quinta-feira, dezembro 23, 2010

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Volvi

é como se eu nunca tivesse ido

é como se minha vida tivesse ficado suspensa por 4 meses e agora eu desapertei o pause. mas a sensação é de que voltei pro mesmo ponto em que tinha parado o dvd.

móvel casa cama mesa chuveiro rua calçada prédio elevador trânsito chuva caos são são são paulo a mil natal desenfreado consumo absoluto.

volvi

com o cabelo mais curto
com fotos na camera na retina e na cabeça
com ingressos e bilhetes de metro guardados na carteira
com euros pra trocar
com a cabeça meio lá, voltei com o corpo pra cá
com línguas que se confundem na boca

volvi

e é tão bom ir e tão bom voltar e tão difícil os dois

Mas aqui estou e aqui vou ter que reaprender a ficar
e ver o que faço com tudo isso que tá aqui

domingo, novembro 28, 2010

San Giuliano Terme

Que hoje conheci a cidade do meu tataravo, perdida entre Pisa e Lucca, a linda e picolina San Giuliano Terme. Debaixo de uma chuva incessante, insistente, jogamos um pedaço recolhido de seu tumulo no Cemiterio do Araça, em Sao paulo, no rio de San Giuliano terme. Trouxemos de volta à cidade natal de Luigi Carlo Carli, um pedaço dele, que morreu no Brasil aos 40 e poucos anos, com um estilhaço de granada na revoluçao de 32, em frente a seu açougue. Tarde chuvosa e fria de encontro com meus antepassados. De agradecer, porque è s'o por causa deles que estou aqui. Grazie mile, Luigi!

terça-feira, novembro 23, 2010

Procura-se:





Mulher

elétrica mansa, 24.

microondas neuronios

pane no fio de cabelo

VOLTAGEM 110 / fumante

a prova d'água

nao solúvel, solucionável

produto frágil: entorna.

Procura homem

forninho elétrico usado sujo de gordura, raspas de queijo gratinado, de bandeja.

de lambuzar.

migalhas de bolacha cream craker murcha no fundo do armário

com prazo de validade vencida - iogurte semi aberto na geladeira

pago bem, cubro qualquer oferta.

call

me


domingo, novembro 14, 2010

tunhunhummm

hoje deu tilte

pifou

explodiu

inchou
inchou

encheu o saco

doeu


cansei de brincar de saudades.

sábado, novembro 06, 2010

La mére


Há um oceano entre eu e meu mundo

Há um oceano entre eu e o meu amor

Há um maldito oceano entre eu e o tempo

Há um puto de um oceano entre eu e aquilo que sobrou de mim

Há um puta de um marzao

Há um oceano infinito


Há um tempo que nao acaba, tanta água, lonjura áspera, cava caixa de memória, revira osso, tumba, turbilhao.
Nada, rema, navega, bóia.
Corre, naufraga, respira, recomeça.
Espera. Espera. Passa.
Arde - assopra. Seca - molha. Toma. Come. Come. Come chocolates, minha filha. Pinica, coça, retorce. Chuva ácida, vento frio, rua, castelo, igreja, ingles. Bratislava Cracóvia. Polonia triste, em preto e branco. Auschwitz tanta dor. Bratislava pobre, barata, cidadinha zero a esquerda.
Noite de sonhos fortes no trem. Noite na caminha dura do trem, o som dos trilhos, som de ferro, sonhos de estrada, de idas e voltas e idas de novo.
E nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca chega. Essa é a graça, agora. Está no ir.
E para de pensar, para de querer, para de doer. Para de reclamar.




...

Tanto mar tanto mar
Sei também como é preciso, pá, navegar, navegar...
Canta primavera, pá!
Cá estou carente
Manda novamente algum cheirinho de alecrim

sábado, outubro 30, 2010

barcelonesa

Cigarro entre os dedos
Maconha na cabeça
Pizza no estomago
Barcelona lá embaixo da varanda do ap da Dorinha

e aqui em cima
no oitavo
(ou átimo, em catalao)
estou eu e só
eu e o cigarro e a maconha e os dois peixes dourados e a tartaruguinha de água que sobrevive com um abajur forjando o seu habitat natural

E eu que nao tenho mais habitat natural

Estou aqui há dois dias e nao vi quase nada da cidade
estive trancafiada gravando um curta metragem com espanhóis, tendo que decorar textos em castelhano (!)

DE fato, estava um pouco cansada de só ver cidades. Agora é bom criar essa mini rotininha que vai durar só dois dias. Depois volto pra maré desrotinada que é a viagem. Que vai e vem. E nao sai de mim, nao sai. Nao acabo de viajar. Navego. Vivo dia a dia. Cada um deles. Devorando o tempo e sendo devorada por ele. Que nao me decifra, mas me devora.

Ahora voy dormir en la cama de dorinha e sonhar suenhos em catalan.

segunda-feira, outubro 25, 2010

nao tem nada mais bonito que as luzes noturnas desta Toulouse singela e divina nas suas ruinhas medievais, nas igrejas grandiosas, na ponte nova mas que é velha muito velha, no seu rio imenso. bom mesmo é andar por essa cidadela a esmo, pairando como as gaivotas aqui do rio, sentindo o vento gelar o rosto e, depois de um tempao vagando, parar para tomar um café quentinho com leite no bistrot pequeno da esquina. Vive Toulouse!

domingo, outubro 24, 2010




que a saudade quando é demais

mata

dias de fúria



Marseille, 23 de outubro de 2010





a lua cheia me sobe a cabeça
mexe com as minhas marés
todos os meus líquidos entramemebuliçao

(((panela de pressao prestes a explodir)))

impressionante a relaçao -direta- que existe entre a lua e as mulheres e isso nao é misticismo, astrologia, calendário maia, tarot - NAO - isso é coisa que acontece aqui dentro de mim mulher, bem aqui, eu sinto uma cólera, um tesao, uma vontade de matar, de morrer, um mau humor, tudo exatamente junto. tudo ao mesmo tempo agora. j'a fui mulher eu sei.

vontade de sair correndo pelas ruas incendiadas de marseille.
vontade de atar fogo nas pilhas de lixo que cobrem a cidade nesta greve junto com os moradores daqui. e deixar queimar.
burn burn burn.
e jogar todos os meus dramas na fogueira.
os meus,
dos meus antepassados,
dos grevistas,
dos aposentados da frança e de todo o mundo.
(este velho mundo que naufraga, lentamente)
e se eu me aproximasse do mar nesta noite? sob esta lua, nesta cidade portuária decadente? se eu mergulhasse em suas águas geladas? neste mar mediterraneo... me entregar. quem me resgataria?
nao.
nem fogo
nem mar.
agora é só esperar passar.

gostei de voce, marseille.
voce é muito maluca.
nao por acaso, foi aqui que nasceu nosso Antonin Artaud.

ele vinha sem muita conversa sem muito explicar
eu só sei que falava cheirava e gostava de mar
sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
e minha mae se entregou a este homem perdidamente
ele assim como veio partiu nao se sabe pra onde
e deixou minha mae com um olhar cada dia mais longe
esperando parada pregada na pedra do porto
com seu único velho vestido cada dia mais curto
'Minha História' - Chico Buarque

quinta-feira, outubro 21, 2010

de Marseille

PROCUREI INTENCIONALMENTE matar três urubus de fome e de sede no prédio da Bienal de São Paulo. Pus ali imensas latas cheias de tinta escura, para que se afogassem, além de espelhos, para que batessem a cabeça durante o voo. Construí túneis de areia preta, para que entrassem sem conseguir sair, morrendo ali dentro. E, para forçá-los a voar, costumo lançar rojões em sua direção.

Nuno Ramos


é como os homens
urubuzentos
semi mortos
sendo jogados pra todos os lados
keep walking
move
go
work
make money
fuck yourself
kill yourself with work without money
túneis e sequestros
e escuridoes e putrefaçao

.

o fato é que hoje eu daria tudo para estar em outro lugar que nao aqui e agora
quando o melhor lugar do mundo nao é aqui e agora
pior sensaçao que pode existir (é como se eu fosse um urubu na gaiola)
uma rua sem saída
o tempo espaço pode ser tao aprisionador as vezes!
o fato é que tenho ganas de voltar
para minha cidade meu amor meus amigos minha vida meu trabalho
sinto falta pulando dentro do peito da barriga do cérebro
as saudades estao impregnadas, enraizadas, atracadas em mim
as saudades que a esta altura se instalaram e nao querem mais sair - nao há o que as arranque daqui

o fato é que gosto demais da minha vida na minha cidade
ou gostava (nao sei mais se ela será a mesma)
pode ser que nao seja mais, nunca mais, aquela vida que eu vivi na minha cidade

e é melhor que seja diferente mesmo
que quando eu chegue algo tenha mudado
ou eu ou o mundo

ou algo no meu quarto
um cabelo branco na cabeça de uma amiga
um chupao no pescoço do meu namorado
um ladrilho novo quebrado no chao da cozinha
um bar novo na sao luís
uma linha de metro que ficou pronta
será que o sesc belenzinho já abriu?
será que a dilma será eleita?
será que minha cama estará desarrumada?
como meu pai engordou!
meu irmao transformou meu quarto num atelie
meu carro estará com novas batidas?
meu celular voltará a funcionar com o mesmo número?
alguém regou as plantas?
quem usou as minhas roupas?

uma lacuna maior
o vao que separa minha janela do mundo aumentou
os quadros estao escorregando na parede
meus pés nao cabem nestes sapatos
como a cidade está feia!
já nem me lembrava deste vestido
nao preciso de tanta roupa!

quem é voce mesmo, aqui no meu quarto, nu na minha cama?

quero meu lençol de florzinhas
quero meu banheiro
quero me trancar no quarto com voce e nao sair nunca mais
e procurar no seu corpo as marcas novas
e te mostrar meus quilinhos a mais
e contar meus segredos minhas histórias do além mar
meus ingressos que guardei das exposiçoes das peças dos shows dos metros
minha coleçao de isqueiros de cada país
e as moedas
e os presentes
e as roupas novas
e meu cabelo raspado
e minha cara e meu jeito que nao mudam

que medo de encontrar tudo igual cada canto cada enfeite cada voz cada música
que medo de nao te encontrar nunca mais
que nó
quero dormir e voltar a lembrar dos meus sonhos
bonne nuit, marseille.

domingo, outubro 17, 2010

Je suis ici.
A Paris.
A Belle Paris.
Dos sonhos dos filmes dos livros. Ici. Justo aqui.

Viajando com a minha mae, pela primeira vez na minha vida, eu e ela e só. Sem os irmaos que sempre estiveram presentes em todos os momentos.
É o nosso momento. É bonito.
Ela morou aqui quando tinha 24 anos. Eu tenho 24 anos. E a gente se encontrou, na interseccao dos 24, no meio da minha viagem, um oásis, um porto seguro no meio de tudo tao incerto que vivo aqui há dois meses e meio.
É tao bom um pouco de confortável!

Está lindo. É outono, as folhas estao amarelas e eu vendo tudo pela primeira vez. está frio.


E agora eu penso em voce, voce aí, que as vezes me le. É. Voce.

E agora vou dormir.

Estou com os olhos ardendo.

Beijos e boa noite pra Paris.

E
pra
voce.

terça-feira, outubro 12, 2010

... lembrar que saí nesta saga maluca de viagem redescobrimento - uma terceiromundista, mundana de tudo, uma brasileira com amor, aqui nas zorópa de meudeus. Nesse velho mundo lindo foda complexo. Quero é me encharcar. Tenho feito. Tenho amado. E se engordo - depois emagreço. E se bebo diariamente - depois paro. E se nao trabalho agora, é porque tenho toda a vida pra isso. Agora é meu momento de viver me entregar no submarino do além mar, é preciso ir além do bojador para ir além da dor. As pessoas que conheci, as línguas que falei, os lugares onde dormi, os museus, as ruas que atravessei, as comidas que provei, os homens que amei, as mulheres que passaram por mim, as ressacas, as bebedeiras, as noites sem fim, o frio, o calor de berlim, as aulas de suadeira, a morte todos os dias nas camas cada dia uma. Que é como uma aventura hippie. Cada dia num lugar - fluindo fluindo fluindo. E que me importa as roupas sujas no fundo da mala? Que amanha nao sei onde estarei? Que me importa? Que me importa? Me importa que tudo agora é maior, mais potente, dentro de mim uma coisa grande cresce. Uma coisa de contramao de tudo. De que nao estou seguindo o que este sistema absoluto quer que eu faça eternamente: ganhando dinheiro, gerando lucro. Nao. To aqui, viajando, me nutrindo, me abastecendo. Com pessoas maravilhosas que me ensinam todos os dias, nem que seja só uma palavra nova numa língua outra. Mas aprendo sempre. E ensino também.
cambio desligo.


............




daí nosso mais-que-perfeito está desfeito.




.............




Antía es una buenissima anfitria. Me gusta su humor terrible. Las espanholas tenen mucho humor. Me encantan, todas.


y basta por hoy.




...............

quinta-feira, outubro 07, 2010

londonlondon

a man's heart in a woman's body

...



o cabo da boa esperanca é o mesmo que o cabo das tormentas.

e de qualquer modo, atravessando-o, se chega nas Índias.


...



brincando de cantar alto na rua pra provocar os ingleses silenciosos

cantar alto e cantar em brasileiro, ainda por cima

claro que todos olharam - censurando
ou curiosos
que língua ela canta?

mas ela nem ligou, porque era tao mais forte a caçada do chico buarque

nao conheco seu nome ou paradeiro
adivinho seu rastro e cheiro
vou armado de dentes e coragem
vou morder sua carne selvagem


a fuga, o passeio, o vento, as escadas do metro,
tudo meio que contagia a gente

quando se está na vida, literalmente, só a passeio

pra cima pra baixo, mapa, rua, rostos, línguas, cerveja, objetos, comida, semáforo, corvos, esquilos e raposas

e dá uma coisa grande dentro do peito
coisa imensa
forte
sei lá que nome dar, prefiro chamar de coisa imensa

coisa que as vezes é tao boa
inexplicavelmente boa que me incendeia, que vontade de viver, de ver mais e mais, ver tudo, o mundo - tao lindo o mundo - nao preciso de mais nada, quero viver assim, navegando navegando

noutras vezes
é
coisa
silenciosa
pelas beiradas vai me deixando inteira num estado
de coisa estranha
que nao sei nomear
prefiro chamar de coisa estranha
e tudo perde um pouco o sentido

que que eu to fazendo aqui gastando em pounds comendo doce sem parar. e esse buraco que só cresce? que nao preenche? nunca?

em londres
na turquia
na conchinchina
no himalaia
na argentina
na putaqueopariu


maldito médico que me cortou o umbigo justo no dia em que respirei o ar do mundo pela primeira vez. esse médico me paga.

em pounds, claro.

terça-feira, outubro 05, 2010

Sonhos edimburguenses

sonhei com um homem bravo muito muito bravo e eu correndo de roupa vermelha e branca dizendo NAO NAO QUERO NAO QUERO NAO QUERO NAO NAO E NAO, louca histérica, nao querendo mesmo, gritava com toda a capacidade dos meus pulmoes. Me cansava, e continuava gritando. Muito. Nao sei o que eu nao queria. Mas ele gritava de volta. E uma mulher, uma matrona, uma mulher forte, firme, seca, nos observava. Ela estava e nao estava do meu lado. Depois de um tempo ela se cansava da situacao e se pronunciava. Nao sei o que ela dizia. SOnhei com o eslovaco respondendo meu bilhete. Secretly and silently. Sonhei com uma cena que eu tinha que ensaiar. Sonhei com figurinos.

quinta-feira, setembro 30, 2010

escrevo pro que der
(se vier)

uma escritora sem leitor


fazedora de palavras que saem caem
e navegam sem destino, mundao virtual adentro
sem ancorar nem fisgar ninguém

estrada afora
estrada foda
afoita

...


aqui tem raposas andando pelas ruas a noite
me assusto porque sao animais selvagens, soltos pela cidade
mas elas se assustam mais comigo do que eu com elas
porque sao selvagens

aqui venta faz frio e é a cidade mais linda que conheci até agora

aqui tem energia forte inexplicável

aqui eu ficaria mais

mas tenho que ir
estrada afora
afoita
agora

segunda-feira, setembro 27, 2010

Parece que meu corpo e espírito ainda estao lá. E acho que uma parte de mim vai ficar por lá mesmo, assim como eu sei que tem uma parte de mim que já ficou em Berlim. E assim vou indo, me despedacando e deixando migalhinhas pedacos de mim em cada cantinho que elejo como meu. O resto carrego no meu cavalo, e vou colhendo flores e pedras no caminho.

domingo, setembro 26, 2010

carta a mim em noite de ventos desconhecidos

4 da manha
flor do apogeu
a lua já se escondeu
enchendo o céu de puro breu

...

Poesia va
pobre verso meu
que brota quando feneceu

...

olhou pro céu sentiu frio. ouviu que ele quase tinha se apaixonado por ela. e ela que quase se apaixonou pelo outro? e o outro se apaixonou por uma que nao ela, uma outra.

danco eu, danca voce.

...

vestiu branco e dancou oxum pra ela mesma.

...

bestiais simpáticos enérgicos sedentos
beijos,

sofia

quinta-feira, setembro 23, 2010

Catártica minha festa dinamarquesa brasileira italiana espanhola argentina eslovaca inglesa.

Catártica a lua cheia de ponta cabeca.

Eu de ponta cabeca. Do outro lado do mundo, outro lado de mim e de todos.

Bebi como crianca.

Ri como uma menina maluca.

Precisei.

E foi bom assim.

E sofri depois e chorei e depois dormi e acordei depois hoje, mais velha, 24, e agora ressaca sem direito de ter ressaca porque tem que trabalhar lavora lavora lavora.

E aqui sinto e suo mais que o normal.

E aqui apaixono e desapaixono. E fico obcecada como quando tinha 15. Mas agora sao 24e a coisa tem que andar.

Deixe-me ir.

La jornada continua........................

terça-feira, setembro 21, 2010

Prezado

voce.
Aí do lado de lá
da tela
do oceano
do tempo
da estacao do ano

aqui dentro tá frio congelando

que eu sabia e temia muito, o desencontro de desejos

que no fundo era o que eu mais temia

e eis que o espetáculo se desenrola agora diante dos meus olhos do jeitinho que eu já tinha imaginado. e temido. tanto.

e eu aqui
do outro lado da tela
do oceano
do tempo
da estacao do ano

do outro lado - que nao é do seu lado - estou eu
inerte
e
em silencio

um dia antes
dos meus 24 anos

silenciei

aqui

jaz

eu

.

segunda-feira, setembro 20, 2010


e o meu coracao embora finja fazer mil viagens fica batendo parado naquela estacao

domingo, setembro 19, 2010

Músculo carne osso tripa pés bolha calo salto bracos olhos coluna espaco reservado para a alma espaco reservado para a fala, porta. oxum ogun xango oxossi iemanjá. cavalo arco e flecha espada saia rio mar mata machado. por una parte pienso. por otra parte pienso. por una parte sinto ele cuerpo abrir e fechar. ai tá ficando bom. ai tá péssimo. ai nao consigo. ai, como é fácil. gosto gosto gosto. suo suo suo. ardo. incho. doo. piso pé no chao, bato pé no chao: acorda alma, pra vida. acorda vamos galopar. vamos cantar. cria cria gira gira bota em movimento, bota pra rodar acontecer. bota fora. tá difícil escrever ai tá tao difícil. quando está tudo bem é mais difícil do que nunca. precisa estar doendo faltando arranhando? sempre? e nem sempre doi falta arranha. as vezes é bom e só. e daí nao vem as palavras. parece que elas nao chegam até holstebro. aqui o vento as leva embora, junto com os pensamentos truncados que vinham me acompanhando. agora se foram os pensamentos truncados, mas também as palavras, todas elas. fico eu e minhas experiencias secretas, pensamentos, minhas línguas mal aprendidas, meus novos amigos e meus mestres de aqui.
e me vou dormir na suíte royal. e me vou pra acordar daqui a pouco e voltar a galopar suar pés pernas músculo carne osso tripa bolha calo salto coluna alma...

sexta-feira, setembro 10, 2010

Holstebro, Dinamarca

Odin Teatret

Aqui nesta cidade pequeniníssima no norte da Dinamarca, estamos eu e mais 21 pessoas imersos numa vida de comunidade no Odin Teatret, do iluminado Eugenio Barba. Este lugar foi dado pelo governo para o grupo, que veio da Noruega para cá em 1966, e fizeram desta antiga fazenda um teatro! Lugar lindo, energia maravilhosa, pessoas ótimas! Rodeada de brasileiros!! Sao uns 8 no total, contando o professor, Augusto Omulu, baiano de Salvador, dancarino maravilhoso e ator aqui do Odin. Hoje aprendemos a danca de Ogum, Orixá guerreiro, das estradas, do ferro. Os bracos se transformam em espadas afiadas, movimentos de forca vindos da terra, do fogo, prestes a talhar, a matar. Qual é a energia de alguém prestes a matar?
Os movimentos nao podem ser apenas movimentos. Principalmente os movimentos de um Orixá. Nao basta ser uma danca bonita.
Tudo deve estar preenchido desta intencao, deste instinto, da essencia de cada um dos orixás. Sugar a energia da terra e transformá-la em movimento grandioso, forte, sagrado.E que através do movimento, de um simples levantar de um braco esticado para o céu, algo muito maior possa ser lido. Porque se o movimento do ator está transbordando esta intencao, aí a terra treme. Aí se segura na cadeira e espera a banda passar! Quando o Augusto danca, o chao treme e a terra agradece seus pés. É impressionante.
Muito maravilhoso tudo.
Estou silenciosa e vivendo com calma. Me sinto numa espécie de retiro. Me sinto privilegiada. O teatro é lindo, grande, caótico. Foi crescendo ao longo dos anos, sem planejamento algum, se transformando num grande labirinto. E por toda parte as máscaras nas paredes, os cartazes de todos os espetáculos que eles já fizeram, os livros, a história de 45 anos de um grupo de pessoas que dedicaram a vida toda pra isso aqui. É lindo demais. É tudo história, tudo memória.
No primeiro dia aqui, a Else Marie, atriz mais antiga do Grupo (uma sessentona) apresentou um solo em que narrava a sua trajetória no Odin, a sua história e a história de todas as personagens, entidades, máscaras, bonecos, seres, que criou aqui. Tao maravilhoso!
Vou dormir e sonhar com Ogun e com os deuses que moram aqui no Odin e que nos acompanham nesta empreitada.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Seguindo

Amsterdam

De brinquedo

de pontezinha ruazinha vielinha bequinho

Canais

e ceu azul

Cheia de gente de dia de noite

Nenhum bar tao legal quanto os de Berlin

Tudo bem turistico

Tudo bem rigido, disfarcado de legalizado

Pessoas grossas e tristes

Putas tristes nas vitrines vermelhas
Putas entediadas
Putas gordas e negras

Tudo caro
Everything is about money here
Tudo feito para os turistas, da uma sensacao de que essa cidade nao tem alma
Sinto isso das cidades muito turisticas

Cade as pessoas que vivem aqui? O que elas fazem? Por onde elas andam?

Elas nao comem nestes restaurantes
Elas nao alugam estas bikes
Elas nao entram nestes museus
Elas nao passam a tarde nestes parques lindos
Elas nao tomam cerveja de 4 euros um copo

Entao
O que elas fazem por aqui?

Parece que tem essa Amsterdam de mentira, feita toda pros tursitas que querem fumar maconha sem parar

E uma outra

Escondida em algum lugar que nao imagino onde porque nem cabe aqui e tudo tao pequenininho apertadinho

Parece ate de mentira

Mas a historia 'e legal
Historia de mar, de grandes navegadores que construiram tudo o que tem porque eram os melhores no mar
nas batalhas do mar afundaram os ingleses
chegaram na africa na india no brasil e ficaram muito ricos

e os marinheiros vinham para amsterdam atras de bebida sexo drogas
a'i construiram uma igreja pros marinheiros se confessarem
pra eles fazerem tudo isso mas sem tanta culpa

entao
ao lado da zona das prostitutas nas vitrines tem uma igreja imensa
que cresceu junto com os pecados e dinheiro dos marinheiros

nao 'e legal?
eu sempre achei que este povo do mar, estes marinheiros piratas e tudo o mais, sao os mais malucos da historia.

sábado, agosto 14, 2010

ando masculinamente mulher.
ando carnívora incandescente.
ando torta, dolorida.
ando a esmo, berlim em mim, em mil.
kreuzberg me atravessa e eu o atravesso diariamente em minha super bicleta foguete. turbinas nos meus pés, festa na minha bacia, deleite pros meus olhos; essa cidade me amansa me excita, me amansa me excita.
me entorpece, me abastece de vontade dessa coisa de vida.
andar. andar e só é o bastante.

quero raspar o cabelo. meu lado masculino se apresentando, nos meus sonhos lésbicos, nessas mulheres homens que caminham livres por esta cidade.
foda-se as mulherzinhas com o cabelinho comprido pra agradar os homens. aqui elas sao e ponto. elas sao foda. nao precisa ficar provando que é mulherzona, super feminina, sensual. elas sao sensuais. mais que todas.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Sobre Berlin e os meus pés

que estou cansada
meu corpo pede trégua mas quero continuar nessa aventura maluca de conhecer e ter domínio sobre o nosso cavalo-corpo
nunca fiquei tao exaurida
mentalmente
fisicamente
meus pés nao podem mais tocar o chao porque estao cheios de bolhas
meus ombros e minha perna doem diariamente
e assim eu passo o dia todo sentindo meu corpo, porque ele nao me deixa esquecer nem por um minuto. sao tantas dores!
tantas coisas crescendo aqui dentro. as minhas vontades reprimidas, meus medos, sao minhas travas, todas sendo obrigadas a sair pra fora. mostrar a cara. venham aqui fora pra eu olhar pra voces cara a cara e ver que nao é tao grande assim. nao é tanto medo assim. nao sou tao fraca, meu corpo aguenta, minhas pernas sao uma boa base pra eu me apoiar. vem que o meu centro ta explodindo e só nao explode mais porque voces vem me atormentar. em tudo estao voces, meus monstrinhos, meus fantasminhas, minhas nhacas, por toda a parte. e como faco pra abandona-las pelo caminho? quando vou sentir que fez créc e destravou? quando?
porque estou trabalhando arudamente agora pra isso. mas nunca parece o bastante.
saiam já e me deixem experimentar isso tudo daqui.

sexta-feira, agosto 06, 2010

berlin

Neste momento, o melhor lugar do mundo é aqui e agora.
Aqui nesta cidade absolutamente tesuda, maluca, desorientada, em construcäo, descontrucao, reconstrucao, tudo jogado, um milhao de bares e eu querendo entrar em cada um e provar cada coisa, pessoas lindas de cabelos incríveis, bicicletas velhas, lojas de comida organica, um milhao de lojas de comida organica, cada esquina uma surpresa, cada passo um deslumbre, um olhar pra cada coisa e uma vontade, um tesao absoluto por tudo isso que me rodeia neste momento. Berlin é foda. Nao existe igual. Cada parque foda, cheio de gente, cada bar surreal, cada rio, cada tudo. E eu na minha Lucy, minha nova bicicleta velha, cor de rosa, deslizando por esta cidade fácil, por essa vida tranquila, esta paz depois de tanta guerra que já teve aqui. É tanta paz. Eles sao tao desencanados, tranquilos, andam como quem veio pra vida a passeio, sinto que eles sabem aproveitar a cidade deles muito bem. Os bares tao sempre cheios nao importa o dia da semana. De manha, quando saio pra aula de teatro, os cafés estao cheios com todos tomando café da manha juntos! Os berlinenses sao zero materialistas, zero aparencias, se vestem de qualquer jeito, moram em casas lindas e simples, tudo meio baguncado mas extremamente organizado ao mesmo tempo. Como pode? Tudo mais coletivizado. Tudo mais humano. Menos capital, material, bla bla bla. Puta cidade foda. Puta clima bom, de cidade bem cidade mesmo, mas com essa calma, esse saber viver gostoso, esse tesao todo. Uau. E isso é so o comeco.

sexta-feira, julho 30, 2010

lá da travessia

28.07 - em trânsito

Nono and last day

La Strada

Melhor sensação que eu conheço
Que relembrei
Redescobri aqui
Que quero viajar muito pro resto da vida
Viajar é preciso
Viajo porque preciso viver
Aqui é tudo muito.
Tudo tão
Tudo bem
Basta existir e sugar o sangue da vida que me beija na boca de língua
Quero trepar com a vida
Mais e mais
Forte
Devagarinho
Deixar ela entrar e me amar
Porque eu amo ela

domingo, julho 18, 2010

do ente

momento em que te pegam te viram do avesso e te o bri gam a ficar quietinho, descansandinho, tomando chazinho, paradinho, no sofazinho, dormindinho, bonitinho, tomando remedinho, xaropinho, nhé nhé nhé nhé nhé, tudo aquilo que é mais chato de fazer nesta vida.

do ser

ou, para os mais chegados nessa coisa de explorar a fundo o ser humano, quando se fica doente, do ente, é um momento de entrar em contato consigo mesmo, com o seu ser. o corpo pede estes momentos de vez em quando. esta pausa. quando você está se atropelando demais, não se olhando o suficiente, não se respeitando o mínimo. quando tá fumando demais, bebendo demais, trepando demais, se divertindo demais, o corpo pára, pede arrego, não aguenta, pede trégua, pára peloamordedeus!

com clusão

equilíbrio, meus caros, equilíbrio. ele é de fato meio mala, mas, pelo menos, busquem-no.

quinta-feira, julho 15, 2010

o mais maluco disso tudo é que a gente caminha caminha caminha pra voltar pro mesmo lugar. só que diferente. a gente muda na caminhada. e a gente vai andar porque tem alguma coisa errada. e tem alguma coisa errada porque aquele lugar não tá bastando, não tá preenchendo. aí, depois que a gente se bota pra andar, trabalhar, aprender, a gente volta praquele lugar que não tava fazendo sentido mas que agora faz. e não tava fazendo sentido porque faltava andar, trabalhar, aprender. olha que ciclo maluco.

do meu filme particular

cena de filme:

começa com ele me dando um livro do artaud de presente.

eu gosto, digo que será útil na viagem.

aí sentamos, ele desata a falar, chorar, falar, chorar.

aí passa.

aí chegam os pedaços de pizza.
minha portuguesa, dele marguerita.

aí eu. minha vez. tô puta, puta. e falo falo falo. xingo. hipócrita escroto dissimulado canalha. (nunca achei que eu fosse dizer essa palavra). ele diz: viu como dói?
esperneio sapateio no meio do salão. e os outros na mesa do lado naquele fingimento, "vou evitar olhar, mas to ouvindo tudo o que essa louca ta falando". foda-se.

aí - chega. quero ir embora, vamoembora.
tá.

aí lá fora. cigarro molhado, chuva insuportável na cidade que ficou fria do dia pra noite. aí me abraça. me abraça, não quero. e volto a falar. e falo. tudo. cuspo. que você nunca foi homem o suficiente. pra mim.não bastou. não foi. ele me chama de machista. não tem nada a ver com machismo, é questão de macho e de fêmea. simples assim.
ele: pior que eu sei disso. silêncio. olhos fixos.
eu sei disso.
eu sei disso.

aí vou pro carro.
ele parado do lado de fora.
eu desenroscando os fios do fone do ipod. levo horas nesse desatar um nó impossível. ele se aproxima pra ver o que tá acontecendo. eu abro a janela. mais chuva. ele na chuva. eu coloco um fone nele. ó o que eu vou ouvir, digo.
já lhe dei meu corpo minha alegria já estanquei meu sangue quando fervia olha a voz que me resta olha a veia que salta olha a gota que falta pro desfecho da festa por favor deixa em paz meu coração que ele é um pote até aqui de mágoa...

canto: pode ser a gota d'água. ele beija minha boca violento. ele me pega de jeito. homem. me beija e me beija e me beija. ele do lado de fora da janela do carro. ele diz que eu sou todas as mulheres do chico buarque. ele me beija tanto até que acaba entrando no carro pela janela mesmo, de onde ele estava. e a gente se pega e se entrega.
avenida paulista.

e qualquer desatenção, faça não.
pode ser a gota d'água.

terça-feira, julho 13, 2010

sou a assimetria em forma de gente.

sou curvilínea

melancólica

agressiva

eufórica

e

baixinha

segunda-feira, julho 12, 2010

sai culpacristã
me larga moralcatólica
sai seusrepressores estabilizadores da ordem
sai ordem
sai
sai
sai

eu não peço desculpas e nem peço perdão
eu sou assim ué
mais livre que os outros ué
eu sei lidar com essas coisas do desejo ué
"os normais tinham inveja de mim que era louca"
não que eu seja
sou só mais livre em determinados assuntos que os outros não aturam não compreendem não se conformam
que pode ser diferente
sou só diferente ué
não egoísta como ele quer
não escrota como ele quer
não dele como ele quer
não sou de ninguém e obedeço às minhas vontades ué
e não tá escrito em lugar nenhum que isso é crime
que isso é pecado
que isso é feio
não tá escrito
não existe pecado
existe respeitar a nós mesmos e aos nossos desejos isso é saudável não reprimível
não é egoísmo é sobrevivência
é vontade de viver
se ele não consegue me prender o problema é dele
se ele não me basta é ele quem vai ter que rever as suas atitudes como homem

chega de ficar na culpinha na mulherzinha no medinho
na inquisiçãozinha
na fragilidadezinha
sou mais mulher que isso de boa moça boa esposa boa mãe
sentar de perninha fechada e dar risada baixo
ter medo dos homens
ser fiel acima de tudo
sou fiel a mim

domingo, julho 11, 2010

Quero sentir isso tudo. Não pensar. Não agir. Não questionar. Sentir e só. Entender que as coisas chegam na gente e leva um tempo pra maturar. Não adianta querer responder automaticamente a tudo. Receber. Absorver. Amadurecer. E aí sim, responder. Com arte, com palavra, com ação, com música, do jeito que for. Mas deixar as coisas chegarem, abir as portas e janelas: entrem, venham, se acomodem. E fiquem por um tempo aqui comigo. Aí depois, só depois, posso dizer se entendi, se discordei, se odiei, se achei engraçado ou se sofri. Talvez eu seja meio lenta, mesmo. E tudo bem.

sábado, julho 10, 2010

Que chegou num ponto que não me resta mais alternativa. Aqui ficou insustentável. Agora é questão de fuga. Agora é questão de sobrevivência, de saúde. Preciso ir. Logo. E ponto.

quinta-feira, julho 08, 2010

estou eu aqui
dia se desfazendo na minha frente
eu envelhecendo
o tempo
e o tempo

os meus avós
ontem

sinto eu secando
atrofiando
preciso atuar agir criar
to parada
to só das noitadas vazias
falta a arte
ela
plena
nos tirando daqui e levando pra passear

(tava ficando cega e acendi a luz
ufa)

preciso ler me alimentar botar pra fora quebrar paredes

to com a força de um leão paralisada aqui dentro

quero sair

quero tirar daqui.

preciso dançar falar gemer

espremer o músculo da imaginação botá-lo pra trabalhar

lidar com o poético sublime. subjetividade para a minha sobrevivência!

chega de profano
chega de nhénhénhé
blábláblá

problemas insignificantes e conversas babacas

queria me propor a ficar três dias sem falar coisas babacas

queria me propor a só reagir quando fosse extremamente verdadeiro

queria me propor a não pensar em que roupa vou vestir e vestir qualquer uma que aparecer

queria me propor a ler um livro por dia

queria me propor a mudar os caminhos, as conversas, as pessoas sempre as mesmas, as músicas sempre as mesmas

sinto que esse mesmo mesmo mesmo vai acabar mesmo atrofiando o meu cérebro

um artista não pode parar nunca jamais never em hipótese alguma endurecer paralisar estagnar engessar endurecer nunca jamais

e estou meio assim acomodada por causa da viagem

mas a viagem

a viagem vai me tirar daqui me botar pra me virar revirar contorcer espremer te vira no alemão conhece gente teatro vê ouve frui tudo pela primeira vez da mesma forma quando cheguei neste mundo cão - virgem.

voltar a ser virgem
voltar a não entender nada
voltar pro estado de aprendizado profundo
viva o novo

domingo, julho 04, 2010

O amor é um oceano quentinho feito pra você soltar o corpo e boiar boiar boiar sem saber onde vão te encontrar (se é que vão). Pode ser que só encontrem seus restos espalhados, quebrando com as ondas na areia. Aqui uma perna, ali adiante um pedaço de rosto, mais ali uma mão. Pode durar anos. Ou segundos, a viagem. Pode atravessar afundar ou afogar.

E quando você estiver perdido em alto mar, em volta só os azuis que não te deixam definir o que é céu, ou se é mar, e a linha do horizonte te dizendo no ouvido: vem que eu to pertinho, vem que eu to pertinho, pare e desconfie. Se agarre numa ilhota, numa baleia ou pedaço de pau. Finque os pés no chão do mar. E experimente ficar aí, por alguns segundos.

Mas ele não vai deixar. Ele vai fazer de tudo pra continuar te levando. Vai mostrar toda a força que ele tem e escancarar a sua impotência. A sua mortalidade. Aquilo que em você é mais humano. Ele vai passar por cima. Alastrar.

É a ressaca absoluta. A maré enlouquecida, que vem e não quer saber. E toma onda na cabeça. Água no nariz. E você vai se sentir uma formiguinha, um inseto imbecil, correndo no mesmo lugar.

O amor é duro e líquido, como oceano.

O amor é pra valer: divino. e terrível.
escrever é a única arte que eu tenho praticado com constância.
é a única que faço sem me pedirem. faço porque quero. quando quero. e se quero.

mundana.

de tudo o que é de pegar, de comer, de sentir o gosto. de tudo o que é de sentir. de pele, de pelo, saliva, boca carnuda, corpo quente esquenta meu corpo, me embrulha pra presente e me leva pra passear nesta casa confortável que são suas coxas, sua nuca, seu cabelo.

me leva pro mundo, seu corpo, meu corpo encaixa no seu corpo.

sou de mim e do mundo. quem quiser que me leve, aproveite, me tome as rédeas, me oriente.

eu aqui, boiando neste oceano delicioso. solta. e calma.

sou mundana taurina imunda.

da matéria.
do de pegar, do de comer, do de cheirar. são esses que me movem.

agora sim. agora eu quero ficar pra todo o sempre neste edredom vermelho seu corpo cobrindo meu corpo, seu cheiro, seu gosto, seu todo absoluto e eu aqui largada, devota, escancarada. me leve, leve.

sou sua sou sua sou sua sou sua sou sua

só agora. a pro vei te .
só agora. se de lei te .

que eu passaria o resto dos meus dias nesse movimento. de dorme acorda. de amor. de amor. de come, dorme, acorda. me ama. me come.

esse amor que é concreto; tem gosto, tem cara, tem carne - o amor.

eu carnívora insaciável.

sanguinária. eu da raiva e do amor, uma ao lado da outra.

sábado, julho 03, 2010

pegue umas máscaras.
misture com carcaça, armadura, barreira, trincheira.
junte um disfarce.
bata com 2ks de ego.
100g de competitividade.

frite na frigideira, tudo junto.

pronto.

temos um relacionamento explosivo.

B U M

quarta-feira, junho 30, 2010

Grfksifkuerfuefviw3riueckjsiwqyfiqgwfityeiwhgvfiwugf

Queria escrever assim, um trabalho livre, e mandar as normas da ABNT (?) pra puta que o pariu, e mandar a burocracia pra puta que o pariu, e mandar as normas acadêmicas pra puta que o pariu. Se escrevo sobre teatro deveria ter o direito absoluto de escrever do MEU jeito, me utilizando da MINHA expressão verdadeira, artística, com as MINHAS palavras, e não essas palavras que fico pegando emprestadas de sei lá quem e não sei quem lá. Quero relatar a MINHA esperiência e nesta merda eu só posso falar na terceira pessoa. Quero colocar as MINHAS questões e nesta merda eu só posso colocar as questões de não sei quem lá e não sei lá quem, porque não sei quem lá e não sei lá quem já publicaram artigos científicos e teses de mestrado doutorado pós doutorado Deus. É isso, eles se aproximam de Deus porque eles conseguiram galgar posições altíssimas através de um conhecimento chato e inacessível e agora eles estão lá sentados nas altíssimas pilhas de livros, teses e artigos, e agora eles estão bem pertinho de Deus. Que coisa antiga, Meu Deus. Que coisa sem sentido, Deus Meu. Eu quero ficar aqui ó, bem pertinho dos humanos, quero fazer teatro aqui embaixo, ó, aqui no meio do caos, da multidão, quero gritar e ser ouvida, quero escrever e ser lida por quem me interessa. Fodam-se os professores, eles não estão preocupados com a arte. Por quê raios existe faculdade de teatro neste mundo? E por quê eu estou em uma????

terça-feira, junho 29, 2010

Pirata

"Em nossas línguas há uma bela palavra que tem esse per grego de travessia: a palavra peiratês, pirata. O sujeito da experiência tem algo desse ser fascinante que se expõe atravessando um espaço indeterminado e perigoso, pondo-se nele à prova e buscando nele sua oportunidade, sua ocasião. A palavra experiência tem o ex de exterior, de estrangeiro, de exílio, de estranho e também o ex de existência. (...) Tanto nas línguas germânicas como nas latinas, a palavra experiência contém inseparavelmente a dimensão de travessia e perigo (...)."

Por Jorge Larrosa Bondía in NOTAS SOBRE A EXPERIÊNCIA E O SABER DA EXPERIÊNCIA

segunda-feira, junho 28, 2010

sonhei com uma guerra. eu nela, guerreando também. e eu era pega como prisioneira dos inimigos. e tinha navio. e eu fujia tanto, tanto. me livrava, eles me pegavam de novo. aí eu me escondia, armava fugas e sempre, sempre, era recapturada. era terrível. numa hora eu comecei a falar. falei tanto, fiz um discruso tão magnífico sobre a guerra, chamei todos eles de seus bostas e me senti muito bem no final.

sexta-feira, junho 25, 2010

E ONDE BUSCAS O ANJO SOU MULHER
Você é um porco espinho. Fui brincar, me espetei. Aí doeu.

Fiquei longe. Quilômetros de distância me separaram do bichinho.

Um dia, bem depois, eu o vi de novo, sem querer, sem nem esperar que um dia eu pudesse vê-lo de novo. Era lua cheia (perigosa);

Primeiro, meio arredia, não quis me aproximar muito. Peguei um certo trauma desse bicho, porque ele engana bem.
Aí pronto.
Ah, ele é legal o porco espinho. Olha só, todo redondinho, não parece que vai fazer mal pra ninguém. Me enfeitiça, porquinho.
Cheguei perto.
Ai, tem espinho, esse porco espinho. Dá pra ver. Mas é tão bonitinho, coitado. Nunca que vai fazer mal pra alguém. Ah, olha só. Esses espinhos aqui ó, nem devem machucar. Deve ser de mentira, só pra espantar os inimigos – e eu não sou uma predadora (não tanto).
Fui chegando perto e mais perto. E não é que me atrai esse bichinho, me puxa pra perto. Olha!, ele é manso, é até adestrável, eu acho. Eu devo conseguir amansá-lo, claro que sim. Vem aqui, bichinho, pode chegar, vem comigo. Vem que eu te amanso. Vem. Vem. Me enfeitiçou, a presa. E fui chegando chegando.
Quando então finalmente criei coragem e decidi tocá-lo, fui encostar na sua carcaçinha de bichinho fofo e cheguei pertinho pertinho e- aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.












Detesto esses bichos.


E sigo, cheia de cicatrizes.

terça-feira, junho 22, 2010

eu queria falar assim. que essa vida é boa demais. e que ficar sozinha agora é um suplício. depois de dormirmos todos amontoados, depois de nos amarmos nessa intensidade absoluta, todos os corpos, os cheiros que eu já decorei. que essa vida só faz sentido assim, em bando. assim, dividir a vida e a alma com aqueles que nos conhecem mais do que nós mesmos. assim. que a vida não é coisa de guardar pra si. é coisa de gritar aos quatro cantos. de falar, de trocar. de pegar um pouco de cada um pra acrescentar e ir compondo; que a gente nasce assim, cheio de buraco e de vazio, que é pra poder ir completando aos poucos. se nascesse pronto, qual sentido? que eu os amo de alma inteira. minha alma agora é deles. e isso me enlouquece. caminho sem volta. filme maluco. e a travessia mal começou.

quinta-feira, junho 17, 2010

daí eu propus assim pra ele:
eu só tenho um mês. é pegar ou largar.

travessura

preciso cometer alguns assassinatos






então

de mãos manchadas: meus pais irmãos amores e amigos.
o sangue quente deles todos escorre.
daí eu toda entro num estado de transformar, sair do casulo.
daí eu toda diferente, toda outra, cabelo vermelho-sangue, aquela lá que eu busco.
a assassina impiedosa. sem frieza. coração batendo quente. bicho solto cão sem dono.

por enquanto é aguentar esse meio de caminho, de nem ser ou nãoser.

a minha travessia começa com alguns assassinatos.

ouviu, Tom?

terça-feira, junho 15, 2010

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segunda-feira, junho 14, 2010

hoje eu vi um filme lindo e feliz e fiquei tão triste porque eu queria que a vida fosse igualzinha a esse tipo de filme.

domingo, junho 13, 2010

perdi alguma coisa que ligava eu ao mundo. to de observadora nessa história. e observadora não tem graça alguma. legal é ser do time dos que fazem. não dos que assitem. preciso reconectar uns cabos, azeitar uns parafusos, focar. to vivendo louca alucinada fuma bebe fuma bebe fuma bebe bota pra dentro bota pra dentro bota pra dentro. to precisando é botar pra fora. rasgar essa carcaçona. deixar sair o alien lá de dentro, cheio de gosma, com aquela boca faminta de alien recém nascido. com fome de mundo, fome de tudo. to com fome de tudo. e não sacia não sacia nunca nunca. o quê vem pra matar minha fome de coisa maior do que comida cigarro bebida? minha fome é grande, de criar, de explodir a carcaçona, de dançar livre, de mostrar tripa peito do avesso, minha fome de leoa, minha fome de mulher sufocada agonizante respiração presa. quem virá me libertar? e se não vier, se essa história é toda uma grande farsa, não vou esperar coisa nenhuma. vou fazer por mim mesma. eu to com o microfone e tá tudo no meu nome.

sábado, junho 12, 2010

e se arrumou toda, vestido vermelho curto, lacinho preto no pescoço, cabelo preso de um jeito especial, se arrumou, se perfumou, passou lápis nos olhos negros, batom na boca, se arrumou, estava linda, linda, linda. todos diziam: você está linda. uau. que linda.
chegou na festa e se sentiu desajeitada. quis dançar, não conseguiu. quis beber, não engoliu. quis falar, se confundiu. se sentiu não pertencendo, assim linda, mas assim não fazia sentido estar ali, aquele batom todo, aquele vestido todo, aqueles olhos pintados e ninguém a percebia. nunca.

quinta-feira, junho 10, 2010

frio torrencial.
tem alguém aí?
aqui tem mais ou menos
alguém
às vezes mais
e hoje é frio né?
e meus dedos
duros
longos
minhas unhas comidas com algum resquício do esmalte vermelho
anel de espiral contando o tempo
tempo vem e volta
tempo dura
e esbarra nas partes de mim que ficam pelo tempo
que ficam rondando só esperando o momento de, nhac!, chegar


mentira este texto, este texto é uma farsa.
hoje me sinto bem. não densa e trsite como este texto sobre tempo. to feliz da vida.

este texto é uma farsa. em espiral.

terça-feira, junho 08, 2010

hoje eu passei o dia todo com você em mim. agora vou dormir sem você.
É isso:
são tres da manhã eu estou bebada nesta terça feira bêbada total e completamente. Aí eu pensei: vou escrever; tipo o que os surrealistas curtiam fazer, sabe? Livre escrita. Aí eu pensei: vou escrever uma livre escrita surrealista e bêbada e ver no que que dá. O fato é que só amanhã saberei.
Minha amiga Ana Kehl fantástica maravilhosa me acompanhou e me largou bêbada, avenida paulista, luzes inebriantes, eternas. Amo são paulo. Odeio são paulo. Vou-me embora, vou-me embora. Medo da porra. Medo de merda. Medo de nada. Você não é de nada seu medo de merda. Você não me pega. Vem me pegar vem. Pra você ver que você não é de nada. Vou me jogar num outro canto deste globo redondo. Pintar cabelo, heroína, andar de bicicleta, conhecer homens e mulheres, inventar o alemão que eu ainda não sei. Viver diariamente com uma língua que não é a minha língua mãe. Auto exílio, aí vou eu. Me acolham, me escolham. Lá vai uma brasileira arremessada. Lançada em terra estrangeira pra começar outra vida, outra ela. Quem me segura? Quem me cuida? Quem faz minha comida? Me dá bom dia em português? Quem me espera? Nada nem ninguém. E lá vou eu. Agora sim: estrada afora.
Finalmete.

segunda-feira, junho 07, 2010

Desatada dos nós da vida, agora me sinto livre. E perdida.

domingo, junho 06, 2010


as duas primeiras coisas que vou fazer quando chegar em berlim, são:

1- Comprar uma filmadora.

2- Pintar o meu cabelo de vermelho.

terça-feira, junho 01, 2010

de um domingo aí

Ginástica dos dedos. Tec tec tec. Ginástica do cérebro: escrever quando não se tem nada de importante pra dizer. Ainda assim, escrever. Como fumo, por vício. Como um jeito de preencher os buracos. Como um maravilhoso passatempo num domingo esbranquiçado como este. Empoleirada na cadeira giratória. São só dois dedos que digitam todas as palavras: nunca aprendi datilografia. Nunca aprendi a criar coisas profundas com as palavras. Nunca calculei o que estou escrevendo. Nunca fiz aqueles planejamentos para se escrever uma boa redação na Fuvest. Ainda assim, quando me empoleiro, quando os dedos começam tec tec tec, não há o que os faça parar. Uma palavra, outra, e outra e mais uma. E um texto. E eu me descrevendo. E eu me narrando. E eu me escondendo mostrando escondendo mostrando. E eu me deliciando. Fluindo, fluindo. Às vezes sai um bom. Noutras, um inútil.

segunda-feira, maio 31, 2010

E até me esqueci que hoje é segunda feira. E amanhã, terça. E amanhã, cedo. E amanhã muito. Trabalho. Vida labuta de dia de noite. Vida escorrega. Vida entra vida sai. E dói meu corpo o acordar cedo, dói mesmo, machuca acordar cedo. Acordar cedo faz mal à minha saúde. Mental, física, espiritual. Acordar cedo é um estupro aos meus sonhos quentinhos.

Viajo porque preciso. Volto porque te amo.

Viajo porque prciso. Não volto porque ainda te amo.

Viajo porque preciso.

Esse filme do Karim Aïnouz e do Marcelo Gomes que é todo poesia em forma de filme. Que é todo lindo. Todo Brasileiro. Nossos dialetos, nossas putas, nossas estradas de nada pra lugar nenhum. Nossa terra cheia de vida cheia de tudo. Ele começa a viagem contando os dias pra que ela acabe. No final, ele não quer que acabe nunca mais. E que nada é eterno: nem as falhas tectônicas, nem o amor.

quarta-feira, maio 26, 2010

Para o Dr. Maurício que vai me salvar (mesmo que leve 8 anos)

Árvore que quer crescer e é impedida continua crescendo mesmo que torta. Tortuosamente crescendo.

Sou uma árvore de tronco sinuoso.
Tentaram me podar
me impedir
me bloquear

Tenho seqüelas da tortura por todo o meu corpo torto
Na minha língua presa
Na minha coluna em S
No dedinho do meu pé direito que não encosta no chão como o do pé esquerdo
Nas minhas dificuldades de equilíbrio

Mas mesmo tendo me impedido

me atado
e desejado me abortar

Não puderam (nem nunca conseguirão)
me calar.

Se sobrevivi ao parto

à infância

à puberdade cruel e anoréxica

Se cheguei até aqui

é porque fui e sou

forte.

o
bastante.

domingo, maio 23, 2010

Parece que estou vivendo com uma intensidade acima do nível normal de intensidade aceitável. São tantas e tantas coisas que acontecem num dia. Minha vida é feita de dias que amanhecem e quando anoitece eu até já esqueci da hora em que amanheceu. E às vezes anoitece e amanhece de novo, num mesmo dia. Dias de nem me lembrar o que foi que eu vivi na sexta feira, que passou há apenas dois dias. Dois dias são uma eternidade que ao mesmo tempo acontecem na velocidade da luz. Na velocidade de um sonho bom. Já é fim de maio. Onde estive por todo este tempo? Este mês que não vi chegar, não vi passar? Este frio que veio, essa coca cola, esse sítio, essa fogueira, essa bebedeira, esse cair num buraco que abre embaixo de mim enquanto estou dançando, este café com o kenan, estas apresentações lotadas, umas brigas e uns supermercados, umas aulas na usp, uma vaga em berlim, uma viagem para o sertão e uma viagem para a alemanha marcadas, uma vida pra viver e ela passa tão depressa que não consigo sequer saboreá-la. Quero sentir o gosto da vida. Talvez eu tenha começado este texto da maneira errada, O que eu queria dizer é que as coisas acontecem com uma intensidade e velocidade que não dá nem tempo de viver. Me falta tempo de viver intensamente e isso é o opsoto do que eu disse acima. É isso mesmo. Sou profunda e intensamente contraditória. E quem não quiser, não me acompanhe.

quinta-feira, maio 20, 2010

tocar as teclas do computador como se fossem piano e sair escrevendo sons silenciosos.

segunda-feira, maio 17, 2010

agora já foi.
o dia branco dentro e fora. as lembranças esfumaçadas pelo tempo.

quando a gente se encontrou no mundo e era isso que fazia todo o sentido. o que tinha vindo antes e o que viria depois, tanto fazia, já que ali sim o encontro acontecia do jeito mais intenso, mais explosivo, mais certo. e que a gente era foda, exemplo pros outros, até. e que a gente se conheceu todos os dias. e eu esperava ansiosa a hora de chegar na escola livre. umas horas eram muito demoradas. eu queria mais era te ver, fazer as cenas com você, ficar junto no intervalo inteiro, conhecer sua casa, seus pais, interlagos. eu queria mais era viver com você todos os dias sem parar sem respirar, senão parecia que eu ia morrer. porque era tanto amor era tão certo tão justo, o encaixe, o tamanho, a conchinha, o banho, a tv no sofá, as viagens de carro. era tanta coisa em comum. as ideias.
as ideias de vida de arte, de luz, de cena, de nekropolis, de músicas, de estirpe, de club noir, e as discussões, e as inquietações, e a arte e a arte que faríamos juntos, a arte e o amor que faríamos juntos, pra sempre. e o nosso grupo de teatro. e o kenan. e a arte. e o amor.
aí que eu te achava um gênio. e acho ainda.
um gênio chato como todos os gênios são. egocêntrico.
aí que eu achava que juntos a gente ia botar pra quebrar.
você ia me dirigir. e me amar. pra sempre.

domingo, maio 16, 2010

Aí quando dou por mim sinto o peso das tradições sobre os meus ombros. A herança genética. Os jeitos em comum. Os gestos - espera, quem anda assim não é a minha mãe? Ou minha vó? Minha irmã? Não sou eu quem ri assim, quem fala assim, essa voz, a entonação toda, é roubada ou entuxada no meu corpo. Vem com as garfadas de arroz e feijão. Vem das históias do vovô Antônio na mesa das crianças na hora do almoço. Vem com os móveis pesados de madeira escura da casona. Ou do cheiro de remédio no banheiro da Vovó Maria. Vem da mãe. A mãe. A mãe. Que fujo em vão indo cair no mesmo lugar. Nos mesmos erros, mesmas fragilidades. E eu fujo e fujo e corro com fé e nada. E volto pra esse que é o lugar por onde eu cheguei no mundo. Atravessei as suas entranhas, mãe, pra chegar aqui. Como posso fugir das nossas semelhanças?
Não sei se posso. Se sou ingrata. Não sei.

sexta-feira, maio 14, 2010

12/05/2009




Era assim que começava: o dedo indicador dele deslizando sobre o bico do meu peito que fica durinho na mesma hora em que me sobe um arrepio gostoso até o topo da cabeça. Eu enfio a mão entre os seus cabelos e puxo de leve trazendo a sua boca para chupar meus peitos. E de vez em quando ele morde. Era assim que começava. O mesmo dedo entra na minha calcinha e eu gemo enquanto aperto o seu pau com toda a minha mão. Arrancamos as roupas e sentimos o corpo um do outro por inteiro e ele enfia o pau em mim e eu gemo mais alto e aperto ele com a minha boceta. Era sempre assim que começava. E não sei se gemo de tesão ou porque às vezes sinto dor quando o pau entra. E sai. E entra e sai. E entra. E sai. Minha cabeça é minha maior traidora e traz pensamentos de Estêvão e Olívia. De amigas que me esqueceram. Do que comi ontem à noite. Me vejo gemendo pra agradá-lo, pra mostrar que tenho tesão com seu pau entrando e saindo de mim. Os movimentos continuam e se alternam entre reboladas e metidas mais fortes, mais fracas. Eu também rebolo enquanto penso que deveria estar envolvida com a transa e me dói o não sentir meu corpo, chafurdada em pensamentos cruéis. Ele aperta meus peitos. Eu lembro da viagem pra Rio Claro com o Estêvão. Ele segura minha bunda e mete com força. Penso nas rodas de samba quando meus amigos ainda sentiam a minha presença. Ele beija a minha boca. Eu amo esse homem que me come, mas preferia não estar trepando agora. To menstruada, tá ficando tudo sujo e meu pai está dormindo no quarto ao lado. E ainda tem esses pensamentos me aporrinhando enquanto eu gostaria – como gostaria – de estar sentindo tesão com o meu namorado que me fode com tanta vontade. Arranjo uma desculpa – falo que estou sentindo dor, que não estou à vontade, tenho medo de acordar meu pai. Ele pára depois de gozar. Desmorona. Eu saio do quarto para me lavar no banheiro e quando volto ele tem o meu diário nas mãos, aberto na página:
“- Eu posso ser o amante de qualquer pessoa, menos o seu, Sofia – disse o Estêvão. É, ele mesmo, que surgia assim, súbito. Susto. – Por quê não? – respondi perguntando. Engatei a primeira marcha e fui embora rápido. Só o vi apagando o cigarro na calçada molhada, pelo retrovisor. E já o reconheci como se nunca tivesse tido uma separação. Como reconheceria o meu próprio rosto no espelho...”
E as palavras fugiram em revoada, deixando-me quilômetros para trás olhando para ele, meus olhos trêmulos e nus. Agora eu estava nua diante dele. Sem palavras que me escondessem, sem desculpas que disfarçassem. Era eu. Meus olhos e meu corpo expostos verdadeira e dolorosamente. Ele foi embora depois de bater uma punheta ao mesmo tempo em que me masturbou. Levou meu sangue com ele.
E que o meu amor viria à cavalo, rompendo o cimento das calçadas históricas, os discursos super-reproduzidos, as imagens sobre-produzidas e tudo o que é feito de sal. Que viria para me adoçar e me colorir, sendo la dolce vita na Salina Del Hombre Muerto.
Que reconstituiria meus óvulos perdidos este mês e que me devolveria todos aqueles que me disseram tchau. Que me tiraria o teto e me daria o chão.
Este amor-gente-sonho-desejo-ilusão que me apagaria do meu passado e me imporia outro presente. Pessoa feita de nada, de palavra inventada e cara fotografada. Tudo eu de novo e ainda, com fome, com medo e sem sono. Monte de paixão intacta e amor compartilhado. Broto de promessa adiada, de digestão regorgitada. De processo, processo, processo.

Recai novamente meu corpo e, assim, ninguém pelo caminho consegue passar.

Por Joana Elkis, amada amiga,
sensível, forte, foda.

terça-feira, maio 11, 2010

minha queimação no estômago
revolução dentro de mim
eu queria pendurar as minhas tripas num varal
me revirar do avesso no meu próximo projeto artístico
mover minh'alma na direção do público

minha auto-guernica.

Não quero a absolvição

me interessa a coragem

não saber se fiz o certo se disse o que tinha que ser dito se não traí não xinguei

quero estar inteira nesta arte de que escolhi viver

não queria me vender nunca mais

saí tão absolutamente tocada da última reunião com o meu grupo que até chorei. de amor por isso que escolhemos fazer, juntos. por todo esse trabalho. esse empenho. essa paixão que nos move. é lindo e difícil demais fazer teatro. ser fiel a ele. a nós mesmos. ser íntegro. fazer aquilo que de fato nos modifica. que modifica o ao redor. que chega, que toca, que esfrega, convida, que espreme, supera, que cativa, que engrandece, sublima.

sublime o teatro.

sublime a arte.

sublime trabalhar com pessoas pelas quias sou tão apaixonada, admiradora, devota.

a gente pode não estar 100% preparados no quesito atores. mas no quesito seres humanos, vamos indo muito bem.

e não é isso que importa nessa vida?

domingo, maio 09, 2010

porque o mais legal é escrever de amor. pode inventar pode iludir pode desejar. desejar escrever do amor é desejá-lo tão ardentemente que só dentro não dá conta e as palvras vêm pra caber mais, pra ir além daqui, pra pirar no amor.
4 anos de palavras. Trajetos. Planos. Frustrâncias. Successos. Ou não. Até chegar aqui. Quando decido que
a partir de agora, tudo será ficção.

Meus peitos fartos
Meu pelo ruivo
Meu uivo
meu livro que não é mais meu.

Agora é que são outras. Agora é que a palavra faz mais sentido do que nunca. Que a liberdade ganhou outra dimensão. Agora é já.

E já que estamos falando disso,

lá vai o primeiro.

Detesto quem sabe escrever. O que esses não sabem mesmo, é viver. Viver mesmo, com v, com tudo o que é grande nesta palavra.
Me brocha. Me desanima. Não vem escrever cartinha de amor e muito menos bilhete de geladeira.

quinta-feira, maio 06, 2010

curto tuas fotos
teu índice

longos teus cabelos
teu trago
tua língua

sucção lenta

você, ali na janela do outro lado da rua

te decifro
te ignoro

que poderia ter sido

poderíamos ter fugido pra todo o sempre
pra perto ou longe
com você tanto faz

eu do lado de cá
da janela
da cidade
do mundo inteiro

o lado de cá do mundo inteiro
é só o lado de cá da tua presença

terça-feira, maio 04, 2010

felino

Créc.
É.
Esse é o ano do Tigre, meu signo no Zodíaco Chinês.
E é assim que funciona: ou vai, ou racha - você escolhe. Partir ou ficar. Desapegar ou criar nhaca. Ter coragem ou ficar pra trás. Encarar ou sofrer.
É.
To gostando de ver.
O Tigre tá me dando uma puta força.
Voltei pro Kung Fu, descobri que sou uma pessoa agressiva, o oposto de doce, que é o que os outros pensam que eu sou. Tanta doçura pra disfarçar tanta raiva. O lance é canalizar a raiva pro lugar certo. Não deixar virar tristeza, frustração, sofrimento, que é o que acaba acontecendo muitas vezes. O lance é saber se defender, e nem sempre pra se defender precisa atacar. Precisão na defesa. Precisão no ataque. Ser certeiro. É essa a força exata, não mais, não menos, essa. Ié.

segunda-feira, maio 03, 2010

Cisão

Não to enxergando muito bem. Tá embaçando a minha vista. A cabeça dói na região dos olhos. Hoje na faculdade não enxerguei a lousa. Sempre me orgulhei de ser dessas pessoas que não precisam de óculos. Sempre disse assim pras pessoas: "a minha maior qualidade é a visão. Eu enxergo muito bem". Aí eu é que lia as placas de rua, à noite, perdidos pra festa. Eu que via de longe qual era o ônibus certo. Eu que lia a bula de remédios pra minha mãe. A conta do restaurante pro meu pai. Agora sinto como se eu tivesse perdendo meus super poderes. Quer dizer, o meu único super poder. Isso é realmente terrível. Agora, por exemplo, não to nem olhando a tela do computador. Só olho pras teclas. Quando olho pra tela minha cabeça lateja.
Estou me transformando em mais uma reles reles reles mortal.
Detesto ser reles.

domingo, maio 02, 2010

mañana

6 in the fucking morning.
vontade de escrever, do além.
tá foda o teclado. de enxergar as teclas.
o dia ainda não veio. o amor já foi. fico eu e essas letrinhas miúdas. migalhinhas de letras esparramadas.
se esparrama pelo chão.
é migalhinha ou migalinha?
hahaha
mi galinha.
mis galiñas.
vengam galiñas.
vengan com la madrugada ardiente.
la madrugada que se madruga en fiebre.
el suelo, la luna que se pongô.
el suelo que arrebenta la placienta de Diós.
dios el barbado señor, el pobrecito que madruga todos los dias. dios ayuda quien cedo madruga!
estou completa e alucinadamente fora de mim.
é bom registrar esses momentos de inspiração etílica, latina e madrugadora.
és eso. punto final.

sábado, maio 01, 2010

Carta de intenção

Não sei por onde, mas eu começaria mais ou menos assim:

me chamo sofia sou brasileira tenho 23. quero fazer esse curso porque quero sair deste país de merda que não dá espaço pros artistas. quero ir prum país onde os artistas são tratados com seu devido respeito, onde sua importância é reconhecida e cuidada. quero ter espaço pra criar. quero ver novos ares, cansei dos espetáculos daqui. cansei da praça roosevelt, dos sescs, dos sesis, dos antunes, zécelsos, dos musicais, dos alternativos, dos radicais e dos doidões. quero ver coisa nova. quero vocês seus alemães malucos. quero ver como vocês pensam essa coisa arte, esse negócio de teatro deve ser um troço bem diferente pra vocês. isso porque vocês já estavam escrevendo coisas geniais muito antes deste país se entender por gente. isso porque vocês possibilitaram goethes e schillers, e brechts, e heiner mullers. eu quero isso aí, tá? aprender essa cultura aí. posso? vocês aceitam uma brasileira atriz que quer escrever que quer dirigir que quer existir e viver disso pra sempre? vou praí ver como é que vocês fazem. aí quando eu cansar vou pra outro lugar. e outro. e mais outro. e vou assim: vivendo e experimentando. aprendendo umas línguas, tomando uns drinks, curtindo umas paisagens, uns passeios, uns rios e pontes antigas. nos intervalos escrevo, piro, crio. trabalho. aprendo línguas, conheço gente, gente, gente. adoro gente.

sem mais,

sofia.

sexta-feira, abril 30, 2010

Distração


assim: que me distraí
e quando fui
e quando vi
não tinha nada ali
ou aqui
assim: desandei
como faz pra desandar?
simples
só não deixa fugir a vida
eu deixei
escorreu entre os dedos e os joelhos
encolhi
fiquei
e ela foi
sem mim
volta
volta aqui
corre anda rasteja
vem cantar!
como quem resiste!
que eu to me encontrando de novo
debaixo desse pó
dessa fumaceira de cigarro
dessa bebedeira
dessa bobagem toda
vem que eu te aceito
vida
me escolhe
vida
me espera
vida
vamos viajar?
vamos mudar o rumo das coisas?
vamos falar alemão?
vamos estudar em berlim?
vamos vida?
você me aceita de volta?
eu tenho planos
não tenho?
eu tenho desejos de grandeza
de plenitude
de evolução
de trabalho
de teatro
eu tenho, tenho mesmo!
você acredita em mim, agora, depois deste desvio, você me quer de novo, vidinha?
ó vida
ó vida
come on
let´s do it
até o fim
juntas
vamos passear
(se embebedar só de vez em quando)
vamos aprender
esquecer
aprender
esquecer
cair tropeçar
dormir
morrer
rir
uivar
vamos?
estrada afora
colo
ombro
duas partes
do consolo

sábado, abril 24, 2010

As amigas têm sido minhas melhores namoradas.
É bom que são várias e tão diferentes que se eu me canso de uma tem a outra e se gosto tanto disso numa, amo muito aquilo na outra.
Se a gente pudesse ter assim, vários namorados, e que eles se complementassem! Um é incrível nisso e chato naquilo, o outro, ao contrário. E o outro, tem tudo isso, mas não tem aquilo. E aquele outro, às vezes me canso dele, mas ele também é genial em alguma coisa. Não seria mais simples?
Mas aí não pode.
Tem que escolher um e ir até o fim com ele. Tem que esgotar, cansar, saturar, brigar, amar, querer, enjoar, grudar, viver, sugar tudo de apenas um.
E depois a relação fica esturricada.
Já tentou de todos os jeitos.
Já conhece acordando, dormindo, comendo, tomando banho, de mau humor, bêbado, feliz, num ótimo dia, com trabalho, sem trabalho, na rua, no campo, na fazenda, na praia, de roupa, sem roupa, de sunga, de cueca, de regata, de manga comprida, no carro, num barco, no café e na janta.
Não resta mistério, suspense e nem segredo.
Se não fosse apenas um, e de cada um se conhecesse só até um ponto, nunca além, nunca ultrapassando o limite do saudável, seria possível?
O problema é que podem virar várias relações ultra superficiais e nunca nenhuma nos deixaria marcas profundas.
Gosto das marcas que as pessoas importantes deixam na gente. Na alma da gente. É pra sempre.
É. Melhor deixar pras amigas este incrível papel das minhas inúmeras namoradas.
to que to quase desmontando. esparramando. esvaindo indo indo.
que equilíbrio não tem graça nenhuma. estabilidade não leva ninguém a lugar nenhum. nem vontade de escrever dá. a inspiração vem da instabilidade. vem do desmorono, desconsolo. vem do barranco, não da planície. daqui de cima vejo um zilhão de caminhos, todos possíveis. agora é escolher e ir. mirar e acertar. lançar minha flecha pro mundo, botar meu bloco na rua, fazer a invasão, o ato subversivo que é viver. quero ir minha gente. simbora. ver irene rir.

quarta-feira, abril 21, 2010

"...se a solidão passa tão lentamente, será que vou morrer mais tarde que os outros homens? Eu te imploro uma resposta.
Sempre sua,
Lucila."

domingo, abril 18, 2010

"homem é um bicho... (procura a palavra na cabeça), um bicho... (procura a palavra) é... um bicho... (encontra!) O homem é um bicho."
Olha só pra ela, ela não tem mais 17, não tem mais cabelo comprido, nem aparelho nos dentes, nem usa mais a saia de bolinha preta e branca. Não é mais filha. E isso já faz tempo. Mas olha só ela. É meio uma outra ela, não é não? Não sei se cresceu se engordou se amadureceu. Mas é alguma outra coisa que se aproxima mais de uma... mulher? Será? Mulher? Às vezes parece tipo um molequinho. De cabelo curto, quando não pendura brinco nas orelhas, aí confundem na rua. É? Menino? Mulher? Quem será que ela é? Será que sabe ou só intui? Encaretou? Endureceu? Ou relaxou e isso nem importa tanto mais. E depois vem. Depois deve vir. Alguma nova ainda que ninguém sabe. Não se conhece, porque só dá o ar da graça muito de vez em quando. Até lá o cabelo já cresceu, e dizem que aos trinta as mulheres se sentem muito... mulheres. Aí sim.

Veremos.
Viveremos.

sábado, abril 17, 2010

Embasbaque


Abro a porta do elevador e me deparo com um quadro, azul da cor do amanhecer que está ali do lado de fora da janela, o quadro azul encostado na parede. Abro a porta e páro diante do quadro azul. É um presente. Deixaram aqui pra mim. Para que quando eu chegasse em casa, 6 da manhã, já sem distinguir as coisas muito bem, com o dia insistindo em amanhecer na rua, para que eu ficasse ali, embasbacada. E fiquei ali, embasbacada, e não há melhor palavra para aquela sensação.
Ele pintou o quadro, entrou sorrateiro na minha casa e deixou-o encostado ali.
Para que quando eu chegasse em casa eu me deparasse, sem nenhum atenuante, com aquela dor escancarada na minha frente. Aquela dor aguda do quadro azul, do rosto do homem desconfigurado de dor, da mulher, do vermelho.
Nos olhamos por um longo momento, eu e o quadro.
Ele me disse mais coisas do que todas as palavras gastas nos últimos meses entre eu e o seu autor. Ele me disse mais do que todas as letras do alfabeto, todas as palavras de todas as enciclopédias do mundo. Na verdade, ele não disse. Ele gritou. Ele explodiu meus tímpanos, me ensurdeceu, ele me pegou e me virou do avesso.
Embasbacada ainda, pego o quadro em minhas mãos. Ele trêmulo assim. Ele esvaindo se desfazendo. Mas duro. Mas forte. Mas bravo. Eu o acolho. O trago para dentro do meu quarto. Pode passar a noite aí, hoje, falo pro quadro azul. Você tá frágil. Fique aí enquanto precisar ficar.
E o dia já está inteiro claro. E o girassol murchou na minha janela. E as luzes do centro ainda estão acesas. E alguns carros ainda transitam pela rua.

sexta-feira, abril 16, 2010

conversa de maluca

calminho aí, sr. ego, fica aí que eu já te dei bastante atenção até hoje. agora são as minhas outras partes que vão falar. e eu vou ouvir. shhh. você não, ego. você fica aí na sua, baixa a bola, pianinho. quero ouvir a inteligência. quero ouvir a emoção. quero ouvir sei lá quem mais que existe aqui, porque você, sr ego, tomou espaço demais. espaço demais que não é só pra você não, tem que aprender a dividir com os outros. e agora eu vou te deixar no seu devido lugar. porque você não tem me ajudado a tomar as melhores atitudes. você é dos prazeres fáceis rápidos e imediatos. você é do material da preguiça da comida. você é do egoísmo. você é do elogio e da crítica. se prende nessas coisas bestas. você é do consumo do consumo do consumo. da vaidade, é você, viu? eu até reconheço que você pode ser útil em vários impulsos, em vários movimentos que tomei, que me coloquei, que fui e tal. mas é aí que você tem que ficar e deixar eu ouvir o resto, pelamordedeus.

terça-feira, abril 13, 2010

sonhei assim
morria e me transformava numa cobra
uma cobra linda
ela (eu) era sagrada
as pessoas me veneravam
eu, sendo eu uma cobra, usava uma roupinha brilhante, sagrada
eu, sendo eu uma cobra, era mantida presa por uma espécie de teia de aranha
eu ficava presa porque eu era muito perigosa

numa certa altura do sonho
eu começava a comer esta teia que me prendia
e enquanto comia a teia eu me libertava dela
e quando comecei a me libertar
as pessoas em volta fugiram, apavoradas, já que eu era cobra perigosíssima, cheia de dentes
eu comia a teia grudenta esquisita, me lembro da boca aberta da cobra eu, cheia de dentes, comendo a própria teia
acordei pensando naquele lance de que a cobra troca de pele
uma pele morre
pra uma nova nascer
que forte este sonho
minha terapeuta diria: "Sofia, este sonho é um presente!"

segunda-feira, abril 12, 2010

Transcrição de eu mesma

A gente é feito de
A gente é feito de carne e de vácuo
De uns buracos negros que às vezes a gente tapa com cigarro
Não
De buracos negros que a gente tapa
De buraco negro que
Que que a gente tapa com cigarro
ou com amor
Deixa sangrar deixa doer
é boa a sensação do buraco
também é boa a sensação do buraco
por mais que doa que arda que pinique
uma sensação de tá vivo
uma sensação de ser
um ser humano
com sensibilidade
e é isso que eu sou
um ser humano com muita sensibilidade com muito descontrole dessa sensibilidade
Ainda
em busca
não sei se sensibilidade se controla ou se ela é feita pra ser descontrolada mesmo
mas é linda ela
Buraco a gente às vezes até tapa provisoriamente quando a gente tá pleno quando a gente se sente feliz quando a gente encontra alguém (respira) legal
(sussurra) mas ele continua lá
é engano achar que (pausa)
que a gente vai se completar algum dia
a gente é feito de...
pra ser incompleto mesmo
tipo peneira
a gente é feito de carne e de vácuo
é isso
(passa um caminhão)
e
se é pra doer agora deixa doer
já doeu tão mais antes
eu sobrevivi (chora)
a duras penas (chora)
eu me fortaleci (ainda chora)
eu deixei o buraco um pouquinho menor
eu to mais forte to mais resistente (tenho certeza disso)
(respira)
eu realmente queria que tivesse sido ele
o homem
se fosse só a cabeça que escolhesse que mandasse seria ele
mas (expira)
o corpo o sexo
o resto
diz que não
diz que acabou (pausa)
e tá sendo difícil enganar esse resto (pausa)
disfarçar com pensamento elaborado
pensamento elaborado pode me convencer um pouco
mas não por muito tempo não
não mesmo
(funga com o nariz)

(se fosse possível, eu anexava a gravação)

sábado, abril 10, 2010

Garrafa de vinho na mão, pela metade, argentino, barato. Sanguinolento. E quase bato o carro. O vinho me escorre pelo canto da boca, vampiresco. Minha amiga psicóloga me aconselhando, no copiloto: patati patatá. Adoro ouvi-la falar. Fale Ciça. Me ilumine, Ciça. Não me julgue, me entenda Ciça. SOCORRO Ciça! Solto um berro agudo. Foi por bem pouco, quase tive um ataque do coração. Aquele cara do carro prateado deve me xingar tanto a essa altura. Talvez me xingue até amanhã de manhã.
Desço a Consolação, lenta, casaco preto grande, noite fria e boa, vinho argentino barato, e vou dizendo "je suis rimbaud, je suis verlaine, je suis le vin, je suis le pain, je suis la citée". Assim, num francês que eu nem soletro bem. Maquiagem borrada, saindo do teatro. Feliz. Emocionada. Poetisa. Que nem escrevo mais sobre nada. Receita de bolo. Idéias vagas, calçadas, pés. Só importa se as palavras soam bem. E mais nada. E que nestas noites de outono e vinho me sinto livre. Me sinto bem.

Cura

Ar frio, dia branco, sábado.
Eu transbordando. Espirrando. Faltando ar.

Daqui a pouco tenho que chegar no teatro. E dar conta. Meus pulmões, minhas cordas vocais, minha garganta, meu corpo inteiro vão ter que funcionar ali. Mesmo que eu aqui esteja pela metade. E foda-se espirro, catarro, garganta com bola de pus. Foda-se noite de ontem, os sonhos mal assombrados, a cólica. Foda-se. A preguiça, o desânimo, a dor nos ossos.
Aí o teatro vem e passa por cima, atropela, suga. Ainda bem. E sempre que termina a peça eu me sinto curada. Teatro cura sim. Faz bem pra cabeça. Te faz sair de dentro de dentro de dentro. E o que acaba conosco é a cabeça. Sempre ela.

segunda-feira, abril 05, 2010

Eu me interesso pelo de dentro das pessoas. Não tão dentro tipo rim, tripa, coração. Não. Essa parte eu deixo pros médicos se interessarem. Me atraio pelo entre. Entre a tripa e a casca. Sei lá o nome que dá pra essa parte do corpo humano que acho que não pode nem ser considerada corpo humano. Mas sei que é aí que mora o alguma coisa que uns têm e outros não.

domingo, abril 04, 2010

de um domingo aí

Ginástica dos dedos. Tec tec tec. Ginástica do cérebro: escrever quando não se tem nada de importante pra dizer. Ainda assim, escrever. Como fumo, por vício. Como um jeito de preencher os buracos. Como um maravilhoso passatempo num domingo esbranquiçado como este. Empoleirada na cadeira giratória. São só dois dedos que digitam todas as palavras: nunca aprendi datilografia. Nunca aprendi a criar coisas profundas com as palavras. Nunca calculei o que estou escrevendo. Nunca fiz aqueles planejamentos para se escrever uma boa redação na Fuvest. Ainda assim, quando me empoleiro, quando os dedos começam tec tec tec, não há o que os faça parar. Uma palavra, outra, e outra e mais uma. E um texto. E eu me descrevendo. E eu me narrando. E eu me escondendo mostrando escondendo mostrando. E eu me deliciando. Fluindo, fluindo. Às vezes sai um bom. Noutras, um inútil.

sexta-feira, abril 02, 2010

Ode à cidade (de São Paulo)


Apaixonada por São Paulo há uns dias (ou anos?). Intensamente apaixonada por São Paulo. É. Assim, por cada rua que passo, penso que bom que é. Por cada bar boteco sujo. Cada casa de amigo. Cada esquina. Aqui, o Centro, então, nem se fale. Aqui Augusta sempre. Aqui postes de 1800 com luz amarelada iluminando a São Luís. Tão linda minha avenida! Tão linda minha vizinhança. A Cecília Santa com suas putas e travestis e michês. É tão cênico! Higienópolis deslumbrante com seus prédios de janelas imensas que cada um que eu olho penso que bom seria se um dia pudesse morar aí. A Paulista foda. Não tem palavras que descrevam andar de bicicleta pelas calçadas recém reformadas da Paulista. Ouvindo música então nem se fale. A Consolação, como eu amo a consolação. Vivo buscando-a. A Vila Madalena, pra onde me desloco quase todos os dias. Bar do Biro na Rua Simpatia. Mercearia fantástica. Dr. Arnaldo minha passagem obrigatória, como a odeio durante a semana. Mas a amo profundamente num domingo! Aquela vista que dá pra Avenida Sumaré, aquilo é lindo demais. Pegar metrô quando não tá superlotado também é ótimo. E a feira aqui da Praça Roosevelt é incrível. Várias velhinhas da vizinhança! Amo viver aqui. Trabalhar aqui. Me divertir aqui. Amo aqui. Olhar pela janela e ver movimento até de madrugada. Descer no elevador e sair nesta paisagem de Praça Dom José Gaspar, boteco do pagode, biblioteca Mario de Andrade em reforma há dois anos. E quando os metrôs ficarem prontos, aí vai ser ótimo. Amo aqui. Amo escrever sobre aqui. Acordar e dormir aqui. Ter uma história pra lembrar em cada bairro que passo. Cada rua me lembrar uma situação, um amor, um amigo, um caso. Os teatros. Os cinemas. Os restaurantes. Os SESCs. A Oscar Freire. A Benedito Calixto. A feirinha do Bixiga. O MAM. O Ibirapuera. Pinheiros, quanta lembrança. A Vila Madalena. O Butantã. O Sumaré, a casa do Tom! Alto de Pinheiros, minha infância, minha adolescência. Praça do Por do Sol. Quantas vezes Praça do Por do Sol. Casa do Lô. Casa da Bel. Casa do Guto. Casa da Ana. Quantas vezes casa da Ana. Amo as casas. Amo as pessoas. Amo aqui. Amo os shows no Studio SP ou SESC Pompéia. E quando fica de noite a cidade fica tão mais linda. Desde pequena lembro de falar pro meu pai que amava as luzes da cidade quando anoitecia. Lembro de andar de carro com meu pai, na Marginal, sei lá porque na Marginal, e me sentir grande. Me sentir bem quando é de noite já acontecia comigo desde pequena. Tantas casas tantos apartamentos que eu já entrei, saí, deixei marcas ou não, me senti bem, me senti péssima, me diverti, enlouqueci ou dormi. Quantos elevadores escadas rolantes shopping centers motéis botecos já falei dos botecos, mas sempre os botecos, cada fase um. Já foi o Paróquia. Já foi o Platibanda. Já foi o Bar do Zé. Já foi o Bar do Equipe! kBoom. Barusp. Parlapatões. Satyros. Carniceria. Quanta cidade nesta cidade. Quanta Sofia nesta cidade. Quantas horas no trânsito indo pra Sto. ANdré todosantodia durante três anos e meio da minha vidinha. Quanta Avenida do Estado. Quanta Avenida do Estado. Sta. Terezinha. Praça Rui Barbosa. Escola Livre meu segundo lar. Meu primeiro lar fora de São Paulo. Semáforo. Poste. Cuspe. Meio fio. Amo as palavras que se relacionam com a cidade. Amo os fios o encanamento a geladeira os alto falantes os carrinhos de gás cantarolantes. Amo as árvores que ainda restam na Avenida Higienópolis. Amo a minha janela a minha vista a minha avenida encantadora. Quanta cidade. Quanta vida nesta cidade. Quanta tristeza e choro pelas ruas de óculos escuros. Quanto desamparo. Quantos ensaios. Quantos testes. Quantas camas. Quantos chuveiros. Quanta gente! Quanta gente que vejo diferente e não vejo nunca mais na vida. Cada dia vejo muitas pessoas novas nas ruas e penso que nunca mais vou vê-las de novo. Quanta quanta gente! Aí eu. Só mais um serzinho ínfimo passeando por estas calçadas vida afora de Ipod no ouvido. Às vezes canto junto muito alto. Às vezes me controlo. Às vezes quero morrer. Às vezes parece que não tem espaço pra mim. Noutras, que eu sou dona disso tudo. Oscilo e cambaleio cidade de São Paulo adentro. De noite de dia. Eu aqui. Aqui é meu lar e não quero outro por enquanto. Não quero outra vida. Amo aqui. Amo aqui. Amo aqui. Pronto, falei.

Apaixonite Aguda




"Quando estou longe
Quero ficar perto
Quando estou perto
Quero ficar dentro
Quando estou dentro
Quero ficar mudo
Quando estou mudo
Quero dizer tudo"



Itamar Assumpção

Simples assim.

quinta-feira, abril 01, 2010

Nítido que a Humanidade não tem saída. Não é pessimismo. É só uma constatação e aceitação de que a natureza humana não é doce, não é harmoniosa, e nem sempre é feliz.
Essa coisa de ficar acreditando que temos que caminhar para uma elevação é linda, mas é improvável. Dentro do Homem cabem tantas coisas malucas. E é tão difícil juntar todos os Homens num lugar só chamado sociedade. Óbvio que vai sair treta. Óbvio que vai sair festa. Óbvio que vai dar em sexo e com ele um mundo hiperpopuloso. Óbvio que vai ter inveja, medo, solidão. É natural, entende? O nosso lado meio bicho e o outro lado meio ser civilizado ficam brigando um com o outro o tempo todo. Dentro de mim eles fazem uma festa! Deitam e rolam. Civilizadinha X Selvagenzinha. Quem ganha quem perde, aí depende do dia, dos hormônios, da estação do ano. É preciso aceitar que somos luz e trevas, dor e delícia, horror e maravilha, sempre. E isso não é monstruoso. É humano.

sexta-feira, março 26, 2010

Que me faz sentir viva (escrito em 21 de julho de 2009)

Quando olho fotos da minha infância.


Quando sentei sobre pedras mornas na beira do mar num dia de verão para assistir, silenciosa, ao pôr do sol.


Quando escuto uma música bonita no carro, dirigindo pela cidade vazia da madrugada, em alta velocidade (ou que, para mim, seria alta!), sentindo vento bater na cara e cantando junto com o rádio, na maior altura e intensidade que minhas cordas vocais conseguem suportar. Se for noite quente, melhor ainda.


Quando o sexo é tão bom que quando acaba parece que você está numa outra dimensão espaço-temporal. Parece que se passaram séculos - ou segundos - desde que você está ali. Ou quando tudo fica suspenso e parece que só existe você e o outro em todo o Universo. Que as luzes saindo dos prédios ao redor são meros efeitos cenográficos e toda aquela cidade só existe em função dos amantes atemporais.


Nos meus aniversários de quinze dezesseis e dezessete anos. As festas que dava na minha casa da Sílvia Celeste e eu entrava em êxtase de tanta felicidade. Me sentia importante por ser a aniversariante, era como se fosse uma peça de teatro e eu era a atriz e eles estavam indo me ver. Todos os meus amigos e namorado e amante e pai e mãe e irmãos.


Quando esperneei de dor no carro dele porque ele estava terminando o nosso namoro de quase cinco anos e a minha cara ficou deformada de tanto choro. E eu limpava o nariz num agasalho. Quando pedi para pararmos num boteco e tomei uma Coca Cola naquele pós-choro quase pós-orgasmático me senti viva. A Coca descendo na garganta, o gás e o gelo da Coca, era como se fosse sangue novo atingindo as minhas veias, e fumar um cigarro com os olhos esbugalhados diante daquele que me dilacerava as tripas o rim, enquanto todos os Outros me olhavam como se para uma aberração. Aberração é amar desta maneira!


Andando nas ruas quentes de Nova Iorque de noite, descendo do metrô e andando pelo Brooklyn, de volta para casa.


Em parques de diversão, naquele INSTANTE em que o moço abaixa violentamente sobre o seu abdômen a barra de segurança da montanha russa e você sabe que não tem mais volta.


O primeiro beijo que ele me deu (roubou de mim!) no portãozinho enferrujado e barulhento da casa da italiana ruiva maravilhosa, e os dois estavam com tanta vontade reprimida de tanto TEMPO sem poder realizar o que a gente mais queria. E a lua absurda sobre nós.


Tocar violão com o meu irmão. Principalmente o hit: "... tudo certo como dois e dois são cinco"!


Os segundos antes de entrar em cena. Entrar em cena. O pós-espetáculo que também se aproxima da sensação pós-orgasmo. E fumar um cigarro...


Gritar bêbada nas ruas geladas de Buenos Aires.


Quando comi brigadeiro de maconha em Ubatuba e achei que fosse uma sereia que não sabia nadar.


Quando saía da minha seção de terapia.


Quando escrevo. Quando canto. Quando estou profundamente apaixonada pela vida.

Sexta-feira, março 26

Sobre cactus.
Debaixo de rochas metamórficas.
Em alto mar.
All by my own.
A que fui. A que estou. A que vou vir a ser.
Dentro do corpo e fora as espinhas erupções de pele me dizendo alguma coisa toda vez que olho no espelho.
Não é por aí. Não é por aí, gritam, silenciosas.
Então por onde?
Falta o quê pra desabrochar?
Tem a faca o queijo. Falta o quê?
Falta a fome. Falta o desejo que me movia com tanta intensidade quando eu tinha 16. E 19.
Que eu não me criticava eu ia. Eu me mostrava pro mundo. Eu não tinha medo do mundo. Eu tinha vontade do mundo. Eu tinha fome do mundo. Credo, pareço uma velha e só tenho 23. Credo. Pareço uma chata. E eu era tão espontânea. Era fácil falar. Era simples viver. Viajar. Me embebedar. Era fácil namorar. Era bom.
E agora. É. um pouco. mais. árduo. Criei barreiras. Inventei. Acreditei nelas. E agora. elas. existem. Não sou mais espontânea. Sou calculada. Sou milimétrica. Não me embebedo até passar mal. Aprendi o limite. O chato do limite. Não falo merda. Tenho necessidade escrota absoluta de ser aceita. Não amo. Não. amo. mais.

segunda-feira, março 22, 2010

Olha que maluco:
sentei pra escrever, acometida subitamente por uma pressa de escrever sobre um assunto. Tipo uma necessidade, como dizem por aí. Sentei e pensei. Pra escrever sobre isso preciso antes acender um cigarro. Andei pela casa procurando cigarro e não encontrei em lugar nenhum. Acontece que neste simples trajeto que foi o de me levantar e sair em busca de cigarro, acabei me esquecendo do que eu estava indo fazer e quando percebi estava andando em círculos. Entrando e saindo do banheiro. Do quarto, acendendo e apagando a luz. Abri a geladeira e olhei as comidas estáticas, na cozinha. Abri a janela da sala. E o assunto que me moveu até aqui, aquele sobre o qual eu tinha a necessidade de escrever, me acompanhou durante todo o trajeto maluco dentro da minha própria casa. Fervilhou, eu diria melhor. As palavras na minha cabeça já começavam a estabelecer conexões entre si. Como começar este texto? As frases do meio já vinham se configurando. E enquanto tudo isso acontecia dentro do meu cérebro, meu corpo esquecido, fazia ações burras e cotidians condicionadas. Ações que eu nem comando mais. Meu cérebro se esqueceu do meu corpo e o abandonou e ele ficou ao Deus dará andando em círculos, abrindo armários e olhando para comidas enquanto frases profundas se enfileiravam na minha cabeça. Aí lembrei do cigarro. Aí cérebro e corpo se encontraram de novo. Tchum. Encaixou. E quando comecei esta retrospectiva com tudo o que aconteceu desde o momento em que decidi falar sobre aquele assunto, percebi que não era para falar sobre aquele tal assunto. Achei melhor escrever sobre nada. E vou-me embora que estou atrasada.

sexta-feira, março 19, 2010

Queria que você escrevesse em mim, dentro de mim, em cima de mim, ao lado de mim, que escrevesse mim em você, que escrevesse mim em mim. Que você escrevesse de você em mim, que escrevesse vocês e mins e mins e vocês e nós em nós. Que escrevesse por nós, sobre nós, dentro de nós. Sobre nós, sobretudo. Que escrevesse nós em mim. Que escrevesse. Mim queria que nós escrevêssemos em você, em mim. Você queria? Você quer? Você mim querer? Querer eu quero. Escrever. Nos escrever em nossos mins e nossos escreveres em nós.
Queria que você escrevesse pra mim. Sobre mim. Por mim.
Egocêntrica, eu?

Hoje.

Calor e Cazuza nos ouvidos.
Pernilongo devorando meus pés. E panturrilha. Ai.
Aqui chama Pousada da Terra e é agora meu segundo lar.
Aqui é longe daí. Fica bem em cima no mapa do Brasil. Brasilzão sem portêra. Brasilzão que é um em cada canto.
Quem tá aqui não sai por nada. Fala que São Paulo não faz o menor sentido, São Paulo nem interessa pra eles daqui. E a gente daí fica achando que é o centro do mundo, que no fundo todos estão muito tristes por não terem nascido aí e que tudo o que eles mais queriam era morar nesta cidade megalomaníaca.
Querem nada. Eles ficam é tirando sarro da minha cara. Que São Paulo inunda. Que em São paulo é todo mundo "frescurento". Que em São Paulo você tem que sair da sua casa no mínimo uma hora antes do seu compromisso. E aqui, quando é muito longe, eles saem 15 minutos antes. E aqui tem praia e caranguejo a três reais o quilo e camarão e sol e calor e calor e, affff, calor. O apelido daqui é Terra do Sol. Quando o avião chega no aeroporto a aeromoça diz: "Temperatura em Natal é de 30 graus". E eu penso: "Ah, que novidade!". Aqui a temperatura é sempre de trinta graus.
E eu ando de taxi e como camarão e tomo cerveja e nado na piscina "temperatura ambiente" do hotel e me divirto com meu amigo mineiro e minha amiga natalense e gravo umas cenas nada a ver pro Governo e as pessoas me reconhecem na rua e falam que admiram muito meu trabalho! Rá!! Que trabalho?
Hoje eu estou de folga em Natal. E eu fiz só as mesmas coisas que faria se estivesse em São Paulo. Almocei. Fui no shopping. Fiquei horas e horas na internet. Ai essa paulistanice que não nos abandona...

quarta-feira, março 17, 2010

Ofélia afogada entre pilhas de roupa suja emboladas pelo chão do quarto.

Agarrada ao criado mudo transbordando papéis inúteis que não consegue se desvencilhar.

Sufocada pelo telefone celular que toca grita vibra e nunca é quem ela queria que fosse.

Ofélia intoxicada pelo trânsito calor infernal de fumaça nojenta entrando nos poros aos poucos.

Ofélia no meio fio. Ofélia sem linha. Ofélia fumando marlborão.

No funk. No pagode. Ofélia desafogando.

Ofélia trepando, Ofélia se enganando.

Ela quer sentir saudades e chorar de noite depois de apagar o abajur.

Ela quer criar coragem e jogar fora tudo o que não precisa mais.

Ofélia precisa de tempo pra cuidar das plantas no terraço, dos amigos e do mural de fotos que está se desfazendo na parede. Ofélia precisa cuidar do namorado. Do que restou. Pouco.

Ofélia por pouco, aos poucos, para poucos.