Não to enxergando muito bem. Tá embaçando a minha vista. A cabeça dói na região dos olhos. Hoje na faculdade não enxerguei a lousa. Sempre me orgulhei de ser dessas pessoas que não precisam de óculos. Sempre disse assim pras pessoas: "a minha maior qualidade é a visão. Eu enxergo muito bem". Aí eu é que lia as placas de rua, à noite, perdidos pra festa. Eu que via de longe qual era o ônibus certo. Eu que lia a bula de remédios pra minha mãe. A conta do restaurante pro meu pai. Agora sinto como se eu tivesse perdendo meus super poderes. Quer dizer, o meu único super poder. Isso é realmente terrível. Agora, por exemplo, não to nem olhando a tela do computador. Só olho pras teclas. Quando olho pra tela minha cabeça lateja.
Estou me transformando em mais uma reles reles reles mortal.
Detesto ser reles.
segunda-feira, maio 03, 2010
domingo, maio 02, 2010
mañana
6 in the fucking morning.
vontade de escrever, do além.
tá foda o teclado. de enxergar as teclas.
o dia ainda não veio. o amor já foi. fico eu e essas letrinhas miúdas. migalhinhas de letras esparramadas.
se esparrama pelo chão.
é migalhinha ou migalinha?
hahaha
mi galinha.
mis galiñas.
vengam galiñas.
vengan com la madrugada ardiente.
la madrugada que se madruga en fiebre.
el suelo, la luna que se pongô.
el suelo que arrebenta la placienta de Diós.
dios el barbado señor, el pobrecito que madruga todos los dias. dios ayuda quien cedo madruga!
estou completa e alucinadamente fora de mim.
é bom registrar esses momentos de inspiração etílica, latina e madrugadora.
és eso. punto final.
vontade de escrever, do além.
tá foda o teclado. de enxergar as teclas.
o dia ainda não veio. o amor já foi. fico eu e essas letrinhas miúdas. migalhinhas de letras esparramadas.
se esparrama pelo chão.
é migalhinha ou migalinha?
hahaha
mi galinha.
mis galiñas.
vengam galiñas.
vengan com la madrugada ardiente.
la madrugada que se madruga en fiebre.
el suelo, la luna que se pongô.
el suelo que arrebenta la placienta de Diós.
dios el barbado señor, el pobrecito que madruga todos los dias. dios ayuda quien cedo madruga!
estou completa e alucinadamente fora de mim.
é bom registrar esses momentos de inspiração etílica, latina e madrugadora.
és eso. punto final.
sábado, maio 01, 2010
Carta de intenção
Não sei por onde, mas eu começaria mais ou menos assim:
me chamo sofia sou brasileira tenho 23. quero fazer esse curso porque quero sair deste país de merda que não dá espaço pros artistas. quero ir prum país onde os artistas são tratados com seu devido respeito, onde sua importância é reconhecida e cuidada. quero ter espaço pra criar. quero ver novos ares, cansei dos espetáculos daqui. cansei da praça roosevelt, dos sescs, dos sesis, dos antunes, zécelsos, dos musicais, dos alternativos, dos radicais e dos doidões. quero ver coisa nova. quero vocês seus alemães malucos. quero ver como vocês pensam essa coisa arte, esse negócio de teatro deve ser um troço bem diferente pra vocês. isso porque vocês já estavam escrevendo coisas geniais muito antes deste país se entender por gente. isso porque vocês possibilitaram goethes e schillers, e brechts, e heiner mullers. eu quero isso aí, tá? aprender essa cultura aí. posso? vocês aceitam uma brasileira atriz que quer escrever que quer dirigir que quer existir e viver disso pra sempre? vou praí ver como é que vocês fazem. aí quando eu cansar vou pra outro lugar. e outro. e mais outro. e vou assim: vivendo e experimentando. aprendendo umas línguas, tomando uns drinks, curtindo umas paisagens, uns passeios, uns rios e pontes antigas. nos intervalos escrevo, piro, crio. trabalho. aprendo línguas, conheço gente, gente, gente. adoro gente.
sem mais,
sofia.
me chamo sofia sou brasileira tenho 23. quero fazer esse curso porque quero sair deste país de merda que não dá espaço pros artistas. quero ir prum país onde os artistas são tratados com seu devido respeito, onde sua importância é reconhecida e cuidada. quero ter espaço pra criar. quero ver novos ares, cansei dos espetáculos daqui. cansei da praça roosevelt, dos sescs, dos sesis, dos antunes, zécelsos, dos musicais, dos alternativos, dos radicais e dos doidões. quero ver coisa nova. quero vocês seus alemães malucos. quero ver como vocês pensam essa coisa arte, esse negócio de teatro deve ser um troço bem diferente pra vocês. isso porque vocês já estavam escrevendo coisas geniais muito antes deste país se entender por gente. isso porque vocês possibilitaram goethes e schillers, e brechts, e heiner mullers. eu quero isso aí, tá? aprender essa cultura aí. posso? vocês aceitam uma brasileira atriz que quer escrever que quer dirigir que quer existir e viver disso pra sempre? vou praí ver como é que vocês fazem. aí quando eu cansar vou pra outro lugar. e outro. e mais outro. e vou assim: vivendo e experimentando. aprendendo umas línguas, tomando uns drinks, curtindo umas paisagens, uns passeios, uns rios e pontes antigas. nos intervalos escrevo, piro, crio. trabalho. aprendo línguas, conheço gente, gente, gente. adoro gente.
sem mais,
sofia.
sexta-feira, abril 30, 2010
Distração
assim: que me distraí
e quando fui
e quando vi
não tinha nada ali
ou aqui
assim: desandei
como faz pra desandar?
simples
só não deixa fugir a vida
eu deixei
escorreu entre os dedos e os joelhos
encolhi
fiquei
e ela foi
sem mim
volta
volta aqui
corre anda rasteja
vem cantar!
como quem resiste!
que eu to me encontrando de novo
debaixo desse pó
dessa fumaceira de cigarro
dessa bebedeira
dessa bobagem toda
vem que eu te aceito
vida
me escolhe
vida
me espera
vida
vamos viajar?
vamos mudar o rumo das coisas?
vamos falar alemão?
vamos estudar em berlim?
vamos vida?
você me aceita de volta?
eu tenho planos
não tenho?
eu tenho desejos de grandeza
de plenitude
de evolução
de trabalho
de teatro
eu tenho, tenho mesmo!
você acredita em mim, agora, depois deste desvio, você me quer de novo, vidinha?
ó vida
ó vida
come on
let´s do it
até o fim
juntas
vamos passear
(se embebedar só de vez em quando)
vamos aprender
esquecer
aprender
esquecer
cair tropeçar
dormir
morrer
rir
uivar
vamos?
estrada afora
sábado, abril 24, 2010
As amigas têm sido minhas melhores namoradas.
É bom que são várias e tão diferentes que se eu me canso de uma tem a outra e se gosto tanto disso numa, amo muito aquilo na outra.
Se a gente pudesse ter assim, vários namorados, e que eles se complementassem! Um é incrível nisso e chato naquilo, o outro, ao contrário. E o outro, tem tudo isso, mas não tem aquilo. E aquele outro, às vezes me canso dele, mas ele também é genial em alguma coisa. Não seria mais simples?
Mas aí não pode.
Tem que escolher um e ir até o fim com ele. Tem que esgotar, cansar, saturar, brigar, amar, querer, enjoar, grudar, viver, sugar tudo de apenas um.
E depois a relação fica esturricada.
Já tentou de todos os jeitos.
Já conhece acordando, dormindo, comendo, tomando banho, de mau humor, bêbado, feliz, num ótimo dia, com trabalho, sem trabalho, na rua, no campo, na fazenda, na praia, de roupa, sem roupa, de sunga, de cueca, de regata, de manga comprida, no carro, num barco, no café e na janta.
Não resta mistério, suspense e nem segredo.
Se não fosse apenas um, e de cada um se conhecesse só até um ponto, nunca além, nunca ultrapassando o limite do saudável, seria possível?
O problema é que podem virar várias relações ultra superficiais e nunca nenhuma nos deixaria marcas profundas.
Gosto das marcas que as pessoas importantes deixam na gente. Na alma da gente. É pra sempre.
É. Melhor deixar pras amigas este incrível papel das minhas inúmeras namoradas.
É bom que são várias e tão diferentes que se eu me canso de uma tem a outra e se gosto tanto disso numa, amo muito aquilo na outra.
Se a gente pudesse ter assim, vários namorados, e que eles se complementassem! Um é incrível nisso e chato naquilo, o outro, ao contrário. E o outro, tem tudo isso, mas não tem aquilo. E aquele outro, às vezes me canso dele, mas ele também é genial em alguma coisa. Não seria mais simples?
Mas aí não pode.
Tem que escolher um e ir até o fim com ele. Tem que esgotar, cansar, saturar, brigar, amar, querer, enjoar, grudar, viver, sugar tudo de apenas um.
E depois a relação fica esturricada.
Já tentou de todos os jeitos.
Já conhece acordando, dormindo, comendo, tomando banho, de mau humor, bêbado, feliz, num ótimo dia, com trabalho, sem trabalho, na rua, no campo, na fazenda, na praia, de roupa, sem roupa, de sunga, de cueca, de regata, de manga comprida, no carro, num barco, no café e na janta.
Não resta mistério, suspense e nem segredo.
Se não fosse apenas um, e de cada um se conhecesse só até um ponto, nunca além, nunca ultrapassando o limite do saudável, seria possível?
O problema é que podem virar várias relações ultra superficiais e nunca nenhuma nos deixaria marcas profundas.
Gosto das marcas que as pessoas importantes deixam na gente. Na alma da gente. É pra sempre.
É. Melhor deixar pras amigas este incrível papel das minhas inúmeras namoradas.
to que to quase desmontando. esparramando. esvaindo indo indo.
que equilíbrio não tem graça nenhuma. estabilidade não leva ninguém a lugar nenhum. nem vontade de escrever dá. a inspiração vem da instabilidade. vem do desmorono, desconsolo. vem do barranco, não da planície. daqui de cima vejo um zilhão de caminhos, todos possíveis. agora é escolher e ir. mirar e acertar. lançar minha flecha pro mundo, botar meu bloco na rua, fazer a invasão, o ato subversivo que é viver. quero ir minha gente. simbora. ver irene rir.
que equilíbrio não tem graça nenhuma. estabilidade não leva ninguém a lugar nenhum. nem vontade de escrever dá. a inspiração vem da instabilidade. vem do desmorono, desconsolo. vem do barranco, não da planície. daqui de cima vejo um zilhão de caminhos, todos possíveis. agora é escolher e ir. mirar e acertar. lançar minha flecha pro mundo, botar meu bloco na rua, fazer a invasão, o ato subversivo que é viver. quero ir minha gente. simbora. ver irene rir.
quarta-feira, abril 21, 2010
domingo, abril 18, 2010
Olha só pra ela, ela não tem mais 17, não tem mais cabelo comprido, nem aparelho nos dentes, nem usa mais a saia de bolinha preta e branca. Não é mais filha. E isso já faz tempo. Mas olha só ela. É meio uma outra ela, não é não? Não sei se cresceu se engordou se amadureceu. Mas é alguma outra coisa que se aproxima mais de uma... mulher? Será? Mulher? Às vezes parece tipo um molequinho. De cabelo curto, quando não pendura brinco nas orelhas, aí confundem na rua. É? Menino? Mulher? Quem será que ela é? Será que sabe ou só intui? Encaretou? Endureceu? Ou relaxou e isso nem importa tanto mais. E depois vem. Depois deve vir. Alguma nova ainda que ninguém sabe. Não se conhece, porque só dá o ar da graça muito de vez em quando. Até lá o cabelo já cresceu, e dizem que aos trinta as mulheres se sentem muito... mulheres. Aí sim.
Veremos.
Viveremos.
Veremos.
Viveremos.
sábado, abril 17, 2010
Embasbaque
Abro a porta do elevador e me deparo com um quadro, azul da cor do amanhecer que está ali do lado de fora da janela, o quadro azul encostado na parede. Abro a porta e páro diante do quadro azul. É um presente. Deixaram aqui pra mim. Para que quando eu chegasse em casa, 6 da manhã, já sem distinguir as coisas muito bem, com o dia insistindo em amanhecer na rua, para que eu ficasse ali, embasbacada. E fiquei ali, embasbacada, e não há melhor palavra para aquela sensação.
Ele pintou o quadro, entrou sorrateiro na minha casa e deixou-o encostado ali.
Para que quando eu chegasse em casa eu me deparasse, sem nenhum atenuante, com aquela dor escancarada na minha frente. Aquela dor aguda do quadro azul, do rosto do homem desconfigurado de dor, da mulher, do vermelho.
Nos olhamos por um longo momento, eu e o quadro.
Ele me disse mais coisas do que todas as palavras gastas nos últimos meses entre eu e o seu autor. Ele me disse mais do que todas as letras do alfabeto, todas as palavras de todas as enciclopédias do mundo. Na verdade, ele não disse. Ele gritou. Ele explodiu meus tímpanos, me ensurdeceu, ele me pegou e me virou do avesso.
Embasbacada ainda, pego o quadro em minhas mãos. Ele trêmulo assim. Ele esvaindo se desfazendo. Mas duro. Mas forte. Mas bravo. Eu o acolho. O trago para dentro do meu quarto. Pode passar a noite aí, hoje, falo pro quadro azul. Você tá frágil. Fique aí enquanto precisar ficar.
E o dia já está inteiro claro. E o girassol murchou na minha janela. E as luzes do centro ainda estão acesas. E alguns carros ainda transitam pela rua.
sexta-feira, abril 16, 2010
conversa de maluca
calminho aí, sr. ego, fica aí que eu já te dei bastante atenção até hoje. agora são as minhas outras partes que vão falar. e eu vou ouvir. shhh. você não, ego. você fica aí na sua, baixa a bola, pianinho. quero ouvir a inteligência. quero ouvir a emoção. quero ouvir sei lá quem mais que existe aqui, porque você, sr ego, tomou espaço demais. espaço demais que não é só pra você não, tem que aprender a dividir com os outros. e agora eu vou te deixar no seu devido lugar. porque você não tem me ajudado a tomar as melhores atitudes. você é dos prazeres fáceis rápidos e imediatos. você é do material da preguiça da comida. você é do egoísmo. você é do elogio e da crítica. se prende nessas coisas bestas. você é do consumo do consumo do consumo. da vaidade, é você, viu? eu até reconheço que você pode ser útil em vários impulsos, em vários movimentos que tomei, que me coloquei, que fui e tal. mas é aí que você tem que ficar e deixar eu ouvir o resto, pelamordedeus.
terça-feira, abril 13, 2010
sonhei assim
morria e me transformava numa cobra
uma cobra linda
ela (eu) era sagrada
as pessoas me veneravam
eu, sendo eu uma cobra, usava uma roupinha brilhante, sagrada
eu, sendo eu uma cobra, era mantida presa por uma espécie de teia de aranha
eu ficava presa porque eu era muito perigosa
aí
numa certa altura do sonho
eu começava a comer esta teia que me prendia
e enquanto comia a teia eu me libertava dela
e quando comecei a me libertar
as pessoas em volta fugiram, apavoradas, já que eu era cobra perigosíssima, cheia de dentes
eu comia a teia grudenta esquisita, me lembro da boca aberta da cobra eu, cheia de dentes, comendo a própria teia
acordei pensando naquele lance de que a cobra troca de pele
uma pele morre
pra uma nova nascer
que forte este sonho
minha terapeuta diria: "Sofia, este sonho é um presente!"
morria e me transformava numa cobra
uma cobra linda
ela (eu) era sagrada
as pessoas me veneravam
eu, sendo eu uma cobra, usava uma roupinha brilhante, sagrada
eu, sendo eu uma cobra, era mantida presa por uma espécie de teia de aranha
eu ficava presa porque eu era muito perigosa
aí
numa certa altura do sonho
eu começava a comer esta teia que me prendia
e enquanto comia a teia eu me libertava dela
e quando comecei a me libertar
as pessoas em volta fugiram, apavoradas, já que eu era cobra perigosíssima, cheia de dentes
eu comia a teia grudenta esquisita, me lembro da boca aberta da cobra eu, cheia de dentes, comendo a própria teia
acordei pensando naquele lance de que a cobra troca de pele
uma pele morre
pra uma nova nascer
que forte este sonho
minha terapeuta diria: "Sofia, este sonho é um presente!"
segunda-feira, abril 12, 2010
Transcrição de eu mesma
A gente é feito de
A gente é feito de carne e de vácuo
De uns buracos negros que às vezes a gente tapa com cigarro
Não
De buracos negros que a gente tapa
De buraco negro que
Que que a gente tapa com cigarro
ou com amor
Deixa sangrar deixa doer
é boa a sensação do buraco
também é boa a sensação do buraco
por mais que doa que arda que pinique
uma sensação de tá vivo
uma sensação de ser
um ser humano
com sensibilidade
e é isso que eu sou
um ser humano com muita sensibilidade com muito descontrole dessa sensibilidade
Ainda
em busca
não sei se sensibilidade se controla ou se ela é feita pra ser descontrolada mesmo
mas é linda ela
Buraco a gente às vezes até tapa provisoriamente quando a gente tá pleno quando a gente se sente feliz quando a gente encontra alguém (respira) legal
(sussurra) mas ele continua lá
é engano achar que (pausa)
que a gente vai se completar algum dia
a gente é feito de...
pra ser incompleto mesmo
tipo peneira
a gente é feito de carne e de vácuo
é isso
(passa um caminhão)
e
se é pra doer agora deixa doer
já doeu tão mais antes
eu sobrevivi (chora)
a duras penas (chora)
eu me fortaleci (ainda chora)
eu deixei o buraco um pouquinho menor
eu to mais forte to mais resistente (tenho certeza disso)
(respira)
eu realmente queria que tivesse sido ele
o homem
se fosse só a cabeça que escolhesse que mandasse seria ele
mas (expira)
o corpo o sexo
o resto
diz que não
diz que acabou (pausa)
e tá sendo difícil enganar esse resto (pausa)
disfarçar com pensamento elaborado
pensamento elaborado pode me convencer um pouco
mas não por muito tempo não
não mesmo
(funga com o nariz)
(se fosse possível, eu anexava a gravação)
A gente é feito de carne e de vácuo
De uns buracos negros que às vezes a gente tapa com cigarro
Não
De buracos negros que a gente tapa
De buraco negro que
Que que a gente tapa com cigarro
ou com amor
Deixa sangrar deixa doer
é boa a sensação do buraco
também é boa a sensação do buraco
por mais que doa que arda que pinique
uma sensação de tá vivo
uma sensação de ser
um ser humano
com sensibilidade
e é isso que eu sou
um ser humano com muita sensibilidade com muito descontrole dessa sensibilidade
Ainda
em busca
não sei se sensibilidade se controla ou se ela é feita pra ser descontrolada mesmo
mas é linda ela
Buraco a gente às vezes até tapa provisoriamente quando a gente tá pleno quando a gente se sente feliz quando a gente encontra alguém (respira) legal
(sussurra) mas ele continua lá
é engano achar que (pausa)
que a gente vai se completar algum dia
a gente é feito de...
pra ser incompleto mesmo
tipo peneira
a gente é feito de carne e de vácuo
é isso
(passa um caminhão)
e
se é pra doer agora deixa doer
já doeu tão mais antes
eu sobrevivi (chora)
a duras penas (chora)
eu me fortaleci (ainda chora)
eu deixei o buraco um pouquinho menor
eu to mais forte to mais resistente (tenho certeza disso)
(respira)
eu realmente queria que tivesse sido ele
o homem
se fosse só a cabeça que escolhesse que mandasse seria ele
mas (expira)
o corpo o sexo
o resto
diz que não
diz que acabou (pausa)
e tá sendo difícil enganar esse resto (pausa)
disfarçar com pensamento elaborado
pensamento elaborado pode me convencer um pouco
mas não por muito tempo não
não mesmo
(funga com o nariz)
(se fosse possível, eu anexava a gravação)
sábado, abril 10, 2010
Garrafa de vinho na mão, pela metade, argentino, barato. Sanguinolento. E quase bato o carro. O vinho me escorre pelo canto da boca, vampiresco. Minha amiga psicóloga me aconselhando, no copiloto: patati patatá. Adoro ouvi-la falar. Fale Ciça. Me ilumine, Ciça. Não me julgue, me entenda Ciça. SOCORRO Ciça! Solto um berro agudo. Foi por bem pouco, quase tive um ataque do coração. Aquele cara do carro prateado deve me xingar tanto a essa altura. Talvez me xingue até amanhã de manhã.
Desço a Consolação, lenta, casaco preto grande, noite fria e boa, vinho argentino barato, e vou dizendo "je suis rimbaud, je suis verlaine, je suis le vin, je suis le pain, je suis la citée". Assim, num francês que eu nem soletro bem. Maquiagem borrada, saindo do teatro. Feliz. Emocionada. Poetisa. Que nem escrevo mais sobre nada. Receita de bolo. Idéias vagas, calçadas, pés. Só importa se as palavras soam bem. E mais nada. E que nestas noites de outono e vinho me sinto livre. Me sinto bem.
Desço a Consolação, lenta, casaco preto grande, noite fria e boa, vinho argentino barato, e vou dizendo "je suis rimbaud, je suis verlaine, je suis le vin, je suis le pain, je suis la citée". Assim, num francês que eu nem soletro bem. Maquiagem borrada, saindo do teatro. Feliz. Emocionada. Poetisa. Que nem escrevo mais sobre nada. Receita de bolo. Idéias vagas, calçadas, pés. Só importa se as palavras soam bem. E mais nada. E que nestas noites de outono e vinho me sinto livre. Me sinto bem.
Cura
Ar frio, dia branco, sábado.
Eu transbordando. Espirrando. Faltando ar.
Daqui a pouco tenho que chegar no teatro. E dar conta. Meus pulmões, minhas cordas vocais, minha garganta, meu corpo inteiro vão ter que funcionar ali. Mesmo que eu aqui esteja pela metade. E foda-se espirro, catarro, garganta com bola de pus. Foda-se noite de ontem, os sonhos mal assombrados, a cólica. Foda-se. A preguiça, o desânimo, a dor nos ossos.
Aí o teatro vem e passa por cima, atropela, suga. Ainda bem. E sempre que termina a peça eu me sinto curada. Teatro cura sim. Faz bem pra cabeça. Te faz sair de dentro de dentro de dentro. E o que acaba conosco é a cabeça. Sempre ela.
Eu transbordando. Espirrando. Faltando ar.
Daqui a pouco tenho que chegar no teatro. E dar conta. Meus pulmões, minhas cordas vocais, minha garganta, meu corpo inteiro vão ter que funcionar ali. Mesmo que eu aqui esteja pela metade. E foda-se espirro, catarro, garganta com bola de pus. Foda-se noite de ontem, os sonhos mal assombrados, a cólica. Foda-se. A preguiça, o desânimo, a dor nos ossos.
Aí o teatro vem e passa por cima, atropela, suga. Ainda bem. E sempre que termina a peça eu me sinto curada. Teatro cura sim. Faz bem pra cabeça. Te faz sair de dentro de dentro de dentro. E o que acaba conosco é a cabeça. Sempre ela.
segunda-feira, abril 05, 2010
Eu me interesso pelo de dentro das pessoas. Não tão dentro tipo rim, tripa, coração. Não. Essa parte eu deixo pros médicos se interessarem. Me atraio pelo entre. Entre a tripa e a casca. Sei lá o nome que dá pra essa parte do corpo humano que acho que não pode nem ser considerada corpo humano. Mas sei que é aí que mora o alguma coisa que uns têm e outros não.
domingo, abril 04, 2010
de um domingo aí
Ginástica dos dedos. Tec tec tec. Ginástica do cérebro: escrever quando não se tem nada de importante pra dizer. Ainda assim, escrever. Como fumo, por vício. Como um jeito de preencher os buracos. Como um maravilhoso passatempo num domingo esbranquiçado como este. Empoleirada na cadeira giratória. São só dois dedos que digitam todas as palavras: nunca aprendi datilografia. Nunca aprendi a criar coisas profundas com as palavras. Nunca calculei o que estou escrevendo. Nunca fiz aqueles planejamentos para se escrever uma boa redação na Fuvest. Ainda assim, quando me empoleiro, quando os dedos começam tec tec tec, não há o que os faça parar. Uma palavra, outra, e outra e mais uma. E um texto. E eu me descrevendo. E eu me narrando. E eu me escondendo mostrando escondendo mostrando. E eu me deliciando. Fluindo, fluindo. Às vezes sai um bom. Noutras, um inútil.
sexta-feira, abril 02, 2010
Ode à cidade (de São Paulo)

Apaixonada por São Paulo há uns dias (ou anos?). Intensamente apaixonada por São Paulo. É. Assim, por cada rua que passo, penso que bom que é. Por cada bar boteco sujo. Cada casa de amigo. Cada esquina. Aqui, o Centro, então, nem se fale. Aqui Augusta sempre. Aqui postes de 1800 com luz amarelada iluminando a São Luís. Tão linda minha avenida! Tão linda minha vizinhança. A Cecília Santa com suas putas e travestis e michês. É tão cênico! Higienópolis deslumbrante com seus prédios de janelas imensas que cada um que eu olho penso que bom seria se um dia pudesse morar aí. A Paulista foda. Não tem palavras que descrevam andar de bicicleta pelas calçadas recém reformadas da Paulista. Ouvindo música então nem se fale. A Consolação, como eu amo a consolação. Vivo buscando-a. A Vila Madalena, pra onde me desloco quase todos os dias. Bar do Biro na Rua Simpatia. Mercearia fantástica. Dr. Arnaldo minha passagem obrigatória, como a odeio durante a semana. Mas a amo profundamente num domingo! Aquela vista que dá pra Avenida Sumaré, aquilo é lindo demais. Pegar metrô quando não tá superlotado também é ótimo. E a feira aqui da Praça Roosevelt é incrível. Várias velhinhas da vizinhança! Amo viver aqui. Trabalhar aqui. Me divertir aqui. Amo aqui. Olhar pela janela e ver movimento até de madrugada. Descer no elevador e sair nesta paisagem de Praça Dom José Gaspar, boteco do pagode, biblioteca Mario de Andrade em reforma há dois anos. E quando os metrôs ficarem prontos, aí vai ser ótimo. Amo aqui. Amo escrever sobre aqui. Acordar e dormir aqui. Ter uma história pra lembrar em cada bairro que passo. Cada rua me lembrar uma situação, um amor, um amigo, um caso. Os teatros. Os cinemas. Os restaurantes. Os SESCs. A Oscar Freire. A Benedito Calixto. A feirinha do Bixiga. O MAM. O Ibirapuera. Pinheiros, quanta lembrança. A Vila Madalena. O Butantã. O Sumaré, a casa do Tom! Alto de Pinheiros, minha infância, minha adolescência. Praça do Por do Sol. Quantas vezes Praça do Por do Sol. Casa do Lô. Casa da Bel. Casa do Guto. Casa da Ana. Quantas vezes casa da Ana. Amo as casas. Amo as pessoas. Amo aqui. Amo os shows no Studio SP ou SESC Pompéia. E quando fica de noite a cidade fica tão mais linda. Desde pequena lembro de falar pro meu pai que amava as luzes da cidade quando anoitecia. Lembro de andar de carro com meu pai, na Marginal, sei lá porque na Marginal, e me sentir grande. Me sentir bem quando é de noite já acontecia comigo desde pequena. Tantas casas tantos apartamentos que eu já entrei, saí, deixei marcas ou não, me senti bem, me senti péssima, me diverti, enlouqueci ou dormi. Quantos elevadores escadas rolantes shopping centers motéis botecos já falei dos botecos, mas sempre os botecos, cada fase um. Já foi o Paróquia. Já foi o Platibanda. Já foi o Bar do Zé. Já foi o Bar do Equipe! kBoom. Barusp. Parlapatões. Satyros. Carniceria. Quanta cidade nesta cidade. Quanta Sofia nesta cidade. Quantas horas no trânsito indo pra Sto. ANdré todosantodia durante três anos e meio da minha vidinha. Quanta Avenida do Estado. Quanta Avenida do Estado. Sta. Terezinha. Praça Rui Barbosa. Escola Livre meu segundo lar. Meu primeiro lar fora de São Paulo. Semáforo. Poste. Cuspe. Meio fio. Amo as palavras que se relacionam com a cidade. Amo os fios o encanamento a geladeira os alto falantes os carrinhos de gás cantarolantes. Amo as árvores que ainda restam na Avenida Higienópolis. Amo a minha janela a minha vista a minha avenida encantadora. Quanta cidade. Quanta vida nesta cidade. Quanta tristeza e choro pelas ruas de óculos escuros. Quanto desamparo. Quantos ensaios. Quantos testes. Quantas camas. Quantos chuveiros. Quanta gente! Quanta gente que vejo diferente e não vejo nunca mais na vida. Cada dia vejo muitas pessoas novas nas ruas e penso que nunca mais vou vê-las de novo. Quanta quanta gente! Aí eu. Só mais um serzinho ínfimo passeando por estas calçadas vida afora de Ipod no ouvido. Às vezes canto junto muito alto. Às vezes me controlo. Às vezes quero morrer. Às vezes parece que não tem espaço pra mim. Noutras, que eu sou dona disso tudo. Oscilo e cambaleio cidade de São Paulo adentro. De noite de dia. Eu aqui. Aqui é meu lar e não quero outro por enquanto. Não quero outra vida. Amo aqui. Amo aqui. Amo aqui. Pronto, falei.
Apaixonite Aguda
quinta-feira, abril 01, 2010
Nítido que a Humanidade não tem saída. Não é pessimismo. É só uma constatação e aceitação de que a natureza humana não é doce, não é harmoniosa, e nem sempre é feliz.
Essa coisa de ficar acreditando que temos que caminhar para uma elevação é linda, mas é improvável. Dentro do Homem cabem tantas coisas malucas. E é tão difícil juntar todos os Homens num lugar só chamado sociedade. Óbvio que vai sair treta. Óbvio que vai sair festa. Óbvio que vai dar em sexo e com ele um mundo hiperpopuloso. Óbvio que vai ter inveja, medo, solidão. É natural, entende? O nosso lado meio bicho e o outro lado meio ser civilizado ficam brigando um com o outro o tempo todo. Dentro de mim eles fazem uma festa! Deitam e rolam. Civilizadinha X Selvagenzinha. Quem ganha quem perde, aí depende do dia, dos hormônios, da estação do ano. É preciso aceitar que somos luz e trevas, dor e delícia, horror e maravilha, sempre. E isso não é monstruoso. É humano.
Essa coisa de ficar acreditando que temos que caminhar para uma elevação é linda, mas é improvável. Dentro do Homem cabem tantas coisas malucas. E é tão difícil juntar todos os Homens num lugar só chamado sociedade. Óbvio que vai sair treta. Óbvio que vai sair festa. Óbvio que vai dar em sexo e com ele um mundo hiperpopuloso. Óbvio que vai ter inveja, medo, solidão. É natural, entende? O nosso lado meio bicho e o outro lado meio ser civilizado ficam brigando um com o outro o tempo todo. Dentro de mim eles fazem uma festa! Deitam e rolam. Civilizadinha X Selvagenzinha. Quem ganha quem perde, aí depende do dia, dos hormônios, da estação do ano. É preciso aceitar que somos luz e trevas, dor e delícia, horror e maravilha, sempre. E isso não é monstruoso. É humano.
sexta-feira, março 26, 2010
Que me faz sentir viva (escrito em 21 de julho de 2009)
Quando olho fotos da minha infância.
Quando sentei sobre pedras mornas na beira do mar num dia de verão para assistir, silenciosa, ao pôr do sol.
Quando escuto uma música bonita no carro, dirigindo pela cidade vazia da madrugada, em alta velocidade (ou que, para mim, seria alta!), sentindo vento bater na cara e cantando junto com o rádio, na maior altura e intensidade que minhas cordas vocais conseguem suportar. Se for noite quente, melhor ainda.
Quando o sexo é tão bom que quando acaba parece que você está numa outra dimensão espaço-temporal. Parece que se passaram séculos - ou segundos - desde que você está ali. Ou quando tudo fica suspenso e parece que só existe você e o outro em todo o Universo. Que as luzes saindo dos prédios ao redor são meros efeitos cenográficos e toda aquela cidade só existe em função dos amantes atemporais.
Nos meus aniversários de quinze dezesseis e dezessete anos. As festas que dava na minha casa da Sílvia Celeste e eu entrava em êxtase de tanta felicidade. Me sentia importante por ser a aniversariante, era como se fosse uma peça de teatro e eu era a atriz e eles estavam indo me ver. Todos os meus amigos e namorado e amante e pai e mãe e irmãos.
Quando esperneei de dor no carro dele porque ele estava terminando o nosso namoro de quase cinco anos e a minha cara ficou deformada de tanto choro. E eu limpava o nariz num agasalho. Quando pedi para pararmos num boteco e tomei uma Coca Cola naquele pós-choro quase pós-orgasmático me senti viva. A Coca descendo na garganta, o gás e o gelo da Coca, era como se fosse sangue novo atingindo as minhas veias, e fumar um cigarro com os olhos esbugalhados diante daquele que me dilacerava as tripas o rim, enquanto todos os Outros me olhavam como se para uma aberração. Aberração é amar desta maneira!
Andando nas ruas quentes de Nova Iorque de noite, descendo do metrô e andando pelo Brooklyn, de volta para casa.
Em parques de diversão, naquele INSTANTE em que o moço abaixa violentamente sobre o seu abdômen a barra de segurança da montanha russa e você sabe que não tem mais volta.
O primeiro beijo que ele me deu (roubou de mim!) no portãozinho enferrujado e barulhento da casa da italiana ruiva maravilhosa, e os dois estavam com tanta vontade reprimida de tanto TEMPO sem poder realizar o que a gente mais queria. E a lua absurda sobre nós.
Tocar violão com o meu irmão. Principalmente o hit: "... tudo certo como dois e dois são cinco"!
Os segundos antes de entrar em cena. Entrar em cena. O pós-espetáculo que também se aproxima da sensação pós-orgasmo. E fumar um cigarro...
Gritar bêbada nas ruas geladas de Buenos Aires.
Quando comi brigadeiro de maconha em Ubatuba e achei que fosse uma sereia que não sabia nadar.
Quando saía da minha seção de terapia.
Quando escrevo. Quando canto. Quando estou profundamente apaixonada pela vida.
Quando sentei sobre pedras mornas na beira do mar num dia de verão para assistir, silenciosa, ao pôr do sol.
Quando escuto uma música bonita no carro, dirigindo pela cidade vazia da madrugada, em alta velocidade (ou que, para mim, seria alta!), sentindo vento bater na cara e cantando junto com o rádio, na maior altura e intensidade que minhas cordas vocais conseguem suportar. Se for noite quente, melhor ainda.
Quando o sexo é tão bom que quando acaba parece que você está numa outra dimensão espaço-temporal. Parece que se passaram séculos - ou segundos - desde que você está ali. Ou quando tudo fica suspenso e parece que só existe você e o outro em todo o Universo. Que as luzes saindo dos prédios ao redor são meros efeitos cenográficos e toda aquela cidade só existe em função dos amantes atemporais.
Nos meus aniversários de quinze dezesseis e dezessete anos. As festas que dava na minha casa da Sílvia Celeste e eu entrava em êxtase de tanta felicidade. Me sentia importante por ser a aniversariante, era como se fosse uma peça de teatro e eu era a atriz e eles estavam indo me ver. Todos os meus amigos e namorado e amante e pai e mãe e irmãos.
Quando esperneei de dor no carro dele porque ele estava terminando o nosso namoro de quase cinco anos e a minha cara ficou deformada de tanto choro. E eu limpava o nariz num agasalho. Quando pedi para pararmos num boteco e tomei uma Coca Cola naquele pós-choro quase pós-orgasmático me senti viva. A Coca descendo na garganta, o gás e o gelo da Coca, era como se fosse sangue novo atingindo as minhas veias, e fumar um cigarro com os olhos esbugalhados diante daquele que me dilacerava as tripas o rim, enquanto todos os Outros me olhavam como se para uma aberração. Aberração é amar desta maneira!
Andando nas ruas quentes de Nova Iorque de noite, descendo do metrô e andando pelo Brooklyn, de volta para casa.
Em parques de diversão, naquele INSTANTE em que o moço abaixa violentamente sobre o seu abdômen a barra de segurança da montanha russa e você sabe que não tem mais volta.
O primeiro beijo que ele me deu (roubou de mim!) no portãozinho enferrujado e barulhento da casa da italiana ruiva maravilhosa, e os dois estavam com tanta vontade reprimida de tanto TEMPO sem poder realizar o que a gente mais queria. E a lua absurda sobre nós.
Tocar violão com o meu irmão. Principalmente o hit: "... tudo certo como dois e dois são cinco"!
Os segundos antes de entrar em cena. Entrar em cena. O pós-espetáculo que também se aproxima da sensação pós-orgasmo. E fumar um cigarro...
Gritar bêbada nas ruas geladas de Buenos Aires.
Quando comi brigadeiro de maconha em Ubatuba e achei que fosse uma sereia que não sabia nadar.
Quando saía da minha seção de terapia.
Quando escrevo. Quando canto. Quando estou profundamente apaixonada pela vida.
Sexta-feira, março 26
Sobre cactus.
Debaixo de rochas metamórficas.
Em alto mar.
All by my own.
A que fui. A que estou. A que vou vir a ser.
Dentro do corpo e fora as espinhas erupções de pele me dizendo alguma coisa toda vez que olho no espelho.
Não é por aí. Não é por aí, gritam, silenciosas.
Então por onde?
Falta o quê pra desabrochar?
Tem a faca o queijo. Falta o quê?
Falta a fome. Falta o desejo que me movia com tanta intensidade quando eu tinha 16. E 19.
Que eu não me criticava eu ia. Eu me mostrava pro mundo. Eu não tinha medo do mundo. Eu tinha vontade do mundo. Eu tinha fome do mundo. Credo, pareço uma velha e só tenho 23. Credo. Pareço uma chata. E eu era tão espontânea. Era fácil falar. Era simples viver. Viajar. Me embebedar. Era fácil namorar. Era bom.
E agora. É. um pouco. mais. árduo. Criei barreiras. Inventei. Acreditei nelas. E agora. elas. existem. Não sou mais espontânea. Sou calculada. Sou milimétrica. Não me embebedo até passar mal. Aprendi o limite. O chato do limite. Não falo merda. Tenho necessidade escrota absoluta de ser aceita. Não amo. Não. amo. mais.
Debaixo de rochas metamórficas.
Em alto mar.
All by my own.
A que fui. A que estou. A que vou vir a ser.
Dentro do corpo e fora as espinhas erupções de pele me dizendo alguma coisa toda vez que olho no espelho.
Não é por aí. Não é por aí, gritam, silenciosas.
Então por onde?
Falta o quê pra desabrochar?
Tem a faca o queijo. Falta o quê?
Falta a fome. Falta o desejo que me movia com tanta intensidade quando eu tinha 16. E 19.
Que eu não me criticava eu ia. Eu me mostrava pro mundo. Eu não tinha medo do mundo. Eu tinha vontade do mundo. Eu tinha fome do mundo. Credo, pareço uma velha e só tenho 23. Credo. Pareço uma chata. E eu era tão espontânea. Era fácil falar. Era simples viver. Viajar. Me embebedar. Era fácil namorar. Era bom.
E agora. É. um pouco. mais. árduo. Criei barreiras. Inventei. Acreditei nelas. E agora. elas. existem. Não sou mais espontânea. Sou calculada. Sou milimétrica. Não me embebedo até passar mal. Aprendi o limite. O chato do limite. Não falo merda. Tenho necessidade escrota absoluta de ser aceita. Não amo. Não. amo. mais.
segunda-feira, março 22, 2010
Olha que maluco:
sentei pra escrever, acometida subitamente por uma pressa de escrever sobre um assunto. Tipo uma necessidade, como dizem por aí. Sentei e pensei. Pra escrever sobre isso preciso antes acender um cigarro. Andei pela casa procurando cigarro e não encontrei em lugar nenhum. Acontece que neste simples trajeto que foi o de me levantar e sair em busca de cigarro, acabei me esquecendo do que eu estava indo fazer e quando percebi estava andando em círculos. Entrando e saindo do banheiro. Do quarto, acendendo e apagando a luz. Abri a geladeira e olhei as comidas estáticas, na cozinha. Abri a janela da sala. E o assunto que me moveu até aqui, aquele sobre o qual eu tinha a necessidade de escrever, me acompanhou durante todo o trajeto maluco dentro da minha própria casa. Fervilhou, eu diria melhor. As palavras na minha cabeça já começavam a estabelecer conexões entre si. Como começar este texto? As frases do meio já vinham se configurando. E enquanto tudo isso acontecia dentro do meu cérebro, meu corpo esquecido, fazia ações burras e cotidians condicionadas. Ações que eu nem comando mais. Meu cérebro se esqueceu do meu corpo e o abandonou e ele ficou ao Deus dará andando em círculos, abrindo armários e olhando para comidas enquanto frases profundas se enfileiravam na minha cabeça. Aí lembrei do cigarro. Aí cérebro e corpo se encontraram de novo. Tchum. Encaixou. E quando comecei esta retrospectiva com tudo o que aconteceu desde o momento em que decidi falar sobre aquele assunto, percebi que não era para falar sobre aquele tal assunto. Achei melhor escrever sobre nada. E vou-me embora que estou atrasada.
sentei pra escrever, acometida subitamente por uma pressa de escrever sobre um assunto. Tipo uma necessidade, como dizem por aí. Sentei e pensei. Pra escrever sobre isso preciso antes acender um cigarro. Andei pela casa procurando cigarro e não encontrei em lugar nenhum. Acontece que neste simples trajeto que foi o de me levantar e sair em busca de cigarro, acabei me esquecendo do que eu estava indo fazer e quando percebi estava andando em círculos. Entrando e saindo do banheiro. Do quarto, acendendo e apagando a luz. Abri a geladeira e olhei as comidas estáticas, na cozinha. Abri a janela da sala. E o assunto que me moveu até aqui, aquele sobre o qual eu tinha a necessidade de escrever, me acompanhou durante todo o trajeto maluco dentro da minha própria casa. Fervilhou, eu diria melhor. As palavras na minha cabeça já começavam a estabelecer conexões entre si. Como começar este texto? As frases do meio já vinham se configurando. E enquanto tudo isso acontecia dentro do meu cérebro, meu corpo esquecido, fazia ações burras e cotidians condicionadas. Ações que eu nem comando mais. Meu cérebro se esqueceu do meu corpo e o abandonou e ele ficou ao Deus dará andando em círculos, abrindo armários e olhando para comidas enquanto frases profundas se enfileiravam na minha cabeça. Aí lembrei do cigarro. Aí cérebro e corpo se encontraram de novo. Tchum. Encaixou. E quando comecei esta retrospectiva com tudo o que aconteceu desde o momento em que decidi falar sobre aquele assunto, percebi que não era para falar sobre aquele tal assunto. Achei melhor escrever sobre nada. E vou-me embora que estou atrasada.
sexta-feira, março 19, 2010
Queria que você escrevesse em mim, dentro de mim, em cima de mim, ao lado de mim, que escrevesse mim em você, que escrevesse mim em mim. Que você escrevesse de você em mim, que escrevesse vocês e mins e mins e vocês e nós em nós. Que escrevesse por nós, sobre nós, dentro de nós. Sobre nós, sobretudo. Que escrevesse nós em mim. Que escrevesse. Mim queria que nós escrevêssemos em você, em mim. Você queria? Você quer? Você mim querer? Querer eu quero. Escrever. Nos escrever em nossos mins e nossos escreveres em nós.
Hoje.
Calor e Cazuza nos ouvidos.
Pernilongo devorando meus pés. E panturrilha. Ai.
Aqui chama Pousada da Terra e é agora meu segundo lar.
Aqui é longe daí. Fica bem em cima no mapa do Brasil. Brasilzão sem portêra. Brasilzão que é um em cada canto.
Quem tá aqui não sai por nada. Fala que São Paulo não faz o menor sentido, São Paulo nem interessa pra eles daqui. E a gente daí fica achando que é o centro do mundo, que no fundo todos estão muito tristes por não terem nascido aí e que tudo o que eles mais queriam era morar nesta cidade megalomaníaca.
Querem nada. Eles ficam é tirando sarro da minha cara. Que São Paulo inunda. Que em São paulo é todo mundo "frescurento". Que em São Paulo você tem que sair da sua casa no mínimo uma hora antes do seu compromisso. E aqui, quando é muito longe, eles saem 15 minutos antes. E aqui tem praia e caranguejo a três reais o quilo e camarão e sol e calor e calor e, affff, calor. O apelido daqui é Terra do Sol. Quando o avião chega no aeroporto a aeromoça diz: "Temperatura em Natal é de 30 graus". E eu penso: "Ah, que novidade!". Aqui a temperatura é sempre de trinta graus.
E eu ando de taxi e como camarão e tomo cerveja e nado na piscina "temperatura ambiente" do hotel e me divirto com meu amigo mineiro e minha amiga natalense e gravo umas cenas nada a ver pro Governo e as pessoas me reconhecem na rua e falam que admiram muito meu trabalho! Rá!! Que trabalho?
Hoje eu estou de folga em Natal. E eu fiz só as mesmas coisas que faria se estivesse em São Paulo. Almocei. Fui no shopping. Fiquei horas e horas na internet. Ai essa paulistanice que não nos abandona...
Pernilongo devorando meus pés. E panturrilha. Ai.
Aqui chama Pousada da Terra e é agora meu segundo lar.
Aqui é longe daí. Fica bem em cima no mapa do Brasil. Brasilzão sem portêra. Brasilzão que é um em cada canto.
Quem tá aqui não sai por nada. Fala que São Paulo não faz o menor sentido, São Paulo nem interessa pra eles daqui. E a gente daí fica achando que é o centro do mundo, que no fundo todos estão muito tristes por não terem nascido aí e que tudo o que eles mais queriam era morar nesta cidade megalomaníaca.
Querem nada. Eles ficam é tirando sarro da minha cara. Que São Paulo inunda. Que em São paulo é todo mundo "frescurento". Que em São Paulo você tem que sair da sua casa no mínimo uma hora antes do seu compromisso. E aqui, quando é muito longe, eles saem 15 minutos antes. E aqui tem praia e caranguejo a três reais o quilo e camarão e sol e calor e calor e, affff, calor. O apelido daqui é Terra do Sol. Quando o avião chega no aeroporto a aeromoça diz: "Temperatura em Natal é de 30 graus". E eu penso: "Ah, que novidade!". Aqui a temperatura é sempre de trinta graus.
E eu ando de taxi e como camarão e tomo cerveja e nado na piscina "temperatura ambiente" do hotel e me divirto com meu amigo mineiro e minha amiga natalense e gravo umas cenas nada a ver pro Governo e as pessoas me reconhecem na rua e falam que admiram muito meu trabalho! Rá!! Que trabalho?
Hoje eu estou de folga em Natal. E eu fiz só as mesmas coisas que faria se estivesse em São Paulo. Almocei. Fui no shopping. Fiquei horas e horas na internet. Ai essa paulistanice que não nos abandona...
quarta-feira, março 17, 2010
Ofélia afogada entre pilhas de roupa suja emboladas pelo chão do quarto.
Agarrada ao criado mudo transbordando papéis inúteis que não consegue se desvencilhar.
Sufocada pelo telefone celular que toca grita vibra e nunca é quem ela queria que fosse.
Ofélia intoxicada pelo trânsito calor infernal de fumaça nojenta entrando nos poros aos poucos.
Ofélia no meio fio. Ofélia sem linha. Ofélia fumando marlborão.
No funk. No pagode. Ofélia desafogando.
Ofélia trepando, Ofélia se enganando.
Ela quer sentir saudades e chorar de noite depois de apagar o abajur.
Ela quer criar coragem e jogar fora tudo o que não precisa mais.
Ofélia precisa de tempo pra cuidar das plantas no terraço, dos amigos e do mural de fotos que está se desfazendo na parede. Ofélia precisa cuidar do namorado. Do que restou. Pouco.
Ofélia por pouco, aos poucos, para poucos.
Agarrada ao criado mudo transbordando papéis inúteis que não consegue se desvencilhar.
Sufocada pelo telefone celular que toca grita vibra e nunca é quem ela queria que fosse.
Ofélia intoxicada pelo trânsito calor infernal de fumaça nojenta entrando nos poros aos poucos.
Ofélia no meio fio. Ofélia sem linha. Ofélia fumando marlborão.
No funk. No pagode. Ofélia desafogando.
Ofélia trepando, Ofélia se enganando.
Ela quer sentir saudades e chorar de noite depois de apagar o abajur.
Ela quer criar coragem e jogar fora tudo o que não precisa mais.
Ofélia precisa de tempo pra cuidar das plantas no terraço, dos amigos e do mural de fotos que está se desfazendo na parede. Ofélia precisa cuidar do namorado. Do que restou. Pouco.
Ofélia por pouco, aos poucos, para poucos.
quarta-feira, março 10, 2010
Sereinha da Sé
Não que seja menina de rua, mas vive dentro de uma fonte que deixou de ter água há uns bons anos, na Praça da Sé. Dessas meninas - menino que vemos por aí. Mora mesmo ali dentro, por isso é conhecida nas redondezas como a Sereinha da Sé. Quando chove é a desforra. E quando chove muito, a fonte até enche um bocadinho e ela se esbalda brincando de ser a sereia que gosta de imaginar. Sereinha do cabelo curto, que canta nas calçadas durante o dia pra ganhar a vida com uma vozinha chocha - e o povo até que se compadece e lhe descola algumas moedas pequenas. Mas quando chove, aí ela se inspira e bem que solta um vozeirão de menina adulta, de menina mulher que encanta os que tem a sorte de flagrar a cena. Flagrar, porque não é para os outros que ela canta assim, é pra ela mesma, quando se sente feliz e imagina longas madeixas ao invés do cabelinho curto desgrenhado e uma calda linda e verde esmeralda no lugar das pernas. Claro que o seu sonho é conhecer o mar. Como foi parar lá dentro da fonte da Sé, é estória que os outros gostam de imaginar. Cada um tem sua opinião, chute, e outros dizem que sabem mesmo: que ela foi largada ali de bem pequeninha e que não conhece outra vida, outro lugar. Nunca saiu do centro da cidade, de onde conhece cada canto, cada esquina, cada boteco, cada pedinte, cada puta, cada cão sem dono, cada menino de cola, cada poste, cada cuspe, cada avenida, cada ponto de ônibus, cada casa de suco. Mas nunca viu coisa nenhuma diferente de canto, esquina, boteco, pedinte, puta, cão, moleque, poste, cuspe, avenida, ponto e suco. Nunca viu o mar, por exemplo. Nunca viu areia da praia sem ser em capa de revista, nunca viu duna, nunca viu céu despoluído, mata virgem, estrelas no céu nunca nunca viu. Nem imaginar, imaginou. Imaginar como, se não sabe que existe? Aí seria invenção, não imaginação, então ela prefere nem tentar. E se contenta com seu tanque seco, com sua voz murcha, com o fato de ninguém saber seu verdadeiro nome. Se contenta com noite sem lua e com as luzes que nunca a hipnotizaram.
E naquele dia foi ela quem hipnotizou um bigodudo chamado Zeus que surgiu de combi do meio do temporal para levá-la dali pra bem longe. “Quer conhecer o mar, Sereinha?”, perguntou o desconhecido. “Que que você acha, tio?”. E assim, enquanto cantava ia subindo a bordo da combi 1985 do tiozinho do bigode simpático. “Pode fumar aqui, tio?”. “Você pode tudo, Sereinha. Não tá vendo que eu sou a sua salvação. Agora vamos buscar os outros.” Ela nem perguntou nada. Não tinha nada a perder, afinal de contas. Não sentia apego nenhum pela fonte da Sé – é, ela não teria do que sentir saudades. Queria mais era ir ver o mar, e iria mesmo achando que aquele tiozinho vestido de salva-vidas podia muito bem tá enganando ela. Ele parecia inofensivo. Ela tava acostumada com coisa pior. Queria mesmo era andar de combi pela primeira vez. “Tchau Sereinha da Sé” – gritava com a cabeça pra fora da janela, e depois ela abria a boca e deixava a água da chuva entrar. “Agora eu vou ser a grande sereia do mar!”.
E naquele dia foi ela quem hipnotizou um bigodudo chamado Zeus que surgiu de combi do meio do temporal para levá-la dali pra bem longe. “Quer conhecer o mar, Sereinha?”, perguntou o desconhecido. “Que que você acha, tio?”. E assim, enquanto cantava ia subindo a bordo da combi 1985 do tiozinho do bigode simpático. “Pode fumar aqui, tio?”. “Você pode tudo, Sereinha. Não tá vendo que eu sou a sua salvação. Agora vamos buscar os outros.” Ela nem perguntou nada. Não tinha nada a perder, afinal de contas. Não sentia apego nenhum pela fonte da Sé – é, ela não teria do que sentir saudades. Queria mais era ir ver o mar, e iria mesmo achando que aquele tiozinho vestido de salva-vidas podia muito bem tá enganando ela. Ele parecia inofensivo. Ela tava acostumada com coisa pior. Queria mesmo era andar de combi pela primeira vez. “Tchau Sereinha da Sé” – gritava com a cabeça pra fora da janela, e depois ela abria a boca e deixava a água da chuva entrar. “Agora eu vou ser a grande sereia do mar!”.
segunda-feira, março 08, 2010
Vontade de. De enforcá-lo. De esquartejá-lo. De socá-lo. De cuspi-lo. De empurrá-lo ladeira abaixo. De afogá-lo. De agarrá-lo. De amá-lo. De roçá-lo. De suá-lo. De mordê-lo com toda a força da minha mandíbula. Mas eu o odeio. O odeio com toda a força do meu desejo. Do fundo das minhas entranhas eu o odeio. De dentro das minhas coxas. E veias bombeadoras de sangue para a minha língua nervosa por te engolir, meu cérebro em tilte e ansiedade sem dormir. Te odeio no final do dia e no início da madrugada. Na segunda e no domingo. Te odeio no meu pensamento, no meu texto, no meu ser ou não ser. E como se não bastasse, te odeio.
sexta-feira, março 05, 2010
Despertar. Dez horas de trabalho intenso da parte do cérebro que sonha. Ou da parte do espírito que sonha (vai saber quem é que sonha).
Acordei cansada de sonhar.
Aí era eu na Paulista tomando banho numa vitrine. Meu amigo passava caminhando, velho e grisalho, qual um Chaplin dos dias atuais, vestido de sobretudo e peles de raposa. Aí eu correndo e encontrando uma professora da USP que estava liderando um ritual de Ahayhuasca, na Paulista. Meus colegas da faculdade em transe, eu ao lado deles, conversando sobre banalidades. Eu de fora.
Aí era sempre assim: eu assistindo e o mundo acontecendo ao meu redor.
Mas quando era eu ali nua na vitrine deixava, tranquila, os outros assitirem.
O mundo me invadindo e eu me mostrando cada vez mais pra ele.
Que venha!
Acordei cansada de sonhar.
Aí era eu na Paulista tomando banho numa vitrine. Meu amigo passava caminhando, velho e grisalho, qual um Chaplin dos dias atuais, vestido de sobretudo e peles de raposa. Aí eu correndo e encontrando uma professora da USP que estava liderando um ritual de Ahayhuasca, na Paulista. Meus colegas da faculdade em transe, eu ao lado deles, conversando sobre banalidades. Eu de fora.
Aí era sempre assim: eu assistindo e o mundo acontecendo ao meu redor.
Mas quando era eu ali nua na vitrine deixava, tranquila, os outros assitirem.
O mundo me invadindo e eu me mostrando cada vez mais pra ele.
Que venha!
quarta-feira, março 03, 2010
Que agora é assim. Pra valer. Um eu um você. Um aqui outro além. Um acordar só. Um caminhar sem. Uma outra vida que calhou de ser assim. Uma dor que parece que uma mão pegou meu coração e não para de espremer. Uma vontade interrompida. Amor então também acaba? Não que eu saiba. Acaba que são outras coisas que acontecem no meio do caminho. E a gente não planejou assim. E os filhos? E a nossa arte? A nossa parceria acima de tudo? Tudo isso caiu em cima da minha cabeça e eu não to vendo nada muito bem. Tudo tem você. Olho ao redor e absolutmante em tudo você está. Na minha cama. Nas minhas roupas. Meu cheiro. Meu espelho. Meu armário tem suas coisas. Suas fotos na minha câmera. Seus livros na minha estante. Você na minha unha, meu cabelo, meu tornozelo. Você na minha voz na minha pele. No ar, na porra da atmosfera, na fiação elétrica de São Paulo, nas ruas calçadas e avenidas, nos cães, na minha mãe, na minha peça de teatro. Agora é viver com o vazio absoluto pesando sobre minha cabeça.
sexta-feira, fevereiro 26, 2010
Mossoro sem acentos
Acordei em Mossorõ de sonhos suicidas. Antes de acordar realizava que era ainda jovem e saudavel demais para morrer. Acordei de madrugada pra trabalhar.Aqui maior calor do mundo. Hoje vi estrada e mais estrada. Dia na estrada. Estrada não ê sô sinônimo de coisas legais e agradaveis. E tambem cansaco, trabalho, sem lar, sem chegar em casa depois de um dia exaustivo e quente. Aqui calor mais do que em qualquer outra parte do globo, e a sensacao que me da. Aqui ta cedo mas parece que nao durmo ha dias. Tomei cerveja na piscina e joguei truco com as pessoas da equipe. Fumei maconha. Vi tv. Tem tambem a hora do lazer, tem que ter!
terça-feira, fevereiro 23, 2010
Não me chame de lar
Não me dê segurança
Não me segure
Me espanque com seus beijos infernais
Implore por meu corpo que é bom demais para o seu
Me canse
Me exaura
Me sue
Me leve pra passear no seu corpo incansável
Insensível
Me dê leite pra dormir
Café quentinho ao despertar
Me cuide
Me cheire
Me lave
Durma enroladinho comigo e nem ouse tentar trepar
Me chame de sua mulher
Seu amor
Seu lar
Não me dê segurança
Não me segure
Me espanque com seus beijos infernais
Implore por meu corpo que é bom demais para o seu
Me canse
Me exaura
Me sue
Me leve pra passear no seu corpo incansável
Insensível
Me dê leite pra dormir
Café quentinho ao despertar
Me cuide
Me cheire
Me lave
Durma enroladinho comigo e nem ouse tentar trepar
Me chame de sua mulher
Seu amor
Seu lar
Coisas do céu
Avião me dá uma insônia da putaquepariu. Além de me despertar um medo incontrolável na primeira hora e meia, é o lugar do anti-sono por natureza. Poltronas duras com mínimo grau de inclinação, comidinha impiedosa, vizinhos mau humoradésimos com os quais você tem de ficar o tempo todo estabelecendo contato físico, já que as poltronas são coladas umas nas outras. Tá, eu sei que eu também sou uma vizinha mau humorada e neste momento sou uma das únicas com a luzinha insuportavelmente acesa, enquanto todos dormem. Admito que morro e babo de inveja destes que dormem como se estivessem nos poltronões de suas salas diante da TV ligada inutilmente. Daqui de dentro desta máquina - que até hoje não compreendo como pôde ter sido inventada pelos reles humanos - voadora, assustadora e insone, tenho a bela visão da Lua como se a Lua estivesse ao alcance dos meus braços esticados. É incrível. Parece que eu e ela estamos na mesma altitude no céu, uma ao lado da outra. Poderíamos dar as mãos e vagar por esse espaço sideral afora. Será que também a minha companheira solitária Lua sofre de insônia a esta altura? Será que lá também é frio e turbulento como nesta máquina voadora em que me encontro? Será que lá os ouvidos se tapam, o coração acelera e a adrenalina não nos deixa dormir?
Sinceramente, acredito que na Lua aqui do lado, as coisas são, no mínimo, mais tranquilas. Sei não. Mas olho para ela e me vem uma sensação de silêncio, sabe? Sabe, silêncio, essa coisa INEXISTENTE dentro de um avião?
Me parece também que lás as coisas são mais leves, os vizinhos não enchem o saco, tem sempre uma craterinha por perto pra buscar abrigo e pode até ser que você acabe caindo no sono sem nem perceber...
Sinceramente, acredito que na Lua aqui do lado, as coisas são, no mínimo, mais tranquilas. Sei não. Mas olho para ela e me vem uma sensação de silêncio, sabe? Sabe, silêncio, essa coisa INEXISTENTE dentro de um avião?
Me parece também que lás as coisas são mais leves, os vizinhos não enchem o saco, tem sempre uma craterinha por perto pra buscar abrigo e pode até ser que você acabe caindo no sono sem nem perceber...
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
Mais uma vez na estrada. Mais uma vez sozinha. Quarto de hotel, frigobar, televisão, sol lá fora e aqui solidão.
Parece que perdi o fio da meada.
O que estou fazendo aqui, afinal de contas? Por quê raios me contrataram pra esses filmes do Governo do Rio Grande do Norte? Isso não tem na da a ver c om igo.
Aqui calor. Aqui chove e a chuva dura dois minutos e meio e nem refrescar refresca. Aqui saudades. Aqui longe. Aqui ilhada.
Assisti um filme idiota com o George Clooney e me identifiquei idotamente. Saí do cinema do Praia Shopping arrasada. E me pergunto incessantemente: o que diabos estou fazendo aqui? Será uma peça que o Destino está me pregando? Um exílio remunerado? Um tempo que me obriga a pensar e pensar e pensar até perceber que está tudo errado?
Começar de novo; eu só queria ser atriz e não a porra da garota propaganda do Governo do Rio Grande do Norte(que ninguém daqui me leia!).
Parece que perdi o fio da meada.
O que estou fazendo aqui, afinal de contas? Por quê raios me contrataram pra esses filmes do Governo do Rio Grande do Norte? Isso não tem na da a ver c om igo.
Aqui calor. Aqui chove e a chuva dura dois minutos e meio e nem refrescar refresca. Aqui saudades. Aqui longe. Aqui ilhada.
Assisti um filme idiota com o George Clooney e me identifiquei idotamente. Saí do cinema do Praia Shopping arrasada. E me pergunto incessantemente: o que diabos estou fazendo aqui? Será uma peça que o Destino está me pregando? Um exílio remunerado? Um tempo que me obriga a pensar e pensar e pensar até perceber que está tudo errado?
Começar de novo; eu só queria ser atriz e não a porra da garota propaganda do Governo do Rio Grande do Norte(que ninguém daqui me leia!).
quinta-feira, fevereiro 18, 2010
sexta-feira, fevereiro 12, 2010
Momento maluco de se viver. Não compreendo ainda, alucinada e perdida, cheia saturada de informação. Meu corpo, o que tenho feito do meu corpo? Intoxicado. No meio do tornado não dá pra ter visão de fora de porra nenhuma. Me vejo cambaleando, indo, indo, indo. Deixando levar, me levarem, me perderem. Tomar as rédeas e amarrar o burro sempre foram os meus desafios, já dizia Estelamare. Mas é disso que estou precisando? Frear ou acelerar? Ir ou ficar? Ser ou não ser? O que ser? Quem, dentre as tantas que posso escolher? Qual dessas aí misturadas de pernas pro ar, quem dessas melhor representa o meu papel? Qual é o papel que me cabe aqui e agora? Porque já não me iludo: eu mesma sou muitas, mesmo. Não há sol a sós. S.O.S. Mando mensagens que confundem o Destino. Me perco no caminho encontrando outros pedaços de mim que eu ainda não conhecia. Quem sabe um dia não completo este quebra-cabeças? Sou um monstro de mil cabeças. Sou Medusa dos cabelos de serpente. So fi a. O nome faz eco na cabeça, ressoa no pulmão, tropeça, cai, levanta, sai. Preciso ficar só. Preciso de mim agora mais do que nunca.
quinta-feira, fevereiro 04, 2010
Da janela luz neon roxa escura.
É agora e já.
Que sexo tem?
Que sexo tem?
Bichos loucos suicidas escritores jovens amantes mentirosos em alerta, com drogas, amor e sexo. Lençol de suor. Coroa de tesão. Paira.
Gotículas de testosterona no ar.
A noite é foda. A noite é foda. A noite pé afora ante pé, antes não fosse de noite. Mas agora já é, tamo aqui e pá, já é. Sempre é agora a partir de agora. O tempo não existe, a partir de agora. É só pensar que de noite é pra sempre de noite. O sol resolveu não voltar, entregues tipo bicho sorrateiro -os bichos da noite são cruéis e deliciosos e cruéis- estamos entrgues aos livre arbítrios da cidade anoitecida para sempre. Já é. Não tem volta. Meteu o pé, abraça o diabo. E goza.
É agora e já.
Que sexo tem?
Que sexo tem?
Bichos loucos suicidas escritores jovens amantes mentirosos em alerta, com drogas, amor e sexo. Lençol de suor. Coroa de tesão. Paira.
Gotículas de testosterona no ar.
A noite é foda. A noite é foda. A noite pé afora ante pé, antes não fosse de noite. Mas agora já é, tamo aqui e pá, já é. Sempre é agora a partir de agora. O tempo não existe, a partir de agora. É só pensar que de noite é pra sempre de noite. O sol resolveu não voltar, entregues tipo bicho sorrateiro -os bichos da noite são cruéis e deliciosos e cruéis- estamos entrgues aos livre arbítrios da cidade anoitecida para sempre. Já é. Não tem volta. Meteu o pé, abraça o diabo. E goza.
sábado, janeiro 30, 2010
bailado
Cabeça lateja pensamento bebida suor confetes embolados no chão
Me segura parede
Que hoje eu to que to
Hoje eu danço
Me esfalfelo
Rebolo requebro
Hoje eu vou que vou
Sem medo
Sem dó
Meu sangue ferve
Me segura parede
Mão boca líquida suor vodca red bull
Nó de perna
Nó de corpo
De ritmo suor ritmo suor ritmo suor
Cabelo dente carne mão
Mão Mão Mão
Mas as luzes se acendem
E a faxineira começa a varrer o salão
Me segura parede
Que hoje eu to que to
Hoje eu danço
Me esfalfelo
Rebolo requebro
Hoje eu vou que vou
Sem medo
Sem dó
Meu sangue ferve
Me segura parede
Mão boca líquida suor vodca red bull
Nó de perna
Nó de corpo
De ritmo suor ritmo suor ritmo suor
Cabelo dente carne mão
Mão Mão Mão
Mas as luzes se acendem
E a faxineira começa a varrer o salão
terça-feira, janeiro 26, 2010
Vivo no mundo
O mundo que começa no meu travesseiro e termina... e termina... ali na esquina
Ou ali na Augusta, Nestor Pestana, Martins Fontes... Major Sertório. General Jardim. Rego Freitas.
E ainda Consolação. Praça Roosevelt. Ipiranga. Copan.
Meu mundo está no centro. Do mundo.
E eu... eu... eu...
No centro de mim estou eu que estou no centro do centro do mundo. Eu que sou mais uma na multidão do centro do mundo. Todo mundo está no centro de seu mundo. Quantos mundos me rodeiam e eu sequer sei de suas existências.
Meu umbigo cruza muitos umbigos diariamente.
Umbigos centrados em seus mundos. Umbigos que vieram de mães que vieram de avós e tataravós. Umbigos de gerações convivem ao lado do meu umbiguinho jovem.
Quantos seres. E eu conheço tão poucos. E eu que mal sei de mim.
O mundo que começa no meu travesseiro e termina... e termina... ali na esquina
Ou ali na Augusta, Nestor Pestana, Martins Fontes... Major Sertório. General Jardim. Rego Freitas.
E ainda Consolação. Praça Roosevelt. Ipiranga. Copan.
Meu mundo está no centro. Do mundo.
E eu... eu... eu...
No centro de mim estou eu que estou no centro do centro do mundo. Eu que sou mais uma na multidão do centro do mundo. Todo mundo está no centro de seu mundo. Quantos mundos me rodeiam e eu sequer sei de suas existências.
Meu umbigo cruza muitos umbigos diariamente.
Umbigos centrados em seus mundos. Umbigos que vieram de mães que vieram de avós e tataravós. Umbigos de gerações convivem ao lado do meu umbiguinho jovem.
Quantos seres. E eu conheço tão poucos. E eu que mal sei de mim.
quarta-feira, janeiro 13, 2010
mais um
Eu mergulhava na piscina e afundava até onde meu pé enconstava no chão. Pegava impulso no chão e começava a voltar para a superfície. Mas a superfície não chegava nunca. E meu ar acabando. E não chega nunca. E meu ar já no fim. E não chega e não chega e não chega. Não há mais ar. Alguém me puxa. Respiro. Renasço. Acordo.
quinta-feira, janeiro 07, 2010
Ilha do Cardoso
31 de dezembro de 2009
The last one. Árduo, esse.
E agora, daqui destas tábuas sobre o mangue
suspensa
solta
Me desfaço
Desfecho deste que termina hoje
Aqui
Peço, imploro
Que se entregue, Sofia
Que tire os pés do chão um pouquinho ao menos
Que aquiete essa cabeça pesada
que pensa pensa e pensa
Aqui jogo os meus miolos
que boiem e naveguem
mangue adentro
Me deixem livre para em 2010
apenas ser.
31 de dezembro de 2009
The last one. Árduo, esse.
E agora, daqui destas tábuas sobre o mangue
suspensa
solta
Me desfaço
Desfecho deste que termina hoje
Aqui
Peço, imploro
Que se entregue, Sofia
Que tire os pés do chão um pouquinho ao menos
Que aquiete essa cabeça pesada
que pensa pensa e pensa
Aqui jogo os meus miolos
que boiem e naveguem
mangue adentro
Me deixem livre para em 2010
apenas ser.
Ilha do Cardoso, P.N.
não sei o dia
O que vai
embolado
fugido
escurraçado
Entrega nas mãos dos que construíram o mundo, os apetrechos da demolição
Aos que ficam
o resto
o troço
o canto inacabado
A lembrança de fogão enferrujado
panela sem tampa
tudo destrambelhado
E agora
é ficar
é erguer
refazer um pedacinho ao menos
igual não vai ser
não vai não
nunca mais.
não sei o dia
O que vai
embolado
fugido
escurraçado
Entrega nas mãos dos que construíram o mundo, os apetrechos da demolição
Aos que ficam
o resto
o troço
o canto inacabado
A lembrança de fogão enferrujado
panela sem tampa
tudo destrambelhado
E agora
é ficar
é erguer
refazer um pedacinho ao menos
igual não vai ser
não vai não
nunca mais.
IV
20 de dezembro de 2009
No ar: entre R.N. e S.P.
Não consigo dormir, PORRA
Avião é incômodo demais e a moça não me deu um travesseirinho quando eu pedi e aí acabaram todos os travesseirinhos. Minha cabeça mais rápida que esse avião. Queria que tivesse um botãozinho que desligasse pensamento e outro que regulasse ansiedade.
No ar: entre R.N. e S.P.
Não consigo dormir, PORRA
Avião é incômodo demais e a moça não me deu um travesseirinho quando eu pedi e aí acabaram todos os travesseirinhos. Minha cabeça mais rápida que esse avião. Queria que tivesse um botãozinho que desligasse pensamento e outro que regulasse ansiedade.
Do caderno III
Natal, R.N.
17 de dezembro de 2009
De volta à Natal.
Terça fomos viajar para Jardim do Seridó, sertão, interior do R.N.
Estrada de paisagem que eu nunca tinha visto igual. O sertão é seco, marrom, mas também é cheio de verde, árvores grandes e verdes misturadas com a Caatinga esturricada e marrom. E no meio do nada surgem açudes lindos, quase como miragens no meio de tanta secura. Água no sertão! Jamais imaginei uma coisa dessas... Segundo o motorista da van, seu Didi, a terra do sertão é fértil demais, cai uma gotinha de água e já vem logo um verdinho nascendo. Lindo, isso. E montanhas lindas, pedras cheias de formas, tudo me fascinando, me hipnotizando na viagem de van rumo ao mais absoluto desconhecido, rumo ao interior, ao tão ser da Terra.
Passamos dentro de muitas cidadezinhas, lindas, de casas pequenas e bonitas, as famílias sentadas na calçada tentando fugir do calor absurdo que assola o sertão, conversando, num tempo outro, vivendo simplesmente.
Em Jardim do Seridó, jantamos galinha caipira, carne de sol, arroz de leite, preá (!), paçoca, bife de fígado, farofa, UFA! Uma verdadeira orgia gastronômica no Restaurante do Seu José Diniz. Maravilhoso. Não preciso nem dizer que TODOS os seres que aparecem nestes caminhos são incríveis. Corações e almas e simpatias ambulantes!
No dia seguinte gravamos e viajamos para mais longe: Pau dos Ferros, que só pelo nome, já se percebe que nesta cidade não existe nada, a não ser CALOR. PAU DOS FERROS. Muito calor, lugar estranho, cidade feia. É uma das maiores cidades do sertão e parece uma imensa periferia de São Paulo.
17 de dezembro de 2009
De volta à Natal.
Terça fomos viajar para Jardim do Seridó, sertão, interior do R.N.
Estrada de paisagem que eu nunca tinha visto igual. O sertão é seco, marrom, mas também é cheio de verde, árvores grandes e verdes misturadas com a Caatinga esturricada e marrom. E no meio do nada surgem açudes lindos, quase como miragens no meio de tanta secura. Água no sertão! Jamais imaginei uma coisa dessas... Segundo o motorista da van, seu Didi, a terra do sertão é fértil demais, cai uma gotinha de água e já vem logo um verdinho nascendo. Lindo, isso. E montanhas lindas, pedras cheias de formas, tudo me fascinando, me hipnotizando na viagem de van rumo ao mais absoluto desconhecido, rumo ao interior, ao tão ser da Terra.
Passamos dentro de muitas cidadezinhas, lindas, de casas pequenas e bonitas, as famílias sentadas na calçada tentando fugir do calor absurdo que assola o sertão, conversando, num tempo outro, vivendo simplesmente.
Em Jardim do Seridó, jantamos galinha caipira, carne de sol, arroz de leite, preá (!), paçoca, bife de fígado, farofa, UFA! Uma verdadeira orgia gastronômica no Restaurante do Seu José Diniz. Maravilhoso. Não preciso nem dizer que TODOS os seres que aparecem nestes caminhos são incríveis. Corações e almas e simpatias ambulantes!
No dia seguinte gravamos e viajamos para mais longe: Pau dos Ferros, que só pelo nome, já se percebe que nesta cidade não existe nada, a não ser CALOR. PAU DOS FERROS. Muito calor, lugar estranho, cidade feia. É uma das maiores cidades do sertão e parece uma imensa periferia de São Paulo.
Do Caderno II
Praia da Pipa
14 de dezembro de 2009
Paradise is near
Paradise is here!
Praia do Amor
Depois dos pedregulhos, o Amor.
Dionisíaca. Perfeita. De pedras e vento e mar verde esmeralda.
Estou como o Diabo gosta! Em chamas!
14 de dezembro de 2009
Paradise is near
Paradise is here!
Praia do Amor
Depois dos pedregulhos, o Amor.
Dionisíaca. Perfeita. De pedras e vento e mar verde esmeralda.
Estou como o Diabo gosta! Em chamas!
Do caderno
Natal, R.N.
11 de dezembro de 2009
Cigarro, ar condicionado, frigobar, cama de casal, TV acoplada na parede, latinha de cerveja SKOL. Embarquei nesta viagem sozinha, all by myself, on my own, suela, solita, só. Me chamaram para este trabalho de publicidade do Governo do Rio Grande do Norte e eu vim. Eu e só. Eu e meus pensamentos e meu corpo e minhas questões e meus cigarros. Sempre detestei a combinação cigarro - ar condicionado, mas aqui em Natal não tem muito jeito, já que lá fora, mesmo nublado, faz um calor de derreter miolos.
Estar sozinha é uma arte. Noutras vezes, um tédio sem fim. Preciso ousar um pouco e começar a conhecer lugares que vão um pouco além dos dez metros que rodeiam a minha pousada.
Hoje vou sair pra passear no bairro da Ribeira.
Estou feliz e triste. Gosto e não gosto daqui. O trabalho é fácil: decoro textos rápidos e técnicos e vou para as obras gravar. A equipe é simpática e desorganizada. Fico me questionando o tempo todo sobre o que estou fazendo e penso que talvez fosse mais fácil e mais saudável encarar como trabalho mesmo e fazer a minha parte. Mas pensar com cabeça de artista é não se conformar mesmo e agora não tem mais volta: ou serei artista ou serei infeliz.
11 de dezembro de 2009
Cigarro, ar condicionado, frigobar, cama de casal, TV acoplada na parede, latinha de cerveja SKOL. Embarquei nesta viagem sozinha, all by myself, on my own, suela, solita, só. Me chamaram para este trabalho de publicidade do Governo do Rio Grande do Norte e eu vim. Eu e só. Eu e meus pensamentos e meu corpo e minhas questões e meus cigarros. Sempre detestei a combinação cigarro - ar condicionado, mas aqui em Natal não tem muito jeito, já que lá fora, mesmo nublado, faz um calor de derreter miolos.
Estar sozinha é uma arte. Noutras vezes, um tédio sem fim. Preciso ousar um pouco e começar a conhecer lugares que vão um pouco além dos dez metros que rodeiam a minha pousada.
Hoje vou sair pra passear no bairro da Ribeira.
Estou feliz e triste. Gosto e não gosto daqui. O trabalho é fácil: decoro textos rápidos e técnicos e vou para as obras gravar. A equipe é simpática e desorganizada. Fico me questionando o tempo todo sobre o que estou fazendo e penso que talvez fosse mais fácil e mais saudável encarar como trabalho mesmo e fazer a minha parte. Mas pensar com cabeça de artista é não se conformar mesmo e agora não tem mais volta: ou serei artista ou serei infeliz.
terça-feira, janeiro 05, 2010
Ilha do Cardoso
Back to Babylon.
Sem tempo de sentir falta da ultracidade atômica prestes a nos explodir.
Preferi o silêncio sobre as tábuas de um pier precário em cima do mangue.
Preferi o gole da Cataia artesanal de um certo Seu Malaquias.
Preferi o som do vento na praia que por um triz não nos leva embora de uma vez por todas.
Flutuei sobre ondas. Deslizei no chão do bar do Seu Malaquias ao som do forró que só lá consegue ser tão bom.
Amei as ondas, os siris, a chuva no zero da contagem regressiva para o início do novo ano. E correr pelo mar quente com a chuva fria e o vento absoluto. E abraçar meus amores, meus pedaços de mim que me acompanharam nesta jornada.
Amei a cama ruim e o calor onde quem manda são os mosquitos. Prefiro.
Agora eu aqui. Nua diante de uma máquina. Cigarro na boca. Cerveja quente na mão. E lá fora a chuva que castiga essa São Paulo sem solução.
Sem tempo de sentir falta da ultracidade atômica prestes a nos explodir.
Preferi o silêncio sobre as tábuas de um pier precário em cima do mangue.
Preferi o gole da Cataia artesanal de um certo Seu Malaquias.
Preferi o som do vento na praia que por um triz não nos leva embora de uma vez por todas.
Flutuei sobre ondas. Deslizei no chão do bar do Seu Malaquias ao som do forró que só lá consegue ser tão bom.
Amei as ondas, os siris, a chuva no zero da contagem regressiva para o início do novo ano. E correr pelo mar quente com a chuva fria e o vento absoluto. E abraçar meus amores, meus pedaços de mim que me acompanharam nesta jornada.
Amei a cama ruim e o calor onde quem manda são os mosquitos. Prefiro.
Agora eu aqui. Nua diante de uma máquina. Cigarro na boca. Cerveja quente na mão. E lá fora a chuva que castiga essa São Paulo sem solução.
segunda-feira, novembro 30, 2009
Arma na cabeça. Eu fujo num descampado. Tento me esconder muito inutilmente. Ele me alcança. Choro grito esperneio. E falo. Você não pode me matar que eu tenho função neste mundo. Sou atriz. Você não pode me matar. Ele tira uma garrafinha do bolso contendo algum tipo de bebida alcoólica forte. Vira a garrafa goela abaixo, ingerindo coragem pra me matar. Grito mais. Sou atriz. Sou atriz. Me deixe em paz. E aquela pequena e prateada coisa mortífera apontada na minha cabeça. Ele desiste. Ele desiste! Venço a batalha. Acordo do sonho e leio na minha parede: a arte não ama os covardes. Aprendo diariamente com os sonhos e com a arte.
domingo, novembro 22, 2009
quinta-feira, outubro 29, 2009
desabafo
o lobo do Homem não é o Homem
mas alguns tipos de homem
os tipos ignorantes
os tipos oportunistas
os tipos corruptos
a prefeitura de santo andré tem cumprido lindamente o seu papel de assassina da cultura e da história da cidade de sto. andré. seria tão maravilhoso se a população pudesse enxergar e ouvir o que está se passando na escola livre. é uma luta que tem se tornado desesperançosa e em vão, por parte da comunidade elt. não há voz para os aprendizes e mestres da escola livre. não tem pra onde correr, quem socorrer, quem compreender, quem defender a escola das mãos ignornates e destruidoras da atual prefeitura de sto. andré. será que tudo o que dá certo neste mundo, tudo o que é público e funciona está fadado a acabar assim que um novo partido assume o poder?
que tipo de administração é essa que desmantela uma escola que há vinte anos tem feito uma diferença absurda na vida daqueles que dela participaram e participam?
o que será que eles tem na cabeça? nada, eu acho. eles não tem absolutamente nada na cabeça. eles não tem plano de governo algum e vão querer mexer na única coisa que funciona em sto. andré. vai mexer na saúde. vai cuidar da violência. da educação. deixem a escola livre em paz, catso. deixem a escola livre funcionar, deixem os aprendizes aprenderem seu ofício, deixem os mestres livres para ensinar. deixem-nos deixar de se preocupar com a ameaça paralisadora que se instalou desde que essa nova coordenadora chegou. tirem essa mulher daí. tirem ela daí. ela não merece esse cargo. ela não merece os vinte anos de luta e vida desta escola da qual ele não faz parte em absoluto. é um insulto ao trabalho e suor dos que batalharam vinte anos pra essa escola existir. é um desrespeito a arte, à Dioniso, é um crime acabar com a escola livre de teatro. será que eu posso processar uma prefeitura por assassinato da cultura? por assassinato de um órgão que pertence a todos?
a tarefa da prefeitura não deveria ser a de facilitadora do funcionamento de uma escola? porque eles entram como pedras gigantescas no caminho? como rochas antiquadas e paralisadas no meio do grande nada de onde vieram. voltem pra lá seus parasitas. deixem a escola respirar de novo. desgrudem seus carrapatos. esse projeto não tem nada a ver com vocês ele não diz respeito a vocês, seus sangue sugas. vão mamar noutro lugar. o nosso galho é na escola livre o de vocês é em outro lugar. xô xuá. xô xuá. xô xuá. sai pra lá coisa ruim. sai pra lá seus retardatários.
mas alguns tipos de homem
os tipos ignorantes
os tipos oportunistas
os tipos corruptos
a prefeitura de santo andré tem cumprido lindamente o seu papel de assassina da cultura e da história da cidade de sto. andré. seria tão maravilhoso se a população pudesse enxergar e ouvir o que está se passando na escola livre. é uma luta que tem se tornado desesperançosa e em vão, por parte da comunidade elt. não há voz para os aprendizes e mestres da escola livre. não tem pra onde correr, quem socorrer, quem compreender, quem defender a escola das mãos ignornates e destruidoras da atual prefeitura de sto. andré. será que tudo o que dá certo neste mundo, tudo o que é público e funciona está fadado a acabar assim que um novo partido assume o poder?
que tipo de administração é essa que desmantela uma escola que há vinte anos tem feito uma diferença absurda na vida daqueles que dela participaram e participam?
o que será que eles tem na cabeça? nada, eu acho. eles não tem absolutamente nada na cabeça. eles não tem plano de governo algum e vão querer mexer na única coisa que funciona em sto. andré. vai mexer na saúde. vai cuidar da violência. da educação. deixem a escola livre em paz, catso. deixem a escola livre funcionar, deixem os aprendizes aprenderem seu ofício, deixem os mestres livres para ensinar. deixem-nos deixar de se preocupar com a ameaça paralisadora que se instalou desde que essa nova coordenadora chegou. tirem essa mulher daí. tirem ela daí. ela não merece esse cargo. ela não merece os vinte anos de luta e vida desta escola da qual ele não faz parte em absoluto. é um insulto ao trabalho e suor dos que batalharam vinte anos pra essa escola existir. é um desrespeito a arte, à Dioniso, é um crime acabar com a escola livre de teatro. será que eu posso processar uma prefeitura por assassinato da cultura? por assassinato de um órgão que pertence a todos?
a tarefa da prefeitura não deveria ser a de facilitadora do funcionamento de uma escola? porque eles entram como pedras gigantescas no caminho? como rochas antiquadas e paralisadas no meio do grande nada de onde vieram. voltem pra lá seus parasitas. deixem a escola respirar de novo. desgrudem seus carrapatos. esse projeto não tem nada a ver com vocês ele não diz respeito a vocês, seus sangue sugas. vão mamar noutro lugar. o nosso galho é na escola livre o de vocês é em outro lugar. xô xuá. xô xuá. xô xuá. sai pra lá coisa ruim. sai pra lá seus retardatários.
quarta-feira, outubro 21, 2009
Araçá
Queria escrever algo tão maravilhoso e sublime como a música Araçá Azul do Caetano.
Se o que escrevo pudesse gerar nos outros uma pitada do que essa música provoca em mim eu quem sabe seria um ser humano feliz. É tão curta e tão intensa. Me lembra de vida, de infância, de amor de tristeza de morte, de alegria de momentos de futuro de amor de amor de amor. É algo muito mais forte que eu e minha arte incipiente. É muito mais forte que é impossível não me emocionar. Mesmo se eu fizesse um esforço de frieza e indiferença, ainda assim, ela me acertaria em cheio, bem no meio de mim ela chega e atravessa e eu. Simplesmente deixo atravessar. E coloco-a para repetir e repetir e repetir. E não me canso nunca.
Não é segredo
Com Fé em Deus
Eu não vou morrer tão cedo
Viu?
Ela me atravessa e quando percebo meus dedos digitam suas palavras no teclado. Obedeço. Como não, Caetano?
Como pode você, Caetano? Há tantos anos fazer parte assim de mim?
Você e essas palavras desconexas e perfeitas que me atingem de manhã cedo ou à noite quando chego a olhar pro céu e pensar: Com Fé em Deus eu não vou morrer tão cedo. Quando me lembro que não são minhas as palavras e nem o desejo de não morrer tão cedo. São suas, Caetano. Você as transferiu para mim e eu as acolho e escolho a hora certa para cantar suas canções de amor, de infância, de passado de paisagem de passagem. Essa nossa passagem aqui na coisa vida que fica mais completa por sua causa, Caetano.
Se o que escrevo pudesse gerar nos outros uma pitada do que essa música provoca em mim eu quem sabe seria um ser humano feliz. É tão curta e tão intensa. Me lembra de vida, de infância, de amor de tristeza de morte, de alegria de momentos de futuro de amor de amor de amor. É algo muito mais forte que eu e minha arte incipiente. É muito mais forte que é impossível não me emocionar. Mesmo se eu fizesse um esforço de frieza e indiferença, ainda assim, ela me acertaria em cheio, bem no meio de mim ela chega e atravessa e eu. Simplesmente deixo atravessar. E coloco-a para repetir e repetir e repetir. E não me canso nunca.
Não é segredo
Com Fé em Deus
Eu não vou morrer tão cedo
Viu?
Ela me atravessa e quando percebo meus dedos digitam suas palavras no teclado. Obedeço. Como não, Caetano?
Como pode você, Caetano? Há tantos anos fazer parte assim de mim?
Você e essas palavras desconexas e perfeitas que me atingem de manhã cedo ou à noite quando chego a olhar pro céu e pensar: Com Fé em Deus eu não vou morrer tão cedo. Quando me lembro que não são minhas as palavras e nem o desejo de não morrer tão cedo. São suas, Caetano. Você as transferiu para mim e eu as acolho e escolho a hora certa para cantar suas canções de amor, de infância, de passado de paisagem de passagem. Essa nossa passagem aqui na coisa vida que fica mais completa por sua causa, Caetano.
domingo, outubro 18, 2009
Domingo em família
Meu irmão massacra a minha mãe de perguntas e pressões e críticas e neuras e raivas e não aceitações. E ela se dá ao trabalho de responder e argumentar e dizer que não é bem assim. Eu, daqui da sala, daqui do computador, escuto fingindo não fazer parte disso, usando a desculpa: eles que se resolvam, que não me meto mais nisso. Mas a vontade de dar um grito de "DEIXA ELA EM PAZ E CUIDA DA SUA VIDA PORRA" é tão gigantesca que corro para o escrever (esse jeito silencioso de berrar aos quatro cantos as minhas indignações).
Desligo a televisão que massacra meus ouvidos e cérebro. Esse ente da família chamado TV. Este DOENTE na família que contamina todo o mundo, deixando todo o mundo louco. Celular tocando, namorado da mãe carente ligando de cinco em cinco minutos. "É Sô, a gente ta numa vibe meio pesada", comenta meu irmão. "É muito carbono, é muito motor ligado, muito carbono", ele explica. Mal sabe ele que transcrevo tudo o que ele diz no mesmo instante em que ele toma sorvete ao meu lado, ele nem desconfia. É a minha traição.
"É muito bom o final do Traisnpotting!" - puxo o assunto.
"Os irlandeses são todos malucos" - diz meu irmão. "Quando cheguei em Londres, entrei no Metrô e vi um cara sendo espancado dentro do vagão. Os caras saem do vagão e o cara fica se contorcendo no chão e quando um outro se aproxima dele para tentar ajudá-lo, ele arruma briga com ele". Aí a conversa vai pra outro lugar. Irlandeses,ingleses, drogados, desapegados, ateus, pobres, ricos, irlandeses otários dominados por ingleses mais otários (fala do Trainspotting), terra de ninguém, Londres e Amsterdam é igualzinho, você sente o dinheiro voando no ar.
Não conheço nenhum desses lugares. Desenvolvi um certo fascínio pela decadência, um glamour fodido, sei lá. É tudo mentira. É tudo um bando de infeliz que ganha dinheiro sem trabalho, diferente do Brasil. No Brasil a galera sua o bigode por um salário mínimo. Lá os caras se entopem de droga pra não pirar de tédio. O céu cor de CO2 caindo sobre nós, diariamente.
Desligo a televisão que massacra meus ouvidos e cérebro. Esse ente da família chamado TV. Este DOENTE na família que contamina todo o mundo, deixando todo o mundo louco. Celular tocando, namorado da mãe carente ligando de cinco em cinco minutos. "É Sô, a gente ta numa vibe meio pesada", comenta meu irmão. "É muito carbono, é muito motor ligado, muito carbono", ele explica. Mal sabe ele que transcrevo tudo o que ele diz no mesmo instante em que ele toma sorvete ao meu lado, ele nem desconfia. É a minha traição.
"É muito bom o final do Traisnpotting!" - puxo o assunto.
"Os irlandeses são todos malucos" - diz meu irmão. "Quando cheguei em Londres, entrei no Metrô e vi um cara sendo espancado dentro do vagão. Os caras saem do vagão e o cara fica se contorcendo no chão e quando um outro se aproxima dele para tentar ajudá-lo, ele arruma briga com ele". Aí a conversa vai pra outro lugar. Irlandeses,ingleses, drogados, desapegados, ateus, pobres, ricos, irlandeses otários dominados por ingleses mais otários (fala do Trainspotting), terra de ninguém, Londres e Amsterdam é igualzinho, você sente o dinheiro voando no ar.
Não conheço nenhum desses lugares. Desenvolvi um certo fascínio pela decadência, um glamour fodido, sei lá. É tudo mentira. É tudo um bando de infeliz que ganha dinheiro sem trabalho, diferente do Brasil. No Brasil a galera sua o bigode por um salário mínimo. Lá os caras se entopem de droga pra não pirar de tédio. O céu cor de CO2 caindo sobre nós, diariamente.
segunda-feira, setembro 21, 2009
Aniversário
Tudo o que me distancia daquela que fui aos quinze é tudo o que me aproxima do que de original havia em mim. Do que vinha de dentro, embora pareça tão exterior, aquele conjunto de atitudes, comentários e risos daquela que fui aos quinze. Aos quinze nunca se é - se está vindo a ser - sem querer me meter no vir a ser xodó dos filósofos. Era mais um algo de se transformar diariamente, de pegar o jeito que a amiga falava para si, de cair na gargalhada, de não fazer nada de útil o dia todo, de ficar cinco horas e meia no telefone com uma amiga, desligar e ligar pra outra, para uma nova conversa, de, tá, 2 e meia. De fumar maconha e enlouquecer, de ver filme cabeçudo, de viajar com uma penca de amigos em qualquer feriado que aparecesse. Tudo beira a nostalgia, bate nas paredes da cabeça que é memória pura, e a gente finge que um dia foi aquele que a gente imagina que a gente foi. Pode não ter sido nada daquilo, mas a minha memória escolheu que fosse assim. Que aquela de cabelo comprido partido ao meio, que cantava Mutantes e os alquimistas estão chegando é algo que faz tão parte de mim quanto o meu cabelo curto de hoje. Aquela que não sabia de si é uma anterior a outra que começa a se familiarizar consigo mesma. Crescer é esquecer coisas e lembrar outras. É sentir saudades da que fui e orgulho de quem sou hoje e medo de encarar o buraco que se mostra aos poucos. Que se revela. Todo aniversário me sinto só. Que é algo que diz respeito a mim e só. Mas sempre sinto a necessidade gigantesca de ter muitos por perto.
sexta-feira, setembro 18, 2009
Sobre a Nota enviada à Imprensa a respeito da ELT, a Comunidade escolar tem a dizer o seguinte:
Nossa questão essencial, que para a Prefeitura - por desconhecimento ou conveniência - continua sendo tratada apenas como coisa acidental, é que não se trata de um ingênuo "ajuste" administrativo, como se quer fazer crer. Depois de oito meses - não são oito dias - de incessantes tentativas de diálogo com a enviada pelo governo e com o Secretário, o que temos visto é o desmantelamento diário do projeto ELT nos seus aspectos mais essenciais, já relatados: o da gestão democrática e o de uma pedagogia específica, esta em bases radicalmente experimentais e livres, sobre a qual estão assentados três pressupostos, estes sim, inegociáveis (mas que não definem um "modelo", como diz a nota - definem uma prática aberta):
1) O de que o mestre da ELT e suas coordenação sejam ARTISTAS com algum lugar de inquietação no panorama teatral e oriundos de experiência artística que esteja contribuindo de alguma forma com o alargamento das linguagens do teatro no Brasil ;
2) Que este mestre tenha vocação para dividir com os aprendizes não um "programa de aula", mas uma experiência artística e de maneira horizontal - com suas variações estéticas e técnicas, que é a Experiência do próprio artista, aqui colocado na posição de mestre. Não é por mero formalismo que não adotamos os termos "professor" e "aluno" ("aquele que não tem luz") na escola. É que não há uma grade curricular pronta, nem toda aquela visão do ensino "bancário", como diz Paulo Freire, que vê o aprendiz como um receptáculo para o "depósito" de informações muitas delas estranhas ao seu próprio desejo de SER no mundo. O que há é uma relação de parceria entre criadores, mestres e aprendizes, de maneira que o "programa" de aula vá se estruturando neste encontro livre entre um repertório artístico já sedimentado, mas em pleno e inqueto movimento (o do mestre) e o universo de expectativas de expressão daquela turma específica de aprendizes e as suas visões de mundo. Isto não é simples, é sempre um desafio complexo, mas que tem resultados extraordinários tanto para os aprendizes quanto para os artistas que se colocam esta tarefa. Sobre isto, temos o maior orgulho em dizer que uma parte considerável entre os mais importantes artistas do cenário nacional "aprenderam a ensinar" teatro na ELT e esse aprendizado foi fundamental para alimentar as suas próprias práticas artísticas. Consulte artistas do porte de Cacá Carvalho, Tiche Viana, Luis Alberto De Abreu, Antônio Araújo, Hugo Possolo, Sérgio de Carvalho, J.C. Serroni, Denise Weinberg, Cristiane Paoli Quito, Francisco Medeiros, Márcio Tadeu, Cláudia Schapira. E veja o que eles têm a dizer sobre este aspecto.
3) O exercício da gestão democrática - Não precisamos de lições de democracia porque nossa prática a respira, dia a dia. E aqui não se trata de uma falácia - que o papel aceita pacificamente e os correios eletrônicos enviam pacificamente às redações dos jornais. Trata-se de um exercício ordinário feito na Escola, que encontra espaço dentro do próprio processo pedagógico - em que os lugares de professor e aluno são substituídos pelos lugares de parceiros de criação e pensamento - e nos incontáveis fóruns coletivos de discussão e deliberação dos problemas da Escola - nos quais, diga-se, o papel de protagonismo nem é dos mestres, mas dos aprendizes. Não é à toa que são eles - os aprendizes - que agora lideram as manifestações de rua, os contatos com os vereadores da cidade, os contatos com a Imprensa. É que há uma noção de pertencimento plantada no mais íntimo de cada um deles. Eles têm consciência de que a ELT não é do governo de plantão, mas da comunidade que a constrói dia após dia, em uma experiência que é exemplar para todos, em termos artísticos, éticos e políticos.
Com este breve relato - que nem de longe alcança todos os pormenores de um projeto de formação complexo como o da ELT, mas que aponta o seu essencial - temos certeza que os argumentos da "Nota à imprensa" divulgada pela Secretaria não sobrevivem.
Quando o Secretário demite sumariamente o mestre Edgar Castro, há onze anos um construtor efetivo deste projeto; e quando envia para a Escola alguém que não tem a menor idéia do que significa a criação teatral verdadeira e julga uma aberração as práticas de convivência e criação relatadas acima, não nos parece que isso deva fazer parte da paisagem. Seguindo os mesmos pontos elencados acima como os fundamentos do projeto, reafirmamos que trata-se de uma operação de desmonte da essência, articulada em um discurso que parece inofensivo, mas que a própria prática desmente. Por isso permanecem algumas contradições, que gostaríamos de ver esclarecidas.
- A escolha da coordenadora, amiga de infância do Prefeito Aidan Ravin, em bases afetivas, na prática da política não como coisa preocupada com a Pólis, com a cidade, mas com os ambientes da intimidade, com os laços fraternos e particulares de afeto, a velha confusão conveniente entre o público e o privado. A esse respeito, a Secretaria em sua nota reafirma os anos de magistério da Professora Eliana Gonçalves - o que para nós não diz nada, porque a ELT se afasta deliberadamente das coordenadas do ensino formal. Mas aqui o problema é ainda maior: é que a nova Coordenadora, passados estes oito meses, até agora não propôs linha pedagógica NENHUMA, nem as elencadas na nota da Secretaria, nem nenhuma outra. A Comunidade escolar permanece, neste tempo, esperando que o declamado repertório venha à tona, para que possamos colocá-lo em movimento à luz da História da ELT.
No capítulo "Experiência artística" o caso parece ser ainda mais grave, pois salvo engano, a despeito da sempre lembrada mas nunca esclarecida Experiência, a Professora Eliana Gonçalves, é um exemplo provavelmente sui gêneris de artista anônimo, de quem nunca se ouviu falar, sobre quem a classe artística nunca ouviu nenhuma notícia de criação relevante. Também estamos há oito meses - desde que ela se apresentou aos mestres da ELT dizendo gentilmente que não conhecia nenhum deles - à espera da Obra e dos prêmios conquistados "desde os 17 anos", como diz a nota. Gostaríamos de saber por que esta carreira adormecida foi agora repentinamente lembrada, em nota à imprensa, e NUNCA compartilhada no ambiente escolar, como é a prática mais fundamental da Escola. Esta seria uma ótima oportunidade de a Prefeitura prestar contas sobre as suas escolhas em um campo mais técnico e menos afetivo.
- A redefinição dos espaços de convivência coletiva da escola, transformados em feudos, ambientes privados e de uso pessoal, acrescida de uma política administrativa que "disciplina" não só estes espaços, mas os próprios lugares de poder - antes horizontalizados e agora verticalizados na forma do "professor manda, aluno obedece", "coordenador decide, professores cumprem". Não se trata, como parece crer o Sr. Secretário, de "organizar a casa". Trata-se de uma operação de "higienização" e substituição dos lugares da convivência comum, onde o contato comunitário viceja e, no lugar destes, a criação de espaços pautados na hierarquia e no mando, em tudo estranhos à nossa identidade. De novo: o que é tomado como acidente, como "questão de ajuste" para nós é essência.
- Cortaram a cabeça da Escola e salvo engano planejam - pelas especulações e ameaças veladas feitas pela nova coordenadora - cortar os seus membros, na sequência, provavelmente para dar prosseguimento à política do "empreguismo amigo" já iniciada. Isto é um fato que merece esclarecimento. Até agora a Prefeitura não justificou tecnicamente a saída do mestre Edgar Castro - este sim, um artista verdadeiro (hoje do elenco da premiada Companhia Livre). A Comunidade espera uma justificativa factível.
Por fim, mas não menos grave, há duas questões: a dos investimentos na Escola e a questão da legitimidade do governo eleito.
Quanto à primeira, o investimento anunciado na Escola é o usual, herdado da gestão anterior. Não há ampliação dos serviços e do atendimento à população. Reconhecemos, entretanto, que isso não é pouco. No recorte é atitude admirável e demonstra a disposição do governo eleito em preservar estruturalmente o projeto. Mas, como relatado acima, isso não diz tudo. Preservar a Escola modificando nela o essencial é o mesmo que manter dela apenas a fachada e usar a sua História arduamente construída em benefício de práticas em tudo estranhas a ela.
Quanto ao tema da legitimidade do governo eleito, consideramos que há um equívoco, uma inversão preocupante na nota do Secretário enviada à imprensa. O fato de o Prefeito ter sido eleito pelo voto não dá ao governante o direito de fazer com os equipamentos públicos o que bem entender. É PRECISAMENTE, justamente porque ele foi eleito democraticamente que, democraticamente, a Sociedade Civil pode, e deve, colocar em questão as práticas de governo. Entendemos que uma eleição é um acordo ético entre o eleito e os cidadãos. Se o eleito não cumpre minimamente o acordado, a Sociedade deve se posicionar criticamente - é o que neste momento está acontecendo, quanto à ELT.
É o que a Comunidade ELT tem a dizer.
Santo André, 18 de Setembro de 2009
Nossa questão essencial, que para a Prefeitura - por desconhecimento ou conveniência - continua sendo tratada apenas como coisa acidental, é que não se trata de um ingênuo "ajuste" administrativo, como se quer fazer crer. Depois de oito meses - não são oito dias - de incessantes tentativas de diálogo com a enviada pelo governo e com o Secretário, o que temos visto é o desmantelamento diário do projeto ELT nos seus aspectos mais essenciais, já relatados: o da gestão democrática e o de uma pedagogia específica, esta em bases radicalmente experimentais e livres, sobre a qual estão assentados três pressupostos, estes sim, inegociáveis (mas que não definem um "modelo", como diz a nota - definem uma prática aberta):
1) O de que o mestre da ELT e suas coordenação sejam ARTISTAS com algum lugar de inquietação no panorama teatral e oriundos de experiência artística que esteja contribuindo de alguma forma com o alargamento das linguagens do teatro no Brasil ;
2) Que este mestre tenha vocação para dividir com os aprendizes não um "programa de aula", mas uma experiência artística e de maneira horizontal - com suas variações estéticas e técnicas, que é a Experiência do próprio artista, aqui colocado na posição de mestre. Não é por mero formalismo que não adotamos os termos "professor" e "aluno" ("aquele que não tem luz") na escola. É que não há uma grade curricular pronta, nem toda aquela visão do ensino "bancário", como diz Paulo Freire, que vê o aprendiz como um receptáculo para o "depósito" de informações muitas delas estranhas ao seu próprio desejo de SER no mundo. O que há é uma relação de parceria entre criadores, mestres e aprendizes, de maneira que o "programa" de aula vá se estruturando neste encontro livre entre um repertório artístico já sedimentado, mas em pleno e inqueto movimento (o do mestre) e o universo de expectativas de expressão daquela turma específica de aprendizes e as suas visões de mundo. Isto não é simples, é sempre um desafio complexo, mas que tem resultados extraordinários tanto para os aprendizes quanto para os artistas que se colocam esta tarefa. Sobre isto, temos o maior orgulho em dizer que uma parte considerável entre os mais importantes artistas do cenário nacional "aprenderam a ensinar" teatro na ELT e esse aprendizado foi fundamental para alimentar as suas próprias práticas artísticas. Consulte artistas do porte de Cacá Carvalho, Tiche Viana, Luis Alberto De Abreu, Antônio Araújo, Hugo Possolo, Sérgio de Carvalho, J.C. Serroni, Denise Weinberg, Cristiane Paoli Quito, Francisco Medeiros, Márcio Tadeu, Cláudia Schapira. E veja o que eles têm a dizer sobre este aspecto.
3) O exercício da gestão democrática - Não precisamos de lições de democracia porque nossa prática a respira, dia a dia. E aqui não se trata de uma falácia - que o papel aceita pacificamente e os correios eletrônicos enviam pacificamente às redações dos jornais. Trata-se de um exercício ordinário feito na Escola, que encontra espaço dentro do próprio processo pedagógico - em que os lugares de professor e aluno são substituídos pelos lugares de parceiros de criação e pensamento - e nos incontáveis fóruns coletivos de discussão e deliberação dos problemas da Escola - nos quais, diga-se, o papel de protagonismo nem é dos mestres, mas dos aprendizes. Não é à toa que são eles - os aprendizes - que agora lideram as manifestações de rua, os contatos com os vereadores da cidade, os contatos com a Imprensa. É que há uma noção de pertencimento plantada no mais íntimo de cada um deles. Eles têm consciência de que a ELT não é do governo de plantão, mas da comunidade que a constrói dia após dia, em uma experiência que é exemplar para todos, em termos artísticos, éticos e políticos.
Com este breve relato - que nem de longe alcança todos os pormenores de um projeto de formação complexo como o da ELT, mas que aponta o seu essencial - temos certeza que os argumentos da "Nota à imprensa" divulgada pela Secretaria não sobrevivem.
Quando o Secretário demite sumariamente o mestre Edgar Castro, há onze anos um construtor efetivo deste projeto; e quando envia para a Escola alguém que não tem a menor idéia do que significa a criação teatral verdadeira e julga uma aberração as práticas de convivência e criação relatadas acima, não nos parece que isso deva fazer parte da paisagem. Seguindo os mesmos pontos elencados acima como os fundamentos do projeto, reafirmamos que trata-se de uma operação de desmonte da essência, articulada em um discurso que parece inofensivo, mas que a própria prática desmente. Por isso permanecem algumas contradições, que gostaríamos de ver esclarecidas.
- A escolha da coordenadora, amiga de infância do Prefeito Aidan Ravin, em bases afetivas, na prática da política não como coisa preocupada com a Pólis, com a cidade, mas com os ambientes da intimidade, com os laços fraternos e particulares de afeto, a velha confusão conveniente entre o público e o privado. A esse respeito, a Secretaria em sua nota reafirma os anos de magistério da Professora Eliana Gonçalves - o que para nós não diz nada, porque a ELT se afasta deliberadamente das coordenadas do ensino formal. Mas aqui o problema é ainda maior: é que a nova Coordenadora, passados estes oito meses, até agora não propôs linha pedagógica NENHUMA, nem as elencadas na nota da Secretaria, nem nenhuma outra. A Comunidade escolar permanece, neste tempo, esperando que o declamado repertório venha à tona, para que possamos colocá-lo em movimento à luz da História da ELT.
No capítulo "Experiência artística" o caso parece ser ainda mais grave, pois salvo engano, a despeito da sempre lembrada mas nunca esclarecida Experiência, a Professora Eliana Gonçalves, é um exemplo provavelmente sui gêneris de artista anônimo, de quem nunca se ouviu falar, sobre quem a classe artística nunca ouviu nenhuma notícia de criação relevante. Também estamos há oito meses - desde que ela se apresentou aos mestres da ELT dizendo gentilmente que não conhecia nenhum deles - à espera da Obra e dos prêmios conquistados "desde os 17 anos", como diz a nota. Gostaríamos de saber por que esta carreira adormecida foi agora repentinamente lembrada, em nota à imprensa, e NUNCA compartilhada no ambiente escolar, como é a prática mais fundamental da Escola. Esta seria uma ótima oportunidade de a Prefeitura prestar contas sobre as suas escolhas em um campo mais técnico e menos afetivo.
- A redefinição dos espaços de convivência coletiva da escola, transformados em feudos, ambientes privados e de uso pessoal, acrescida de uma política administrativa que "disciplina" não só estes espaços, mas os próprios lugares de poder - antes horizontalizados e agora verticalizados na forma do "professor manda, aluno obedece", "coordenador decide, professores cumprem". Não se trata, como parece crer o Sr. Secretário, de "organizar a casa". Trata-se de uma operação de "higienização" e substituição dos lugares da convivência comum, onde o contato comunitário viceja e, no lugar destes, a criação de espaços pautados na hierarquia e no mando, em tudo estranhos à nossa identidade. De novo: o que é tomado como acidente, como "questão de ajuste" para nós é essência.
- Cortaram a cabeça da Escola e salvo engano planejam - pelas especulações e ameaças veladas feitas pela nova coordenadora - cortar os seus membros, na sequência, provavelmente para dar prosseguimento à política do "empreguismo amigo" já iniciada. Isto é um fato que merece esclarecimento. Até agora a Prefeitura não justificou tecnicamente a saída do mestre Edgar Castro - este sim, um artista verdadeiro (hoje do elenco da premiada Companhia Livre). A Comunidade espera uma justificativa factível.
Por fim, mas não menos grave, há duas questões: a dos investimentos na Escola e a questão da legitimidade do governo eleito.
Quanto à primeira, o investimento anunciado na Escola é o usual, herdado da gestão anterior. Não há ampliação dos serviços e do atendimento à população. Reconhecemos, entretanto, que isso não é pouco. No recorte é atitude admirável e demonstra a disposição do governo eleito em preservar estruturalmente o projeto. Mas, como relatado acima, isso não diz tudo. Preservar a Escola modificando nela o essencial é o mesmo que manter dela apenas a fachada e usar a sua História arduamente construída em benefício de práticas em tudo estranhas a ela.
Quanto ao tema da legitimidade do governo eleito, consideramos que há um equívoco, uma inversão preocupante na nota do Secretário enviada à imprensa. O fato de o Prefeito ter sido eleito pelo voto não dá ao governante o direito de fazer com os equipamentos públicos o que bem entender. É PRECISAMENTE, justamente porque ele foi eleito democraticamente que, democraticamente, a Sociedade Civil pode, e deve, colocar em questão as práticas de governo. Entendemos que uma eleição é um acordo ético entre o eleito e os cidadãos. Se o eleito não cumpre minimamente o acordado, a Sociedade deve se posicionar criticamente - é o que neste momento está acontecendo, quanto à ELT.
É o que a Comunidade ELT tem a dizer.
Santo André, 18 de Setembro de 2009
ENQUANTO A QUESTÃO - ESCOLA LIVRE DE TEATRO NÃO SE RESOLVER, ENQUANTO A COMUNIDADE ELT NÃO FOR OUVIDA PELOS POLÍTICOS DE SANTO ANDRÉ, ENQUANTO NÃO TIVERMOS O NOSSO COORDENADOR EDGAR CASTRO DE VOLTA, NESTE BLOG SÓ SE IRÁ LER A RESPEITO DESTAS QUESTÕES, SÓ SERÃO PUBLICADAS MATÉRIAS FOTOS, PENSAMENTOS E DISCUSSÕES SOBRE ESTE ASSUNTO.
Artistas da ELT divulgam manifesto de repúdio
Manifesto critica a postura da Secretaria de Cultura da cidade e diz que a “predisposição à luta” vai continuar; em mostra durante a semana coletivos teatrais se unem com arte
Por: Thiago Domenici
Publicado em 18/09/2009
Carta entregue ao Sec. de Cultura pela atriz Leona Cavalli na sexta-feira (11); readmissão de Edgar Castro e afastamento de Eliana Gonçalves não foram atendidos (Foto: Lucas Duarte de Souza)
O movimento de aprendizes e mestres da Escola Livre de Teatro (ELT), em Santo André, divulgou nesta sexta-feira (18) manifesto em repúdio à carta resposta da Secretaria de Cultura que não justificou a demissão do coordenador pedagógico Edgar Castro, há 11 anos mestre da ELT. “Quando uma comunidade como a ELT – absolutamente regida por uma práxis democrática – clama pela permanência de um profissional respeitadíssimo não só por esta comunidade, mas com o apoio substantivo de outros cidadãos (e nem simples semelhantes: para muito além do campo teatral) que incorporam-se à luta; quando estas comunidades esbarram na arrogância e ignorância do poder constituído, com quem será que a autoridade conta para legitimar-se no poder?”, diz trecho do manifesto.
Leia mais:>> ELT é "apaixonante", diz aprendiz
Prefeitura responde às reivindicações da ELT em carta oficial>> Escola Livre de Teatro em Santo André vive drama e pede "volta da autonomia">> Veja o blog do movimento ELT em Alerta
>> Deixe seu recado para a ELT
Procurada pela reportagem da Rede Brasil Atual a Secretaria de Cultura não deu resposta à pergunta sobre a motivação da demissão de Castro, alegando que a carta enviada à imprensa é a posição oficial. O manifesto, divulgado após manifestação nesta quinta-feira (17) na câmara municipal de Santo André, diz ainda. “Salvaguardadas todas as proporções históricas, Edgar Castro foi expulso e condenado à errância fora das instituições de ensino de Santo André, por motivos absolutamente imponderáveis e idiossincráticos.”
Negociação
Edgar Castro afirmou à Rede Brasil Atual que propôs a Secretaria de Cultura de Santo André que pudesse voltar como mestre, após fazer a transição do cargo de coordenador pedagógico para a pessoa indicada pela secretaria. A contrapartida seria acatar o pedido da comunidade artística da ELT de transferência de Eliana Gonçalves, coordenadora administrativa, há oito meses no cargo. “Você tem um filho na escola e toda a escola diz que não quer a coordenadora que o dono da escola colocou lá porque ela atrapalha, prejudica, atravanca, parece que é tão óbvio que o problema não está no coordenador pedagógico reconhecido e aprovado pela comunidade”, protesta Castro.
O ex-coordenador afirmou ainda que existem mecanismo legais da sociedade civil para coibir o que julga "abuso de poder" caso permaneça o impasse entre o poder público e os aprendizes e mestres da ELT. “É uma clara postura fechada e surda do poder público”, finaliza.
Mostra ELT em Alerta
Como forma de manter acessa a “predisposição a Luta” o movimento ELT em Alerta preparou uma Mostra entre os dias 21 e 25 de setembro. Na programação companhias parceiras como Cia. São Jorge, Cia. do Nó e Cia. Veraluz entre outras. Abaixo, a íntegra do manifesto:
Manifesto Escola Livre de Teatro de Santo André
Dürrenmatt disse: se o teatro fosse eliminado da história do mundo, poucos seriam aqueles que perceberiam tal supressão. Entretanto, Santo André seguramente seria um dos espaços em que essa ausência se faria notar, tendo em vista que neste município, localizada em Santa Terezinha encontra-se a Escola Livre Teatro, fruto de um dos mais belos sonhos em que a estética é conciliada à pertinência política, constituído por tantos Quixotes com os pés plantados no chão e os olhos descortinando a história, num significativo processo de lutas e conquistas em prol do melhor teatro já feito no Brasil, reconhecido não apenas pelos cidadãos andreenses, paulistas e paulistanos, mas por inúmeros coletivos de teatro espalhados pelo mundo afora e adentro. Múltiplos são os teatrólogos, dentre os quais pode ser citado Bertolt Brecht, que foram obrigados pela ascensão de Adolf Hitler ao poder, eleito por um terço da população alemã, a errar pelo mundo, perseguidos pelas concepções de que o teatro representava muito mais do que mero entretenimento. Junto com Charlie Chaplin, Bertolt Brecht foi expulso dos Estados Unidos da América por um Tribunal constituído por “democratas” condenado por políticas antiamericanas (leia-se, para muitos, comunistas). “Salvaguardadas todas as proporções históricas, Edgar Castro foi expulso e condenado à errância fora das instituições de ensino de Santo André, por motivos absolutamente imponderáveis e idiossincráticos.”Quando tem-se autoridades constituídas, eleitas por parte da população, em um contexto democrático, no mínimo, há que se estranhar atitudes de imposição de uma profissional não afeita às artes cênicas em uma escola de formação de atores. A quem tais pessoas precisam prestar contas de seus atos se não aos cidadãos que os elegeram e os colocaram na instância de poder? Que outra razão senão a arrogância explica a atitude exarada pelos detentores do poder da hora, na medida em que o período de sua permanência dura apenas quatro anos? Que prepotência pensar que podem combater 20 anos de história, de luta, de sabedoria. “Quando uma comunidade como a ELT – absolutamente regida por uma práxis democrática – clama pela permanência de um profissional respeitadíssimo não só por esta comunidade, mas com o apoio substantivo de outros cidadãos (e nem simples semelhantes: para muito além do campo teatral) que incorporam-se à luta; quando estas comunidades esbarram na arrogância e ignorância do poder constituído, com quem será que a autoridade conta para legitimar-se no poder?” Carlos Drummond de Andrade no poema Infância afirma que a nossa história é mais interessante que a de Robson Crusoé. O mesmo poeta afirma um pouco adiante que “esse é um tempo de partido”. Conciliando, portanto, Infância ao poema Nosso Tempo, a trilha que se tem tenta nos lamber como uma tsunami raivosa e desrespeitadora. Como é que se dá a prática democrática nesse país depois de mais de 20 anos de barbárie imposta à população brasileira pelo golpe de 1964? Como os democratas brasileiros conversam com outros democratas? Evidentemente que não pode ser por decretos e editos mandarinescos. “Agora não pergunto mais aonde vai a estrada Agora não espero mais aquela madrugada Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada” Um abatido – mas, entretanto, repleto de garra, de força, de predisposição à luta - fim de tarde de inverno andreense e paulistano,
Comunidade da Escola Livre de Teatro
Manifesto critica a postura da Secretaria de Cultura da cidade e diz que a “predisposição à luta” vai continuar; em mostra durante a semana coletivos teatrais se unem com arte
Por: Thiago Domenici
Publicado em 18/09/2009
Carta entregue ao Sec. de Cultura pela atriz Leona Cavalli na sexta-feira (11); readmissão de Edgar Castro e afastamento de Eliana Gonçalves não foram atendidos (Foto: Lucas Duarte de Souza)
O movimento de aprendizes e mestres da Escola Livre de Teatro (ELT), em Santo André, divulgou nesta sexta-feira (18) manifesto em repúdio à carta resposta da Secretaria de Cultura que não justificou a demissão do coordenador pedagógico Edgar Castro, há 11 anos mestre da ELT. “Quando uma comunidade como a ELT – absolutamente regida por uma práxis democrática – clama pela permanência de um profissional respeitadíssimo não só por esta comunidade, mas com o apoio substantivo de outros cidadãos (e nem simples semelhantes: para muito além do campo teatral) que incorporam-se à luta; quando estas comunidades esbarram na arrogância e ignorância do poder constituído, com quem será que a autoridade conta para legitimar-se no poder?”, diz trecho do manifesto.
Leia mais:>> ELT é "apaixonante", diz aprendiz
Prefeitura responde às reivindicações da ELT em carta oficial>> Escola Livre de Teatro em Santo André vive drama e pede "volta da autonomia">> Veja o blog do movimento ELT em Alerta
>> Deixe seu recado para a ELT
Procurada pela reportagem da Rede Brasil Atual a Secretaria de Cultura não deu resposta à pergunta sobre a motivação da demissão de Castro, alegando que a carta enviada à imprensa é a posição oficial. O manifesto, divulgado após manifestação nesta quinta-feira (17) na câmara municipal de Santo André, diz ainda. “Salvaguardadas todas as proporções históricas, Edgar Castro foi expulso e condenado à errância fora das instituições de ensino de Santo André, por motivos absolutamente imponderáveis e idiossincráticos.”
Negociação
Edgar Castro afirmou à Rede Brasil Atual que propôs a Secretaria de Cultura de Santo André que pudesse voltar como mestre, após fazer a transição do cargo de coordenador pedagógico para a pessoa indicada pela secretaria. A contrapartida seria acatar o pedido da comunidade artística da ELT de transferência de Eliana Gonçalves, coordenadora administrativa, há oito meses no cargo. “Você tem um filho na escola e toda a escola diz que não quer a coordenadora que o dono da escola colocou lá porque ela atrapalha, prejudica, atravanca, parece que é tão óbvio que o problema não está no coordenador pedagógico reconhecido e aprovado pela comunidade”, protesta Castro.
O ex-coordenador afirmou ainda que existem mecanismo legais da sociedade civil para coibir o que julga "abuso de poder" caso permaneça o impasse entre o poder público e os aprendizes e mestres da ELT. “É uma clara postura fechada e surda do poder público”, finaliza.
Mostra ELT em Alerta
Como forma de manter acessa a “predisposição a Luta” o movimento ELT em Alerta preparou uma Mostra entre os dias 21 e 25 de setembro. Na programação companhias parceiras como Cia. São Jorge, Cia. do Nó e Cia. Veraluz entre outras. Abaixo, a íntegra do manifesto:
Manifesto Escola Livre de Teatro de Santo André
Dürrenmatt disse: se o teatro fosse eliminado da história do mundo, poucos seriam aqueles que perceberiam tal supressão. Entretanto, Santo André seguramente seria um dos espaços em que essa ausência se faria notar, tendo em vista que neste município, localizada em Santa Terezinha encontra-se a Escola Livre Teatro, fruto de um dos mais belos sonhos em que a estética é conciliada à pertinência política, constituído por tantos Quixotes com os pés plantados no chão e os olhos descortinando a história, num significativo processo de lutas e conquistas em prol do melhor teatro já feito no Brasil, reconhecido não apenas pelos cidadãos andreenses, paulistas e paulistanos, mas por inúmeros coletivos de teatro espalhados pelo mundo afora e adentro. Múltiplos são os teatrólogos, dentre os quais pode ser citado Bertolt Brecht, que foram obrigados pela ascensão de Adolf Hitler ao poder, eleito por um terço da população alemã, a errar pelo mundo, perseguidos pelas concepções de que o teatro representava muito mais do que mero entretenimento. Junto com Charlie Chaplin, Bertolt Brecht foi expulso dos Estados Unidos da América por um Tribunal constituído por “democratas” condenado por políticas antiamericanas (leia-se, para muitos, comunistas). “Salvaguardadas todas as proporções históricas, Edgar Castro foi expulso e condenado à errância fora das instituições de ensino de Santo André, por motivos absolutamente imponderáveis e idiossincráticos.”Quando tem-se autoridades constituídas, eleitas por parte da população, em um contexto democrático, no mínimo, há que se estranhar atitudes de imposição de uma profissional não afeita às artes cênicas em uma escola de formação de atores. A quem tais pessoas precisam prestar contas de seus atos se não aos cidadãos que os elegeram e os colocaram na instância de poder? Que outra razão senão a arrogância explica a atitude exarada pelos detentores do poder da hora, na medida em que o período de sua permanência dura apenas quatro anos? Que prepotência pensar que podem combater 20 anos de história, de luta, de sabedoria. “Quando uma comunidade como a ELT – absolutamente regida por uma práxis democrática – clama pela permanência de um profissional respeitadíssimo não só por esta comunidade, mas com o apoio substantivo de outros cidadãos (e nem simples semelhantes: para muito além do campo teatral) que incorporam-se à luta; quando estas comunidades esbarram na arrogância e ignorância do poder constituído, com quem será que a autoridade conta para legitimar-se no poder?” Carlos Drummond de Andrade no poema Infância afirma que a nossa história é mais interessante que a de Robson Crusoé. O mesmo poeta afirma um pouco adiante que “esse é um tempo de partido”. Conciliando, portanto, Infância ao poema Nosso Tempo, a trilha que se tem tenta nos lamber como uma tsunami raivosa e desrespeitadora. Como é que se dá a prática democrática nesse país depois de mais de 20 anos de barbárie imposta à população brasileira pelo golpe de 1964? Como os democratas brasileiros conversam com outros democratas? Evidentemente que não pode ser por decretos e editos mandarinescos. “Agora não pergunto mais aonde vai a estrada Agora não espero mais aquela madrugada Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada” Um abatido – mas, entretanto, repleto de garra, de força, de predisposição à luta - fim de tarde de inverno andreense e paulistano,
Comunidade da Escola Livre de Teatro
Demissão na ELT pode ter motivação política
Edgar Castro também disse que atual coordenadora administrativa é amiga de infância do prefeito; aprendizes protestam com arte na Câmara
Por: Thiago Domenici
Publicado em 17/09/2009
Protesto feito pelos aprendizes na sexta no Paço Municipal de Santo André (Foto: Lucas Duarte de Souza)
Santo André – O coordenador pedagógico da Escola Livre de Teatro (ELT), Edgar Castro, disse nesta quinta-feira (17) que sua demissão ocorreu sem justificativa e que a autonomia da escola foi quebrada após a escolha da atual coordenadora administrativa, que é “amiga de infância do atual prefeito” de Santo André, dr. Aidan Ravin (PTB). A escolhida, no caso, é Eliana Gonçalves, há oito meses no cargo.
Na tarde de quarta-feira (16), entre a comissão da ELT com o diretor de cultura, Pedro Botaro, foi dada a seguinte argumentação quando o grupo questionou a demissão de Castro: “Não podemos dar nomes. Foram nossos agentes políticos”, segundo relato dos aprendizes que participaram da reunião.
Leia mais:>> Prefeitura responde às reivindicações da ELT em carta oficial>> Escola Livre de Teatro em Santo André vive drama e pede "volta da autonomia">> Veja o blog do movimento ELT em Alerta
“Na reunião em que fui demitido pelo diretor de cultura, ele me disse que um dos motivos foi minha ‘falta de afinação com a coordenadora' e que, portanto, não precisavam mais dos meus serviços", disse Castro, que há 11 anos é professor da escola.
Chateado, o professor não se conforma com o que chama de "abuso de poder" da autoridade pública.
“Personalizar a discussão é um absurdo. Na verdade o que existe é um movimento de uma comunidade inteira dizendo que as atitudes tomadas pela professora Eliana Gonçalves são atitudes que agridem o projeto pedagógico e é muito curioso que a Secretaria não dê ouvidos pra isso. Qual a justificativa? Qual a razão para eu ser afastado não só do cargo de coordenador pedagógico, mas da Escola?”, indaga.
Perguntado se acredita numa resposta oficial sobre sua demissão, Castro se diz sem esperança. “Se me for dada uma resposta clara sobre o meu afastamento, eu saio. Se houver uma razão plausível, eu saio. Não nasci grudado nessa cadeira e nem vou morrer grudado nela", desabafa.O ex-coordenador e cerca de 100 aprendizes da ELT participaram de um protesto pacífico na Câmara Municipal da cidade, contra a falta de autonomia e solicitaram apoio dos parlamentares.
Com 17 anos de existência, a escola sempre foi pautada pela liberdade, inclusive, com a escolha democrática de seus gestores. Eles querem não só o retorno de Castro, como a transferência de Eliana e a volta do diálogo. Os aprendizes Lilian Cardoso e Mario Augusto Simões falaram sobre a importância da autonomia aos parlamentares e foram muito aplaudidos ao final. No encerramento, com o plenário lotado, todos os estudantes cantaram o hino da ELT.
A Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer de Santo André afirmou à Rede Brasil Atual que não pretende justificar nos próximos dias a demissão e que mantém oficialmente a posição expressa em carta apresentada nesta quinta-feira (17) e assinada pelo secretário, Edson Salvo Melo.
O comunicado oficial pondera inúmeras questões da carta entregue pela atriz Leona Cavali ao secretário de cultura na última sexta-feira (11), mas não responde conclusivamente as reivindicações dos aprendizes e mestres da ELT.Segundo a aprendiz Carolina Splendore as aulas continuarão suspensas e em assembléia permanente. “Estamos programando para a semana que vem uma mostra chamada ELT em Alerta que já tem o apoio de mais de 30 coletivos de São Paulo, vamos colocar a programação no blog”, finalizou.
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Edgar Castro também disse que atual coordenadora administrativa é amiga de infância do prefeito; aprendizes protestam com arte na Câmara
Por: Thiago Domenici
Publicado em 17/09/2009
Protesto feito pelos aprendizes na sexta no Paço Municipal de Santo André (Foto: Lucas Duarte de Souza)
Santo André – O coordenador pedagógico da Escola Livre de Teatro (ELT), Edgar Castro, disse nesta quinta-feira (17) que sua demissão ocorreu sem justificativa e que a autonomia da escola foi quebrada após a escolha da atual coordenadora administrativa, que é “amiga de infância do atual prefeito” de Santo André, dr. Aidan Ravin (PTB). A escolhida, no caso, é Eliana Gonçalves, há oito meses no cargo.
Na tarde de quarta-feira (16), entre a comissão da ELT com o diretor de cultura, Pedro Botaro, foi dada a seguinte argumentação quando o grupo questionou a demissão de Castro: “Não podemos dar nomes. Foram nossos agentes políticos”, segundo relato dos aprendizes que participaram da reunião.
Leia mais:>> Prefeitura responde às reivindicações da ELT em carta oficial>> Escola Livre de Teatro em Santo André vive drama e pede "volta da autonomia">> Veja o blog do movimento ELT em Alerta
“Na reunião em que fui demitido pelo diretor de cultura, ele me disse que um dos motivos foi minha ‘falta de afinação com a coordenadora' e que, portanto, não precisavam mais dos meus serviços", disse Castro, que há 11 anos é professor da escola.
Chateado, o professor não se conforma com o que chama de "abuso de poder" da autoridade pública.
“Personalizar a discussão é um absurdo. Na verdade o que existe é um movimento de uma comunidade inteira dizendo que as atitudes tomadas pela professora Eliana Gonçalves são atitudes que agridem o projeto pedagógico e é muito curioso que a Secretaria não dê ouvidos pra isso. Qual a justificativa? Qual a razão para eu ser afastado não só do cargo de coordenador pedagógico, mas da Escola?”, indaga.
Perguntado se acredita numa resposta oficial sobre sua demissão, Castro se diz sem esperança. “Se me for dada uma resposta clara sobre o meu afastamento, eu saio. Se houver uma razão plausível, eu saio. Não nasci grudado nessa cadeira e nem vou morrer grudado nela", desabafa.O ex-coordenador e cerca de 100 aprendizes da ELT participaram de um protesto pacífico na Câmara Municipal da cidade, contra a falta de autonomia e solicitaram apoio dos parlamentares.
Com 17 anos de existência, a escola sempre foi pautada pela liberdade, inclusive, com a escolha democrática de seus gestores. Eles querem não só o retorno de Castro, como a transferência de Eliana e a volta do diálogo. Os aprendizes Lilian Cardoso e Mario Augusto Simões falaram sobre a importância da autonomia aos parlamentares e foram muito aplaudidos ao final. No encerramento, com o plenário lotado, todos os estudantes cantaram o hino da ELT.
A Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer de Santo André afirmou à Rede Brasil Atual que não pretende justificar nos próximos dias a demissão e que mantém oficialmente a posição expressa em carta apresentada nesta quinta-feira (17) e assinada pelo secretário, Edson Salvo Melo.
O comunicado oficial pondera inúmeras questões da carta entregue pela atriz Leona Cavali ao secretário de cultura na última sexta-feira (11), mas não responde conclusivamente as reivindicações dos aprendizes e mestres da ELT.Segundo a aprendiz Carolina Splendore as aulas continuarão suspensas e em assembléia permanente. “Estamos programando para a semana que vem uma mostra chamada ELT em Alerta que já tem o apoio de mais de 30 coletivos de São Paulo, vamos colocar a programação no blog”, finalizou.
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quarta-feira, setembro 09, 2009
URGENTE! ALERTA ELT!
A Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), projeto artístico-pedagógico que se firmou como referência para a formação de atores no Brasil e que se aproxima agora dos seus 20 anos de enraizamento na cidade, acaba de ter seu coordenador, o ator Edgar Castro, sumariamente demitido.
Nesta sexta-feira, onze de setembro, artistas representantes dos principais coletivos de artes cênicas das cidades de Santo André e São Paulo - entre os confirmados as atrizes Maria Alice Vergueiro e Leona Cavalli, o ator Antônio Petrim, os diretores Francisco Medeiros e Cibele Forjaz - farão um ato público em prol da manutenção do projeto artístico-pedagógico original, que se encontra ameaçado.
Internacionalmente conhecida por seu projeto inovador desde sua fundação, em 1990, a ELT foi idealizada pela artista-pedagoga Maria Thaís Lima Santos, (hoje professora doutora da USP e coordenadora do TUSP), e coerentemente transformada pela experiência e pelos diversos mestres que passaram por ela tais como: Luis Alberto de Abreu Antonio Araújo, Tiche Vianna, Francisco Medeiros, Cacá Carvalho, Renata Zhaneta, Cibele Forjaz, Cláudia Schapira, Denise Weinberg, Sergio de Carvalho.
Da palavra "Livre" - presente no nome da Escola - emerge um campo pedagógico próprio, que pressupõe o conceito de deliberação coletiva, derivado do contínuo diálogo entre mestres, aprendizes e funcionários (constituintes legítimos da comunidade ELT), num processo de não-hierarquização, radicalmente contrário a imposições.
Desde o final do ano passado, após a eleição do atual prefeito Dr. Aidan Ravin, a comunidade da Escola Livre de Teatro tem se reunido para conhecer o projeto cultural para a cidade de Santo André. Em 28 de novembro, organizou um ato público, o Encontro Cultural da Cidade, quando se esperava como convidado principal Dr. Aidan Ravin. O então futuro prefeito não compareceu, mas fez-se presente através de seus assessores e do vereador recém eleito Gilberto do Primavera, que firmou publicamente seu compromisso com a cultura da cidade e com a manutenção do projeto original da ELT.
No entanto, como primeira medida, designaram para escola uma nova coordenadora não pertencente ao quadro de mestres e desconhecedora do projeto em curso. Em assembléia geral da escola, em 3 de fevereiro de 2009, com a presença de toda comunidade ELT e da coordenadora, o atual Secretário de Cultura, sr. Edson Salvo Melo, não só reiterou a continuidade do projeto artístico-pedagógico como também acenou a reforma física do prédio da ELT, readequando o espaço para as atuais necessidades da escola.
Passados oito meses da nova gestão, de contínuas tentativas de diálogo entre a comunidade, a coordenadora sra. Eliana Gonçalves e os funcionários também recém transferidos para a escola, encontros mediados pelo coordenador Edgar Castro (mestre da escola há 11 anos), fomos surpreendidos por esta repentina demissão feita pelo diretor de cultura Sr. Pedro Botaro no dia oito de setembro.
No ato público os artistas entregarão uma carta ao Secretário de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo, sr. Edson Salvo Melo. A idéia é pedir que se reveja a demissão de Edgar Castro - escolhido democraticamente pela comunidade escolar e com ampla aderência de todos - e a que se possa dialogar sobre a presença da sra. Eliana Gonçalves.
A concentração para o ato será às 14h em frente à ELT:
Praça Rui Barbosa s/ nº, bairro Santa Terezinha, Santo André.
Segue em passeata até o Paço Municipal de Santo André.
Os interessados também poderão participar do movimento que reivindica a manutenção do projeto pelo blog: http://www.movimentolivre-sa.blogspot.com/
Assessoria de imprensa:
Carolina Splendore Cameron carolsplendore@gmail.com
Tel. 3705-0741 / 8144-8350
Mariana França mari_arcadia@yahoo.com.br
Tel. 8216-2683
http://www.youtube.com/watch?v=DYxK8cbCSiY
Nesta sexta-feira, onze de setembro, artistas representantes dos principais coletivos de artes cênicas das cidades de Santo André e São Paulo - entre os confirmados as atrizes Maria Alice Vergueiro e Leona Cavalli, o ator Antônio Petrim, os diretores Francisco Medeiros e Cibele Forjaz - farão um ato público em prol da manutenção do projeto artístico-pedagógico original, que se encontra ameaçado.
Internacionalmente conhecida por seu projeto inovador desde sua fundação, em 1990, a ELT foi idealizada pela artista-pedagoga Maria Thaís Lima Santos, (hoje professora doutora da USP e coordenadora do TUSP), e coerentemente transformada pela experiência e pelos diversos mestres que passaram por ela tais como: Luis Alberto de Abreu Antonio Araújo, Tiche Vianna, Francisco Medeiros, Cacá Carvalho, Renata Zhaneta, Cibele Forjaz, Cláudia Schapira, Denise Weinberg, Sergio de Carvalho.
Da palavra "Livre" - presente no nome da Escola - emerge um campo pedagógico próprio, que pressupõe o conceito de deliberação coletiva, derivado do contínuo diálogo entre mestres, aprendizes e funcionários (constituintes legítimos da comunidade ELT), num processo de não-hierarquização, radicalmente contrário a imposições.
Desde o final do ano passado, após a eleição do atual prefeito Dr. Aidan Ravin, a comunidade da Escola Livre de Teatro tem se reunido para conhecer o projeto cultural para a cidade de Santo André. Em 28 de novembro, organizou um ato público, o Encontro Cultural da Cidade, quando se esperava como convidado principal Dr. Aidan Ravin. O então futuro prefeito não compareceu, mas fez-se presente através de seus assessores e do vereador recém eleito Gilberto do Primavera, que firmou publicamente seu compromisso com a cultura da cidade e com a manutenção do projeto original da ELT.
No entanto, como primeira medida, designaram para escola uma nova coordenadora não pertencente ao quadro de mestres e desconhecedora do projeto em curso. Em assembléia geral da escola, em 3 de fevereiro de 2009, com a presença de toda comunidade ELT e da coordenadora, o atual Secretário de Cultura, sr. Edson Salvo Melo, não só reiterou a continuidade do projeto artístico-pedagógico como também acenou a reforma física do prédio da ELT, readequando o espaço para as atuais necessidades da escola.
Passados oito meses da nova gestão, de contínuas tentativas de diálogo entre a comunidade, a coordenadora sra. Eliana Gonçalves e os funcionários também recém transferidos para a escola, encontros mediados pelo coordenador Edgar Castro (mestre da escola há 11 anos), fomos surpreendidos por esta repentina demissão feita pelo diretor de cultura Sr. Pedro Botaro no dia oito de setembro.
No ato público os artistas entregarão uma carta ao Secretário de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo, sr. Edson Salvo Melo. A idéia é pedir que se reveja a demissão de Edgar Castro - escolhido democraticamente pela comunidade escolar e com ampla aderência de todos - e a que se possa dialogar sobre a presença da sra. Eliana Gonçalves.
A concentração para o ato será às 14h em frente à ELT:
Praça Rui Barbosa s/ nº, bairro Santa Terezinha, Santo André.
Segue em passeata até o Paço Municipal de Santo André.
Os interessados também poderão participar do movimento que reivindica a manutenção do projeto pelo blog: http://www.movimentolivre-sa.blogspot.com/
Assessoria de imprensa:
Carolina Splendore Cameron carolsplendore@gmail.com
Tel. 3705-0741 / 8144-8350
Mariana França mari_arcadia@yahoo.com.br
Tel. 8216-2683
http://www.youtube.com/watch?v=DYxK8cbCSiY
quinta-feira, setembro 03, 2009
Da série COLAPSO
Pseuda paz
Psicos
délicos
somáticos
cóticos
trópicos
come come come
vomita
bebe bebe bebe
desmaia
trepa trepa trepa
machuca
incha incha incha
explode
qual é o ponto?
até onde se aguenta
o corpo
a cidade
a carência
a miséria
a desumanidade
Qual é o ponto?
A ponte?
Atravessar o rio. Encarar a tempestade.
Tanto bate até que fura.
Existe ponto final?
Por
um
triz
A cidade se organiza num fio de navalha
cama de pregos
em cacos quebrados no chão sob os pés descalços
Vai explodir.
Meninas e meninos nascem sem parar
sem parar carros novos chegam às ruas abarrotadas
agentes do CET não param de se multiplicar invasão amarela e marrom
motoboys se atiram nos carros todos os dias
Qual é o limite do insuportável?
Quanto mais o ser humano pode suportar?
Ficar três horas fechado dentro de um carro com milhões de outros carros ao redor. Entalados.
Respirar ar preto.
Passar fome.
Cansaço.
Trabalhos terríveis.
Televisão mundo de merda.
Turbilhão de corrupção nojenta.
Até quando?
Psicos
délicos
somáticos
cóticos
trópicos
come come come
vomita
bebe bebe bebe
desmaia
trepa trepa trepa
machuca
incha incha incha
explode
qual é o ponto?
até onde se aguenta
o corpo
a cidade
a carência
a miséria
a desumanidade
Qual é o ponto?
A ponte?
Atravessar o rio. Encarar a tempestade.
Tanto bate até que fura.
Existe ponto final?
Por
um
triz
A cidade se organiza num fio de navalha
cama de pregos
em cacos quebrados no chão sob os pés descalços
Vai explodir.
Meninas e meninos nascem sem parar
sem parar carros novos chegam às ruas abarrotadas
agentes do CET não param de se multiplicar invasão amarela e marrom
motoboys se atiram nos carros todos os dias
Qual é o limite do insuportável?
Quanto mais o ser humano pode suportar?
Ficar três horas fechado dentro de um carro com milhões de outros carros ao redor. Entalados.
Respirar ar preto.
Passar fome.
Cansaço.
Trabalhos terríveis.
Televisão mundo de merda.
Turbilhão de corrupção nojenta.
Até quando?
Carência
Carece de ter coragem
Esquece da coisa que foi e vai ver
Procura saborear
de olhos desritmados
Venha ver o sol que sobrou pra nós
Venha ver o asfalto que pintou
A parede que cresceu
entre minha janela e o mundo
conhece-te a qualquer preço
antes que te esquece
te desconecte
Esquece da coisa que foi e vai ver
Procura saborear
de olhos desritmados
Venha ver o sol que sobrou pra nós
Venha ver o asfalto que pintou
A parede que cresceu
entre minha janela e o mundo
conhece-te a qualquer preço
antes que te esquece
te desconecte
quarta-feira, agosto 12, 2009
estranha
estranha
em frangalhos tô acostumada
de migalha
em migalha
minha casa eu sou
entrada única do meu envoltório
estou cansada
minha cara
minha cara não me diz nada
lacre involuntário
porta pra parede
estanca
dança
sai daí criança
sai daí
estanca
costura o que sobrou de tripa
vê o que é que fica
e vai
e vai passear
estranha
em frangalhos tô acostumada
de migalha
em migalha
minha casa eu sou
entrada única do meu envoltório
estou cansada
minha cara
minha cara não me diz nada
lacre involuntário
porta pra parede
estanca
dança
sai daí criança
sai daí
estanca
costura o que sobrou de tripa
vê o que é que fica
e vai
e vai passear
sábado, agosto 01, 2009
Menina 1
Unha preta no teclado branco tec tec tec tec tec tec tec tec
dor nas juntas
menina 1 fala para menina 2:
Por quê tem que ser assim?
menina 2 pensa nem um segundo e fala para menina 1:
meu dorso pesa levando todo o meu corpo para frente
menina 1:
é o meu também
ou é esse colar que pesa demais no meu pescoço
que me puxa pra baixo
pra dentro do centro gravitacional existencial
Sai de mim, existência!
Xô pra lá vã filosofia vã. Vá.
Vinde o simples o óbvio concreto ululante.
Venha mesa de bar, copo americano, papo furado. Roupa nova, esmalte que cor, o próximo show, a gasolina, o sutiã me aperta.
Sai prá lá ideinha dificinha. Ideinha inha inha. Escrever é mais difícil do que parece. E quem disse que escrevo? Escrever é isso? Basta ter um Blog og og?
Responde o eco bode de dentro dos meus parafusos:
Uso.
Unhas descascando tempo vazando por entre os dedos. Não agarro nada, nada se salva. Vai tudo na enchente, enxurrada de tempo me arrasta me leva, me deixa me deixa aqui!
Me agarro ao aqui. Não tempo, não. Venha agora não. Me deixe aqui, mais um pouquinho, só mais um pouquinho. Queria que de manhã cinco minutos durassem cinco horas, mas cruel é o tempo, e o máximo que ele faz por mim é durar cinco milésimos de alguma coisa tempo.
Xô pra lá que eu fico aqui. Aqui não tem tempo ruim. Aqui sou eu e minhas unhas tec tec tec tec tec tec tec tec tec tec tec
e um mundo virtual aos meus pés.
Sou dona deste mundo, deste tempo, pelo menos deste!
segunda-feira, julho 27, 2009
cento e um
Um lapso.
Lápis desenhando o risco tênue dos seus cílios inferiores (eu quis ser desenhista e mal virei um escritor).
Escrever é desenhar com palavras na imaginação dos que nos lêem. Escrever é bênção e alívio, prazer e dor. De nunca acertar. De estar em busca todos os dias. De enfrentar falta de idéia, palavras que nunca preenchem, buraco na alma. Enfrentar, insônia adentro, o silêncio insuportável de uma rua inabitada. Cabeça inabitada.
Então escrevo sobre:
Dificuldade de encontrar o outro que me foge eternamente por entre os dedos, vivo tapando sol com peneira, tentando te buscar de peneira e alçapões nas minhas mãos duras de quem ama até demais. Mas quando? O amor te machuca não é? O amor te arranha te cospe na cara te xinga na madrugada. Te liga e te acorda cheio de rancor, o amor, essa besta desvairada. Essa coisa feita sei lá de que substância que às vezes corrói e arde quando entra em contato com a pele. Eu só queria que. Só queria. Você e só. Só você só pra mim. Você só pra mim. Você pra mim e só. Doença esse amor compulsivo esse amor enjoado egoísta mesquinho.
Quando você se esquece de mim e eu me esqueço de ser sã. O amor me possui me retorce e me transformo em monstra desvairada Medéia maluca de amor nas veias. Então é tarde. Nada segura ou contém. Jogo tudo no lixo, cuspo no seu nome, te juro o ódio mais horroroso. Aí é tarde. Porque você se volta contra o meu amor doente e não quer mais compactuar.
E a Medéia vira cordeiro manso rapidinho pra não te perder. A Medéia morde a língua e esquece de tudo pra não te perder. Vira Ofélia num instante. E diz que estava possuída, sei lá o que me deu, essas coisas, a Lua, a TPM, acho que to no meu inferno astral. Não, aquela ali não era eu, não, imagine, como pode? Eu sou essa aqui, meu amor, você me conhece, não é? Eu jamais seria capaz de.
Lápis desenhando o risco tênue dos seus cílios inferiores (eu quis ser desenhista e mal virei um escritor).
Escrever é desenhar com palavras na imaginação dos que nos lêem. Escrever é bênção e alívio, prazer e dor. De nunca acertar. De estar em busca todos os dias. De enfrentar falta de idéia, palavras que nunca preenchem, buraco na alma. Enfrentar, insônia adentro, o silêncio insuportável de uma rua inabitada. Cabeça inabitada.
Então escrevo sobre:
Dificuldade de encontrar o outro que me foge eternamente por entre os dedos, vivo tapando sol com peneira, tentando te buscar de peneira e alçapões nas minhas mãos duras de quem ama até demais. Mas quando? O amor te machuca não é? O amor te arranha te cospe na cara te xinga na madrugada. Te liga e te acorda cheio de rancor, o amor, essa besta desvairada. Essa coisa feita sei lá de que substância que às vezes corrói e arde quando entra em contato com a pele. Eu só queria que. Só queria. Você e só. Só você só pra mim. Você só pra mim. Você pra mim e só. Doença esse amor compulsivo esse amor enjoado egoísta mesquinho.
Quando você se esquece de mim e eu me esqueço de ser sã. O amor me possui me retorce e me transformo em monstra desvairada Medéia maluca de amor nas veias. Então é tarde. Nada segura ou contém. Jogo tudo no lixo, cuspo no seu nome, te juro o ódio mais horroroso. Aí é tarde. Porque você se volta contra o meu amor doente e não quer mais compactuar.
E a Medéia vira cordeiro manso rapidinho pra não te perder. A Medéia morde a língua e esquece de tudo pra não te perder. Vira Ofélia num instante. E diz que estava possuída, sei lá o que me deu, essas coisas, a Lua, a TPM, acho que to no meu inferno astral. Não, aquela ali não era eu, não, imagine, como pode? Eu sou essa aqui, meu amor, você me conhece, não é? Eu jamais seria capaz de.
domingo, julho 12, 2009
sobre ser
Períodos longos sem palavras deixam buracos nos blogs nos cadernos na vontade de juntar. Lé com cré.
Desorganizadamente, caminho. Sem ponto cardeal pra me guiar, já basta o horóscopo diário do jornal que obedeço re li gi osamente. Me deixo orientar por pequenas intuições e possíveis sinais. Mas sigo sem um 'projeto de vida'. Nem sei o que é isso.
Precisa ter pensamento sobre tudo e minha cabeça dói. Não sei sequer de onde vim, pra onde vou, porque existo hoje neste mundo, o que fui em vidas passadas, o planeta que está na sétima casa do meu mapa astral, qual personagem eu gostaria de viver no palco, se quero dirigir, escrever, atuar, dançar, cantar ou se quero, e devo, simplesmente, ser.
"Se a gente fosse a pé até a Lua, chegaríamos em nove anos".
Se até isso é possível
Se me der a louca e eu quiser sair navegando por todos os rios de todas as cidades.
Ou se me der vontade de viver na rua? Abandonar. Tudo. E se?
Ir parar em Berlim. Viver de artesanato. Perseguir o dono do SESC até o meu projeto ser aceito. Chegar em Belém de bicicleta. Andar pelada. Fingir ser outra, a partir de agora. Usar peruca e trocar de nome. Clandestinidade, exílio. Pode. Não pode?
Como seguir?
Não ter de pensar. não ter de escolher o tempo inteiro. não ter que saber o que quero como artista. não ter que saber discernir neste mundo difuso. não ter que ser coerente comigo mesma. poder errar. errar feio. ser mau educada quando der vontade. ir embora quando meu corpo mandar. me revirar de dor em pleno meio dia Avenida Paulista. saltar no pescoço de um homem bonito. ou mulher. não ter de aceitar tudo. não me preocupar se meu texto é legal ou se ele não é. pra mim é legal escrever, oras.
pra mim é legal acordar num dia de sol.
pra mim é legal andar a esmo cantando alto pela rua um samba do Cartola quando estou me sentindo a mulher mais especial deste mundo.
ou quando percebo a lua cheia nascendo laranja. é legal quando olho da minha janela e vejo uma cidade que não conheço se esparramando debaixo dos meus pés. e a vontade de voar que me acompanha. quando ele dorme segurando meu seio esquerdo. e quando eu acordo com tesão na madrugada.
e não ter de encontrar um fim pro que não tem.
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