quarta-feira, janeiro 28, 2009

Elas, as

Não sou máquina de escrever. Meus dedos doem de bater no teclado depois de noites incessantes de palavras e cocaína. Tremem. Que eu durmo sonho acordo escrevo durmo. Escrevo dormindo. Escrevo acordando. No carro, na ioga, na sala de estar, trepando com meu namorado, assistindo tevê. É que palavras me perseguem. Frases chegam prontas na minha cabeça e eu tenho a obrigação de armazená-las em mim. Não escolho o momento em que chegam. Elas vêm quando querem (quando não querem não vêm). E quando cismo em escrever sobre elas, as palavras, saem correndo de mim. Acho que não gostam da metalinguagem, preferem ser utilizadas para escrever sobre outros temas ( e é possível escrever sobre tantos, não? As palavras dão conta de tantos temas!). Todos os temas estão nas palavras. E elas me vêm assim, aos montes, às vezes toneladas de palavras caem sobre mim durante o dia, então as descarrego no caderninho, no blog, na parede, no travesseiro, no ralo do chuveiro... Mas eu não sou máquina de escrever. Sou coisa de sentir de viver, não quero ter que escrever sempre e detestaria ser escritora (escrever por obrigação é um fardo!).E agora, tendo dito isso, todas as palavras se perderam de mim, me deixaram só, de frente para o branco da tela que é igual ou pior que o branco do papel em branco.

terça-feira, janeiro 20, 2009

"(...) É preciso afirmar que o sonho também faz parte da vida tanto quanto o cotidiano; isso precisa ser imposto (...)"


Heiner Muller

domingo, janeiro 11, 2009

Ser e não ser

Eu sou de cada um um pouco/ Um pouco amontoado - diz o Gero Camilo.
Enquanto eu: eu sou um amontoado de cada um um pouco.
Tenho um braço de cada tamanho e olhos de cores diferentes. Tenho língua de um, cheiro de outro. Tenho medo de amor. Sinto forte, tenho suor de uns três, quatro, cinco. Tenho voz de muitas. Amor de mãe, dor de filha. Tenho eu com cinco anos, treze anos, dezenove. Sou amontoado de fotos, fatos, pactos de vida e morte, arrependimentos e marés de sorte. Um aglomerado de tias, vós, bisavós. Enterros. Linhas da mão. Passado e futuro no aquiagora. Sou todos os corpos que passaram por mim. Tenho pernas de mil antepassados, força de mil espíritos. Sou Logun Edé. Tigre. Virgem ascendente Touro. Sou minha mãe, meio Bel meio Ana, meio Clara Iza, meio Marina, meio Julia. Meio Cecília. Sou minhas mulheres em mil, em mil em mim. Sobreviventes de guerra me habitam, sobrevivi ao nascimento e chorei nos piores e melhores momentos. Sou uma qualquer. Uma lembrança. O que poderia ter sido. A máxima potência. O menor pecado. De carne osso e sentimento que corta e sangra. Sou todas as menstruações, sou óvulo e espermatozóide. Sou as piores trepadas e os melhores orgasmos. Sou cabelos caindo no ralo, olheiras na ressaca, sou produto frágil: cuidado que entorna. Sou venenosa e líquida. E fleumática e melancólica. E chega disso.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Inescrevível

Sei que sobre experiência de vida se escreve a todo o momento. Tudo são experiências de vida. Relatos, descrições, contos, matérias jornalísticas, romances, poemas, memórias. Escreve-se sempre sobre o dia-a-dia, imagens flagradas na rua, conversas de boteco, filmes ou peças a que assistimos, isso, enfim, a que chamamos vida.
Mas quero hoje escrever sobre algo que vou chamar assim: experiência de morte.
Será que pode?
Sim, estou aqui, meus dedos se movem, meu cérebro funciona, meu estômago ronca - sim, estou viva - mas quero relatar um pouco do que se apresentou para mim na minha experiência de morte e não, não quero gerar expectativas. Não, ainda não sei o que há do outro lado. (Mas agora estou começando a acreditar que deveria ter começado este texto de outra maneira. Assim, só descrevendo o que estou chamando de experiência de morte, sem dar nome, sem começar dizendo que se costuma escrever sobre experiência de vida mas que neste caso eu falaria sobre outra coisa, algo pouco mais incomum mas que é tema de tudo no mundo, ao mesmo tempo).
É o abismo abrindo as suas portas para mim. Quando tenho coragem ele se mostra um pouquinho, quando vem o medo o enjôo toma conta de mim, minha cabeça gira, sinto que estou realmente morrendo. Se esqueço medo corpo Terra gente, enxergo coisas que antes não poderia sequer imaginar. Será que é proibido escrever sobre isso? Será que é escrevível escrever sobre isso? Está difícil. A experiência toda é muito difícil, muito difícil, muito difícil. Me seguro no que me resta: meu ser Sofia, não superior nem inferior a nenhum outro ser, meu ser sabe do seu tamanho, sabe que pode se aguentar - é preciso que eu aguente o meu próprio corpo para que eu continue viva. É preciso morrer assim, essa dor e essa dificuldade, esse abismo me sugando e eu tentando em vão me segurar nos meus sapatos. Preciso me deixar ir, voar queda abaixo e ladeira acima, me entrego Sofia, me entrego ser humano pra voltar melhor, mais corajosa, mais disposta a encarar este mundo de experiência de vida, preciso aprofundar minhas experiências de viva mortal que sou enquanto dura há de ser eternidade.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Materno

Te tiro filho e te tomo mulher. Te bebo, ingiro - indigna do posto Mãe. Mas me esforço - talvez com mãos delicadas demais para me chamar mulher - me esforço por recompensar a tua orfandade. E embalo nos braços um filho com pelos barba cabelos a mamar nos meus seios: secos. Enquanto me mama, me suga, um homem sem fome de filho, com nome de homem, a barba que me machuca a pele fina de menina se fazendo mulher. Te rapto filho e me faço mãe, injusta; um filho que chupo e sequer tive o trabalho de criar. Me chegou pronto, crescido, cheio de pelos e medos pelo corpo todo, crescido dos cuidados da mãe real. A que te nomeou e amamentou sem sentir prazer sequer nos seios, estes sim, cheios de leite e de vida para te dar, para que sobrevivesse ao crescimento e chegasse até mim, assim formado, assim, para me lamber os seios a boca e me chamar de sua mulher. E me disponho, cumprindo um papel roubado da outra - aquela sim, mulher - te amamento de nada, com mamilos vazios e rosados de menina que ainda sou. Enquanto isso fumo, eu a mãe torta, a mãe que pode fumar enquanto dá de mamar, mãe e mulher de um filho homem e pai de mim. Já me chega peludo, cheio de raiva e tesão, os erros da outra - daquela mãe mãe - sou eu quem devo arcar. Não tive a chance nem o trabalho árduo de te educar, mas posso lhe ensinar o ponto onde sinto mais prazer quando me toca, me lambe me roça, eu a mãe que fuma, que se entrega pros seus pelos e medos. Mas nunca te poderei ter pra sempre, já que ela, ela é que sempre o terá, como o pariu filho homem, peludo, barbado, pai de mim.

terça-feira, novembro 04, 2008

Massa

Cadê tua voz
Tua alma
Tua saga?

Cadê Homem nessa estrada?

Tua língua?
Tua pátria?

Tua sorte mora onde morre tua sorte
Onde mora Homem nessa casa?

Cadê tua cruz, vida,
cadê tua saída?

Te retorce
Esperneia
Inventa maneira pra fazer escutar

Se gritasse
Se gemesse
Se tocasse
Se cansasse
Se dormisse
Se morre...

sexta-feira, outubro 17, 2008

Satisfaction

Que me apaixono com a mesma facilidade com que me entristeço. São nuvens que pairam sobre a minha cabeça. De amor, de tristeza, de euforia. Em cada momento me embrulho numa nuvenzinha diferente e embarco; ela permanece instaurada até que venha outra um pouco mais densa, um pouco mais atraente, que me toma e eu - vou.
Tomar as rédeas próprias do meu corpo cavalo. Aprender a domá-lo. Aprender a ser dentro dele, habitando a única casa que me pertence de verdade. Se eu não morar em mim, quem é que vai? Se eu não gostar daqui, quem é que vai? Se eu não domar a mim mesma, se não me confiar, se não me entregar nem pra mim, pra quem será?
É difícil lidar com algo que não me foi dado o poder da escolha (nascer, onde nascer, como, com quem, em que formato!). Ao mesmo tempo, penso, ainda bem que não dependeu de mim a escolha. Talvez eu não tivesse nascido nunca. Teria ficado pra sempre escolhendo qual seria a melhor casa, o melhor corpo, os melhores pais, o melhor signo (quereria ser de Sagitário!). E como não existem as tais condições ideais de pressão e temperatura eu não teria vindo nunca pra esse mundo.
Prefiro ter vindo toda incompleta, mas vim! Prefiro que me tenha sido dado este direito de aprimorar, de trabalhar, de ser, de me deparar, de ir e vir. Prefiro a vida do que a perfeição. Prefiro a dificuldade do erro do que o estático. Prefiro aprender na raça. No vivo. Com os vivos. Prefiro isso tudo a uma espera eterna pelo ideal que não existe. Ideal sedutor, perfeição filha da puta, signo difícil.
Mas que eu queria ser de sagitário, ah, como eu queria!

segunda-feira, setembro 29, 2008

História real

Acordamos com a fumaça invadindo a sala, pela janela do quarto pela janela da sala, pelas frestas deste apartamento antigo que habito. Quatro da manhã. Ao invés do galo, meu pai: "Acorda. Vamos sair daqui. Tá pegando fogo". Não pensei em nada. Calcei meu sapato, peguei um casaco e corri. Quando te perguntarem: "O que você salvaria num incêndio?" responda que apenas a sua própria pele. Impossível pensar em salvar alguma outra coisa. Enquanto desço as escadas do prédio descubro os outros habitantes daqui, aqueles que só encontro vez ou outra no elevador, que às vezes dou bom dia noutras nem tanto, que às vezes até me tratam bem - os vizinhos enfim. Agora descubro-os todos de pijama (e todos descobrem o meu pijama lastimável!). Descemos aflitos e medrosos as escadas intermináveis deste prédio antigo que habitamos. Quantos idosos moram aqui! E eu nem sabia! Tantos já nem andam mais. E agora o zelador os coloca nos ombros e desce com eles as escadas. Corremos para a rua e de lá a visão: um apartamento inteiro em chamas. Chamas grossas, largas, fogo mesmo. Fogo brabo, cruel varrendo o apartamento do sexta andar. Eu moro no oitavo andar e morro de medo de que as chamas o alcancem. "Devia ter pego isto, devia ter salvado aquilo. E o meu celular? Não pegeui nem o celular?" Não. Está tudo lá. Uma vez sonhei que a minha casa pegava fogo inteira, não restava nada e eu só lamentava as minhas perdas materiais. Quanto apego. Quantos materiais. Quantas coisas que ficam guardadas em nossa casa. Nossa vida, eu diria. Aquela nossa vida que vai além da vida fisológica. Aquela vida dos registros, dos sons, dos livros, dos sabores, das roupas, dos lençóis, dos dinheiros. Aquela outra vida que nós temos. E o fogo avançava a cada segundo, rápido que ele é. Os bombeiros se enfiaram no prédio armados de mangueira, muita água para tanto fogo. Lentamente, as labaredas imensas deram lugar à uma fumaça densa e preta. Controlaram o fogo. Aprisionaram o louco, o rebelde o sem limites. Agora havia paz novamente. Amanhecia e os vizinhos voltavam às suas tocas enfumaçadas.

sexta-feira, agosto 29, 2008

os de nós

Será que é de escrever que preciso?
Mesmo que escrever não seja preciso.
Mesmo que viver seja inventar a cada dia um dia novo. Porque a tendência é todo dia ser igual. Sol nasce. Flor murcha. Nuvem passa. Nós, seres de carne e sentimento, de cimento e ciúmes, nós é que inventamos que um dia é diferente de outro dia. A natureza é sempre ela, tem ciclo, tem tempo, mas não está mais feliz num dia do que no outro. Não está de bom ou mau humor. Ela s i m p l e s m e n t e está. E convive com seus semelhantes simplesmente estando. Nós é que destruímos e nos deixamos destruir pelos semelhantes. Nós é que fazemos barulho no sono dos outros. Nós é que engarrafamos o mundo. Nós é que. Nós é que.
Mesmo que escrever não seja preciso, nós é que escrevemos.

às vezes, é o que me resta. noutras, o que me basta.

domingo, agosto 10, 2008

Do tanto que lembrar me dói

Bate relógio bate cabeça na parede
joga relógio no chão
cabeça voa
pé fincado no cimento
agarra



Bate pirulito que bate bate
o anel que tu me destes
joga ciranda na parede
cai de bunda quebrada no paralelepípedo



Qual é a palavra mais difícil do mundo?



Bate na porta
tempo que bate torto
joga tempo pela janela
Sobra eu o relógio o mundo a parede o asfalto



Bate e me parte ao meio
um seio aqui
ali outro seio
um meio que fica meio sem saber
aonde ir

sábado, julho 12, 2008

descabido

Mas do que falávamos, amor meu?
De reveillon e de libido.

Ela escorria libido. Sofrera sempre com a questão de ser ela a mais dada à "coisa".

Mas por quê reveillon?

Porque a palavra francesa que designa mudança de ano mexia com ele.

E ele mexia com ela. E com a libido dela, certamente. "Reveillon é algo libidinoso" costumava dizer a ele que sempre enchia a cara até cair duro na cama. Ou mole, melhor dizendo.

Mas teve aquela vez em que tomamos um ácido e fui eu quem revirei na cama até vomitar - lembrou sabiamente. Ainda possuía alguma memória.

Sabe?, amor meu, eu acho que nunca fui feliz ao lado de um homem.

Ele caiu mudo. Ligou a televisão acendeu cigarro comeu chocolate atrás do outro.

Ainda mudo, olhou com coragem para os olhos cruéis da mulher (de mulher). Ela sorria.

Sabe?, amor meu, - agora era ele quem arriscava - eu fui feliz com você.

Ela vibrou.

Até certo ponto - ele continuou.

Ela lembrou da desmedida das coisas. Sempre extrapolava o tal do ponto. O tal do ponto. Que ponto? Que porra de certo ponto? Ponto errado do caralho. Ela quis gritar. Não o fez. Enfiou chocolate e cigarro na boca seca de mulher.

Até chegar aqui. E olhar daqui pra trás e dar por falta de mim - ele chiou.

E eu por falta de tudo o que de mulher havia em mim antes de você chegar.

Você com essa coisa de mulher. Não tem nada disso. Não me engana, você não consegue me enganar.

Imbecilidade de homem achar que conhece assim tão dentro.

E é essa sua ingenuidade que te impede de ser mais. mulher.

Tenho libido de sobra. Escorro libido.

Uma mulher é mais do que isso.

Você agora quer me ensinar? Agora que me roubou de mim, vai usar o que de mim apreendeu para me E N S I N A R ?

Você me pertencia. Não precisei roubar nada. Me foi dado. Sem choro. Fácil. fácil.

E eu sinto falta do seu sexo de homem que me abandona na cama dormindo de lado pra parede criado mudo do caralho. Você é um criado mudo do caralho.

Não quero te pertencer. Sou maior sou mais que isso de pertencer. MAis que isso de homem e mulher. Sou ser humano. ISso sou.

Até que fomos um tanto gente um ao lado do outro. Mas depois você virou decoração na minha vida. Uma fitinha vermelha extremamente desnecessária. Sou mais mulher que isso de homem e mulher, que isso de pertencer, que isso de ser ser humano. Sou mais. Mulher, amor meu. E isso você não vai aprender nunca.

quarta-feira, julho 09, 2008

dica cultural (!)

Copacabana, mon amour é o melhor filme de todos os tempos. Viva Sganzerla. Viva Brasil.

sábado, junho 28, 2008

cérebrando

agarrar o teclado com a goela toda. engulir computador. letras. parágrafos. explodi-los num espaço mais real, mais concreto, menos ilusório. o que não é ilusório nestes tempos fictícios? minha unha vermelha é uma mentira. meu sangue negro, branco, amarelo e luso-italiano é uma mentira das grandes? eu sou de pele e de osso. dentro é osso fora é fosso. mas me atiro como quem finge saber por onde anda, em que pisa a sola, onde imprime seu rastro. tudo mentira que nada. egocêntrica, inválida: gosta de escrever depressões no relevo. inscrever na terceira pessoa é menos comprometedor. quero e não (quero) comprometer. escrevo sem significado, as palavras vão me guiando e me desviando de mim. fumaça é hoje o tempo duro de roer. duro de passar músculo, veias e ossos pra chegar no c e r n e .

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terça-feira, junho 17, 2008

bomba

Quero me bombardear de algo maior que rua concreto cidadão bem comportado dentro das leis. Quero multas. Mulas de carga. Salada. Roleta russa. Iugoslávia.
Quero escrever ser poder entender o invisível. Escrever cafonice. Ser-me inteira cafona. Sem medo de ser. Sem medo de ser. Sem me perder. Saber o rumo. O caminho de volta pra casa. De noite, me largo, me descalço, me descabelo. De dia sei ler as normas de segurança. Acendo. Aprendo. Abaixo cabeça e ouvido se perde dentro de mim. Quero estar presente. dentro e fora. Quero amor amor, comer amor, me fartar de amor de amor. Carne morta de amor vivo, pulsa, sua, toca sinos o amor. Confunde a visão dispersa na cidade labirinto. Encontra foco. VÊ. Heiner Muller está entre nós, eu sou um pouco de Heiner Muller com Sérgio Malandro. Cifras. Células. Mega bytes. HPs. Hxs. O humano está em extinção dentro de nós. Sou meio gente meio cidade. A cidade me atravessa, me reparte, invade meu cerne de sangue e transforma em CO2 cada fio de meus cabelos. Vou me transgenizando. Higienização do Homem é expulsá-lo de dentro de si. Entendeu? Tanto faz se entendem o que escrevo. Tanto faz. Hoje tudo tanto faz.

quarta-feira, junho 11, 2008

Falar de amor é tocar o improvável o impalpável; algo do tipo alma.
O meu amor é diferente de qualquer outro
Não é verde nem lilás
Não se espreme
Não se corre atrás

Ele me atinge de vez em quando
de vez em nunca
umas vezes poucas na vida ele dá o ar da graça

Faz cócegas, deixa os pensamentos atrapalhados, ensina que a gente não é só cabeça.

Às vezes se confunde com paixão com fogo com tesão
Amor não é fogo nem terra
Nem virgem nem leão

Eu invento o amor quando me dá na telha
Aí eu acredito.
Ele não chama o meu nome
Eu é que escuto bem demais

segunda-feira, maio 12, 2008

Idade

Bate bate bate. Quem?
Ninguém.
Volta a bater. Alguém aí?

Aparentemente não. Encosto o ouvido na porta, quero ouvir, tentar reconhecer.
Ninguém.
Outra vez. Bate bate.

Corro. Seria aquele que me esqueceu aqui? Mas já faz tanto tempo. Dez, doze anos, vai saber. Nem a idade eu me lembro mais. Devia ter 20 ou 25 anos. E ele 30. Ou 17? Vai saber.
Ninguém.

Até que deu saudades agora. Podia ser ele, não podia? Que acordou no meio da noite e sabe-se lá porque sentiu a minha falta. Justo a minha, que mora aqui comigo há tantos séculos. A falta é minha, mas ele pode tê-la sentido, perfeitamente. Claro que pode.
Não pode?

Quem tá aí?

Ele se lembra de onde eu moro. Acho que ele também viveu aqui por um tempo. Não muito. Pouco tempo. Tempo suficiente pra que ele se lembrasse um dia. Um dia ele teria que contar para os filhos. Contar que um dia ele viveu aqui. Comigo.
Teria filhos?

Bate. Alguém?
Ninguém.

Seria um de seus filhos: O mais velho? Investigando a história de seu pai, que agora havia sido assassinado e tudo o que lhe restara era uma carta que dei ao seu pai quando fiz dezoito anos. Tinha essa mania engraçada. A aniversariante era eu e ainda assim eu escrevia cartas. Mas nunca ouvi que fosse proibido escrever cartas no dia do próprio aniversário. Engraçado é. Ou esquisito. Sei lá. O fato é que fiz dezoito anos. Ou dezenove? E escrevi uma carta só com as melhores palavras. Entreguei-lhe a carta junto com a minha alma. É. Bonita essa história.

É você? Veio buscar as suas coisas afinal?

Fiz questão de que ele esquecesse pertences para que um dia voltasse. Nem que fosse só pra buscar os CDs, livros, agasalhos. Eu o esperaria com o café. Ele reconheceria a casa, quem sabe me reconhecesse também. Eu lhe contaria histórias. Ele ia sorrir e fingir que se lembrava. Eu fingiria que não o amava mais.

Quantos anos?

Não me lembro, 20 ou 25, 17 ou 30, 18 ou 19. Não me lembro não me lembro não me lembro e não esqueço que no dia 27 de outubro de um ano qualquer ele partiu pra um dia entrar de novo pela porta, ouvir as minhas histórias fingidas, e eu fingir que vivi todo esse tempo, que vivi intensamente, vivi tudo, enquanto tudo o que vivi foi espera, longa e infindável espera. Mas fui fiel. Uma vez na vida fui fiel: na espera. Nas história que fingi esquecer, nas fotos que fingi rasgar, nas cartas que misturei com minha alma.

Abro a porta. Uma cesta cheia de migalhas do lado de fora. Me deixaram um presente.

Há 25 anos.

Ou seriam 20?

quinta-feira, maio 08, 2008

ME

Frio no dedo e no tendão do meu pé. Endurecida. Auto-censurável ao extremo. Sou a minha pior crítica. Eu poderia assumir a profissão: crítica de mim mesma. Será que existe algo mais chato? Não seria dar importância demais a mim? "Deixe-me ir, deixe-me ir", digo assim, para um eu que mora aqui. Me deixando em paz eu teria um pouco de horário livre para o lazer, as necessidades fisiológicas, os ócios nossos de cada dia. Falta-me libertar de uma impiedosa habitante de mim. Essa daí que vos fala. Que hora é uma, hora aoutra. Hora eu, noutra hora eu mesma, que me rôo inteira em palavras mal cuidadas. Agora quero que se dane esse cuidado tolo; aprisionada dentro de um ego gigante. E me exponho mesmo. Porque já não dói quase nada. Quando quase tudo ainda doía eu me espremia e saía um pouco de sangue lá do fundinho da alma, onde mora a dor e a delícia. O choro e o gozo e a súplica. Agora ando tendo ataques de riso um pouco incontroláveis e nunca foi tão bom habitar essa casinha, esse corpo cavalo que não é fraco não. Ando descobrindo-me dentro de mim ou dentro de algo que me encobria em mim. Que me escondia de mim. Agora tenho vontade de andar rebolando e chamar a atenção dos transeuntes atarefados. E canto alto mesmo "Tira as mãos de mim! E vê se a febre dele guardada em mim te contagia um pouco!". Contagiada de uma liberdade recente, queria que todos ouvissem, vessem, saíssem pra ver a banda passar cantando coisas de amor. Agora falo de amor e é verdade. Agora sim. Enfim sós.

domingo, março 30, 2008

Ninguém mais lê hoje em dia. Apesar de tudo, eu escrevo. E quem divulgar meu blog ganha um pirulito!

Bob Dylan

Em noites de dormir cedo a insônia me traz as palavras, elas dançam na minha frente enquanto finjo ser Bob Dylan pra me divertir um pouquinho. Quem me dera escrever as palavras de Bob Dylan, palavras terroristas de se escrever, exatas para se cantar desafinadamente Bobdylianamente, deliciosamente, eternamente. Sinto cheiros no ar frio do centro cidade olímpica. Capto algos no ar. Rapto-me a mim e me desfaço disfarçadamente. Digito letras tortas e cheias de amor. E cartas me chegam aos montes perguntando : "Você tem algo a dizer?". Ainda não respondi nenhuma, estão todas arquivadas no armário, por ordem de chegada. Quem sabe eu partisse se fosse menos mundana. Me partiria ao meio: uma parte ia e a outra ficava pra ver como teria sido se fosse diferente. Aí dava pra pesar o que teria valido mais a pena. Ir ou ficar? Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva; foi a Cecília Meireles quem me ensinou isso quando eu era bem pequena. Senti que não tinha passado no exame e que deveria aprender novamente o que havia aprendido. Neste momento o que passa pelo meu cérebro: "devo descer e comprar cigarros e me assumo como alguém que voltou a fumar apesar do juramento para a Deusa ou controlo a minha ansiedade e fuma uma maconha orgânica? ". Opção B. Bem mais sábia.
Vou-me.
Liquidar-me em sonhos.

sábado, março 15, 2008

Ar

Dia frio me transfere pra outro lugar, outro tempo, parece um dia assim que eu já vivi, entre tantos, um dia assim especial e frio, especialmente frio, de casaco e frio na orelha, parece que muda a sensação de vida num dia assim frio. Antes eu fumava. Antes era bom estar frio para fumar. A sensação era boa e cinematográfica. Agora o meu pulmão pede trégua e ar. Pede ar frio e só. Ar frio nos pulmões. Mente alerta, espinha ereta, careta de tudo, preenchida de frio e vida em outro tempo que um dia eu vivi. Agora é assim: em dias frios acho bonito os fumantes na calçada. E vejo se o fogo do cigarro deles me incendeia um pouco.

sábado, março 08, 2008

Ela no telefone falava em monólogo suave, com voz de quem sente dor e tenta disfarçar. Do dia, do calor que fazia, notícias da avó, conselhos da mãe, tropeços na calçada, bandido no farol, trânsito na Rebouças, noite quente, pijamas e novela. Dizia, sem pretender que lhe entendesse aquele do outro lado do fio do telefone. No fundo queria que percebesse a voz que tremulava, a afta que doía, que a vida ardia ultimamente, ela sentia, por fim, saudades. Dizia sem dizer as palavras. Esperava que aquele que um dia tinha conhecido entendesse os silêncios, as pausas, os suspiros, a voz baixa, sem brilho. Se ela o reconhecia? Pouco quase nada. Então enfim, uma pista lhe escapou. Um ruído quase nada, quase mudo, quase completamente abafado, desabafou. "Você tá chorando?" perguntou o sujeito do outro lado da linha do mundo da vida. Ele havia reconhecido o piu do princípio do choro dos olhos dela, que ele nem enxergar enxergava. Mas ouvia. E podia sentir a dor da voz miúda, o gemidinho quase quase, quase choro que viria a desabar cachoeira abaixo, só com a pergunta fatal. "Não é choro" respondeu soluçando. Era dor espremida, esperando só o momento certo de vazar. Era dor prensada, com chumbo forte ou aço duro de roer. Era a pobre da dor que não deixavam viver, que não deixavam vazar, se expressar como queria. E a própria dor já sofria de tão ignorada que tinha sido. Mas desta vez ela vinha firme e convicta, como quem diz: "agora é a minha vez, me deixe viver, me deixe viver!". Deixar viver a dor? Só se for lá longe. Longe no fundo do peito ela se desespremia e galopava violenta, pulmão, língua e lágrimas afora. O outro lá do outro lado ouviu. E sentiu. Nele também doeu, um pouquinho, de leve, bem pouquinho e de leve, mas doeu. Enquanto desabava pensava se para ele também doía. De leve, bem pouquinho. Para ela era o suficiente. Bem pouquinho era um monte de dor para aquele a quem a dor não atingia nunca.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Pra ver a banda passar

Agora ecoa o som de trompetes e de bumbos, a jardineira que estava tão triste se esqueceu e pulou carnaval, a cabeleira do zezé a essa altura já está curtinha, curtinha, e eu pude ver o momento em que os cariocas são mais cariocas do que nunca, me esqueci das pernas curtas e pulei querendo alcançar os confetes que voavam alto sobre as nossas cabeças. Me encharquei, me joguei, me fantasiei de girassóis. Botei capa de chuva de estádio de futebol pra não rasgar a fantasia, pra não borrar a maquiagem, pra não deixar a alegria desestampar do rosto. Cantei até
estourar as amídalas, até voltar chorando, cheia de doença no ônibus. Mas o carnaval é mesmo droga pesada, que quando passa deixa depressão e vontade de mais mais mais.

sábado, janeiro 26, 2008

Ver de

Sonhei que eu toda nua, toda toda, rodava em cacos pela casa de minha vó. Subia escadas e escorregava de novo. A cada degrau conquistado, dois recuados, como é árduo. Sentia sopro de vento na barriga gelada, na pele de lagarto estirada ao sol. Depois já não era eu nem mundo, já não era nada que valesse a pena de contar. 
Tudo mentira. 
Como é fácil inventar sonhos.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Defeito

Se gostasse de escrever talvez estivesse salva. Sem gastar saliva ruas afora, noites adentro: escreveria cartas. Através de mim passaria o tempo, o sabor, o não saber quase nada. Quem sabe alguém lesse o que escrevo se eu gostasse mesmo de escrever. Talvez o mundo ouvisse as palavras mudas de alguém que precisa se salvar a todo instante. Talvez o mundo salvaria a si próprio, sem a eterna dependência e espera de que alguém o faça. Se escrevesse melhor, as letras se encaixariam perfeitamente; se a perfeição existisse os virginianos seriam perfeitos; se alguém escutasse o som das palavras escorregando no oco do papel a perfeição mal caberia em si. Se entendesse o que escrevo seria Clarice Lispector e não uma reles, defeituosa e cheia de ambições, mortal. Se eu morresse, as palavras ficavam pendidas e tortas no ar. Se eu fosse homem. Não importa o "se" já que ele nunca é e sempre teria sido melhor se fosse de outro jeito. Se não anoitecesse, se não envelhecêssemos, se pudesse prender o ar e todas as palavras viessem `a mim! Que fácil seria gostar de escrever se elas viessem quando mais preciso e eu nem precisaria implorar. Nem me salvar, por supuesto. Salvar os outros tanto faz já que é tarefa árdua e ingrata. Não quero ingratidão nem palavras erradas na hora certa. Meus textos não tem tema e eu nunca sei exatamente sobre o que quero falar, reles, defeituosa e cheia de ambições. Mortal que sou.  

domingo, janeiro 13, 2008

Estranho o mundo através da janela. Estranho e branco mundo. Hoje as nuvens estão entre nós e o frio instalou-se na minha alma. Sentia algumas faltas quando elas ainda estavam presentes. Abandonei-as e aprendi a viver sem faltas. Com presenças sim. O mundo está longe: depois da janela, depois do precipício da minha janela, ali talvez haja mundo. Ou será que é só mais uma mulher entre uma janela e um precipício o que há por ali? Se nos víssemos (eu e a mulher) em situações tão semelhantes, se nos identificássemos, quem sabe aí eu pulasse precipício abaixo para alcançá-la e - por quê não? - salvá-la. Quem sabe. Mas por enquanto prefiro não me arriscar, não preciso que ninguém me salve, prefiro o apartamento seco e acolhedor. Então eu rolo pela escadaria e me levanto de susto no meio do sonho. Ao meu lado ele dorme e pareceria morto não fosse a respiração alta e bronquítica. Ao meu lado dorme o tempo, o mundo e a névoa se instaura entre o meu travesseiro e o dele. Naquela noite ele dormia enquanto eu me despedaçava em teias de pensamentos inquietos. E tive que olhar para o podre de minha alma, para o podre do tempo e do mundo, para o vômito e o sangue. Naquela noite me desfiz em sangue e vômito e ele dormia ao meu lado na sua respiração ruidosa e alucinante. Percebi mais uma vez que só eu é que posso me salvar das minhas trevas.  

sábado, janeiro 05, 2008

Vendaval

Quero mais é mundo. Passos largos em direção ao mar, lavar alma, sentir areia no pé.
Quero mais é caminho sem medo. Doce-azedo. Caminha pra dormir, carinho pra coçar, roçar perna com perna, deixar levar o vento das horas aconhegada na beira das coxas. Na bainha das ondas do mar, meio renda, meio solta.
Quero deixar soprar a vida por entre cabelos, sentir arrepio de vida na nuca, temperatura ideal embaixo da sombra.
Não quero mais nada que não se encaixe ao tamanho dos meus passos. Quem quiser que me acompanhe.

Eu sempre quis muito mesmo que parecesse ser modesta...

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Por onde andei? 
Meses voaram por mim e sequer escrevi um recado de geladeira. 
Passeei por aqui dentro. Tantas descobertas profundas, amargas, risíveis. Tropeçamos de vez em quando num sapato velho esquecido ali no canto, numa ponta de tapete levantada. Depois a gente lembra que lembrar nem é tão importante assim. Tem feito mais parte desapegar do que qualquer outra coisa: jogar pela janela, queimar livros, esquecer fotografias. É bom assim. Com leveza e amor. Com açúcar com afeto. 
E assim sem mais nem menos se vive todos os dias, mais uns do que outros. As vezes é até possível medir a própria existência, não em anos e minutos, mas no inspirar e expirar as toxinas. No engravidar de criação e ação. 
Preciso engravidar-me do mundo para depois vomitar tudo em forma de arte. 
Eu sigo. 

terça-feira, outubro 23, 2007

Fixo

Ai minha cabeça dói. Cheia de idéia fixa que fixa idéia ruim na cabeça que dói. Que se fixe em outro lugar essa idéia fixa cheia na minha cabeça cheia de idéia fixa que nem espaço pra pensar sobra na cabeça cheia. Lotada. Esgotada de idéia fixa que se fixa na cabeça. Vá. Me deixe fixa em minhas idéias próprias em meus estudos em minhas criações. Vá-se embora daqui idéia carangueja, aracnídea, idéia de uma figa. Se aloje em outro apartamento, alugue outra cabeça vazia que se devote à crucifixos de idéias fixas. Circulando idéia cruel. Se retire da minha cabeça que já cabeceia demais vida afora e tem doído desde que você se alojou e me fixou no lugar-concreto. Quero espaço para o abstrato da idéia nova. Venham saltitando suas idéinhas, venham à mim, sim, venham à mim!

terça-feira, julho 24, 2007

(ex)Citação

"(...) Não pensem, pelo amor de Deus, que meus sonhos eróticos inaugurais eram povoados por fios, válvulas e outros componentes eletrônicos, mas a mulher sonhada, a mulher expectativa era muito sonora. Não que eu fosse comê-la com o ouvido, mas o som foi a primeira mulher que, acordando meus ouvidos disseminados pelo corpo, inaugurou em mim a carne como residência de prazeres(...)"

do fantástico Tom Zé, para variar...

sábado, julho 21, 2007

Meio-fio

Ela - Preciso.
Ele - Precisa?
Ela - Ardo.
Ele - Ando árduo...
Ela - Sei. Me dói isso.
Ele - Em mim mais.
Ela - Mais?
Ele - Muito.
Ela - Me deixe aqui no meio fio.
Ele - Vamos embora.
Ela - Vá.
Ele - Tarda.
Ela - Ardo-me. Deixe-me.
Ele - Até quando vai arder?
Ela - Quando casar sara.
Ele - Só se for comigo.
Ela - Vá.
Ele - Vem?
Ela - Implore!
Ele - Não me canse.
Ela - Me quer mesmo?
Ele - Às vezes menos.
Ela - Comigo o mesmo.
Ele - Assim, a vida.
Ela - Uma pena.
Ele - Tem pena da vida?
Ela - Mais dela que de mim.
Ele - Comigo o oposto.
Ela - Acontece. Dói mais, né?
Ele - Arde de doer.
Ela - Rói.
Ele - Prefiro quando penso menos. Você está me cansando.
Ela - Então vá. Logo. Não quero me perder de ti.
Ele - Tão cedo ainda.
Ela - Seus olhos secaram.
Ele - Árduos.
Ela - Sei. Dói?
Ele - Acostuma.
Ela - Vá. Antes que me canse de ti.
Ele - Tão cedo?
Ela - E tão novos...
Ele - Nós?
Ela - Os meus olhos. E já não suportam o que vêem, tantas vezes.
Ele - Acostuma.
Ela - Já sei. Já sei.
Ele - Vem.
Ela - Suplique.
Ele - Suplico-te.
Ela - Mais.
Ele - Suplico-te mais.
Ela - E mais...
Ele - E mais e mais e mais e mais e mais e te suplico mais.
Ela - Já basta, seu falso. Vamos. Fingiremos a noite toda. Topa?
Ele - Já vamos tarde.

quarta-feira, julho 11, 2007

silencio

Pedir silêncio aos pensamentos é tarefa árdua. Ouço-os rangendo, martelando, indo e vindo num fluxo intenso, pesando, roendo, partindo-me entre mente e corpo.
Escrever é uma tentativa de silenciar o cérebro. As palavras invisíveis ganham corpo, as idéias se materializam, os fantasmas da mente se tornam nítidos - bem na nossa frente. Fica mais fácil saber contra quem é a guerra e no final das contas é contra o meu próprio pensamento que luto ardilosamente. Preciso expulsá-lo para poder receber o que vem do momento, para escutar o meu corpo, para me relacionar com o mundo. É respirar e sentir que o que possuímos de concreto, muitas vezes, é só a nossa coluna vertebral - o que já dá um grande trabalho perceber.
A minha cabeça dói de pensar demais. A coluna dói se a abandono. Dia cinzento é um pé no saco e eu já começo a me desviar do tema. Porque é tão difícil se manter no tema? Os pensamentos são muito mais rápidos do que os dedos digitando e nos escapa uma infinidade de coisas que não conseguem ser escritas. Continuam no plano da abstração e rapidinho fogem de nós. Como os sonhos - em menos de um segundo nos escorrem pelos dedos e o que resta é uma estranha sensação de que muita coisa aconteceu por aqui, mas eu devia estar tão bêbada que não me lembro de nada! Os sonhos são como o estado de torpor e às vezes passam todo o dia convivendo conosco - hora lembramos de um pedacinho, hora o esquecemos por completo.
É preciso que eu me liberte de mim mesma se eu quiser voar de alguma maneira.

quarta-feira, maio 30, 2007

fuligem

Sem tapa nem pata na cara áspera, ergueu os olhos suplicantes de perdão.
Ódio e perdão transbordando nos olhos cinzentos que do mundo só conheciam o capim, a cana, aquela fuligem preta que cobre-a depois de ser incendiada e o facão enferrujado.
Golpeava a cana na base com uma força que nem existia mais. Nem ódio mais tinha de tanto acúmulo, de tanto que já engolira.
Engoliu ódio depois de ódio e os olhos agora se tornaram quase inexpressivos.
O perdão vinha da eterna submissão em que vivera. Conviver com a necessidade lhe transformara num homem que se desculpava por existir, por querer espaço neste mundo apertado, por preferir ser chamado simplesmente de Zé (embora o nome fosse bem outro), por detestar a cana e não encontrar outra saída.
As patas pretas lhe deixavam marcas carbonizadas quando ia tirar o suor da cara.
Homem.
Raça triste.
Espécie em extinção.

segunda-feira, maio 28, 2007

soco

Ai que essa vida tava me apertando os ossos os soluços e eu pedindo socorro socorro.

Ela virou-se e foi nitidamente surpreendida por um bêbado perguntando-lhe onde havia nascido. "Aqui mesmo" foi sua resposta. Então ele gritou um grito bêbado: "Eu tô tentando tirar a cachaça da cabeça mas você não me deixa! Eu sou barriga verde...".
Barriga verde... Seria quem nasce no Paraná? Ela não se lembrou. O segurança do local, já bem irritado com o fato de o bêbado ficar chamando-lhe de paraense, pegou nos seus braços com força e arrancou dali o sujeito.
Ele estava tentando tirar a cachaça da cabeça. É perfeitamente compreensível. Ela mesma já tinha vivido situações de "querer tirar a cachaça da cabeça". Sem sucesso - é claro.

Mas então ela pedia um socorro abafado e o que lhe veio foi um sujeito bêbado, aos trapos, gritando confuso. Ela esperava mais. De maus tratos da vida com os seres humanos já estava farta. De andar sozinha por aí também. Farta de ser um ser humano sozinho como todos os outros.

E a vida apertando-lhe, puxando seus cabelos e arranhando as solas dos pés, cuspindo-lhe na cara, e ainda dizendo (tendo a coragem de...!) que a amava.

Mas também ela amava a vida aos trancos e barrancos, aos trapos, nos barracos, nos sopapos que levava na cara. Amava-a em cada pedaço podre de pão, em cada incêndio e inundação. Amava-a sóbria ou caindo de bêbada, amava-a no forró e no botequim mais fuleiro.

E a vida seduzindo: "Não desista... só os fracos é que desistem. Vai mais um pouquinho... mais um pouquinho... mais um pouquinho". E fraca ela não era não e ai de quem dissesse o contrário. E desistir jamais. Então de pouquinho em pouquinho ela amava a vida, amava cada dia de dor, de doença, amava muito todos os dias de sol torrando a cuca, e dias de pinga e dias de aborto, tudo isso ela amava muito.

Como é que fazia pra sair do ciclo dia-a-dia, que parece mais um furacão que envolve todo o mundo dentro e ninguém sai de lá nunca? Ileso - nunca?

Como é que fazia, meu Deus, pra não ver tanta gente judiada por aí?

Ai que essa vida tava me apertando os ossos os soluços e eu pedindo socorro socorro socorro socorro socorro socorro socorro.

É que o socorro tava mais prum SOCO que sai CORRENDO...

quinta-feira, abril 19, 2007

É cada vez mais urgente viver o hoje.
Deixar as memórias irem.
Desapegar, sair sem as bugigangas penduradas, sem carregar consigo a gosma se arrastando atrás e prendendo os pés. Fixando-nos no lugar.
Tem que largar dos fantasmas, deixar que eles próprios sigam o caminho deles e parem de seguir o nosso. Largar o osso.
É urgente viver cada dia como cada dia.
Como cada ser novo que surge de nós junto com esse dia novo.
Página em branco todos os dias.
Cada dia a história muda, por mais rotina que haja, por mais horário que haja, por mais cidade que haja. Muda. O jeito de encostar o pé no chão ao sair da cama é outro todos os dias. O Bom Dia do porteiro tem uma entonação diferente. O jeito de engatar a primeira marcha e a sensação de liberdade de abrir o vidro e cantar "Hey You´ve qot to hide your love away" é diferente da do dia que veio antes. Os Beatles são novos sempre.
De noite, as luzes da cidade me encantam sempre.
E o jeito de andar na rua e olhar os prédios desfilando ao lado é outro.
É preciso encontrar encantamentos dentro dessa intoxicação em que vivemos. Dentro desta tubulação de gases transgenizados, monstrificados, mumificados. Inseridos na incomunicação absoluta de mundos, seres, habitáts, bolhas (in) visíveis.

Tem que tirar a cabeça do balde e respirar como se pela primeira vez. Fazendo isso todos os dias quem sabe a gente aprenda que não se nasce só uma vez na vida. E que as mortes estão por tudo, e que precisa arremessar o sapo na parede pra ver surgir o príncipe.

O meu corpo às vezes grita por dentro e eu não tenho ouvidos para lhe dar. Por dentro, de vez em quando os ouvidos são surdos demais, perdendo tempo demais com os ruídos que vêm de fora. E quando o meu corpo, as minhas entranhas, pulmões, os meus rins e o meu coração tentam se comunicar comigo eu opto pelo remédio e não pela saúde.

Hoje o meu corpo pede acolhimento. Ele me chama e eu o escuto. Hoje sim.

quinta-feira, abril 05, 2007

Nublado

Dia nublado quase branco fica o céu. E eu pálida atrás dos óculos escuros encaro o mundo encolhido no espaço entre o meu carro e o carro da frente. Tem música no fundo. O Rubi canta lindo e me transporta para um lugar diferente dessa avenida. Fico só com meus botões girando a mil e uma velocidades (do carro para os precipícios, para o céu, voando livre, para os infinitos portáteis de todos nós).

Hoje acordamos sem acordar.
Estômago vazio e bitucas no cinzeiro. Pernas se encontrando nuas debaixo do lençol. Pés e peito dos pés e peitos e lábios e cabelos embaraçados. Garrafa de vinho aberta durante a noite deixou o cheiro se espalhar pelo quarto. Ele sussurra que me ama e eu nunca amei tanto assim um ser humano. Amo a cor do olho, o tom da voz, o formato da boca...

Agora, nesse carro entalado entre outros tantos engasgados de escapamento, eu conseguia fechar os olhos e refazer todo o seu corpo na minha cabeça. E sentir as suas mãos nos meus quadris. E os seus olhos nos meus olhos, os meus olhos na sua boca, a sua boca nos meus seios.

É a minha salvação.

Em dias brancos é preciso se ausentar do mundo.

terça-feira, março 27, 2007

Bêbada das palavras. Já é madrugada acorda acorda acorda acorda. E tudo o que vem na mente emaranhada são cacos de músicas partidas e misturadas com pensamento. Ouço o estilhaçar de bemóis e sustenidos, de fás, sis e rés. Geme de loucura e de torpor. Queria saber escrever com a minha própria cabeça. Chega de música. Preciso do silêncio que se torna escasso neste centro de cidade grande, imensa e omissa. Sinto-me mais uma na boiada do trem. Nunca quis ser só mais uma. (Acho que ninguém de fato o quer). O que eu quis foi partir naquele momento mas não poderia. (Nunca se pode nada). Queria poder tudo. Qualquer coisa. Me virar do avesso e exibir as minhas tripas. Era isso o que eu queria com os meus textos e com o teatro.

sexta-feira, março 02, 2007

Pensando em mudar o nome do blog para "Entredentes". Que, pensando bem, é o oposto de "Estrada Afora". Veremos. Pode ser uma fase, uma fase e só ( e assim espero, sinceramente...)
Quanto mais se quer escrever mais inacessíveis tornam-se as palavras: sinto que fogem-me quando as preciso ardentemente. Assim como os pontos, os dois pontos, as reticências, os travessões. É uma debandada ruidosa. Galopam para quilômetros de distância e escondem-se lá onde a mente não chega e os dedos não datilografam. O fato é que era preciso escrever e na ausência das palavras eu o fazia assim mesmo, tentando mostrar-me autosuficiente no quesito linguagem.
Meu nome é formado por letras. Tem S. Tem F. (e por sinal, nunca gostei muito do som do F em SoFia, mas fazer o quê?).

Fazer o quê se em questão de segundos tudo o que restava era eu e o que de mim restara: as minhas letras não-sonoras, os meus pecados e tristezas, as longas e silenciosas reticências. Tudo formado por letras. O Z em tristeZa é o que torna triste a palavra. Assim como é o X em ineXorável quem traduz o seu significante. E o I em Sofia é o que sempre fez parecer alegre o meu nome, embora agora, no que restava de mim, esse sentimento não se mostrava tão nítido. No que restava de mim (bem ali, no meio do mundo, do caminho, do soluço) moravam algumas lacunas, lembranças e cargas elétricas. Nem palavra tinha mais ali no meio. Muito menos palavra, já que foram elas as primeiras a me abandonarem, ingratas que são. Porque eu jamais as abandonaria. Jamais.

Porque deveria ser proibido escrever quando se está sentindo assim: Nem raso nem fundo. Nem cá nem lá. Nem gato nem peixe.

Porque fica chato de ler (e quem disse que me importo?). (e quem disse que não me importo?).

É. Deveria ser simplesmente proibido. (e então seria ainda mais delicioso!).

Escrever sempre lhe fora delicioso, desde menina pequenina mirradinha ingenuazinha até... bem, até hoje (menina ainda, e pequenina e etc etc).
E as palavras lhe fugiam desde então e com elas foi aprendendo a paciência de esperar pela palavra certa no lugar certo no instante certo. Claro que essas são raras e preciosíssimas, mas não é sempre que elas precisam aparecer. Às vezes elas vêm, como quem-não-quer-nada, de mansinho e vagarinho, até que plim!, dão o ar de sua graça trazendo consigo todo um sabor ao texto que se fazia quase mórbido.

Quase mórbida e a palavra já era tão detestável apenas sonoramente. Como pode, não? Uma palavra possuir um som tão absolutamente repugnante? (vide a própria: repugnante, blah!).

A questão é que não quero me fazer clara nem compreensível e eis aí a razão pela qual as palavras me deixaram, todas. Simplesmente reneguei o motivo principal de suas pobres e cruéis existências: a comunicação. A partir do momento em que não quero, em absoluto, comunicar-me, pluf!, todas desaparecem (espertas elas...).

E eu farei o mesmo.

(queria tanto poder pingar o colírio alucinógeno do Zé Simão...)

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Cegos

Estranha e nua sentei-me na mesa de um café. Não percebi as minhas unhas pintadas (vermelho) e mal notei o cego que tateava as minhas medidas, ao lado. Se ele me queria, não entendi. E também não o quis, não ali, não assim nua e densa. Era preciso estar leve como pluma leve pousa, como abelha em girassóis, era preciso o frescor da abelha no momento incerto. Instante raro de perceber sem ser notada era o que eu buscava por detrás dos meus óculos escuros. Ócios. Era como se eles me tornassem invisível: ali detrás podia ver a sinceridade da cidade escondida, aquilo que não se diz, sequer se pensa. Eu pensei tanto quanto um cão ao abanar o rabo e passei batido em brancas nuvens. Esqueci. E continuei ali. Nua. Estampadamente nua. Rodeada por cinzeiros e cigarros apagados, cafés fortes descendo pela goela fraca e empapuçada. Empapucei-me cedo. Então não havia mais espaço para o mundo dentro de mim.

Perdas e danos

Preciso precioso tempo e palavras perdidas à toa pelo ar conden-concentrado. Ouvido absolutamente límpido para não causar interferências largas. Passos de bêbado caolho entrecruzando a guia da calçada destruída. Em ruínas, cegos caminham caminho noite e vida afora, no escuro do dia que brilha sem se ver. Vendemo-nos em gatilhos e estouros sem som. Procura-se calor entre pernas moles que não firmam carinho, estagnam. Estagnamo-nos no amor, na desculpa de um companheiro tão solitário quanto nós mesmos. Solidões que se encontram, se penetram e não preenchem-se. Olha lá como eles caminham sem se notar. Tocam-se as mãos mas o áspero da pele morta não se faz perceber. Tocar sem sentir o outro é sintomático de uma civilização em cadências quietas e acobertadas. É preciso o amor tanto quanto o vazio de dentro fundo que nos move. A arte diminui, à medida em que não se vê as cores lá fora, o dia passando, a rua em eterno movimento de pés-anté-pés, de bundas justas que desfilam um rebolado intrigante. É preciso a arte tanto quanto o amanhecer infinito, quanto a pele na outra pele, tanto quanto escurecer acende os vagalumes.

sábado, dezembro 16, 2006

Não há nada mais melancólico do que a voz e a gaita de Bob Dylan.
Mora toda uma beleza na melancolia; nas almas que mergulham livres pelos abismos nossos de cada dia. Nas entranhas e estranhezas da casa, da cidade ruídos, desse mundo grande que a gente desconhece.
Encontros afora, voamos incertos rumo ao que nos parece mais certo. De escolhas e atalhos. De atarmo-nos e desentrelaçarmo-nos do que nos atrai e desconcerta.
A infância que nos abandona cedo: quando menos percebi já me escorria o sangue que escorrega agora veias e impulsos, saltos e buracos.
É que me dói um pouco essa coisa vida. Me foi dada assim, sem que eu pedisse a ninguém. Mas agora a imploro como quem reza. Procuro-a dentro e fora, e às vezes encontro migalhas tão preciosas que dá vontade de chorar.

And it´s all over now, Baby Blue.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

número dois

Correu. E correu tanto que se esqueceu da direção correta. Correu sem dó. Correu como quem se despede, se desmede, se desvencilha.

Atravessar cipós partindo-os ao meio ou carregando um pouquinho deles consigo tornou-se a atividade favorita. Assim como desenterrar minhocas ou encontrar ninhos com ovos dentro! Era gostoso, ela achava. Mesmo que fosse assim, sozinha e só, sem dó, sem lá, sem cá. Meio cá e lá, capengando ao pé de montanhas e capins. Os pés de cana tinha aos montes também (desses ela gostava menos, sabe-se lá porque). E cavou por cenouras e lavou-as da terra nos riachos.

Chega de ruralidade.

sábado, novembro 11, 2006

Fuga número um

Como se partisse para não voltar, olhou as horas no relógio pela última vez. E escovou os dentes com calma. Em cima embaixo atrás, fazendo movimentos arredondados do jeito que a dentista ensinou quando era criança. Tinha sido criança e poucas memórias deste tempo ainda lhe pertenciam. O resto tinha ficado dentro de cada casa que morou, de cada cidade, cada coleguinha de escola, cada boneca Barbie, cada primo, de cada doce de leite.
Agora a idéia era partir novamente. E se fosse preciso deixar as lembranças trancafiadas ali mesmo, o faria. Sairia apenas com a mala das roupas e alguns utensílios especiais (é engraçado como alguns objetos são fundamentais para seguirmos viagem). Até uma foto ou outra ela levaria consigo. "Se um dia as saudades apertarem doídas, é uma solução", pensou.
Olhou o quarto como quem se despede do que um dia foi, mas não houve apego: afeto um dia houve. Fechou a porta de casa e saiu deixando o cãozinho branco esperando por um breve tchau, pelo menos. Nem se virou.

A estrada era dessas que não se vê o fim. Mas em algum lugar ela tinha que dar, já que é esta a função das estradas afora (ligar uma ponta na outra ponta). E a menina caminhou paciente no início, depois faminta e mau humorada, então alegre e exausta, e pessimista do meio para o final. Depois deitou-se um pouco no meio daquela estrada (sem carros, sem vacas, sem bicicletas), e colocou os pés para cima. Fez movimentos de quem caminha pelo céu e cantarolou algumas canções que ocupavam-lhe a memória. Remoeu remorsos e roeu as unhas. Depois colocou-se firme sobre os pés pequenos e seguiu viagem.

Recolheu pedrinhas e lavou-as.
Encontrou um cavalo que batizou de Lulu, mas logo o deixou para trás, pastando calmo no seu ritmo-cavalo.
Pulou rios. "Os riozinhos parecem cortes em carne viva da terra roxa. No lugar do sangue, a água vivinha que lhes escorre pelas veias."- pensou. Ela mesma andava sangrando por aqueles dias, deixando rastros finos pela terra.
Alimentou macacos e passarinhos. Cuidou de pombas feridas por aqueles que as atiravam com suas espingardas de chumbo, por pura diversão.
"O homem é mais profundo que os animais", pensou.

Não viu homem naquela estrada que agora escurecia afoita. E cansada da própria voz, resolveu calar-se. Sentia falta de conversa de bar, de violão, de gente falando alto sem se escutar, das ruas intranquilas da cidade que um dia havia lhe abrigado. Agora a luz que tinha era a da lanterna pequena que carregava consigo. O resto era breu. Uma caverna infinita que se tornava o mundo naquelas noites sem lua.

Quando amanhecia ela já punha-se a caminhar novamente. E o fim, quanto mais perto mais longe se tornava.

( a continuar...)

quinta-feira, outubro 26, 2006

avesso

Quando entrei a casa estava revirada.
O estrago tinha sido grande e aparentemente irreparável. Irreversível.

Parei um instante.
Porta-retratos em cacos no chão. Paredes pichadas de tinta preta, escorrendo ainda; vasos jogados e terra esparramada; espelhos desfigurados e panelas sem tampa; cinzeiros esvoaçantes e bitucas por todo o carpete. Minhas fotos queimadas. Meus armários esvaziados.
Sentei-me, quieta, num pedaço de mesa que restara. Estava sã. E salva.

Por onde andei? Por quanto tempo estive fora?

Quis chorar mas não pude perder tempo com este tipo de auto-piedade.
Quis desistir.
Quis rir e dançar pelo carpete da casa detruída.
Quis gritar para os vizinhos. Quis ajuda.

Mas não movi um dedo, quase nem respirei. Fiquei encolhida sobre o teco de mesa pensando em como eu pude ter deixado as coisas chegarem a este ponto.
Rabisquei letras num papel e recitei palavras para ninguém. Passei a rabiscar a parede, molhando o dedo na tinta ainda fresca e esparramando para os pedaços que haviam ficado em branco. Desenhei ilhas, florestas, sóis.

Remei pela sala e fui me reencontrando em cada canto. Lembrei da posição usual dos móveis. Ri da posição usual dos móveis. Ri da minha antiga posição dentro daquela casa, dentro da disposiçao dos móveis, dos cômodos, dos cantos. Naquela época eu andava desviando. Eu gostava de fumar perto das janelas e agora eu acendia o cigarro no meio daquilo que um dia foi sala.
E agora era o que bastava.

domingo, outubro 15, 2006

- E sabe do que mais?!! - sussurrou soltando a fumaça entre os dentes. Falava entre dentes. Rangia-os, quase.
- Hum? - perguntou-lhe, displicente.
- Eu cansei. Cansei de alimentar os pássaros todos os dias. De regar as plantas que você comprou e nunca, nunca, nem sequer olhou para ver se permaneciam vivas. Se hoje estão verdes e radiantes é porque eu as criei. E você jamais me agradeceu por regar as suas plantas idiotas. Eu nem gosto de plantas.
- Nem eu, tampouco. Só comprei aqueles vasos para ver se trazia alguma alegria para essa casa, que já andava quase mórbida...
- Boa essa palavra. Mórbida. É como tenho me sentido vivendo com você. - apagou o baseado, sem passá-lo para Martim.
- Você sempre teve esse humor um tanto peculiar, Ana. Não venha me culpar pelas suas melancolias que já estavam aí bem antes de eu aportar nessas terras áridas.
- "Terras áridas"?! É você quem assassina as plantas e eu é que sou árida?
- Não, não. Se você continuar falando nesse tom que eu não suporto, eu vou dormir, agora mesmo.
- Não na minha cama.
- A cama é minha, Ana.
- Nunca!
- Sempre foi... - disse Martim, tentando acender a ponta que havia restado no cinzeiro.

Ana desistiu do embate por um instante. Olhou ao redor, a sala mobiliada por uma junção desorganizada e sem muito estilo dos móveis dele com os dela. A mesa que herdara de sua avó contrastava comicamente com as cadeiras modernas que Martim havia achado num brechó, baratíssimas. O sofá velho, dele. A luminária que pagou com esforço, dela. A vitrola dele. E os discos, a maioria, dela. Ao perceber-se pensando espontaneamente na divisão dos bens e assobiando "A Rita levou meu sorriso..." , arrepiaram-lhe os pelos da nuca e lhe subiu uma aflição pela espinha.
Chegara a hora fatídica?

- No que você está pensando? - perguntou Martim, que desde que se conheceram, tinha a mania de lhe fazer essa pergunta desagradável nos piores momentos possíveis.
- Estou com medo. - respondeu fechando os olhos para que ele não percebesse o seu choro contido.
- Já? - perguntou, tentando uma aproximação desajeitada e não muito carinhosa.
- Ainda...
E virou-se de costas, e fez um esforço grande para não chorar até que não pôde mais, e libertou todas as lágrimas que havia contido para parecer forte ao lado daquele homem forte com quem vivera por quase quatro anos.

- Isso. Chorar é bom, Ana. - e cantarolou inoportunamente "Chora, disfarça e chora. Todo o pranto tem hora...", tentando consolá-la.

- Cartola agora não, Martim. É muita maldade. Chega de crueldade comigo. Eu queria ter sido feliz com você. Não queria ter que chorar nunca. Muito menos na sua frente. - soluçou.

Martim não soube reagir. Afastou-se de Ana, foi até a janela e enfiou a cabeça para fora, como quando criança, passeando de carro com o pai.
- Pode chorar agora. Eu não olho. Prometo.

Ana fumou. E soluçou e fumou e soluçou e levantou e tremeu e bateu o pé forte no chão e rodopiou sem sair do lugar e se contorceu e levou as mãos à barriga e apertou as próprias coxas. Pausa.


Olhos abertos com dificuldade de tanto choro que tinha escapado, Ana começava a andar na direção de Martim, que de fato não se virara nem um instantinho para ver o espetáculo de sua dor (a dor é quase grotesca, animalesca). Ele lhe tinha sido fiel. Ele sempre lhe fora fiel. Mas nunca regou os vasos, nem alimentou os pássaros e nem cuidou daquele amor tão fértil que ela sentia por ele. Amor de mulher entregue, devota quase. Olhou-o no fundo dos olhos e da alma como que agradecendo por todo o tempo que haviam vivido juntos, naquela casa de móveis e plantas e dores-amores reprimidos. Agora era ele quem sentia medo, percebeu.

Ana foi embora.

E levou, no sorriso dela, meu assunto. Levou junto com ela o que me é de direito, arrancou-me do peito e tem mais...

domingo, outubro 01, 2006

Proparoxítona

Vida
me espera áspera
que venho sórdida
e escrevo póstuma


ou semi-lúcida

Espere-me no vão do momento-vôo

Que eu vou

Vida

me esqueça trágica
ou me beije ácida
que lhe sonho fétida

andando-te estúpida mente

...

Me escorra líquida
quando não mais puder máquina
Para, quem sabe?, lástima
No instante ínfimo


fino fino

Crepuscúlo

sábado, setembro 23, 2006

Im publicável

Fumar café e tomar cigarros. Nostalgi cafeí cotinas.

Cafetina e libidinosa: ando estranhamente virginiana- ascendente-touro.
De desamarrar dos cadarços, desamorosamente dolorida.

Noite chuva à beça nas cabeças harmônicamente doentes. Musical.

Deixando a vida andar com as próprias pernas, crescidinha que está, agora na segunda década nascimento.

Quantas bandas? Quantos vasos vazios, frases sem cor? Anominal.

Anônima.

Animal.

quinta-feira, setembro 21, 2006

O Elevador

com a colaboração imprescindível de Cristiano Gouveia

Afrouxou o nó da gravata que já o sufocava havia um bom tempo:

dezessete anos, mais ou menos.

Elevador. Térreo.

Encostou a testa no espelho do elevador como quem se abandona e o corpo pendeu vencido pela gravidade dos dias de vento seco e ar abafado que acompanhvam aquela semana.

Terceiro andar.

Triste e seca semana de agosto.

De fato, o mês do cachorro louco nunca havia lhe trazido benefícios, não que fosse supersticioso, o sujeito.

Dependurado pela testa colada no espelho, o elevador levava-o rumo ao apartamento que dividia com um papagaio e um peixe solitário, ambos instalados na lavanderia - assim faziam-se companhia, mutuamente (embora não se possa imaginar que tipo de relação pode estabelecer-se entre espécies tão distantes na escala evolutiva).

Nesta hora do dia, tudo o que se permitia a fazer era deixar-se encostar num dos cantos do elevador após ter libertado o pescoço do nó da gravata, fechar os olhos e não pensar em nada. Absolutamente. Décimo quarto andar era o tempo exato que tinha para se recompor de todo um dia de neurônios, discussões, mediocridades. E como eram bons aqueles vinte segundos! Deliciosa a sensação de deixar-se pender, a cabeça pesar, os olhos irem se acomodando e os pensamentos subindo lá para o teto. Ficava o ruído das engrenagens, estalos no elevador que precisava ser consertado diariamente.

Sexto andar.

A porta abre antes do tempo.

Uma mulher que é só perfume desfila elevador adentro, sobre os saltos-agulhas espremendo-lhe os pés. O cheiro entra de maneira avassaladora e o homem sente-se como se de repente tivesse cheirado um litro de lança-perfume fora de época; salta os olhos tentando entender. Desbaratinado, olhos abertos com dificuldade, custa a tomar consciência de que não estava mais solitário no seu trajeto térreo-apartamento - havia agora uma mulher plantada ao seu lado, de cara para o espelho examinando cuidadosamente as novas rugas que lhe vinham despontando na testa, embaixo dos olhos, ao redor da boca. "Ah, mais essa agora!", era o que ele pensava que ela poderia estar pensando naquele instante. Também o mês de agosto para ela nunca tinha sido muito fortuito, adivinhou.
- Ah, tá subindo?! - perguntou a mulher, com ar entediado.
- Sim. Décimo quarto.
- Hum. - bufou. Perfume doce, um casaco preto que lhe caía estranhamente bem e os olhos contornados por um lápis forte. A sensação peculiar de que era a primeira e última vez que a veria por ali. Não devia ser moradora. Seria a amante de algum velho babão? Uma prostituta de luxo? Ou até mesmo a amiga de uma moradora que também sempre havia chamado a sua atenção dentro do elevador.

Nono andar.

Engraçada era a relação que ele estabelecia com os moradores daquele prédio. Com timidíssimos "ois" e "tchaus", de atravessar a portaria e não ver nunca mais. Parecia que as pessoas simplesmente se dissolviam, se desintegravam cidade afora, e só voltavam a ter consistência ali, naquele espaço gélido, íntimo, que é o elevador. De luz fria e espelho escancarando os defeitos.

Envolvente aquela mulher que atravessava sua vida de dias sequencialmente iguais, numa noite que deveria ser como as outras todas.

Mas ali ele permaneceu, imóvel, olhos fechados, cabeça encontro de espelho. Pra deixar crescer outros sentidos, ver passear o cheiro, o quase-tato da pele da mulher sem nome, estrangeira, sombra, nenhuma mulher, ouvir sons, as batidas cardíacas aceleradas do coração daquela, misturadas com o seu, descompassado.

Décimo primeiro andar.

Quase pode sentir sua mão entre dedos. Quase um convite para o 14º andar, para o apartamento, para o sofá, depois a cama, depois cozinha, mesa, banheiro, loucos, encorpados um no outro. Pra ficar ali, na história, pra se contar ao papagaio sua aventura, beber todas e contar ao peixe certas borbulhas de certo amor.

Décimo segundo andar.

Já podia sentir o gosto do pós sexo, de olhos fechados dentro de certo elevador, dentro de certa mulher, nenhuma mulher, estrangeira. E pensamentos rarefeitos no teto, cheirando pele, suor, fim de um dia imperfeito de gravata apertada quase, quase transformado em noite delírio.

Décimo quarto.

Abre os olhos, quase em agradecimento ao que aquela mulher, estrangeira, proporcionou. Que não estava. Não era. Nenhuma mulher. Sonhos só. Só o “pim!” do elevador gritando aos ouvidos o momento de descer Vagar corredor chave porta trinco abrir e fechar descalçar calçado roupa toalha chuveiro aspirina cama.

Cama para novo encontro com nenhuma mulher.Tratar de assuntos de elevador...

“Sonhos sonhos são.”

domingo, setembro 10, 2006

Até o Fim

Boemia que me suga, leva-me a alma e transporta-a ao paraíso dos que pretendem fugir de si mesmos. Pulmão doído. Tempos nebulosos, esses.
Acordo com sol e durmo nesta embriaguez faminta, insaciável, impaciente que ando. De pulos, aos trancos, sem paciência para o farol vermelho, nem pudor para cantar desafinado no meio da rua. Apegada a novas pessoas e a tristes velhos hábitos. De encher e esvaziar, de não se sustentar, de correr e perder o fôlego rapidinho.
Boemia que me suga, leve-me para passear nos teus braços peçonhentos, sob o céu da chuva ácida, sobre o arco-íris da felicidade clandestina dos outdoors. Me leve para correr nas calçadas vazias e remotas, na selva fria da cidade mórbida, moribunda. Tire-me, morta-viva que tenho estado, deste limbo agridoce enjoativo. Vomite-me para que me renasça limpa, sem angústia que reste para contar a história. A minha história começa quando eu me desamarrei sem querer ser desatada. Quando fui descartada sem mais. E é difícil ir fundo nas coisas porque é difícil relacionar-se com tudo isso que nos cerca. Porque é difícil se doar, deixar doer, roer o osso, triturá-lo em pedacinhos de liquidificador. É difícil deixar-se reduzir, quase impossível.

terça-feira, setembro 05, 2006

Manifesto-desabafo-maniqueísta (eu sei)-a-favor-da-arte

O problema é que eles estavam despreocupados demais, e numa sociedade como aquela, era preciso manter-se produtivo a todo o instante. Lá o ócio não era muito bem visto, muito menos este tal ócio criativo de que falam. O importante era estar servindo ao sistema vigente, não deixando nunca que a grande máquina parasse de girar. Era preciso alimentá-la incessantemente, do próprio suor, das próprias noites mal dormidas e dos próprios filhos mal alimentados. Era importante inscrever-se no Exército ao completar os belos e fortes 18 anos e jurar pela própria bandeira defender aquela pátria que tão bem os acolhia. Lá, quando não se vinha de berço bom e farto, era tudo muito mais difícil, e então as horas dormidas eram menores ainda, e os filhos mais e mais mal alimentados. Também ficava difícil de morar em lugar agradável. O mais aconselhável, em casos de baixa renda, era construir a sua própria casa própria na força do muque e, se muito, com alguns companheiros e tijolos. Senão era papelão mesmo. Ou então podia ser até banco de praça para dormir, amamentar os filhos, fazer as necessidades. Comer, lá, era luxo. Coisa para poucos mesmo. Estudar então, nem se fale.Aos que não se enquadravam muito bem no tal regime, dava-se automaticamente alguns nomes facilmente identificáveis, como louco, marginal, trombadinha, drogado, hippie. Assim ficava mais fácil de controlar. É que lá, quando se dava nome às coisas, era possível exercer uma coisa chamada poder sobre elas. É. Tinha essa coisa chamada poder, lá. Era uma coisa que corrompia os que a possuíam, e ela sempre acabava por estar na mão de poucos. Por coincidência ou não, era sempre na mão daqueles que tinham, em maior quantidade uma coisa chamada dinheiro, que calhava de estar esse tal poder. Não era uma regra absoluta, mas naquele lugar, dinheiro e poder eram quase sinônimos. E o mais engraçado é que essa coisa de poder, dinheiro e tudo o mais, calhava de estar na mão de uma tal minoria privilegiada da sociedade. É. Engraçado isso.Enfim.Eles - aqueles aos quais me referia no início do texto- haviam nascido sob este sistema, e por sorte ou não, inseriam-se nesta tal minoria privilegiada. Portanto tinham frequentado escolas em que se pagava para obter educação (sim, pagavam como se paga um produto qualquer). Foram bem alimentados quando crianças, dormiram em camas quentinhas, fizeram aulas de natação, balé clássico, inglês, futebol, violão. Ganharam carros aos 18 anos e escaparam do exército. Cursaram faculdade pública. Viajaram. Fumaram maconha e tomaram vinhos bons nas belas festas de família. Enfim. Eles. Era uma menina e um menino. Irmãos. Criados juntos, mesma mãe, mesmo pai, mesmo leite, mesmo esperma, mesma cor dos olhos. Apesar de tudo eram bem diferentes.Ele desde cedo integrou grupos de discussão marxista, socialista, leninista. Pensou em pegar em armas e fazer a tal máquina parar de girar à força, embora essa coisa de armas fosse parte fundamental da engrenhagem, e ela rapidamente as absorveria. Sem contar que as armas da máquina eram maiores e mais fumegantes que a dos riquinhos revolucionários. Pois é. Ele passava o dia a falar de socialismo e, ao chegar em casa, a empregada havia sempre preparado para ele um prato diferente.Ela descobriu o teatro muito cedo, não se sabe bem como, mas o que ocorreu foi uma súbita identificação. Súbita e profunda. Quando percebeu que fazia parte daqueles que haviam sido excluídos do grande sistema vigente, era tarde demais. Mas junto com esta descoberta, veio também a de que este tal teatro, e esta coisa chamada arte que havia naquele lugar, eram coisas muito poderosas, prontas para voltarem-se contra a máquina a qualquer instante, se não fossem tão sufocadas pela falta de dinheiro. Era muito perigoso dar dinheiro a este tipo de trabalho. Sim, porque a própria essência da arte possuía seus valores fixados em elementos bem divergentes daqueles predominantes. E mesmo porque, era fácil convencer o resto da população de que a arte estava em segundo plano, e afinal de contas fazia sentido, já que a maior parte da população estava antes preocupada em conseguir sobreviver. Muito mais tranquilo era deixar essas pessoas preocupadas e ocupadas o bastante na tentativa de sobreviver num sistema que dependia delas mas as oprimia- simultaneamente, do que deixar espaço para que se preenchessem de teatro, música, literatura. E aí está mais uma coisa que mantinha-se na mão de uma tal minoria privilegiada, e que portanto, estava fadada a correr atrás do próprio rabo, ad infinitum. Mas esta era uma outra tática daquela engrenhagem poderosíssima. Esgotar a arte nela mesma, sufocá-la, "proteger" dela a população domesticada. Para estes eles haviam reservado um brinde especial chamado cultura de massa, para não quebrar com a velha e funcional regra do panis et circences. Amansar a massa para domesticá-la cada dia mais.De qualquer maneira havia uma coisa até meio de outro plano chamada fé a qual ela se apegava. Uma fé quase que imprescindível para se viver em tempos tão fúnebres, cheios de más intenções. Uma fé ardida de que o novo deveria vir pela arte e em especial pelo teatro, de que era lá que a população-massa-de-manobra talvez encontrasse e resgatasse um sentido maior do que era o estar vivo, fazer parte deste mundo, conviver com outras pessoas, conhecer-se a si mesmo, desalienar-se, motivar-se, alimentar-se de algo que vai além da vida e da morte do dia-a-dia. Numa situação em que estar vivo era morrer um pouco todos os dias. E ir murchando. Secando. Até ficar como asfalto, como tijolo, como banco da praça.Contra o acinzentamento contínuo e crescente, estava a arte. E era com ela que todos deveriam confrontar-se, pelo menos uma vez, durante a dura caminhada nesta estrada escura.

quinta-feira, agosto 31, 2006

orgia

Os corpos nus e jogados, manchados de vinho tinto, preenchiam bem o curto espaço da quitenete. Se chegasse alguém de fora naquele momento pensaria ter ocorrido uma chacina, das bem sanguinárias, ali dentro. Na verdade, era bonito de ver aquela cena. Uma composição quase perfeita de corpo largado, bituca e taça de vinho manchada.
Mais nenhum cigarro aceso e todos acometidos por um cansaço insuportável, os corpos não mais dançavam nem se tocavam, agora era só sono que preenchia
o espaço. A luz entrava forte pela janela grande da quitenete sem cortinas e um dos corpinhos começou a querer despertar. Foi vestindo calcinha, calça, sapato, enquanto o frio lhe maltratava os ossos. Tropeçou numa garrafa que fez com que os outros levantassem, rápidos. Entre eles, um silêncio quase absoluto, não fosse a vida real acontecendo lá fora à todo vapor. Mas nos ouvidos ainda ecoavam risadas, música, tosses e gemidos da noitada e tanto. Alguma risadinha sonolenta ainda se mostrou, mas as palavras não se faziam necessárias naquele momento de procurar a meia, vestir a blusa cheirando a cigarro e maconha, tropeçar no cinzeiro, sentindo o gosto desagradável e inevitável da ressaca. O fato é que amanhecia, e toda aquela luz, junto com o sono mal dormido, pareciam varrer dali qualquer dose de romantismo e embriaguez que ainda pudesse ter restado. Havia até um certo incômodo em olhar para os outros.
Os corpos agora vestidos e amassados se dirigiam para a porta, e da porta para o elevador, e do elevador para a rua. Rua.
Vida voltando ao normal , de uma só vez, sem dó.
Há cinco minutos eles eram corpos nus, amontoados e embebidos de vinho.
Agora ele era publicitário, ela atendente de telemarketing, a outra garçonete e o outro escritor. Alguns tchaus e beijinhos comportados.
Os caminhos rapidamente se dividiram, cada um indo cumprir o papel que lhe cabia na sociedade.
Frio doído de amanhecer, rua cheia, e ela seguiu desviando, a pé, até a sua casa, com a frase dita na noite anterior ecoando nos seus pensamentos: "Você me é perigosamente familiar."

quarta-feira, agosto 23, 2006

Por mais que doa, que seja, que fuja.

Ainda que restem um, dois, três caroçinhos de ingenuidade.
E mesmo que anoiteça cedo quando se quer que o dia não acabe nunca.
E que a vida toda ande com as próprias pernas, sem nos causar tanta inquietação.
Por mais que a civilização gere um terrível e eterno mau-e-bem-estar.

Qando não tiver mais soluço para soluçar, e pestana para lapidar.
Como se fôssemos todos patinhos que seguem rumo ao sul, ou gaivotas que vão à pesca, ou ainda, sapos que são engolidos por cobras inofensivas.

Ainda assim. Vale.

Mesmo em pleno inferno astral, ou numa viagem de carro quando o lá não chega nunca. Mesmo que a estante de livros desabe livrando-os todos da ordem decrescente; mesmo sabendo que quem eu quero não me quer e ponto.

Ainda que seja tudo mentira. Ou até mesmo verdade jogada na cara com a intensidade de um soco no estômago.

Mesmo assim. Vale.

Ou quando a lua sorrir mais forte, expulsando do céu qualquer rastro de estrela, tentando por assim dizer, eliminar a concorrência. Ainda que, de cócoras, as coisas não se facilitem muito.

E ainda que a cabeça doa doa doa, ecoa no ouvido um zumbidinho meio mórbido, meio cômico, me dizendo de maneira quase sincera, que as coisas valem ser vividas.


quinta-feira, agosto 17, 2006

Querido Tom

O silêncio gritou nos seus ouvidos e, ao tentar esbofeteá-lo, acabou por acertar a própria orelha e despencou no chão. Salvaram-lhe as mãos, ágeis, amortecendo a queda dura. Despontou um choro baixinho quase mudo, que lhe lembrou de quando era criança e chorava debaixo do cobertor engolindo os soluços, para que ninguém soubesse que estava chorando. O pior é que ele dividia o quarto com o irmão mais velho, e uma vez o Tom até que percebeu tudo e ele ficou com vergonha. O Tom acendeu a luz no meio da noite e as retinas me doeram, enfiei cabeça e tudo embaixo do travesseiro para que ele não visse o meu rosto molhado de lágrima. Mandei ele apagar a luz e me deixar em paz. Ele falou que chorar era coisa de viado, e que esperava que não fosse isso que eu estivesse fazendo. Eu falei "Eu nunca choro". E no final da frase o choro me doía na garganta, estrangulado, preso, quietinho que tinha de ser.
E agora ele estava ali, chorando quieto e sozinho, no meio da calçada, para todo o mundo ver. Os pedestres sérios até que viam, mas não diziam nada, nem uma palavra de conforto para tentar ajudá-lo. De qualquer maneira, não era ajuda de pedestre que ele queria no momento.
Só ela é que poderia salvá-lo. A menina dos olhos-amêndoa que uma vez olhou-o bem no fundo da alma e sorriu, como se lhe descobrisse os segredos e os perdoasse, todos. Ela dizia que não precisava tanto sofrimento, e que mesmo sem amá-lo naquele momento, aprenderia a amá-lo um dia. Há tempos a menina estava querendo se apaixonar, mas infelizmente não era muito ela que conseguia decidir essas coisas.
Ele jogado na calçada e os pedestres o pulavam como se fosse cocô de cachorro. Ele queria tê-la feito se apaixonar, mas infelizmente não era muito ele que decidia essas coisas. E agora não suportava aquele silêncio em plena Avenida da Consolação. Queria ruídos e ônibus e buzinas e motocicletas que lhe ajudassem a distrair o pensamento, mas era só silêncio que pairava, que doía, que atormentava.

É, Tom. Hoje eu tive que chorar. Porque foi insustentável.

terça-feira, agosto 15, 2006

Queria desaparecer por instantes e voltar recém-nascida, maleável, opiniões em aberto, ingenuidade latente. Aí eu iria fazer tudo de novo. E tudo igual. Até chegar a este ponto-encruzilhada-precipício-propício e pensar: queria desaparecer por instantes.

Estive ausentemente doente. Ou seria doentemente ausente? O fato é que estive com a garganta em brasa e uma febre suada. Ficar doente só serve para agravar a melancolia e a solidão de se estar doente. Detesto. Engolindo mel atrás de mel, suco de laranja após suco de laranja, própolis, limão e dá-lhe homeopatia. E após uma boa dose de cama, depressão, dor nos ossos e suor, ufa, melhora-se, um pouco.

"É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte."

domingo, agosto 06, 2006

Destroços

...

estremeci ao arranhar as unhas vermelhas no espelho enevoado pelo vapor de um banho quente. Quando apalpei o pescoço úmido foi difícil encontrar os batimentos cardíacos. Tum... tum-tum...tum... Pulso lento e punhos dispersos sacudiam no ar, como se dançassem em desenho improvável. Como se pela primeira vez eu mal percebesse meus traços num espelho embaçado, comecei lentamente a traçar rabiscos fazendo com que, aos poucos, o corpo fosse se mostrando ali naquele reflexo. Um pouco de queixo. Um canto de sobrancelha. Um mamilo. Um corpo fragmentado e estranho foi aparecendo e se construindo, qual Frankstein de mim mesma. Como se me moldasse num espelho cubista e o corpo não fosse nem mais meu, muito pouco meu, meio caco de telha - caco de vidro.
Pela fresta da porta entreaberta, as gotículas do vapor começavam a se dispersar, e a minha imagem foi se fazendo mais e cada vez mais nítida, até chegar à nitidez tão perfeita quanto um espelho pode oferecer, à imagem e semelhança de nós mesmos. Foi quando apareci inteira só para mim, e incomodei-me estranhamente diante de liberdade tamanha.
Recuei e flagrei o meu cãozinho branco e pequeno e coitadinho: estarrecido. Espionava o meu corpo úmido em cacos, em telhas, em vidros de espelho esparramados pelo chão; pousou as patinhas suaves num estilhaço e deixou rastro de sangue comprido, até a sala. Sangue de cãozinho que nada tinha que ver com meus despedaços: ele não tem culpa de nada.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Em caso de incêndios

Constante disritmia entre as batidas do coração e o sangue que circula pelo corpo. Em outras palavras: rebuliço. Ou ebulição – embora já tenha passado da idade.
Apelo para palavras que, mesmo sem combinar muito bem - tortas que saem, torta que ando – aliviam o descompasso eterno entre pensamentos, estômago e mãos. Preciso vomitar palavras numa folha em branco, preenchendo-a de nada e tudo, de ânimo e de pântano.
O que fazer em casos de incêndio interno?
Dêem-me extintores de âmago!


“Me deixe hipnotizado pra acabar de vez com essa disritmia
Vem logo, vem curar teu nego que chegou de porre lá da boemia.”
Martinho da Vila

domingo, julho 30, 2006

Sangue-suga

Tranço pernas e meios-fios na madrugada eterna de não clarear dia e nuvem.

Meia fina, seios firmes, boca rasgada. A fumaça lhe escorrendo pelos dedos; sangra. Lisos pêlos de tigresa e língua áspera, madura.

Traço linhas tênues joelhos afora e risos de boca entreaberta (entre a dor e a delícia) me censuram, sem mais.

Nunca quis tanto as suas mãos tateando o intangível, o incansável.
Queria aprender a amar apenas com os olhos.

Passa um homem alto alto (desses que não choram) pedalando as solas no asfalto duro de roer; cumprimenta o gari entretido, que sem notá-lo avança no seu serviço enroscado.

Olha a voz que me resta.

Desfecho-me.

sábado, julho 29, 2006

Estou
Sem
Estado

De quatro

De

L
A
D
O

De lado de lá

De pedras e caminhos de folhas
Temperadas
Tropicais

Lugar-comum, qualquer-lugar
Bem-te-vi que bem-me-quer
Ossos do ofício casto
Rastro de inocentes pardais
De pegadas que apagam-se
Esparsas
Ofício duro de cantar e roer e cantar
Trocar singelos pius e arrepiar-se ao sabor do vento do outono que avança e liberta as folhas-mortas.
São leves, essas.
Leves, pousam.
Pousam e piam e cantam e compactuam com o solo fresco que as recebe e se deixa envolver.
É bonita a dança entre a folha, o solo e o vento.
Me envolvo e me deixo arrastar quando acorda o verão.

domingo, julho 16, 2006

"...o amor é trilha de lençóis e culpa, medo e maravilha..."


Tom Zé - o único sobrevivente!

quinta-feira, julho 13, 2006

Retalhos II

Passear com o cachorro que não sabe de nada, ou sabe muito mais do que eu, uma reles sapiens sapiens. Andar em círculos pelas calçadas estreitas e cheias de gente indo e vindo, indo e vindo... E bicicletas me atropelam e macacos me mordem. A chuva cai mais fria do que nunca na minha nuca espremida entre a cabeça e o tronco, me contorço de frio e de alegria, de frio e de medo de vida que me toma sem mais nem menos. A vida acontece mesmo quando não quero. Escalo edifícios e a vida me cai em forma de vaso de flores coloridas (gosto das orquídeas e dos girassóis). A selva-centro-da-cidade esperneia por atenção enquanto viro reviro na cama implorando por um minuto de silêncio, só um instante, só queria um pouco de silêncio. Seria pedir demais?

Fecho os olhos, aperto-os com as mãos enquanto vou entrando debaixo do travesseiro, entrelaçando as pernas no lençol florido até formar um nó de pele e pano e pé e perna e lençol.Resta-me o ar mal respirado debaixo do travesseiro que disfarça muito pouco o ruído da cidade do lado de fora da janela.

Campainha.
“Quem é?!”. A voz surda saindo dos lençóis não chega ao outro lado da porta, e o visitante insiste na campainha. “Espera!”.
Desato-me. Corro (ai!) tropeçando nos móveis da casa (ai!) que ainda não se habituou com a minha presença, até chegar (ai!) na porta. Olho pelo olho mágico (as paredes têm ouvidos, e as portas, olhos): uma senhora e seu gato esverdeado a tira-colo. Tossem, ambos.

Semi-nua, abro a porta sem pudor. A tosse cessa. O gato pula do colo da dona e me olha com receio – prefere ir roçar nas paredes. A senhora pede cigarro com sua voz engasgada. “Vou buscar, espere”. Longa pausa. “Toma”. Ela imóvel. “Quer entrar?”. Sequer hesita e entra estendendo-me um isqueiro que parece mais antigo do que ela. Pausa curta.“Legal esse! Nunca vi igual”, puxo o assunto. Tosses.
Fumamos longa e silenciosamente, lado a lado, enquanto o gato minúsculo arranha as unhas no meu sofá já calejado.
“Música?”, arrisco. Ela vira-se para mim, dá uma boa olhada nos meus peitos nus, ruboriza-se e disfarça em seguida olhando para o quadro esquisito diante do sofá. Tragada grossa seguida de tosse. Tusso. “Olha. Tem música clássica, se a senhora gostar. Mas eu prefiro mesmo é um bom ‘Vinícius e Toquinho’. Pode ser?!”.

Não sei bem como aconteceu, mas quando percebi já estávamos os três (eu, a velha e o gato verde musgo) pulando pela sala e sobre os sofás ao som elétrico dos Rolling Stones. O cabelo de laquê da senhora asmática já estava todo despenteado, e de tempos em tempos ela gostava de ir até a janela e soltar gritinhos, certa de que toda a cidade a escutava.

Foi uma noite e tanto.

sábado, julho 08, 2006

a b i s m o

Não fui amada o suficiente antes de nascer, mas cuidada em excesso depois de crescida.
Não sou genial. Possuo tendências melancólicas, solidões, memórias.
Fumo um cigarro inteiro no curto trajeto do ponto de ônibus até a minha casa.

Acredito que todos somos um pouco prostitutos: vendendo-nos através de imagens, estéticas inventadas, estilos absurdos. Fumo cigarros prostituindo-me. Visto meias calças coloridas e cachecóis, prostituindo-me. Pinto os olhos. Danço. Dou risadas gostosas.
Prostituindo. Me.

Sou uma exibicionista. Não poderia ser atriz.
Gosto de escrever: é mais um jeito de fingir.
Buracos negros me corroem. Cerveja sossega. Os homens me querem, não o suficiente.
Invento-me.
Quantos mil-disfarces será que me cabem? Desfaço-me. Um homem é um homem. Despedaços.
Tem dias em que tudo dói. E caio... lento...

No silêncio inexistente da cidade-precipício, abro os braços como paraquedas: o vento que bate na cara tem gosto de poluição. O olho lacrimeja. O cabelo voa. Mas a rede – formada pelos invisíveis fios de fumaça, luzes, palavras, antenas parabólicas e meios-fios – amortece a queda. Saio ilesa, como um trapezista.

Acordo dando coices no ar, mas o alívio de estar viva não é o bastante.
Continuo caindo.

sábado, julho 01, 2006

Não vou-me embora pra Pasárgada

Traumas e tabus impiedosos escorrem entre os homens nas avenidas e calçadas. Homens que vão do nada para o lugar nenhum, algum silêncio procuram procuram sem cessar. Meninas-mulheres que nem peitos têm, já abrem as pernas para o desconhecido de pentelhos grisalhos e não gozam. Quase não gritam. Ouvi dizer que choram engolindo o choro quando deparam-se, sozinhas, consigo mesmas. E quando, raramente, apaixonam-se. Crianças que já nascem cansadas da vida que lhes foi reservada (você já viu criança cansada?). Sem nome e sem cara de criança: aborto. Fome que dói no peito, que rói a cabeça, cria carcaça. Meninos que vão à caça de revólver na calça e droga no bolso não são absolvidos. Mas absorvidos pela terra de que quem pode, pode. Não sei se há Pasárgada, mas se houver, acho que hoje em dia as coisas lá, estão muito parecidas com as de cá.

Sem Título

Pararatimbum.
Eu vou de vento em popa, louca louca.
De cara leve, cocacola.
No lilás do dia quase noite, esquento e imploro. Oca.
Loba que sou, vicio. E choro.
Choro de chover-me toda. E topo.
De sair daqui, ir ali, já volto, sei lá.
Lá. Depois da neblina que nos envolve:pó.
Toda errada e certa, etcetera etcetera.
Encontrar-me inteira e fumar cigarro. Ubacobaco. Canções e tabaco caro de doer os olhos e fumar a boca. De sugar a boca e lhe lamber os olhos. Trocar alhos e bugalhos. Fumar-te inteiro e sair correndo cantando sambando.
Rio de janeiro.