Quando sentei sobre pedras mornas na beira do mar num dia de verão para assistir, silenciosa, ao pôr do sol.


Quando escuto uma música bonita no carro, dirigindo pela cidade vazia da madrugada, em alta velocidade (ou que, para mim, seria alta!), sentindo vento bater na cara e cantando junto com o rádio, na maior altura e intensidade que minhas cordas vocais conseguem suportar. Se for noite quente, melhor ainda.


Quando o sexo é tão bom que quando acaba parece que você está numa outra dimensão espaço-temporal. Parece que se passaram séculos - ou segundos - desde que você está ali. Ou quando tudo fica suspenso e parece que só existe você e o outro em todo o Universo. Que as luzes saindo dos prédios ao redor são meros efeitos cenográficos e toda aquela cidade só existe em função dos amantes atemporais.


Nos meus aniversários de quinze dezesseis e dezessete anos. As festas que dava na minha casa da Sílvia Celeste e eu entrava em êxtase de tanta felicidade. Me sentia importante por ser a aniversariante, era como se fosse uma peça de teatro e eu era a atriz e eles estavam indo me ver. Todos os meus amigos e namorado e amante e pai e mãe e irmãos.


Quando esperneei de dor no carro dele porque ele estava terminando o nosso namoro de quase cinco anos e a minha cara ficou deformada de tanto choro. E eu limpava o nariz num agasalho. Quando pedi para pararmos num boteco e tomei uma Coca Cola naquele pós-choro quase pós-orgasmático me senti viva. A Coca descendo na garganta, o gás e o gelo da Coca, era como se fosse sangue novo atingindo as minhas veias, e fumar um cigarro com os olhos esbugalhados diante daquele que me dilacerava as tripas o rim, enquanto todos os Outros me olhavam como se para uma aberração. Aberração é amar desta maneira!


Andando nas ruas quentes de Nova Iorque de noite, descendo do metrô e andando pelo Brooklyn, de volta para casa.


Em parques de diversão, naquele INSTANTE em que o moço abaixa violentamente sobre o seu abdômen a barra de segurança da montanha russa e você sabe que não tem mais volta.


O primeiro beijo que ele me deu (roubou de mim!) no portãozinho enferrujado e barulhento da casa da italiana ruiva maravilhosa, e os dois estavam com tanta vontade reprimida de tanto TEMPO sem poder realizar o que a gente mais queria. E a lua absurda sobre nós.


Tocar violão com o meu irmão. Principalmente o hit: "... tudo certo como dois e dois são cinco"!


Os segundos antes de entrar em cena. Entrar em cena. O pós-espetáculo que também se aproxima da sensação pós-orgasmo. E fumar um cigarro...


Gritar bêbada nas ruas geladas de Buenos Aires.


Quando comi brigadeiro de maconha em Ubatuba e achei que fosse uma sereia que não sabia nadar.


Quando saía da minha seção de terapia.


Quando escrevo. Quando canto. Quando estou profundamente apaixonada pela vida.

Sexta-feira, março 26

Sobre cactus.
Debaixo de rochas metamórficas.
Em alto mar.
All by my own.
A que fui. A que estou. A que vou vir a ser.
Dentro do corpo e fora as espinhas erupções de pele me dizendo alguma coisa toda vez que olho no espelho.
Não é por aí. Não é por aí, gritam, silenciosas.
Então por onde?
Falta o quê pra desabrochar?
Tem a faca o queijo. Falta o quê?
Falta a fome. Falta o desejo que me movia com tanta intensidade quando eu tinha 16. E 19.
Que eu não me criticava eu ia. Eu me mostrava pro mundo. Eu não tinha medo do mundo. Eu tinha vontade do mundo. Eu tinha fome do mundo. Credo, pareço uma velha e só tenho 23. Credo. Pareço uma chata. E eu era tão espontânea. Era fácil falar. Era simples viver. Viajar. Me embebedar. Era fácil namorar. Era bom.
E agora. É. um pouco. mais. árduo. Criei barreiras. Inventei. Acreditei nelas. E agora. elas. existem. Não sou mais espontânea. Sou calculada. Sou milimétrica. Não me embebedo até passar mal. Aprendi o limite. O chato do limite. Não falo merda. Tenho necessidade escrota absoluta de ser aceita. Não amo. Não. amo. mais.

segunda-feira, março 22, 2010

Olha que maluco:
sentei pra escrever, acometida subitamente por uma pressa de escrever sobre um assunto. Tipo uma necessidade, como dizem por aí. Sentei e pensei. Pra escrever sobre isso preciso antes acender um cigarro. Andei pela casa procurando cigarro e não encontrei em lugar nenhum. Acontece que neste simples trajeto que foi o de me levantar e sair em busca de cigarro, acabei me esquecendo do que eu estava indo fazer e quando percebi estava andando em círculos. Entrando e saindo do banheiro. Do quarto, acendendo e apagando a luz. Abri a geladeira e olhei as comidas estáticas, na cozinha. Abri a janela da sala. E o assunto que me moveu até aqui, aquele sobre o qual eu tinha a necessidade de escrever, me acompanhou durante todo o trajeto maluco dentro da minha própria casa. Fervilhou, eu diria melhor. As palavras na minha cabeça já começavam a estabelecer conexões entre si. Como começar este texto? As frases do meio já vinham se configurando. E enquanto tudo isso acontecia dentro do meu cérebro, meu corpo esquecido, fazia ações burras e cotidians condicionadas. Ações que eu nem comando mais. Meu cérebro se esqueceu do meu corpo e o abandonou e ele ficou ao Deus dará andando em círculos, abrindo armários e olhando para comidas enquanto frases profundas se enfileiravam na minha cabeça. Aí lembrei do cigarro. Aí cérebro e corpo se encontraram de novo. Tchum. Encaixou. E quando comecei esta retrospectiva com tudo o que aconteceu desde o momento em que decidi falar sobre aquele assunto, percebi que não era para falar sobre aquele tal assunto. Achei melhor escrever sobre nada. E vou-me embora que estou atrasada.

sexta-feira, março 19, 2010

Queria que você escrevesse em mim, dentro de mim, em cima de mim, ao lado de mim, que escrevesse mim em você, que escrevesse mim em mim. Que você escrevesse de você em mim, que escrevesse vocês e mins e mins e vocês e nós em nós. Que escrevesse por nós, sobre nós, dentro de nós. Sobre nós, sobretudo. Que escrevesse nós em mim. Que escrevesse. Mim queria que nós escrevêssemos em você, em mim. Você queria? Você quer? Você mim querer? Querer eu quero. Escrever. Nos escrever em nossos mins e nossos escreveres em nós.
Queria que você escrevesse pra mim. Sobre mim. Por mim.
Egocêntrica, eu?

Hoje.

Calor e Cazuza nos ouvidos.
Pernilongo devorando meus pés. E panturrilha. Ai.
Aqui chama Pousada da Terra e é agora meu segundo lar.
Aqui é longe daí. Fica bem em cima no mapa do Brasil. Brasilzão sem portêra. Brasilzão que é um em cada canto.
Quem tá aqui não sai por nada. Fala que São Paulo não faz o menor sentido, São Paulo nem interessa pra eles daqui. E a gente daí fica achando que é o centro do mundo, que no fundo todos estão muito tristes por não terem nascido aí e que tudo o que eles mais queriam era morar nesta cidade megalomaníaca.
Querem nada. Eles ficam é tirando sarro da minha cara. Que São Paulo inunda. Que em São paulo é todo mundo "frescurento". Que em São Paulo você tem que sair da sua casa no mínimo uma hora antes do seu compromisso. E aqui, quando é muito longe, eles saem 15 minutos antes. E aqui tem praia e caranguejo a três reais o quilo e camarão e sol e calor e calor e, affff, calor. O apelido daqui é Terra do Sol. Quando o avião chega no aeroporto a aeromoça diz: "Temperatura em Natal é de 30 graus". E eu penso: "Ah, que novidade!". Aqui a temperatura é sempre de trinta graus.
E eu ando de taxi e como camarão e tomo cerveja e nado na piscina "temperatura ambiente" do hotel e me divirto com meu amigo mineiro e minha amiga natalense e gravo umas cenas nada a ver pro Governo e as pessoas me reconhecem na rua e falam que admiram muito meu trabalho! Rá!! Que trabalho?
Hoje eu estou de folga em Natal. E eu fiz só as mesmas coisas que faria se estivesse em São Paulo. Almocei. Fui no shopping. Fiquei horas e horas na internet. Ai essa paulistanice que não nos abandona...

quarta-feira, março 17, 2010

Ofélia afogada entre pilhas de roupa suja emboladas pelo chão do quarto.

Agarrada ao criado mudo transbordando papéis inúteis que não consegue se desvencilhar.

Sufocada pelo telefone celular que toca grita vibra e nunca é quem ela queria que fosse.

Ofélia intoxicada pelo trânsito calor infernal de fumaça nojenta entrando nos poros aos poucos.

Ofélia no meio fio. Ofélia sem linha. Ofélia fumando marlborão.

No funk. No pagode. Ofélia desafogando.

Ofélia trepando, Ofélia se enganando.

Ela quer sentir saudades e chorar de noite depois de apagar o abajur.

Ela quer criar coragem e jogar fora tudo o que não precisa mais.

Ofélia precisa de tempo pra cuidar das plantas no terraço, dos amigos e do mural de fotos que está se desfazendo na parede. Ofélia precisa cuidar do namorado. Do que restou. Pouco.

Ofélia por pouco, aos poucos, para poucos.

quarta-feira, março 10, 2010

Sereinha da Sé

Não que seja menina de rua, mas vive dentro de uma fonte que deixou de ter água há uns bons anos, na Praça da Sé. Dessas meninas - menino que vemos por aí. Mora mesmo ali dentro, por isso é conhecida nas redondezas como a Sereinha da Sé. Quando chove é a desforra. E quando chove muito, a fonte até enche um bocadinho e ela se esbalda brincando de ser a sereia que gosta de imaginar. Sereinha do cabelo curto, que canta nas calçadas durante o dia pra ganhar a vida com uma vozinha chocha - e o povo até que se compadece e lhe descola algumas moedas pequenas. Mas quando chove, aí ela se inspira e bem que solta um vozeirão de menina adulta, de menina mulher que encanta os que tem a sorte de flagrar a cena. Flagrar, porque não é para os outros que ela canta assim, é pra ela mesma, quando se sente feliz e imagina longas madeixas ao invés do cabelinho curto desgrenhado e uma calda linda e verde esmeralda no lugar das pernas. Claro que o seu sonho é conhecer o mar. Como foi parar lá dentro da fonte da Sé, é estória que os outros gostam de imaginar. Cada um tem sua opinião, chute, e outros dizem que sabem mesmo: que ela foi largada ali de bem pequeninha e que não conhece outra vida, outro lugar. Nunca saiu do centro da cidade, de onde conhece cada canto, cada esquina, cada boteco, cada pedinte, cada puta, cada cão sem dono, cada menino de cola, cada poste, cada cuspe, cada avenida, cada ponto de ônibus, cada casa de suco. Mas nunca viu coisa nenhuma diferente de canto, esquina, boteco, pedinte, puta, cão, moleque, poste, cuspe, avenida, ponto e suco. Nunca viu o mar, por exemplo. Nunca viu areia da praia sem ser em capa de revista, nunca viu duna, nunca viu céu despoluído, mata virgem, estrelas no céu nunca nunca viu. Nem imaginar, imaginou. Imaginar como, se não sabe que existe? Aí seria invenção, não imaginação, então ela prefere nem tentar. E se contenta com seu tanque seco, com sua voz murcha, com o fato de ninguém saber seu verdadeiro nome. Se contenta com noite sem lua e com as luzes que nunca a hipnotizaram.
E naquele dia foi ela quem hipnotizou um bigodudo chamado Zeus que surgiu de combi do meio do temporal para levá-la dali pra bem longe. “Quer conhecer o mar, Sereinha?”, perguntou o desconhecido. “Que que você acha, tio?”. E assim, enquanto cantava ia subindo a bordo da combi 1985 do tiozinho do bigode simpático. “Pode fumar aqui, tio?”. “Você pode tudo, Sereinha. Não tá vendo que eu sou a sua salvação. Agora vamos buscar os outros.” Ela nem perguntou nada. Não tinha nada a perder, afinal de contas. Não sentia apego nenhum pela fonte da Sé – é, ela não teria do que sentir saudades. Queria mais era ir ver o mar, e iria mesmo achando que aquele tiozinho vestido de salva-vidas podia muito bem tá enganando ela. Ele parecia inofensivo. Ela tava acostumada com coisa pior. Queria mesmo era andar de combi pela primeira vez. “Tchau Sereinha da Sé” – gritava com a cabeça pra fora da janela, e depois ela abria a boca e deixava a água da chuva entrar. “Agora eu vou ser a grande sereia do mar!”.

segunda-feira, março 08, 2010

Blog autodestrutivo. Que se exploda - é o que eu desejo. Que se autodestrua em cinco minutos. Que tudo seja automaticamente deletado. Tudo. Todas as letras que formaram a minha vida até aqui. Tchau. Bum.
Vontade de. De enforcá-lo. De esquartejá-lo. De socá-lo. De cuspi-lo. De empurrá-lo ladeira abaixo. De afogá-lo. De agarrá-lo. De amá-lo. De roçá-lo. De suá-lo. De mordê-lo com toda a força da minha mandíbula. Mas eu o odeio. O odeio com toda a força do meu desejo. Do fundo das minhas entranhas eu o odeio. De dentro das minhas coxas. E veias bombeadoras de sangue para a minha língua nervosa por te engolir, meu cérebro em tilte e ansiedade sem dormir. Te odeio no final do dia e no início da madrugada. Na segunda e no domingo. Te odeio no meu pensamento, no meu texto, no meu ser ou não ser. E como se não bastasse, te odeio.

sexta-feira, março 05, 2010


não é
algum
lugar
Alô Alô som
Tessssstando
Som
Som
Alô Alô
Não?
Alô?
Eu aqui, cá
Meu receptor aí, lá
Meu surdo receptor amado
Tudo que eu preciso é de alguém que não ouça o que eu falo.
Despertar. Dez horas de trabalho intenso da parte do cérebro que sonha. Ou da parte do espírito que sonha (vai saber quem é que sonha).
Acordei cansada de sonhar.

Aí era eu na Paulista tomando banho numa vitrine. Meu amigo passava caminhando, velho e grisalho, qual um Chaplin dos dias atuais, vestido de sobretudo e peles de raposa. Aí eu correndo e encontrando uma professora da USP que estava liderando um ritual de Ahayhuasca, na Paulista. Meus colegas da faculdade em transe, eu ao lado deles, conversando sobre banalidades. Eu de fora.
Aí era sempre assim: eu assistindo e o mundo acontecendo ao meu redor.
Mas quando era eu ali nua na vitrine deixava, tranquila, os outros assitirem.

O mundo me invadindo e eu me mostrando cada vez mais pra ele.

Que venha!

quarta-feira, março 03, 2010

Que agora é assim. Pra valer. Um eu um você. Um aqui outro além. Um acordar só. Um caminhar sem. Uma outra vida que calhou de ser assim. Uma dor que parece que uma mão pegou meu coração e não para de espremer. Uma vontade interrompida. Amor então também acaba? Não que eu saiba. Acaba que são outras coisas que acontecem no meio do caminho. E a gente não planejou assim. E os filhos? E a nossa arte? A nossa parceria acima de tudo? Tudo isso caiu em cima da minha cabeça e eu não to vendo nada muito bem. Tudo tem você. Olho ao redor e absolutmante em tudo você está. Na minha cama. Nas minhas roupas. Meu cheiro. Meu espelho. Meu armário tem suas coisas. Suas fotos na minha câmera. Seus livros na minha estante. Você na minha unha, meu cabelo, meu tornozelo. Você na minha voz na minha pele. No ar, na porra da atmosfera, na fiação elétrica de São Paulo, nas ruas calçadas e avenidas, nos cães, na minha mãe, na minha peça de teatro. Agora é viver com o vazio absoluto pesando sobre minha cabeça.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Mossoro sem acentos

Acordei em Mossorõ de sonhos suicidas. Antes de acordar realizava que era ainda jovem e saudavel demais para morrer. Acordei de madrugada pra trabalhar.Aqui maior calor do mundo. Hoje vi estrada e mais estrada. Dia na estrada. Estrada não ê sô sinônimo de coisas legais e agradaveis. E tambem cansaco, trabalho, sem lar, sem chegar em casa depois de um dia exaustivo e quente. Aqui calor mais do que em qualquer outra parte do globo, e a sensacao que me da. Aqui ta cedo mas parece que nao durmo ha dias. Tomei cerveja na piscina e joguei truco com as pessoas da equipe. Fumei maconha. Vi tv. Tem tambem a hora do lazer, tem que ter!

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Não me chame de lar
Não me dê segurança
Não me segure

Me espanque com seus beijos infernais
Implore por meu corpo que é bom demais para o seu

Me canse
Me exaura
Me sue
Me leve pra passear no seu corpo incansável
Insensível

Me dê leite pra dormir
Café quentinho ao despertar
Me cuide
Me cheire
Me lave

Durma enroladinho comigo e nem ouse tentar trepar
Me chame de sua mulher
Seu amor
Seu lar

Coisas do céu

Avião me dá uma insônia da putaquepariu. Além de me despertar um medo incontrolável na primeira hora e meia, é o lugar do anti-sono por natureza. Poltronas duras com mínimo grau de inclinação, comidinha impiedosa, vizinhos mau humoradésimos com os quais você tem de ficar o tempo todo estabelecendo contato físico, já que as poltronas são coladas umas nas outras. Tá, eu sei que eu também sou uma vizinha mau humorada e neste momento sou uma das únicas com a luzinha insuportavelmente acesa, enquanto todos dormem. Admito que morro e babo de inveja destes que dormem como se estivessem nos poltronões de suas salas diante da TV ligada inutilmente. Daqui de dentro desta máquina - que até hoje não compreendo como pôde ter sido inventada pelos reles humanos - voadora, assustadora e insone, tenho a bela visão da Lua como se a Lua estivesse ao alcance dos meus braços esticados. É incrível. Parece que eu e ela estamos na mesma altitude no céu, uma ao lado da outra. Poderíamos dar as mãos e vagar por esse espaço sideral afora. Será que também a minha companheira solitária Lua sofre de insônia a esta altura? Será que lá também é frio e turbulento como nesta máquina voadora em que me encontro? Será que lá os ouvidos se tapam, o coração acelera e a adrenalina não nos deixa dormir?
Sinceramente, acredito que na Lua aqui do lado, as coisas são, no mínimo, mais tranquilas. Sei não. Mas olho para ela e me vem uma sensação de silêncio, sabe? Sabe, silêncio, essa coisa INEXISTENTE dentro de um avião?
Me parece também que lás as coisas são mais leves, os vizinhos não enchem o saco, tem sempre uma craterinha por perto pra buscar abrigo e pode até ser que você acabe caindo no sono sem nem perceber...

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

To drunk to fuck.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Mais uma vez na estrada. Mais uma vez sozinha. Quarto de hotel, frigobar, televisão, sol lá fora e aqui solidão.

Parece que perdi o fio da meada.

O que estou fazendo aqui, afinal de contas? Por quê raios me contrataram pra esses filmes do Governo do Rio Grande do Norte? Isso não tem na da a ver c om igo.

Aqui calor. Aqui chove e a chuva dura dois minutos e meio e nem refrescar refresca. Aqui saudades. Aqui longe. Aqui ilhada.

Assisti um filme idiota com o George Clooney e me identifiquei idotamente. Saí do cinema do Praia Shopping arrasada. E me pergunto incessantemente: o que diabos estou fazendo aqui? Será uma peça que o Destino está me pregando? Um exílio remunerado? Um tempo que me obriga a pensar e pensar e pensar até perceber que está tudo errado?

Começar de novo; eu só queria ser atriz e não a porra da garota propaganda do Governo do Rio Grande do Norte(que ninguém daqui me leia!).

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Chove na Augusta, hoje sim.
E no ninho quente os gatos roçam e brincam de amor.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Momento maluco de se viver. Não compreendo ainda, alucinada e perdida, cheia saturada de informação. Meu corpo, o que tenho feito do meu corpo? Intoxicado. No meio do tornado não dá pra ter visão de fora de porra nenhuma. Me vejo cambaleando, indo, indo, indo. Deixando levar, me levarem, me perderem. Tomar as rédeas e amarrar o burro sempre foram os meus desafios, já dizia Estelamare. Mas é disso que estou precisando? Frear ou acelerar? Ir ou ficar? Ser ou não ser? O que ser? Quem, dentre as tantas que posso escolher? Qual dessas aí misturadas de pernas pro ar, quem dessas melhor representa o meu papel? Qual é o papel que me cabe aqui e agora? Porque já não me iludo: eu mesma sou muitas, mesmo. Não há sol a sós. S.O.S. Mando mensagens que confundem o Destino. Me perco no caminho encontrando outros pedaços de mim que eu ainda não conhecia. Quem sabe um dia não completo este quebra-cabeças? Sou um monstro de mil cabeças. Sou Medusa dos cabelos de serpente. So fi a. O nome faz eco na cabeça, ressoa no pulmão, tropeça, cai, levanta, sai. Preciso ficar só. Preciso de mim agora mais do que nunca.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Da janela luz neon roxa escura.
É agora e já.
Que sexo tem?
Que sexo tem?
Bichos loucos suicidas escritores jovens amantes mentirosos em alerta, com drogas, amor e sexo. Lençol de suor. Coroa de tesão. Paira.
Gotículas de testosterona no ar.
A noite é foda. A noite é foda. A noite pé afora ante pé, antes não fosse de noite. Mas agora já é, tamo aqui e pá, já é. Sempre é agora a partir de agora. O tempo não existe, a partir de agora. É só pensar que de noite é pra sempre de noite. O sol resolveu não voltar, entregues tipo bicho sorrateiro -os bichos da noite são cruéis e deliciosos e cruéis- estamos entrgues aos livre arbítrios da cidade anoitecida para sempre. Já é. Não tem volta. Meteu o pé, abraça o diabo. E goza.
Hoje eu sou a amante que você nunca teve.







Ou terá.

sábado, janeiro 30, 2010

bailado

Cabeça lateja pensamento bebida suor confetes embolados no chão
Me segura parede
Que hoje eu to que to
Hoje eu danço
Me esfalfelo
Rebolo requebro
Hoje eu vou que vou
Sem medo
Sem dó
Meu sangue ferve
Me segura parede
Mão boca líquida suor vodca red bull
Nó de perna
Nó de corpo
De ritmo suor ritmo suor ritmo suor
Cabelo dente carne mão
Mão Mão Mão

Mas as luzes se acendem
E a faxineira começa a varrer o salão

terça-feira, janeiro 26, 2010

Vivo no mundo

O mundo que começa no meu travesseiro e termina... e termina... ali na esquina

Ou ali na Augusta, Nestor Pestana, Martins Fontes... Major Sertório. General Jardim. Rego Freitas.

E ainda Consolação. Praça Roosevelt. Ipiranga. Copan.

Meu mundo está no centro. Do mundo.

E eu... eu... eu...

No centro de mim estou eu que estou no centro do centro do mundo. Eu que sou mais uma na multidão do centro do mundo. Todo mundo está no centro de seu mundo. Quantos mundos me rodeiam e eu sequer sei de suas existências.

Meu umbigo cruza muitos umbigos diariamente.
Umbigos centrados em seus mundos. Umbigos que vieram de mães que vieram de avós e tataravós. Umbigos de gerações convivem ao lado do meu umbiguinho jovem.

Quantos seres. E eu conheço tão poucos. E eu que mal sei
de mim.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

mais um

Eu mergulhava na piscina e afundava até onde meu pé enconstava no chão. Pegava impulso no chão e começava a voltar para a superfície. Mas a superfície não chegava nunca. E meu ar acabando. E não chega nunca. E meu ar já no fim. E não chega e não chega e não chega. Não há mais ar. Alguém me puxa. Respiro. Renasço. Acordo.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Ilha do Cardoso
31 de dezembro de 2009

The last one. Árduo, esse.
E agora, daqui destas tábuas sobre o mangue
suspensa
solta
Me desfaço
Desfecho deste que termina hoje
Aqui
Peço, imploro
Que se entregue, Sofia
Que tire os pés do chão um pouquinho ao menos
Que aquiete essa cabeça pesada
que pensa pensa e pensa

Aqui jogo os meus miolos
que boiem e naveguem
mangue adentro
Me deixem livre para em 2010
apenas ser.
Ilha do Cardoso, P.N.
não sei o dia

O que vai
embolado
fugido
escurraçado
Entrega nas mãos dos que construíram o mundo, os apetrechos da demolição

Aos que ficam
o resto
o troço
o canto inacabado
A lembrança de fogão enferrujado
panela sem tampa
tudo destrambelhado

E agora
é ficar
é erguer
refazer um pedacinho ao menos
igual não vai ser
não vai não
nunca mais.

IV

20 de dezembro de 2009
No ar: entre R.N. e S.P.

Não consigo dormir, PORRA
Avião é incômodo demais e a moça não me deu um travesseirinho quando eu pedi e aí acabaram todos os travesseirinhos. Minha cabeça mais rápida que esse avião. Queria que tivesse um botãozinho que desligasse pensamento e outro que regulasse ansiedade.

Do caderno III

Natal, R.N.
17 de dezembro de 2009

De volta à Natal.
Terça fomos viajar para Jardim do Seridó, sertão, interior do R.N.
Estrada de paisagem que eu nunca tinha visto igual. O sertão é seco, marrom, mas também é cheio de verde, árvores grandes e verdes misturadas com a Caatinga esturricada e marrom. E no meio do nada surgem açudes lindos, quase como miragens no meio de tanta secura. Água no sertão! Jamais imaginei uma coisa dessas... Segundo o motorista da van, seu Didi, a terra do sertão é fértil demais, cai uma gotinha de água e já vem logo um verdinho nascendo. Lindo, isso. E montanhas lindas, pedras cheias de formas, tudo me fascinando, me hipnotizando na viagem de van rumo ao mais absoluto desconhecido, rumo ao interior, ao tão ser da Terra.
Passamos dentro de muitas cidadezinhas, lindas, de casas pequenas e bonitas, as famílias sentadas na calçada tentando fugir do calor absurdo que assola o sertão, conversando, num tempo outro, vivendo simplesmente.

Em Jardim do Seridó, jantamos galinha caipira, carne de sol, arroz de leite, preá (!), paçoca, bife de fígado, farofa, UFA! Uma verdadeira orgia gastronômica no Restaurante do Seu José Diniz. Maravilhoso. Não preciso nem dizer que TODOS os seres que aparecem nestes caminhos são incríveis. Corações e almas e simpatias ambulantes!

No dia seguinte gravamos e viajamos para mais longe: Pau dos Ferros, que só pelo nome, já se percebe que nesta cidade não existe nada, a não ser CALOR. PAU DOS FERROS. Muito calor, lugar estranho, cidade feia. É uma das maiores cidades do sertão e parece uma imensa periferia de São Paulo.

Do Caderno II

Praia da Pipa
14 de dezembro de 2009

Paradise is near
Paradise is here!

Praia do Amor

Depois dos pedregulhos, o Amor.
Dionisíaca. Perfeita. De pedras e vento e mar verde esmeralda.

Estou como o Diabo gosta! Em chamas!

Do caderno

Natal, R.N.
11 de dezembro de 2009


Cigarro, ar condicionado, frigobar, cama de casal, TV acoplada na parede, latinha de cerveja SKOL. Embarquei nesta viagem sozinha, all by myself, on my own, suela, solita, só. Me chamaram para este trabalho de publicidade do Governo do Rio Grande do Norte e eu vim. Eu e só. Eu e meus pensamentos e meu corpo e minhas questões e meus cigarros. Sempre detestei a combinação cigarro - ar condicionado, mas aqui em Natal não tem muito jeito, já que lá fora, mesmo nublado, faz um calor de derreter miolos.

Estar sozinha é uma arte. Noutras vezes, um tédio sem fim. Preciso ousar um pouco e começar a conhecer lugares que vão um pouco além dos dez metros que rodeiam a minha pousada.

Hoje vou sair pra passear no bairro da Ribeira.

Estou feliz e triste. Gosto e não gosto daqui. O trabalho é fácil: decoro textos rápidos e técnicos e vou para as obras gravar. A equipe é simpática e desorganizada. Fico me questionando o tempo todo sobre o que estou fazendo e penso que talvez fosse mais fácil e mais saudável encarar como trabalho mesmo e fazer a minha parte. Mas pensar com cabeça de artista é não se conformar mesmo e agora não tem mais volta: ou serei artista ou serei infeliz.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Ilha do Cardoso

Back to Babylon.

Sem tempo de sentir falta da ultracidade atômica prestes a nos explodir.

Preferi o silêncio sobre as tábuas de um pier precário em cima do mangue.

Preferi o gole da Cataia artesanal de um certo Seu Malaquias.

Preferi o som do vento na praia que por um triz não nos leva embora de uma vez por todas.

Flutuei sobre ondas. Deslizei no chão do bar do Seu Malaquias ao som do forró que só lá consegue ser tão bom.

Amei as ondas, os siris, a chuva no zero da contagem regressiva para o início do novo ano. E correr pelo mar quente com a chuva fria e o vento absoluto. E abraçar meus amores, meus pedaços de mim que me acompanharam nesta jornada.

Amei a cama ruim e o calor onde quem manda são os mosquitos. Prefiro.

Agora eu aqui. Nua diante de uma máquina. Cigarro na boca. Cerveja quente na mão. E lá fora a chuva que castiga essa São Paulo sem solução.