Quarta-feira, Fevereiro 15, 2012

de noite calo deito e esqueço
de noite envelheço nos sonhos
me arrancam os dentes os sonhos
me falam de amor e morte
me mordem os cachorros da rua, me matam os pais, me dão sexo do bom
acordo outra - a mesma outra - estranha.
e tudo dói de forma
que me esqueço de dia
do que a noite me trouxe.


da velha que fui
da menina que sou
dos dias que passam umatrásdooutro.
do medo que o medo dá

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um dia vou pular o muro da cidade e vou cair num jardim imenso.
e pra lá vou levar todos os meus amigos, meus amores do presente e os do passado, meus pais, meus irmãos, meus sonhos de dente e morte, minha vontade de vida, meus não seis, minhas falhas, minhas criancices, vou levar o circo e o sol, o galo e a lia, a música boa, a permissão, vamos ser juntos?
eu os convidarei para o meu grande projeto.

topam?
peço silêncio ao sol
às folhas das árvores
aos cães
aos carros de som e de pamonha

silencie vento
cabelereiros
calçadas

vassouras
senhoras
silêncio feira, máquinas e postes

silêncio luz, silêncio caetano veloso

silêncio, tempo. quieto. imóvel, tempo.

me deixe, tempo.
me largue, liberte.

silêncio, crianças, a vida passa.

silêncio, cabeça ruidosa, a vida acaba.

silêncio dia, que eu quero passar.

silêncio, vila romana, deixe-me entardecer em paz.

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2012

cesta

dia de trânsito e suor
e depois chuva
trânsito suor
e depois chuva

chu
chu
chu
vaaaaaa

depois noite e mais trânsito e ainda mais
chu
va
.
.
.
de manhã
o ensaio para imprensa
prensou-me
.
sexta feira calor infernal sem ar condicionado
e ducha gelada quando entrei em casa
mas agora ele dorme, ela pensou. como ontem, exatamente igual. e como ontem não o tinha visto durante o dia. deu tchau pra ele ainda na cama e chegou com ele na cama de novo.
vida a dois. assim é que é.

sexta feira cheia. sexta feira cedo. sexta feira televisão e internet.

Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012

Hoje no trânsito na avenida faria lima me veio este pensamento. um pensamento novo, inesperado, puro, verdadeiro, que nunca tinha me vindo antes.
um pensamento assim:

eu largaria tudo para aprender equitação.

e viveria saltando e correndo com cavalos, onde quer que fosse.

me veio uma certeza de felicidade meio sem explicação. eu amo cavalos, cresci com eles, mas nunca desejei uma vida assim.

entendi, em meio aos carros, ao co2, ao barulho e aos faróis, que me dedicar a um animal seria algo realmente grandioso.

me vi naqueles filmes americanos, naquelas fazendas infinitas, cavalgando um cavalo marrom escuro muito maior do que eu, pelos campos, no por do sol. pulando rios, cercas, correndo sós, eu e o meu cavalo.

que doideira essa cabeça.

será que podemos viver a vida que quisermos?
tudo é mesmo possível?

só precisa de coragem, acho, mais nada.


Sábado, Janeiro 28, 2012

ano do dragão

Soltem
os dragões


soprem, tempestades chinesas
tormentas marítmas
fendas nas terra


Se segurem nos sapatos
apertem os cintos da razão
quem manda agora é o coração

deixa vir
transforma
sai daí
desloca

veste outra coisa
carece ter coragem

furacão enlouquecido
vontade é poder
temos as mãos, os olhos, os pés

ação, dragão!

nos devore e cuspa melhores
me deixa entender

me ensina de uma vez por todas como é que faz
pra crescer.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

abriu a torneirinha da escrita
a gota melancólica no papel virtual

(sinto que vários afazeres estão sendo deixados de lado neste momento, mas não há quem me arranque daqui)

sei chorar
eu também já sei sentir a dor

mas isso não é meu, é do cartola. peguei emprestado.

sei lá sei lá sei lá

deu vontade de estar em berlin, right now. plim. e estou ali. em alguma rua do kreuzberg. com meu casaco pesado de penas de ganso que comprei na zara da dinamarca. meu gorro roxo e ridículo que cobre as orelhas, comprado em toulouse, frança. minhas luvas também roxas, que já estão se desfazendo.
o ar frio corta meu rosto, meus lábios. olho pro céu, azul. raro, nesta época fria. penso que o sol é uma dádiva do brasil. que nós não damos o devido valor. em berlin, quando há sol as pessoas comentam e sorriem. é feliz ter sol.



então, eu aqui, no meu transporte imaginário para berlin, agora estou enrolando um cigarrinho de papel, sentada num café, há um homem grande com um cachorro embaixo da mesa. eles deixam fumar aqui dentro, porque lá fora não dá pra ficar. estou enrolando, porque marquei a hora num cabelereiro que passei em frente e ele disse que só estaria livre em uma hora. resolvi cortar o cabelo como o das berlinenses, levar este lugar comigo, de volta ao brasil. ainda há pouco entrei numa biomarket e comi uma quiche. pedi em inglês, já desisti do alemão.


Daqui a pouco irei arrastando minha mala com rodinhas pela skalitzer strasse na neve até o bar em que o marco trabalha pra pegar a chave do ap dele, onde passarei minhas ultimas horas antes de embarcar de volta ao brasil. Mas na volta, vou parar no bar chamando sofia e tomar a minha cerveja preferida que se chama flenzburguer, ou algo do gênero.


Engraçado me lembrar justo do meu último dia em berlim, de uma viagem longa de meses, me veio à lembrança o ultimo dia...
tenho saudades de como me sentia lá. das possibilidades infinitas. das novidades infinitas na cidade mais legal do mundo. tenho saudades da eu que podia ser qualquer uma. da eu que não entrava em paranóia nenhuma. da eu que cresceu tanto tanto longe daqui.


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agora abro os olhos e estou na cozinha da minha casa, rua mário, vila romana. o cartola canta ao fundo junto com alguns cachorros do bairro que latem. 100% brasil. nossa, não sei como consegui me visualizar na alemanha, estando tão no brasil neste instante exato.

"os tempos idos nunca esquecidos trazem tristeza ao recordar" - o cartola acompanha meu ritmo de nostalgia.

sou tão naftalínica.
saudosista.
memórias a mil.

a laura falou uma coisa linda sobre a memória, outro dia. que as coisas que vivemos estão aqui, impregnadas, ferradas a ferro e fogo, ninguém as tira daqui. jamais. por isso, podemos deixá-las ali, tranquilas, adormecidas. não tem que ficar revirando, remexendo, não adianta, não tem volta. mas o que foi, foi, e ninguém tira o fato de que foi. e é o que basta. já vivemos, não precisamos viver de novo. talvez nem teria graça viver de novo algumas coisas.

então, me resta imaginar como será em berlim quando eu voltar. vou trabalhar, levar meu grupo de teatro, fazer uma residência, criar uma peça lá. sonho absoluto, mor. é o que quero. viver no amado bairro do kreuzberg, frequentar o bar em que o Marco é barman, deslizar de bicicleta pelas ruas lisas alemãs, aprender a língua, fazer teatro naquela cidade ultra inspiradora, apresentar coisas nas ruas, nas feiras, nos bares criativos, únicos.

é mais gostoso imaginar o futuro que lembrar o passado.


Numa via calma e torta
tua linda alma voa

solta teus cabelos grossos
canta até raiar o dia

jura amor
perde a razão
samba até cair no chão

vê a menina mais fogosa
foge selvagem
some no breu

Reza pros teus
clama pro Sol

Se a lua fosse nossa, pensa,
seria bom.

Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

à um amor.

Do cão, a dona fiel
A zona de Lia me chama
para uma parte do globo qualquer
num ponto preto do olho preto dos pés pretos sem sapato

Tira os pés e pisa o mundo
Solta o cabelo, nuvem de chumbo
Alça teu vôo sereno
Calça minha mão na tua

Vamos juntas estrada da vida afora?
E ela responde:

"e se periga,
noite adentro."

Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

A minha carta proibida
- a que nunca será enviada à (o) possível destinatária (o) -
começaria com:

"Adeus,"

A primeira frase da carta poderia ser:

"Você sabia que escrever cartas é o gesto mais desesperado que existe?"

E por aí, eu iria:
"... e que escrever cartas proibidas é ainda mais desesperador?
Mas ao mesmo tempo, é inspirador e solitário, escrever a carta que nunca será lida por seu (sua) destinatário (a). Uma carta disfarçada de conto, poesia, romance, já que esses sim, são destinados à ninguéns. E à todos, por consequência.

À ninguéns e à todos eu diria fatos não específicos pois senão estaria denunciando o teor altamente proibido da carta. Explosivo. Escreveria coisas gerais. Que poderiam atingir qualquer um.

Seria algo como escrever em um contexto de censura. Repressão, ditadura, impossibilidade de livre expressão. Sim, poderia escrever sobre isso. A censura. Que aqui não se trata da censura do Estado, mas do estado das coisas. Do ponto a que elas chegam, e se tornam impossíveis de ser.

Por outro lado, por quê não dar um chute na moral e nos bons costumes? Uma bica no limite entre a sanidade e a loucura, dar adeus à razão e deixar outras partes do cérebro conduzirem a mão pelo papel?
Sabe, isso tudo é bastante desesperado.

Mas gosto, masoquistamente, das marcas proibidas.
Gosto, doentemente, do que me desalinha.

Mas faz tanto tempo, já. A carta começou a ser escrita há séculos, e talvez eu nunca a termine. Não começou com a minha geração, e pode ser que se estenda aos meus descendentes. Como uma maldição grega, vai saber."

A carta não terminaria assim. Ela ainda não terminou, pois o tempo, senhor de tudo, é quem poderá dizer. Quando.