Artistas da ELT divulgam manifesto de repúdio
Manifesto critica a postura da Secretaria de Cultura da cidade e diz que a “predisposição à luta” vai continuar; em mostra durante a semana coletivos teatrais se unem com arte
Por: Thiago Domenici
Publicado em 18/09/2009
Carta entregue ao Sec. de Cultura pela atriz Leona Cavalli na sexta-feira (11); readmissão de Edgar Castro e afastamento de Eliana Gonçalves não foram atendidos (Foto: Lucas Duarte de Souza)
O movimento de aprendizes e mestres da Escola Livre de Teatro (ELT), em Santo André, divulgou nesta sexta-feira (18) manifesto em repúdio à carta resposta da Secretaria de Cultura que não justificou a demissão do coordenador pedagógico Edgar Castro, há 11 anos mestre da ELT. “Quando uma comunidade como a ELT – absolutamente regida por uma práxis democrática – clama pela permanência de um profissional respeitadíssimo não só por esta comunidade, mas com o apoio substantivo de outros cidadãos (e nem simples semelhantes: para muito além do campo teatral) que incorporam-se à luta; quando estas comunidades esbarram na arrogância e ignorância do poder constituído, com quem será que a autoridade conta para legitimar-se no poder?”, diz trecho do manifesto.
Leia mais:>> ELT é "apaixonante", diz aprendiz
Prefeitura responde às reivindicações da ELT em carta oficial>> Escola Livre de Teatro em Santo André vive drama e pede "volta da autonomia">> Veja o blog do movimento ELT em Alerta
>> Deixe seu recado para a ELT
Procurada pela reportagem da Rede Brasil Atual a Secretaria de Cultura não deu resposta à pergunta sobre a motivação da demissão de Castro, alegando que a carta enviada à imprensa é a posição oficial. O manifesto, divulgado após manifestação nesta quinta-feira (17) na câmara municipal de Santo André, diz ainda. “Salvaguardadas todas as proporções históricas, Edgar Castro foi expulso e condenado à errância fora das instituições de ensino de Santo André, por motivos absolutamente imponderáveis e idiossincráticos.”
Negociação
Edgar Castro afirmou à Rede Brasil Atual que propôs a Secretaria de Cultura de Santo André que pudesse voltar como mestre, após fazer a transição do cargo de coordenador pedagógico para a pessoa indicada pela secretaria. A contrapartida seria acatar o pedido da comunidade artística da ELT de transferência de Eliana Gonçalves, coordenadora administrativa, há oito meses no cargo. “Você tem um filho na escola e toda a escola diz que não quer a coordenadora que o dono da escola colocou lá porque ela atrapalha, prejudica, atravanca, parece que é tão óbvio que o problema não está no coordenador pedagógico reconhecido e aprovado pela comunidade”, protesta Castro.
O ex-coordenador afirmou ainda que existem mecanismo legais da sociedade civil para coibir o que julga "abuso de poder" caso permaneça o impasse entre o poder público e os aprendizes e mestres da ELT. “É uma clara postura fechada e surda do poder público”, finaliza.
Mostra ELT em Alerta
Como forma de manter acessa a “predisposição a Luta” o movimento ELT em Alerta preparou uma Mostra entre os dias 21 e 25 de setembro. Na programação companhias parceiras como Cia. São Jorge, Cia. do Nó e Cia. Veraluz entre outras. Abaixo, a íntegra do manifesto:
Manifesto Escola Livre de Teatro de Santo André
Dürrenmatt disse: se o teatro fosse eliminado da história do mundo, poucos seriam aqueles que perceberiam tal supressão. Entretanto, Santo André seguramente seria um dos espaços em que essa ausência se faria notar, tendo em vista que neste município, localizada em Santa Terezinha encontra-se a Escola Livre Teatro, fruto de um dos mais belos sonhos em que a estética é conciliada à pertinência política, constituído por tantos Quixotes com os pés plantados no chão e os olhos descortinando a história, num significativo processo de lutas e conquistas em prol do melhor teatro já feito no Brasil, reconhecido não apenas pelos cidadãos andreenses, paulistas e paulistanos, mas por inúmeros coletivos de teatro espalhados pelo mundo afora e adentro. Múltiplos são os teatrólogos, dentre os quais pode ser citado Bertolt Brecht, que foram obrigados pela ascensão de Adolf Hitler ao poder, eleito por um terço da população alemã, a errar pelo mundo, perseguidos pelas concepções de que o teatro representava muito mais do que mero entretenimento. Junto com Charlie Chaplin, Bertolt Brecht foi expulso dos Estados Unidos da América por um Tribunal constituído por “democratas” condenado por políticas antiamericanas (leia-se, para muitos, comunistas). “Salvaguardadas todas as proporções históricas, Edgar Castro foi expulso e condenado à errância fora das instituições de ensino de Santo André, por motivos absolutamente imponderáveis e idiossincráticos.”Quando tem-se autoridades constituídas, eleitas por parte da população, em um contexto democrático, no mínimo, há que se estranhar atitudes de imposição de uma profissional não afeita às artes cênicas em uma escola de formação de atores. A quem tais pessoas precisam prestar contas de seus atos se não aos cidadãos que os elegeram e os colocaram na instância de poder? Que outra razão senão a arrogância explica a atitude exarada pelos detentores do poder da hora, na medida em que o período de sua permanência dura apenas quatro anos? Que prepotência pensar que podem combater 20 anos de história, de luta, de sabedoria. “Quando uma comunidade como a ELT – absolutamente regida por uma práxis democrática – clama pela permanência de um profissional respeitadíssimo não só por esta comunidade, mas com o apoio substantivo de outros cidadãos (e nem simples semelhantes: para muito além do campo teatral) que incorporam-se à luta; quando estas comunidades esbarram na arrogância e ignorância do poder constituído, com quem será que a autoridade conta para legitimar-se no poder?” Carlos Drummond de Andrade no poema Infância afirma que a nossa história é mais interessante que a de Robson Crusoé. O mesmo poeta afirma um pouco adiante que “esse é um tempo de partido”. Conciliando, portanto, Infância ao poema Nosso Tempo, a trilha que se tem tenta nos lamber como uma tsunami raivosa e desrespeitadora. Como é que se dá a prática democrática nesse país depois de mais de 20 anos de barbárie imposta à população brasileira pelo golpe de 1964? Como os democratas brasileiros conversam com outros democratas? Evidentemente que não pode ser por decretos e editos mandarinescos. “Agora não pergunto mais aonde vai a estrada Agora não espero mais aquela madrugada Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada” Um abatido – mas, entretanto, repleto de garra, de força, de predisposição à luta - fim de tarde de inverno andreense e paulistano,
Comunidade da Escola Livre de Teatro
sexta-feira, setembro 18, 2009
Demissão na ELT pode ter motivação política
Edgar Castro também disse que atual coordenadora administrativa é amiga de infância do prefeito; aprendizes protestam com arte na Câmara
Por: Thiago Domenici
Publicado em 17/09/2009
Protesto feito pelos aprendizes na sexta no Paço Municipal de Santo André (Foto: Lucas Duarte de Souza)
Santo André – O coordenador pedagógico da Escola Livre de Teatro (ELT), Edgar Castro, disse nesta quinta-feira (17) que sua demissão ocorreu sem justificativa e que a autonomia da escola foi quebrada após a escolha da atual coordenadora administrativa, que é “amiga de infância do atual prefeito” de Santo André, dr. Aidan Ravin (PTB). A escolhida, no caso, é Eliana Gonçalves, há oito meses no cargo.
Na tarde de quarta-feira (16), entre a comissão da ELT com o diretor de cultura, Pedro Botaro, foi dada a seguinte argumentação quando o grupo questionou a demissão de Castro: “Não podemos dar nomes. Foram nossos agentes políticos”, segundo relato dos aprendizes que participaram da reunião.
Leia mais:>> Prefeitura responde às reivindicações da ELT em carta oficial>> Escola Livre de Teatro em Santo André vive drama e pede "volta da autonomia">> Veja o blog do movimento ELT em Alerta
“Na reunião em que fui demitido pelo diretor de cultura, ele me disse que um dos motivos foi minha ‘falta de afinação com a coordenadora' e que, portanto, não precisavam mais dos meus serviços", disse Castro, que há 11 anos é professor da escola.
Chateado, o professor não se conforma com o que chama de "abuso de poder" da autoridade pública.
“Personalizar a discussão é um absurdo. Na verdade o que existe é um movimento de uma comunidade inteira dizendo que as atitudes tomadas pela professora Eliana Gonçalves são atitudes que agridem o projeto pedagógico e é muito curioso que a Secretaria não dê ouvidos pra isso. Qual a justificativa? Qual a razão para eu ser afastado não só do cargo de coordenador pedagógico, mas da Escola?”, indaga.
Perguntado se acredita numa resposta oficial sobre sua demissão, Castro se diz sem esperança. “Se me for dada uma resposta clara sobre o meu afastamento, eu saio. Se houver uma razão plausível, eu saio. Não nasci grudado nessa cadeira e nem vou morrer grudado nela", desabafa.O ex-coordenador e cerca de 100 aprendizes da ELT participaram de um protesto pacífico na Câmara Municipal da cidade, contra a falta de autonomia e solicitaram apoio dos parlamentares.
Com 17 anos de existência, a escola sempre foi pautada pela liberdade, inclusive, com a escolha democrática de seus gestores. Eles querem não só o retorno de Castro, como a transferência de Eliana e a volta do diálogo. Os aprendizes Lilian Cardoso e Mario Augusto Simões falaram sobre a importância da autonomia aos parlamentares e foram muito aplaudidos ao final. No encerramento, com o plenário lotado, todos os estudantes cantaram o hino da ELT.
A Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer de Santo André afirmou à Rede Brasil Atual que não pretende justificar nos próximos dias a demissão e que mantém oficialmente a posição expressa em carta apresentada nesta quinta-feira (17) e assinada pelo secretário, Edson Salvo Melo.
O comunicado oficial pondera inúmeras questões da carta entregue pela atriz Leona Cavali ao secretário de cultura na última sexta-feira (11), mas não responde conclusivamente as reivindicações dos aprendizes e mestres da ELT.Segundo a aprendiz Carolina Splendore as aulas continuarão suspensas e em assembléia permanente. “Estamos programando para a semana que vem uma mostra chamada ELT em Alerta que já tem o apoio de mais de 30 coletivos de São Paulo, vamos colocar a programação no blog”, finalizou.
__._,_.___
Edgar Castro também disse que atual coordenadora administrativa é amiga de infância do prefeito; aprendizes protestam com arte na Câmara
Por: Thiago Domenici
Publicado em 17/09/2009
Protesto feito pelos aprendizes na sexta no Paço Municipal de Santo André (Foto: Lucas Duarte de Souza)
Santo André – O coordenador pedagógico da Escola Livre de Teatro (ELT), Edgar Castro, disse nesta quinta-feira (17) que sua demissão ocorreu sem justificativa e que a autonomia da escola foi quebrada após a escolha da atual coordenadora administrativa, que é “amiga de infância do atual prefeito” de Santo André, dr. Aidan Ravin (PTB). A escolhida, no caso, é Eliana Gonçalves, há oito meses no cargo.
Na tarde de quarta-feira (16), entre a comissão da ELT com o diretor de cultura, Pedro Botaro, foi dada a seguinte argumentação quando o grupo questionou a demissão de Castro: “Não podemos dar nomes. Foram nossos agentes políticos”, segundo relato dos aprendizes que participaram da reunião.
Leia mais:>> Prefeitura responde às reivindicações da ELT em carta oficial>> Escola Livre de Teatro em Santo André vive drama e pede "volta da autonomia">> Veja o blog do movimento ELT em Alerta
“Na reunião em que fui demitido pelo diretor de cultura, ele me disse que um dos motivos foi minha ‘falta de afinação com a coordenadora' e que, portanto, não precisavam mais dos meus serviços", disse Castro, que há 11 anos é professor da escola.
Chateado, o professor não se conforma com o que chama de "abuso de poder" da autoridade pública.
“Personalizar a discussão é um absurdo. Na verdade o que existe é um movimento de uma comunidade inteira dizendo que as atitudes tomadas pela professora Eliana Gonçalves são atitudes que agridem o projeto pedagógico e é muito curioso que a Secretaria não dê ouvidos pra isso. Qual a justificativa? Qual a razão para eu ser afastado não só do cargo de coordenador pedagógico, mas da Escola?”, indaga.
Perguntado se acredita numa resposta oficial sobre sua demissão, Castro se diz sem esperança. “Se me for dada uma resposta clara sobre o meu afastamento, eu saio. Se houver uma razão plausível, eu saio. Não nasci grudado nessa cadeira e nem vou morrer grudado nela", desabafa.O ex-coordenador e cerca de 100 aprendizes da ELT participaram de um protesto pacífico na Câmara Municipal da cidade, contra a falta de autonomia e solicitaram apoio dos parlamentares.
Com 17 anos de existência, a escola sempre foi pautada pela liberdade, inclusive, com a escolha democrática de seus gestores. Eles querem não só o retorno de Castro, como a transferência de Eliana e a volta do diálogo. Os aprendizes Lilian Cardoso e Mario Augusto Simões falaram sobre a importância da autonomia aos parlamentares e foram muito aplaudidos ao final. No encerramento, com o plenário lotado, todos os estudantes cantaram o hino da ELT.
A Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer de Santo André afirmou à Rede Brasil Atual que não pretende justificar nos próximos dias a demissão e que mantém oficialmente a posição expressa em carta apresentada nesta quinta-feira (17) e assinada pelo secretário, Edson Salvo Melo.
O comunicado oficial pondera inúmeras questões da carta entregue pela atriz Leona Cavali ao secretário de cultura na última sexta-feira (11), mas não responde conclusivamente as reivindicações dos aprendizes e mestres da ELT.Segundo a aprendiz Carolina Splendore as aulas continuarão suspensas e em assembléia permanente. “Estamos programando para a semana que vem uma mostra chamada ELT em Alerta que já tem o apoio de mais de 30 coletivos de São Paulo, vamos colocar a programação no blog”, finalizou.
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quarta-feira, setembro 09, 2009
URGENTE! ALERTA ELT!
A Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), projeto artístico-pedagógico que se firmou como referência para a formação de atores no Brasil e que se aproxima agora dos seus 20 anos de enraizamento na cidade, acaba de ter seu coordenador, o ator Edgar Castro, sumariamente demitido.
Nesta sexta-feira, onze de setembro, artistas representantes dos principais coletivos de artes cênicas das cidades de Santo André e São Paulo - entre os confirmados as atrizes Maria Alice Vergueiro e Leona Cavalli, o ator Antônio Petrim, os diretores Francisco Medeiros e Cibele Forjaz - farão um ato público em prol da manutenção do projeto artístico-pedagógico original, que se encontra ameaçado.
Internacionalmente conhecida por seu projeto inovador desde sua fundação, em 1990, a ELT foi idealizada pela artista-pedagoga Maria Thaís Lima Santos, (hoje professora doutora da USP e coordenadora do TUSP), e coerentemente transformada pela experiência e pelos diversos mestres que passaram por ela tais como: Luis Alberto de Abreu Antonio Araújo, Tiche Vianna, Francisco Medeiros, Cacá Carvalho, Renata Zhaneta, Cibele Forjaz, Cláudia Schapira, Denise Weinberg, Sergio de Carvalho.
Da palavra "Livre" - presente no nome da Escola - emerge um campo pedagógico próprio, que pressupõe o conceito de deliberação coletiva, derivado do contínuo diálogo entre mestres, aprendizes e funcionários (constituintes legítimos da comunidade ELT), num processo de não-hierarquização, radicalmente contrário a imposições.
Desde o final do ano passado, após a eleição do atual prefeito Dr. Aidan Ravin, a comunidade da Escola Livre de Teatro tem se reunido para conhecer o projeto cultural para a cidade de Santo André. Em 28 de novembro, organizou um ato público, o Encontro Cultural da Cidade, quando se esperava como convidado principal Dr. Aidan Ravin. O então futuro prefeito não compareceu, mas fez-se presente através de seus assessores e do vereador recém eleito Gilberto do Primavera, que firmou publicamente seu compromisso com a cultura da cidade e com a manutenção do projeto original da ELT.
No entanto, como primeira medida, designaram para escola uma nova coordenadora não pertencente ao quadro de mestres e desconhecedora do projeto em curso. Em assembléia geral da escola, em 3 de fevereiro de 2009, com a presença de toda comunidade ELT e da coordenadora, o atual Secretário de Cultura, sr. Edson Salvo Melo, não só reiterou a continuidade do projeto artístico-pedagógico como também acenou a reforma física do prédio da ELT, readequando o espaço para as atuais necessidades da escola.
Passados oito meses da nova gestão, de contínuas tentativas de diálogo entre a comunidade, a coordenadora sra. Eliana Gonçalves e os funcionários também recém transferidos para a escola, encontros mediados pelo coordenador Edgar Castro (mestre da escola há 11 anos), fomos surpreendidos por esta repentina demissão feita pelo diretor de cultura Sr. Pedro Botaro no dia oito de setembro.
No ato público os artistas entregarão uma carta ao Secretário de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo, sr. Edson Salvo Melo. A idéia é pedir que se reveja a demissão de Edgar Castro - escolhido democraticamente pela comunidade escolar e com ampla aderência de todos - e a que se possa dialogar sobre a presença da sra. Eliana Gonçalves.
A concentração para o ato será às 14h em frente à ELT:
Praça Rui Barbosa s/ nº, bairro Santa Terezinha, Santo André.
Segue em passeata até o Paço Municipal de Santo André.
Os interessados também poderão participar do movimento que reivindica a manutenção do projeto pelo blog: http://www.movimentolivre-sa.blogspot.com/
Assessoria de imprensa:
Carolina Splendore Cameron carolsplendore@gmail.com
Tel. 3705-0741 / 8144-8350
Mariana França mari_arcadia@yahoo.com.br
Tel. 8216-2683
http://www.youtube.com/watch?v=DYxK8cbCSiY
Nesta sexta-feira, onze de setembro, artistas representantes dos principais coletivos de artes cênicas das cidades de Santo André e São Paulo - entre os confirmados as atrizes Maria Alice Vergueiro e Leona Cavalli, o ator Antônio Petrim, os diretores Francisco Medeiros e Cibele Forjaz - farão um ato público em prol da manutenção do projeto artístico-pedagógico original, que se encontra ameaçado.
Internacionalmente conhecida por seu projeto inovador desde sua fundação, em 1990, a ELT foi idealizada pela artista-pedagoga Maria Thaís Lima Santos, (hoje professora doutora da USP e coordenadora do TUSP), e coerentemente transformada pela experiência e pelos diversos mestres que passaram por ela tais como: Luis Alberto de Abreu Antonio Araújo, Tiche Vianna, Francisco Medeiros, Cacá Carvalho, Renata Zhaneta, Cibele Forjaz, Cláudia Schapira, Denise Weinberg, Sergio de Carvalho.
Da palavra "Livre" - presente no nome da Escola - emerge um campo pedagógico próprio, que pressupõe o conceito de deliberação coletiva, derivado do contínuo diálogo entre mestres, aprendizes e funcionários (constituintes legítimos da comunidade ELT), num processo de não-hierarquização, radicalmente contrário a imposições.
Desde o final do ano passado, após a eleição do atual prefeito Dr. Aidan Ravin, a comunidade da Escola Livre de Teatro tem se reunido para conhecer o projeto cultural para a cidade de Santo André. Em 28 de novembro, organizou um ato público, o Encontro Cultural da Cidade, quando se esperava como convidado principal Dr. Aidan Ravin. O então futuro prefeito não compareceu, mas fez-se presente através de seus assessores e do vereador recém eleito Gilberto do Primavera, que firmou publicamente seu compromisso com a cultura da cidade e com a manutenção do projeto original da ELT.
No entanto, como primeira medida, designaram para escola uma nova coordenadora não pertencente ao quadro de mestres e desconhecedora do projeto em curso. Em assembléia geral da escola, em 3 de fevereiro de 2009, com a presença de toda comunidade ELT e da coordenadora, o atual Secretário de Cultura, sr. Edson Salvo Melo, não só reiterou a continuidade do projeto artístico-pedagógico como também acenou a reforma física do prédio da ELT, readequando o espaço para as atuais necessidades da escola.
Passados oito meses da nova gestão, de contínuas tentativas de diálogo entre a comunidade, a coordenadora sra. Eliana Gonçalves e os funcionários também recém transferidos para a escola, encontros mediados pelo coordenador Edgar Castro (mestre da escola há 11 anos), fomos surpreendidos por esta repentina demissão feita pelo diretor de cultura Sr. Pedro Botaro no dia oito de setembro.
No ato público os artistas entregarão uma carta ao Secretário de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo, sr. Edson Salvo Melo. A idéia é pedir que se reveja a demissão de Edgar Castro - escolhido democraticamente pela comunidade escolar e com ampla aderência de todos - e a que se possa dialogar sobre a presença da sra. Eliana Gonçalves.
A concentração para o ato será às 14h em frente à ELT:
Praça Rui Barbosa s/ nº, bairro Santa Terezinha, Santo André.
Segue em passeata até o Paço Municipal de Santo André.
Os interessados também poderão participar do movimento que reivindica a manutenção do projeto pelo blog: http://www.movimentolivre-sa.blogspot.com/
Assessoria de imprensa:
Carolina Splendore Cameron carolsplendore@gmail.com
Tel. 3705-0741 / 8144-8350
Mariana França mari_arcadia@yahoo.com.br
Tel. 8216-2683
http://www.youtube.com/watch?v=DYxK8cbCSiY
quinta-feira, setembro 03, 2009
Da série COLAPSO
Pseuda paz
Psicos
délicos
somáticos
cóticos
trópicos
come come come
vomita
bebe bebe bebe
desmaia
trepa trepa trepa
machuca
incha incha incha
explode
qual é o ponto?
até onde se aguenta
o corpo
a cidade
a carência
a miséria
a desumanidade
Qual é o ponto?
A ponte?
Atravessar o rio. Encarar a tempestade.
Tanto bate até que fura.
Existe ponto final?
Por
um
triz
A cidade se organiza num fio de navalha
cama de pregos
em cacos quebrados no chão sob os pés descalços
Vai explodir.
Meninas e meninos nascem sem parar
sem parar carros novos chegam às ruas abarrotadas
agentes do CET não param de se multiplicar invasão amarela e marrom
motoboys se atiram nos carros todos os dias
Qual é o limite do insuportável?
Quanto mais o ser humano pode suportar?
Ficar três horas fechado dentro de um carro com milhões de outros carros ao redor. Entalados.
Respirar ar preto.
Passar fome.
Cansaço.
Trabalhos terríveis.
Televisão mundo de merda.
Turbilhão de corrupção nojenta.
Até quando?
Psicos
délicos
somáticos
cóticos
trópicos
come come come
vomita
bebe bebe bebe
desmaia
trepa trepa trepa
machuca
incha incha incha
explode
qual é o ponto?
até onde se aguenta
o corpo
a cidade
a carência
a miséria
a desumanidade
Qual é o ponto?
A ponte?
Atravessar o rio. Encarar a tempestade.
Tanto bate até que fura.
Existe ponto final?
Por
um
triz
A cidade se organiza num fio de navalha
cama de pregos
em cacos quebrados no chão sob os pés descalços
Vai explodir.
Meninas e meninos nascem sem parar
sem parar carros novos chegam às ruas abarrotadas
agentes do CET não param de se multiplicar invasão amarela e marrom
motoboys se atiram nos carros todos os dias
Qual é o limite do insuportável?
Quanto mais o ser humano pode suportar?
Ficar três horas fechado dentro de um carro com milhões de outros carros ao redor. Entalados.
Respirar ar preto.
Passar fome.
Cansaço.
Trabalhos terríveis.
Televisão mundo de merda.
Turbilhão de corrupção nojenta.
Até quando?
Carência
Carece de ter coragem
Esquece da coisa que foi e vai ver
Procura saborear
de olhos desritmados
Venha ver o sol que sobrou pra nós
Venha ver o asfalto que pintou
A parede que cresceu
entre minha janela e o mundo
conhece-te a qualquer preço
antes que te esquece
te desconecte
Esquece da coisa que foi e vai ver
Procura saborear
de olhos desritmados
Venha ver o sol que sobrou pra nós
Venha ver o asfalto que pintou
A parede que cresceu
entre minha janela e o mundo
conhece-te a qualquer preço
antes que te esquece
te desconecte
quarta-feira, agosto 12, 2009
estranha
estranha
em frangalhos tô acostumada
de migalha
em migalha
minha casa eu sou
entrada única do meu envoltório
estou cansada
minha cara
minha cara não me diz nada
lacre involuntário
porta pra parede
estanca
dança
sai daí criança
sai daí
estanca
costura o que sobrou de tripa
vê o que é que fica
e vai
e vai passear
estranha
em frangalhos tô acostumada
de migalha
em migalha
minha casa eu sou
entrada única do meu envoltório
estou cansada
minha cara
minha cara não me diz nada
lacre involuntário
porta pra parede
estanca
dança
sai daí criança
sai daí
estanca
costura o que sobrou de tripa
vê o que é que fica
e vai
e vai passear
sábado, agosto 01, 2009
Menina 1
Unha preta no teclado branco tec tec tec tec tec tec tec tec
dor nas juntas
menina 1 fala para menina 2:
Por quê tem que ser assim?
menina 2 pensa nem um segundo e fala para menina 1:
meu dorso pesa levando todo o meu corpo para frente
menina 1:
é o meu também
ou é esse colar que pesa demais no meu pescoço
que me puxa pra baixo
pra dentro do centro gravitacional existencial
Sai de mim, existência!
Xô pra lá vã filosofia vã. Vá.
Vinde o simples o óbvio concreto ululante.
Venha mesa de bar, copo americano, papo furado. Roupa nova, esmalte que cor, o próximo show, a gasolina, o sutiã me aperta.
Sai prá lá ideinha dificinha. Ideinha inha inha. Escrever é mais difícil do que parece. E quem disse que escrevo? Escrever é isso? Basta ter um Blog og og?
Responde o eco bode de dentro dos meus parafusos:
Uso.
Unhas descascando tempo vazando por entre os dedos. Não agarro nada, nada se salva. Vai tudo na enchente, enxurrada de tempo me arrasta me leva, me deixa me deixa aqui!
Me agarro ao aqui. Não tempo, não. Venha agora não. Me deixe aqui, mais um pouquinho, só mais um pouquinho. Queria que de manhã cinco minutos durassem cinco horas, mas cruel é o tempo, e o máximo que ele faz por mim é durar cinco milésimos de alguma coisa tempo.
Xô pra lá que eu fico aqui. Aqui não tem tempo ruim. Aqui sou eu e minhas unhas tec tec tec tec tec tec tec tec tec tec tec
e um mundo virtual aos meus pés.
Sou dona deste mundo, deste tempo, pelo menos deste!
segunda-feira, julho 27, 2009
cento e um
Um lapso.
Lápis desenhando o risco tênue dos seus cílios inferiores (eu quis ser desenhista e mal virei um escritor).
Escrever é desenhar com palavras na imaginação dos que nos lêem. Escrever é bênção e alívio, prazer e dor. De nunca acertar. De estar em busca todos os dias. De enfrentar falta de idéia, palavras que nunca preenchem, buraco na alma. Enfrentar, insônia adentro, o silêncio insuportável de uma rua inabitada. Cabeça inabitada.
Então escrevo sobre:
Dificuldade de encontrar o outro que me foge eternamente por entre os dedos, vivo tapando sol com peneira, tentando te buscar de peneira e alçapões nas minhas mãos duras de quem ama até demais. Mas quando? O amor te machuca não é? O amor te arranha te cospe na cara te xinga na madrugada. Te liga e te acorda cheio de rancor, o amor, essa besta desvairada. Essa coisa feita sei lá de que substância que às vezes corrói e arde quando entra em contato com a pele. Eu só queria que. Só queria. Você e só. Só você só pra mim. Você só pra mim. Você pra mim e só. Doença esse amor compulsivo esse amor enjoado egoísta mesquinho.
Quando você se esquece de mim e eu me esqueço de ser sã. O amor me possui me retorce e me transformo em monstra desvairada Medéia maluca de amor nas veias. Então é tarde. Nada segura ou contém. Jogo tudo no lixo, cuspo no seu nome, te juro o ódio mais horroroso. Aí é tarde. Porque você se volta contra o meu amor doente e não quer mais compactuar.
E a Medéia vira cordeiro manso rapidinho pra não te perder. A Medéia morde a língua e esquece de tudo pra não te perder. Vira Ofélia num instante. E diz que estava possuída, sei lá o que me deu, essas coisas, a Lua, a TPM, acho que to no meu inferno astral. Não, aquela ali não era eu, não, imagine, como pode? Eu sou essa aqui, meu amor, você me conhece, não é? Eu jamais seria capaz de.
Lápis desenhando o risco tênue dos seus cílios inferiores (eu quis ser desenhista e mal virei um escritor).
Escrever é desenhar com palavras na imaginação dos que nos lêem. Escrever é bênção e alívio, prazer e dor. De nunca acertar. De estar em busca todos os dias. De enfrentar falta de idéia, palavras que nunca preenchem, buraco na alma. Enfrentar, insônia adentro, o silêncio insuportável de uma rua inabitada. Cabeça inabitada.
Então escrevo sobre:
Dificuldade de encontrar o outro que me foge eternamente por entre os dedos, vivo tapando sol com peneira, tentando te buscar de peneira e alçapões nas minhas mãos duras de quem ama até demais. Mas quando? O amor te machuca não é? O amor te arranha te cospe na cara te xinga na madrugada. Te liga e te acorda cheio de rancor, o amor, essa besta desvairada. Essa coisa feita sei lá de que substância que às vezes corrói e arde quando entra em contato com a pele. Eu só queria que. Só queria. Você e só. Só você só pra mim. Você só pra mim. Você pra mim e só. Doença esse amor compulsivo esse amor enjoado egoísta mesquinho.
Quando você se esquece de mim e eu me esqueço de ser sã. O amor me possui me retorce e me transformo em monstra desvairada Medéia maluca de amor nas veias. Então é tarde. Nada segura ou contém. Jogo tudo no lixo, cuspo no seu nome, te juro o ódio mais horroroso. Aí é tarde. Porque você se volta contra o meu amor doente e não quer mais compactuar.
E a Medéia vira cordeiro manso rapidinho pra não te perder. A Medéia morde a língua e esquece de tudo pra não te perder. Vira Ofélia num instante. E diz que estava possuída, sei lá o que me deu, essas coisas, a Lua, a TPM, acho que to no meu inferno astral. Não, aquela ali não era eu, não, imagine, como pode? Eu sou essa aqui, meu amor, você me conhece, não é? Eu jamais seria capaz de.
domingo, julho 12, 2009
sobre ser
Períodos longos sem palavras deixam buracos nos blogs nos cadernos na vontade de juntar. Lé com cré.
Desorganizadamente, caminho. Sem ponto cardeal pra me guiar, já basta o horóscopo diário do jornal que obedeço re li gi osamente. Me deixo orientar por pequenas intuições e possíveis sinais. Mas sigo sem um 'projeto de vida'. Nem sei o que é isso.
Precisa ter pensamento sobre tudo e minha cabeça dói. Não sei sequer de onde vim, pra onde vou, porque existo hoje neste mundo, o que fui em vidas passadas, o planeta que está na sétima casa do meu mapa astral, qual personagem eu gostaria de viver no palco, se quero dirigir, escrever, atuar, dançar, cantar ou se quero, e devo, simplesmente, ser.
"Se a gente fosse a pé até a Lua, chegaríamos em nove anos".
Se até isso é possível
Se me der a louca e eu quiser sair navegando por todos os rios de todas as cidades.
Ou se me der vontade de viver na rua? Abandonar. Tudo. E se?
Ir parar em Berlim. Viver de artesanato. Perseguir o dono do SESC até o meu projeto ser aceito. Chegar em Belém de bicicleta. Andar pelada. Fingir ser outra, a partir de agora. Usar peruca e trocar de nome. Clandestinidade, exílio. Pode. Não pode?
Como seguir?
Não ter de pensar. não ter de escolher o tempo inteiro. não ter que saber o que quero como artista. não ter que saber discernir neste mundo difuso. não ter que ser coerente comigo mesma. poder errar. errar feio. ser mau educada quando der vontade. ir embora quando meu corpo mandar. me revirar de dor em pleno meio dia Avenida Paulista. saltar no pescoço de um homem bonito. ou mulher. não ter de aceitar tudo. não me preocupar se meu texto é legal ou se ele não é. pra mim é legal escrever, oras.
pra mim é legal acordar num dia de sol.
pra mim é legal andar a esmo cantando alto pela rua um samba do Cartola quando estou me sentindo a mulher mais especial deste mundo.
ou quando percebo a lua cheia nascendo laranja. é legal quando olho da minha janela e vejo uma cidade que não conheço se esparramando debaixo dos meus pés. e a vontade de voar que me acompanha. quando ele dorme segurando meu seio esquerdo. e quando eu acordo com tesão na madrugada.
e não ter de encontrar um fim pro que não tem.
sexta-feira, junho 05, 2009
Perda da inocência
Ontem passei por uma dessas coisas inevitáveis e incompreensíveis da vida:
arranquei os cisos.
Dois dentões de dentro da minha boca
Dois dentões com suas raizes atravancadas na minha gengiva
que não queriam sair dali
e talvez jamais precisassem sair dali
se não fossem estes instrumentos alicates e essas profissões dentistas pairando por aí.
arranquei os cisos.
Dois dentões de dentro da minha boca
Dois dentões com suas raizes atravancadas na minha gengiva
que não queriam sair dali
e talvez jamais precisassem sair dali
se não fossem estes instrumentos alicates e essas profissões dentistas pairando por aí.
sexta-feira, abril 17, 2009
em louqueci
Ano do Búfalo no Hemisfério Terrestre. Os chineses, provavelmente os mais sábios seres deste Planeta, já avisaram: trabalho árduo e poucos frutos. Os resultados, parece que ficam para o ano que vem. Praqueles que trabalharem, é claro. E eu, que não vim pra essa vida à passeio, já estou plantando as sementinhas. E me virando, revirando nesta cidade exigência absoluta.
Às vezes, queria mais é relaxar e esquecer que nessa vida é pra labutar. Já me esqueci que pode viajar, nunca mais fumei maconha, nem toquei violão com os amigos. Estranha São Paulo que me sangue suga energias vitais de diversão e arte. De sono até o meio dia, de vida leve, andar solta por aí, de não saber caminho, trânsito, perder fio da meada, perder cabeça, lenço e documento, estribeiras, as eiras as beiras. Sou do Tigre no horóscopo dos chineses. E Tigre e Búfalo não se dão lá muito bem. Quero mais é andar sorrateira no meio do mato, caçar passarinhos, descalçada das meias apertadas. Quero minhas listras de volta de tigresa de iris cor de mel esfregando a pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu. Quero o meu tigrinho ao meu lado, ronronar amor no meio das árvores, sentir mato acariciar a barriga. Que ano do Búfalo que nada! Que cidade absurda que porra nenhuma. Que vidinha ordinária de concreto apartamento carro celular cigarro cafécofcofcofcofco cof cof. Gente é pra brilhar. Quero minhas listras selvagens de volta. Quero regredir 100.000 anos. E dançar na beira da fogueira com minha máscara de tigresa de unhas negras. E cantar. E soltar os diabos. E que plantar sementinha que puta babaquice que me infiltram na cabeça diária e arduamente. E obedeçoobedeçoobedeço. Sim senhor, Olá Sesc Paulista, meu nome é Sofia e ...., bom dia, por favor eu gostaria de.... , será que existe uma vaga pra mim eu sou simpática, bonita, me relaciono bem e...., oi, eu não tenho experiência mas tenho muita força de vontade...., sim, sim, eu sei servir café..., sou atriz tenho drt sim, senhora, e adoraria fazer este comercial para o mc donald´s..., ah, mas será que é o meu perfil?....
Será que existem vagas para uma tigresa de unhas negras e iris cor de mel que quer mais é andar por aí no meio dos carros florestas adentro?
Às vezes, queria mais é relaxar e esquecer que nessa vida é pra labutar. Já me esqueci que pode viajar, nunca mais fumei maconha, nem toquei violão com os amigos. Estranha São Paulo que me sangue suga energias vitais de diversão e arte. De sono até o meio dia, de vida leve, andar solta por aí, de não saber caminho, trânsito, perder fio da meada, perder cabeça, lenço e documento, estribeiras, as eiras as beiras. Sou do Tigre no horóscopo dos chineses. E Tigre e Búfalo não se dão lá muito bem. Quero mais é andar sorrateira no meio do mato, caçar passarinhos, descalçada das meias apertadas. Quero minhas listras de volta de tigresa de iris cor de mel esfregando a pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu. Quero o meu tigrinho ao meu lado, ronronar amor no meio das árvores, sentir mato acariciar a barriga. Que ano do Búfalo que nada! Que cidade absurda que porra nenhuma. Que vidinha ordinária de concreto apartamento carro celular cigarro cafécofcofcofcofco cof cof. Gente é pra brilhar. Quero minhas listras selvagens de volta. Quero regredir 100.000 anos. E dançar na beira da fogueira com minha máscara de tigresa de unhas negras. E cantar. E soltar os diabos. E que plantar sementinha que puta babaquice que me infiltram na cabeça diária e arduamente. E obedeçoobedeçoobedeço. Sim senhor, Olá Sesc Paulista, meu nome é Sofia e ...., bom dia, por favor eu gostaria de.... , será que existe uma vaga pra mim eu sou simpática, bonita, me relaciono bem e...., oi, eu não tenho experiência mas tenho muita força de vontade...., sim, sim, eu sei servir café..., sou atriz tenho drt sim, senhora, e adoraria fazer este comercial para o mc donald´s..., ah, mas será que é o meu perfil?....
Será que existem vagas para uma tigresa de unhas negras e iris cor de mel que quer mais é andar por aí no meio dos carros florestas adentro?
terça-feira, abril 14, 2009
Mais uma para a Nekropolis!
"Hoje à noite, tive contato com aquilo que se pode chamar BELEZA.
Espetáculo "teatral": coisa cada dia mais difícil de se ter em teatro. Por aí muita forma cristalizada engessando o espetáculo. Nekropolis tem corpo, encenação, texto, atores... atores... Puro encantamento!
Tenho assistido a muitos espetáculos por aí, mas depois, depois de muito tempo levantei-me para aplaudir obra tão bela.
Mestre-parceiro obrigado por obra tão bela. Isso renova a esperança estética. Cumprimente cada um, e a todos dialeticamente.
Saí repleto de estética partilhada.
Muitos beijos, carinho e admiração verdadeiros!
Viva!"
Alexandre Matte
Espetáculo "teatral": coisa cada dia mais difícil de se ter em teatro. Por aí muita forma cristalizada engessando o espetáculo. Nekropolis tem corpo, encenação, texto, atores... atores... Puro encantamento!
Tenho assistido a muitos espetáculos por aí, mas depois, depois de muito tempo levantei-me para aplaudir obra tão bela.
Mestre-parceiro obrigado por obra tão bela. Isso renova a esperança estética. Cumprimente cada um, e a todos dialeticamente.
Saí repleto de estética partilhada.
Muitos beijos, carinho e admiração verdadeiros!
Viva!"
Alexandre Matte
domingo, abril 05, 2009
Um sonho
Sonhei.
Eu engolia dois olhos de macaco. Para que eu pudesse enxergar através deles, ver como um macaco veria. A surpresa é que eu continuava enxergando igualzinho ao ser humano. Não mudava nada - talvez desse uma ampliada no campo de visão, mas era só. Eu estava debaixo do Minhocão, centro da cidade e via, com meus olhos novos de macaco, o mundo se acabar. Explosões de fogo, maremotos ali debaixo do Minhocão, centro da cidade explosão diante dos meus olhos de macaco novo. Nada me atingia de fato. Parecia um filme a que eu assitia, imóvel e apática. Quando decidi me entregar à destruição, ao fim de tudo, corri e percebi que corria como um macaco. E era delicioso. Uma pata depois da outra e não havia cansaço, era fácil e divino, deslizando cidade abaixo, escorrendo ao encontro das ondas que explodiam debaixo do Minhocão. Enquanto corria com meu jeito de macaco novo, descobrindo a delícia de ser o que agora eu era, entendendo meus novos sons, outros dons, passei por uma fileira de mendigos sentados na calçada. Ao me perceberem nos meus "AAA" "UUUUU" vieram atrás de mim, em bando, querendo me entender, me descobrir.
Acordei.
Abri meus olhos de ser humano e encontrei meu namorado, dormindo, ao meu lado.
Eu engolia dois olhos de macaco. Para que eu pudesse enxergar através deles, ver como um macaco veria. A surpresa é que eu continuava enxergando igualzinho ao ser humano. Não mudava nada - talvez desse uma ampliada no campo de visão, mas era só. Eu estava debaixo do Minhocão, centro da cidade e via, com meus olhos novos de macaco, o mundo se acabar. Explosões de fogo, maremotos ali debaixo do Minhocão, centro da cidade explosão diante dos meus olhos de macaco novo. Nada me atingia de fato. Parecia um filme a que eu assitia, imóvel e apática. Quando decidi me entregar à destruição, ao fim de tudo, corri e percebi que corria como um macaco. E era delicioso. Uma pata depois da outra e não havia cansaço, era fácil e divino, deslizando cidade abaixo, escorrendo ao encontro das ondas que explodiam debaixo do Minhocão. Enquanto corria com meu jeito de macaco novo, descobrindo a delícia de ser o que agora eu era, entendendo meus novos sons, outros dons, passei por uma fileira de mendigos sentados na calçada. Ao me perceberem nos meus "AAA" "UUUUU" vieram atrás de mim, em bando, querendo me entender, me descobrir.
Acordei.
Abri meus olhos de ser humano e encontrei meu namorado, dormindo, ao meu lado.
quarta-feira, abril 01, 2009
carne alma e coração
digo que vai 
ô se vai
vamos todos
conseguir
encontrar
nem que tivermos que cavar
cavar
cavar
Tem espaço no mundo
há de haver
espaço no mundo
olha só o tamanho disso tudo
olha só o meu metro e sessenta vagando na imensidão eternidade
um esqueletinho
um mero esqueletinho se equilibrando sobre dois apoios nos seus precários metroesessenta
então
os de nós
de carne osso e coração
que fazem arte e aos que não
aos que aceitam o caos e se misturam com ele
e aos que navegam contra a maré
a todos esses que vagam esqueletinhos noite afora
vida adentro
carne alma e coração
buscando
buscando
buscando
eu lhes digo:
não será em vão

ô se vai
vamos todos
conseguir
encontrar
nem que tivermos que cavar
cavar
cavar
Tem espaço no mundo
há de haver
espaço no mundo
olha só o tamanho disso tudo
olha só o meu metro e sessenta vagando na imensidão eternidade
um esqueletinho
um mero esqueletinho se equilibrando sobre dois apoios nos seus precários metroesessenta
então
os de nós
de carne osso e coração
que fazem arte e aos que não
aos que aceitam o caos e se misturam com ele
e aos que navegam contra a maré
a todos esses que vagam esqueletinhos noite afora
vida adentro
carne alma e coração
buscando
buscando
buscando
eu lhes digo:
não será em vão
quinta-feira, março 26, 2009
aidemim
Momento esquisitofrênico de nem lá nem cá. angústia funda garganta / arranca unha a dentadas
quem se salva na barbárie/
nem eu nem seu nem meu
só sei de mim e mais ninguém
meu carro
meu aparelho celular
meu espírito de porco
meu sono
abandono celular msn blog estrada afora. blog spot.
solidão de ler escrever pra ninguém
de mim para o mundo de ninguém
do fundo do mundo de mim
pra imensidão internet raios ultravermelhos anos luz sem gravidade e ondas sonoras
tenho medo tenho medo tenho medo
medo de ir e de ficar
minha arte insipiente
recipiente de desuso
kit pessoa moderna são paulo século XXI
o que resta / o que resta / o que resta
burgueses da usp não sabem produzir arte
burgueses da usp jamais serão artistas importantes e interessantes
gente desinteressada e desinteressante
quem se salva na barbárie/
nem eu nem seu nem meu
só sei de mim e mais ninguém
meu carro
meu aparelho celular
meu espírito de porco
meu sono
abandono celular msn blog estrada afora. blog spot.
solidão de ler escrever pra ninguém
de mim para o mundo de ninguém
do fundo do mundo de mim
pra imensidão internet raios ultravermelhos anos luz sem gravidade e ondas sonoras
tenho medo tenho medo tenho medo
medo de ir e de ficar
minha arte insipiente
recipiente de desuso
kit pessoa moderna são paulo século XXI
o que resta / o que resta / o que resta
burgueses da usp não sabem produzir arte
burgueses da usp jamais serão artistas importantes e interessantes
gente desinteressada e desinteressante
sexta-feira, março 20, 2009
Se partir e ficar são verbos opostos, é preciso escolher entre um e outro. Ficar é mais natural em mim. Que me enraizo com facilidade, me entrego ao local, aos seres, à terra. E lá permaneço até quanto for preciso. Difícil pra mim é partir. Deixar a minha raizinha exposta, não criar vínculos profundos mas viver em estado de transformação, de busca, de emoção e aventura. Tenho medo de emoção e aventura. Mas tenho mais medo das minhas raizes apodrecerem debaixo da terra. As árvores muito velhas apodrecem suas raizes e então é preciso arrancá-las dali. Será que só saio quando me arrancam? É tão difícil assim viver ao sabor do vento e da chuva, voando de galho em galho? Me permitindo descobrir, odiar, me foder, me encantar? Se partir e ficar são verbos e são opostos. Eu escolho
segunda-feira, março 16, 2009
Afetado por Nekropolis
"É lindo ver um coro que não é massa (mesmo que ironicamente interpretando uma)
É lindo ver a palavra cantada, ou não, defendida na voz, no corpo, na mente e na alma
É lindo ver que no mais belo solo de canção a respiração e a ressonância vem de todos
É lindo ver uma platéia atenta, pulsando e em dúvida
É mais lindo ainda saber que a peça foi resultado de embate, de discussão mas sem nunca perder o pulso da arte
Enfim, foi lindo, é lindo, e na minha opinião tem que ser lindo... vinda looooooooooonga a esta peça
Vida loooooooooonda a Escola Livre..... Vida!!!!!!!!
Lubi
AGRADECIDO e
AFETADO "
Trecho retirado do e-mail enviado pelo diretor Luís Fernando Marques (Lubi) aos mestres que participaram do processo de Nekropolis.
É lindo ver a palavra cantada, ou não, defendida na voz, no corpo, na mente e na alma
É lindo ver que no mais belo solo de canção a respiração e a ressonância vem de todos
É lindo ver uma platéia atenta, pulsando e em dúvida
É mais lindo ainda saber que a peça foi resultado de embate, de discussão mas sem nunca perder o pulso da arte
Enfim, foi lindo, é lindo, e na minha opinião tem que ser lindo... vinda looooooooooonga a esta peça
Vida loooooooooonda a Escola Livre..... Vida!!!!!!!!
Lubi
AGRADECIDO e
AFETADO "
Trecho retirado do e-mail enviado pelo diretor Luís Fernando Marques (Lubi) aos mestres que participaram do processo de Nekropolis.
Devaneio
Ontem fui à ELT para participar da reunião com a comissão de Aprendizes e Mestres sobre a reprogramação do Semanão. Foi uma conversa produtiva e cheia de saudáveis pontos de vista divergentes. Falamos sobre os caminhos do nosso espaço Assembléia, ou Bléia (como sugeriu a Georgette). É uma construção delicada, essa a que nos propusemos. Fácil seria ficar quieto e deixar as coisas acontecerem por inércia. Mas a liberdade dá trabalho, e algumas questões importantes, como a autonomia dos coletivos dentro do coletivo maior, serão discutidas na quarta. Depois fui assistir ao corrido do Nekrópolis. Ao fim, impactado pela radicalidade do que me foi apresentado, saí disposto a olhar o céu em busca de algum norte. O trabalho me levou a pensar sobre minha participação silenciosa nesse holocausto social que vivemos e outras coisas mais ainda não elaboradas. Eita semana intensa!!! Licitação, Assembléia, Nekrópolis.... definitivamente a ELT não é um espaço para visões conformistas. Não há como ficar imune a esse lugar.
Por: Edgar Castro
Por: Edgar Castro
Nekropolis
Quando a arte chega ao seu sumo (ou quando vai em direção a ele) ela afeta as pessoas. Tocando as pessoas é impossível não mexer com o cotidiano, com a vida, com a cidade, logo com a política.Um dos exemplos disso é, sem dúvida, Nekrópolis, a nova peça da Escola Livre de Teatro (ELT).Incrível é ver pulsar tanta criatividade num só trabalho. Inúmeras novas linguagens teatrais, musicais, poéticas dividindo o palco, muito bem exploradas. Tantas sacadas, que martelam e culminam no que o país precisa: discussão, cultura. Cutuca a ferida que estanca como gangrena. Nos faz lembrar quem somos: humanos.
Por: Lucas Botelho
Por: Lucas Botelho
segunda-feira, março 09, 2009
quinta-feira, fevereiro 26, 2009
segunda-feira, fevereiro 16, 2009
Cansada cansada cansada estou sempre cansada cansada cansada.
Quando fui criança acreditei que só as pessoas mais velhas é que se sentiam assim cansadas.
Agora sou mais velha, mas nem tão velha, e já descobri o cansaço, o cansaço mesmo, assim de esgotar idéia, desabar corpo ladeira abaixo, estirar na cama e só levantar no outro dia, mas ainda assim, no outro dia, sinto muito cansaço e assim por diante. Por diante, quero dizer, assim: acordo e durmo cansada todos os dias.
Uma vez tive anemia e me sentia assim cansada. Mas agora não tenho anemia. Tenho estado até mais gordinha (e isso me irrita tanto). Gordinha e cansada no trânsito, gordinha e cansada no ensaio, gordinha e cansada no banho, onde quer que eu vá: gordinha e cansada. Não sou velha nem nada e me sinto gordinha e cansada. Aliás, sempre pareci mais nova do que sou (dizem as outras pessoas - pode ser tudo mentira, só pra ter assunto, só pra me agradar, o povo mente o tempo todo o tempo todo mente o povo todo). O barulho de britadeira no fundo me enferniza os miolos, tímpanos e ne inpede de dormir todo este cansaço.
Boa noite.
Quando fui criança acreditei que só as pessoas mais velhas é que se sentiam assim cansadas.
Agora sou mais velha, mas nem tão velha, e já descobri o cansaço, o cansaço mesmo, assim de esgotar idéia, desabar corpo ladeira abaixo, estirar na cama e só levantar no outro dia, mas ainda assim, no outro dia, sinto muito cansaço e assim por diante. Por diante, quero dizer, assim: acordo e durmo cansada todos os dias.
Uma vez tive anemia e me sentia assim cansada. Mas agora não tenho anemia. Tenho estado até mais gordinha (e isso me irrita tanto). Gordinha e cansada no trânsito, gordinha e cansada no ensaio, gordinha e cansada no banho, onde quer que eu vá: gordinha e cansada. Não sou velha nem nada e me sinto gordinha e cansada. Aliás, sempre pareci mais nova do que sou (dizem as outras pessoas - pode ser tudo mentira, só pra ter assunto, só pra me agradar, o povo mente o tempo todo o tempo todo mente o povo todo). O barulho de britadeira no fundo me enferniza os miolos, tímpanos e ne inpede de dormir todo este cansaço.
Boa noite.
quinta-feira, fevereiro 12, 2009
Viagem de Volta
Volta, meu irmãozinho, volta. Que você partiu e me deixou a ver navios em frente ao mar. Que você me deixou só com o Rubi. Volta, irmãozinho, para fazermos música, pra conversarmos noites afora, pra passearmos na noite linda de São Paulo, em meio a fumaça, mendigos e luzes, mas linda. Volta baby brother, a Avenida São Luís não é a mesmo sem ti. O porteiro Otaviano manda notícias, também ele sente saudades. Volta que quando você foi parecia que tudo morria. Volta Gordines. Venha ver essa gente bronzeada mostrar seu valor. Que Europa que nada. Aqui estamos com a faca e o queijo. Não neva. A gente é quente por dentro e por fora. Volta que as mulatas te querem no sambódromo no carnaval. Volta que a Inês faz tutu de feijão pra você. Volta, irmãozinho, que o Guimarães pra mim caiu no esquecimento, sem você por perto pra me ler trechos cansativos e geniais. Venha ver a tua irmã de cabelo curto. Venha ver a vista do Ambassador - 8b. Venha que nada mudou muito. Nada mudou. Tudo te espera. Venha ver a minha peça que estréia no dia do seu aniversário. Venha irmãozinho. Venha ver Irene rir e venha mostrar tua risada. Que Europa que nada. Vamos dar cambalhota, assistir Chaves, perseguir o Tom Zé, Gero Camilo, nos entupir de comida em Jaú. Vem meu irmãozinho que já não dá mais pra não te ter por perto. Vem que o coração arde.
terça-feira, fevereiro 10, 2009
Isso de medo
Que medo de merda isso de medo é uma merda medo do quê cara pálida? Medo de quem, oras bolas? Medo do medo do medo de não saber mais de onde vem o medo. Tão grande ele já é. Há tanto já se instalou. E você deixou ficar o medo, aí morar o medo, então ele fica, então ele mora e aceita esse lar que o medroso o cedeu. Não há melhor lar para o medo do que o corpo do medroso. Isso de medo é invenção ancestral pra não nos deixarem viver, não nos deixarem deixar o lar dos papais e mamães, não sairmos viajando mundo afora e largar o que nos gerou pra trás. Isso de medo acorrenta pés, ata nós em nós mesmos, paralisa. É uma grande merda imensa o medo. Medo de quê? Medo de quem? Se for da morte, nem o sinta, nem precisa. A morte virá quando tiver que vir, ninguém a contem, nem medo nem nada. A morte é forte mais forte que o mundo e quando está determinada a chegar, é preciso apenas abrir as portas e entregar. Nada a fará parar. Muito menos medo. O medo serve só pra não deixar os vivos degustarem do presente vida que lhes foi dado. O resto é se jogar.
quinta-feira, fevereiro 05, 2009
Joãozinho
Cortou o cabelo igual de menino e foi pra rua se mostrar. passou batom vermelho, colocou brinco e saia pra não ser confundida. entrou na rua errada, se confundiu. tava distraída demais com aquela nova ela que surgia. nova mesmo. cabelo mexe com as profundezas; e começou a reparar de fato, pela primeira vez, que quase todo homem tem cabelo curto e quase toda mulher tem cabelo comprido e que isso é engraçado demais, afinal de contas, é uma convenção, porque no fundo é tudo gente igual. tirando algumas diferenças, é tudo igual. homem e mulher. e quem inventou isso de cabelo curto cabelo comprido tava mais é enganado. que homem de cabelo comprido é bonito igual mulher de cabelo curto. mas que por vias da dúvida, era melhor que ela passasse um batom, enroscasse um brinco na orelha e vestisse uma saia para não ser confundida por aí.
quinta-feira, janeiro 29, 2009
À ELT, minha homenagem
A Escola Livre de Teatro é a prova viva e pulsante de que existe uma saída para o Ser Humano; sim, nós podemos nos suportar, nos ouvir, nos amar e até podemos produzir arte. Tudo ao mesmo tempo. Sem dinheiro. Com pombos e goteiras. Ratos e moscas varejeiras vigiando nossos passos. Sim. Mesmo assim. É possível. Na periferia de Santo André existe um lugar em que as pessoas aprendem a ser Ser Humano. E é isso que interessa. E o melhor: não paga nada. Aceita-se: ricos, pobres, analfabetos, acadêmicos, cegos, surdos, gringos, atores, não-atores, enfim, aceita-se gente. O que importa é a disposição e disponibilidade para a entrega absoluta. Da mente, do corpo, das noites, do transportar-se até lá diariamente. Do afinco. Do amor a isso tudo que é possível de criar, recriar, do amor à vida, do amor à arte, do querer descobrir-se mais e mais a fundo. Da pesquisa. Eu amo tanto isso tudo que já começo a chorar quando lembro que me resta tão pouco tempo lá dentro. Mas que foi eterno. Pra mim será eterno até o fim da minha vida.
quarta-feira, janeiro 28, 2009
Elas, as
Não sou máquina de escrever. Meus dedos doem de bater no teclado depois de noites incessantes de palavras e cocaína. Tremem. Que eu durmo sonho acordo escrevo durmo. Escrevo dormindo. Escrevo acordando. No carro, na ioga, na sala de estar, trepando com meu namorado, assistindo tevê. É que palavras me perseguem. Frases chegam prontas na minha cabeça e eu tenho a obrigação de armazená-las em mim. Não escolho o momento em que chegam. Elas vêm quando querem (quando não querem não vêm). E quando cismo em escrever sobre elas, as palavras, saem correndo de mim. Acho que não gostam da metalinguagem, preferem ser utilizadas para escrever sobre outros temas ( e é possível escrever sobre tantos, não? As palavras dão conta de tantos temas!). Todos os temas estão nas palavras. E elas me vêm assim, aos montes, às vezes toneladas de palavras caem sobre mim durante o dia, então as descarrego no caderninho, no blog, na parede, no travesseiro, no ralo do chuveiro... Mas eu não sou máquina de escrever. Sou coisa de sentir de viver, não quero ter que escrever sempre e detestaria ser escritora (escrever por obrigação é um fardo!).E agora, tendo dito isso, todas as palavras se perderam de mim, me deixaram só, de frente para o branco da tela que é igual ou pior que o branco do papel em branco.
terça-feira, janeiro 20, 2009
domingo, janeiro 11, 2009
Ser e não ser
Eu sou de cada um um pouco/ Um pouco amontoado - diz o Gero Camilo.
Enquanto eu: eu sou um amontoado de cada um um pouco.
Tenho um braço de cada tamanho e olhos de cores diferentes. Tenho língua de um, cheiro de outro. Tenho medo de amor. Sinto forte, tenho suor de uns três, quatro, cinco. Tenho voz de muitas. Amor de mãe, dor de filha. Tenho eu com cinco anos, treze anos, dezenove. Sou amontoado de fotos, fatos, pactos de vida e morte, arrependimentos e marés de sorte. Um aglomerado de tias, vós, bisavós. Enterros. Linhas da mão. Passado e futuro no aquiagora. Sou todos os corpos que passaram por mim. Tenho pernas de mil antepassados, força de mil espíritos. Sou Logun Edé. Tigre. Virgem ascendente Touro. Sou minha mãe, meio Bel meio Ana, meio Clara Iza, meio Marina, meio Julia. Meio Cecília. Sou minhas mulheres em mil, em mil em mim. Sobreviventes de guerra me habitam, sobrevivi ao nascimento e chorei nos piores e melhores momentos. Sou uma qualquer. Uma lembrança. O que poderia ter sido. A máxima potência. O menor pecado. De carne osso e sentimento que corta e sangra. Sou todas as menstruações, sou óvulo e espermatozóide. Sou as piores trepadas e os melhores orgasmos. Sou cabelos caindo no ralo, olheiras na ressaca, sou produto frágil: cuidado que entorna. Sou venenosa e líquida. E fleumática e melancólica. E chega disso.
Enquanto eu: eu sou um amontoado de cada um um pouco.
Tenho um braço de cada tamanho e olhos de cores diferentes. Tenho língua de um, cheiro de outro. Tenho medo de amor. Sinto forte, tenho suor de uns três, quatro, cinco. Tenho voz de muitas. Amor de mãe, dor de filha. Tenho eu com cinco anos, treze anos, dezenove. Sou amontoado de fotos, fatos, pactos de vida e morte, arrependimentos e marés de sorte. Um aglomerado de tias, vós, bisavós. Enterros. Linhas da mão. Passado e futuro no aquiagora. Sou todos os corpos que passaram por mim. Tenho pernas de mil antepassados, força de mil espíritos. Sou Logun Edé. Tigre. Virgem ascendente Touro. Sou minha mãe, meio Bel meio Ana, meio Clara Iza, meio Marina, meio Julia. Meio Cecília. Sou minhas mulheres em mil, em mil em mim. Sobreviventes de guerra me habitam, sobrevivi ao nascimento e chorei nos piores e melhores momentos. Sou uma qualquer. Uma lembrança. O que poderia ter sido. A máxima potência. O menor pecado. De carne osso e sentimento que corta e sangra. Sou todas as menstruações, sou óvulo e espermatozóide. Sou as piores trepadas e os melhores orgasmos. Sou cabelos caindo no ralo, olheiras na ressaca, sou produto frágil: cuidado que entorna. Sou venenosa e líquida. E fleumática e melancólica. E chega disso.
terça-feira, dezembro 23, 2008
Inescrevível
Sei que sobre experiência de vida se escreve a todo o momento. Tudo são experiências de vida. Relatos, descrições, contos, matérias jornalísticas, romances, poemas, memórias. Escreve-se sempre sobre o dia-a-dia, imagens flagradas na rua, conversas de boteco, filmes ou peças a que assistimos, isso, enfim, a que chamamos vida.
Mas quero hoje escrever sobre algo que vou chamar assim: experiência de morte.
Será que pode?
Sim, estou aqui, meus dedos se movem, meu cérebro funciona, meu estômago ronca - sim, estou viva - mas quero relatar um pouco do que se apresentou para mim na minha experiência de morte e não, não quero gerar expectativas. Não, ainda não sei o que há do outro lado. (Mas agora estou começando a acreditar que deveria ter começado este texto de outra maneira. Assim, só descrevendo o que estou chamando de experiência de morte, sem dar nome, sem começar dizendo que se costuma escrever sobre experiência de vida mas que neste caso eu falaria sobre outra coisa, algo pouco mais incomum mas que é tema de tudo no mundo, ao mesmo tempo).
É o abismo abrindo as suas portas para mim. Quando tenho coragem ele se mostra um pouquinho, quando vem o medo o enjôo toma conta de mim, minha cabeça gira, sinto que estou realmente morrendo. Se esqueço medo corpo Terra gente, enxergo coisas que antes não poderia sequer imaginar. Será que é proibido escrever sobre isso? Será que é escrevível escrever sobre isso? Está difícil. A experiência toda é muito difícil, muito difícil, muito difícil. Me seguro no que me resta: meu ser Sofia, não superior nem inferior a nenhum outro ser, meu ser sabe do seu tamanho, sabe que pode se aguentar - é preciso que eu aguente o meu próprio corpo para que eu continue viva. É preciso morrer assim, essa dor e essa dificuldade, esse abismo me sugando e eu tentando em vão me segurar nos meus sapatos. Preciso me deixar ir, voar queda abaixo e ladeira acima, me entrego Sofia, me entrego ser humano pra voltar melhor, mais corajosa, mais disposta a encarar este mundo de experiência de vida, preciso aprofundar minhas experiências de viva mortal que sou enquanto dura há de ser eternidade.
Mas quero hoje escrever sobre algo que vou chamar assim: experiência de morte.
Será que pode?
Sim, estou aqui, meus dedos se movem, meu cérebro funciona, meu estômago ronca - sim, estou viva - mas quero relatar um pouco do que se apresentou para mim na minha experiência de morte e não, não quero gerar expectativas. Não, ainda não sei o que há do outro lado. (Mas agora estou começando a acreditar que deveria ter começado este texto de outra maneira. Assim, só descrevendo o que estou chamando de experiência de morte, sem dar nome, sem começar dizendo que se costuma escrever sobre experiência de vida mas que neste caso eu falaria sobre outra coisa, algo pouco mais incomum mas que é tema de tudo no mundo, ao mesmo tempo).
É o abismo abrindo as suas portas para mim. Quando tenho coragem ele se mostra um pouquinho, quando vem o medo o enjôo toma conta de mim, minha cabeça gira, sinto que estou realmente morrendo. Se esqueço medo corpo Terra gente, enxergo coisas que antes não poderia sequer imaginar. Será que é proibido escrever sobre isso? Será que é escrevível escrever sobre isso? Está difícil. A experiência toda é muito difícil, muito difícil, muito difícil. Me seguro no que me resta: meu ser Sofia, não superior nem inferior a nenhum outro ser, meu ser sabe do seu tamanho, sabe que pode se aguentar - é preciso que eu aguente o meu próprio corpo para que eu continue viva. É preciso morrer assim, essa dor e essa dificuldade, esse abismo me sugando e eu tentando em vão me segurar nos meus sapatos. Preciso me deixar ir, voar queda abaixo e ladeira acima, me entrego Sofia, me entrego ser humano pra voltar melhor, mais corajosa, mais disposta a encarar este mundo de experiência de vida, preciso aprofundar minhas experiências de viva mortal que sou enquanto dura há de ser eternidade.
segunda-feira, dezembro 15, 2008
Materno
Te tiro filho e te tomo mulher. Te bebo, ingiro - indigna do posto Mãe. Mas me esforço - talvez com mãos delicadas demais para me chamar mulher - me esforço por recompensar a tua orfandade. E embalo nos braços um filho com pelos barba cabelos a mamar nos meus seios: secos. Enquanto me mama, me suga, um homem sem fome de filho, com nome de homem, a barba que me machuca a pele fina de menina se fazendo mulher. Te rapto filho e me faço mãe, injusta; um filho que chupo e sequer tive o trabalho de criar. Me chegou pronto, crescido, cheio de pelos e medos pelo corpo todo, crescido dos cuidados da mãe real. A que te nomeou e amamentou sem sentir prazer sequer nos seios, estes sim, cheios de leite e de vida para te dar, para que sobrevivesse ao crescimento e chegasse até mim, assim formado, assim, para me lamber os seios a boca e me chamar de sua mulher. E me disponho, cumprindo um papel roubado da outra - aquela sim, mulher - te amamento de nada, com mamilos vazios e rosados de menina que ainda sou. Enquanto isso fumo, eu a mãe torta, a mãe que pode fumar enquanto dá de mamar, mãe e mulher de um filho homem e pai de mim. Já me chega peludo, cheio de raiva e tesão, os erros da outra - daquela mãe mãe - sou eu quem devo arcar. Não tive a chance nem o trabalho árduo de te educar, mas posso lhe ensinar o ponto onde sinto mais prazer quando me toca, me lambe me roça, eu a mãe que fuma, que se entrega pros seus pelos e medos. Mas nunca te poderei ter pra sempre, já que ela, ela é que sempre o terá, como o pariu filho homem, peludo, barbado, pai de mim.
terça-feira, novembro 04, 2008
Massa
Cadê tua voz
Tua alma
Tua saga?
Cadê Homem nessa estrada?
Tua língua?
Tua pátria?
Tua sorte mora onde morre tua sorte
Onde mora Homem nessa casa?
Cadê tua cruz, vida,
cadê tua saída?
Te retorce
Esperneia
Inventa maneira pra fazer escutar
Se gritasse
Se gemesse
Se tocasse
Se cansasse
Se dormisse
Se morre...
Tua alma
Tua saga?
Cadê Homem nessa estrada?
Tua língua?
Tua pátria?
Tua sorte mora onde morre tua sorte
Onde mora Homem nessa casa?
Cadê tua cruz, vida,
cadê tua saída?
Te retorce
Esperneia
Inventa maneira pra fazer escutar
Se gritasse
Se gemesse
Se tocasse
Se cansasse
Se dormisse
Se morre...
sexta-feira, outubro 17, 2008
Satisfaction
Que me apaixono com a mesma facilidade com que me entristeço. São nuvens que pairam sobre a minha cabeça. De amor, de tristeza, de euforia. Em cada momento me embrulho numa nuvenzinha diferente e embarco; ela permanece instaurada até que venha outra um pouco mais densa, um pouco mais atraente, que me toma e eu - vou.
Tomar as rédeas próprias do meu corpo cavalo. Aprender a domá-lo. Aprender a ser dentro dele, habitando a única casa que me pertence de verdade. Se eu não morar em mim, quem é que vai? Se eu não gostar daqui, quem é que vai? Se eu não domar a mim mesma, se não me confiar, se não me entregar nem pra mim, pra quem será?
É difícil lidar com algo que não me foi dado o poder da escolha (nascer, onde nascer, como, com quem, em que formato!). Ao mesmo tempo, penso, ainda bem que não dependeu de mim a escolha. Talvez eu não tivesse nascido nunca. Teria ficado pra sempre escolhendo qual seria a melhor casa, o melhor corpo, os melhores pais, o melhor signo (quereria ser de Sagitário!). E como não existem as tais condições ideais de pressão e temperatura eu não teria vindo nunca pra esse mundo.
Prefiro ter vindo toda incompleta, mas vim! Prefiro que me tenha sido dado este direito de aprimorar, de trabalhar, de ser, de me deparar, de ir e vir. Prefiro a vida do que a perfeição. Prefiro a dificuldade do erro do que o estático. Prefiro aprender na raça. No vivo. Com os vivos. Prefiro isso tudo a uma espera eterna pelo ideal que não existe. Ideal sedutor, perfeição filha da puta, signo difícil.
Mas que eu queria ser de sagitário, ah, como eu queria!
Tomar as rédeas próprias do meu corpo cavalo. Aprender a domá-lo. Aprender a ser dentro dele, habitando a única casa que me pertence de verdade. Se eu não morar em mim, quem é que vai? Se eu não gostar daqui, quem é que vai? Se eu não domar a mim mesma, se não me confiar, se não me entregar nem pra mim, pra quem será?
É difícil lidar com algo que não me foi dado o poder da escolha (nascer, onde nascer, como, com quem, em que formato!). Ao mesmo tempo, penso, ainda bem que não dependeu de mim a escolha. Talvez eu não tivesse nascido nunca. Teria ficado pra sempre escolhendo qual seria a melhor casa, o melhor corpo, os melhores pais, o melhor signo (quereria ser de Sagitário!). E como não existem as tais condições ideais de pressão e temperatura eu não teria vindo nunca pra esse mundo.
Prefiro ter vindo toda incompleta, mas vim! Prefiro que me tenha sido dado este direito de aprimorar, de trabalhar, de ser, de me deparar, de ir e vir. Prefiro a vida do que a perfeição. Prefiro a dificuldade do erro do que o estático. Prefiro aprender na raça. No vivo. Com os vivos. Prefiro isso tudo a uma espera eterna pelo ideal que não existe. Ideal sedutor, perfeição filha da puta, signo difícil.
Mas que eu queria ser de sagitário, ah, como eu queria!
segunda-feira, setembro 29, 2008
História real
Acordamos com a fumaça invadindo a sala, pela janela do quarto pela janela da sala, pelas frestas deste apartamento antigo que habito. Quatro da manhã. Ao invés do galo, meu pai: "Acorda. Vamos sair daqui. Tá pegando fogo". Não pensei em nada. Calcei meu sapato, peguei um casaco e corri. Quando te perguntarem: "O que você salvaria num incêndio?" responda que apenas a sua própria pele. Impossível pensar em salvar alguma outra coisa. Enquanto desço as escadas do prédio descubro os outros habitantes daqui, aqueles que só encontro vez ou outra no elevador, que às vezes dou bom dia noutras nem tanto, que às vezes até me tratam bem - os vizinhos enfim. Agora descubro-os todos de pijama (e todos descobrem o meu pijama lastimável!). Descemos aflitos e medrosos as escadas intermináveis deste prédio antigo que habitamos. Quantos idosos moram aqui! E eu nem sabia! Tantos já nem andam mais. E agora o zelador os coloca nos ombros e desce com eles as escadas. Corremos para a rua e de lá a visão: um apartamento inteiro em chamas. Chamas grossas, largas, fogo mesmo. Fogo brabo, cruel varrendo o apartamento do sexta andar. Eu moro no oitavo andar e morro de medo de que as chamas o alcancem. "Devia ter pego isto, devia ter salvado aquilo. E o meu celular? Não pegeui nem o celular?" Não. Está tudo lá. Uma vez sonhei que a minha casa pegava fogo inteira, não restava nada e eu só lamentava as minhas perdas materiais. Quanto apego. Quantos materiais. Quantas coisas que ficam guardadas em nossa casa. Nossa vida, eu diria. Aquela nossa vida que vai além da vida fisológica. Aquela vida dos registros, dos sons, dos livros, dos sabores, das roupas, dos lençóis, dos dinheiros. Aquela outra vida que nós temos. E o fogo avançava a cada segundo, rápido que ele é. Os bombeiros se enfiaram no prédio armados de mangueira, muita água para tanto fogo. Lentamente, as labaredas imensas deram lugar à uma fumaça densa e preta. Controlaram o fogo. Aprisionaram o louco, o rebelde o sem limites. Agora havia paz novamente. Amanhecia e os vizinhos voltavam às suas tocas enfumaçadas.
sexta-feira, agosto 29, 2008
os de nós
Será que é de escrever que preciso?
Mesmo que escrever não seja preciso.
Mesmo que viver seja inventar a cada dia um dia novo. Porque a tendência é todo dia ser igual. Sol nasce. Flor murcha. Nuvem passa. Nós, seres de carne e sentimento, de cimento e ciúmes, nós é que inventamos que um dia é diferente de outro dia. A natureza é sempre ela, tem ciclo, tem tempo, mas não está mais feliz num dia do que no outro. Não está de bom ou mau humor. Ela s i m p l e s m e n t e está. E convive com seus semelhantes simplesmente estando. Nós é que destruímos e nos deixamos destruir pelos semelhantes. Nós é que fazemos barulho no sono dos outros. Nós é que engarrafamos o mundo. Nós é que. Nós é que.
Mesmo que escrever não seja preciso, nós é que escrevemos.
às vezes, é o que me resta. noutras, o que me basta.
Mesmo que escrever não seja preciso.
Mesmo que viver seja inventar a cada dia um dia novo. Porque a tendência é todo dia ser igual. Sol nasce. Flor murcha. Nuvem passa. Nós, seres de carne e sentimento, de cimento e ciúmes, nós é que inventamos que um dia é diferente de outro dia. A natureza é sempre ela, tem ciclo, tem tempo, mas não está mais feliz num dia do que no outro. Não está de bom ou mau humor. Ela s i m p l e s m e n t e está. E convive com seus semelhantes simplesmente estando. Nós é que destruímos e nos deixamos destruir pelos semelhantes. Nós é que fazemos barulho no sono dos outros. Nós é que engarrafamos o mundo. Nós é que. Nós é que.
Mesmo que escrever não seja preciso, nós é que escrevemos.
às vezes, é o que me resta. noutras, o que me basta.
domingo, agosto 10, 2008
Do tanto que lembrar me dói
Bate relógio bate cabeça na parede
joga relógio no chão
cabeça voa
pé fincado no cimento
agarra
Bate pirulito que bate bate
o anel que tu me destes
joga ciranda na parede
cai de bunda quebrada no paralelepípedo
Qual é a palavra mais difícil do mundo?
Bate na porta
tempo que bate torto
joga tempo pela janela
Sobra eu o relógio o mundo a parede o asfalto
Bate e me parte ao meio
um seio aqui
ali outro seio
um meio que fica meio sem saber
aonde ir
joga relógio no chão
cabeça voa
pé fincado no cimento
agarra
Bate pirulito que bate bate
o anel que tu me destes
joga ciranda na parede
cai de bunda quebrada no paralelepípedo
Qual é a palavra mais difícil do mundo?
Bate na porta
tempo que bate torto
joga tempo pela janela
Sobra eu o relógio o mundo a parede o asfalto
Bate e me parte ao meio
um seio aqui
ali outro seio
um meio que fica meio sem saber
aonde ir
sábado, julho 12, 2008
descabido
Mas do que falávamos, amor meu?
De reveillon e de libido.
Ela escorria libido. Sofrera sempre com a questão de ser ela a mais dada à "coisa".
Mas por quê reveillon?
Porque a palavra francesa que designa mudança de ano mexia com ele.
E ele mexia com ela. E com a libido dela, certamente. "Reveillon é algo libidinoso" costumava dizer a ele que sempre enchia a cara até cair duro na cama. Ou mole, melhor dizendo.
Mas teve aquela vez em que tomamos um ácido e fui eu quem revirei na cama até vomitar - lembrou sabiamente. Ainda possuía alguma memória.
Sabe?, amor meu, eu acho que nunca fui feliz ao lado de um homem.
Ele caiu mudo. Ligou a televisão acendeu cigarro comeu chocolate atrás do outro.
Ainda mudo, olhou com coragem para os olhos cruéis da mulher (de mulher). Ela sorria.
Sabe?, amor meu, - agora era ele quem arriscava - eu fui feliz com você.
Ela vibrou.
Até certo ponto - ele continuou.
Ela lembrou da desmedida das coisas. Sempre extrapolava o tal do ponto. O tal do ponto. Que ponto? Que porra de certo ponto? Ponto errado do caralho. Ela quis gritar. Não o fez. Enfiou chocolate e cigarro na boca seca de mulher.
Até chegar aqui. E olhar daqui pra trás e dar por falta de mim - ele chiou.
E eu por falta de tudo o que de mulher havia em mim antes de você chegar.
Você com essa coisa de mulher. Não tem nada disso. Não me engana, você não consegue me enganar.
Imbecilidade de homem achar que conhece assim tão dentro.
E é essa sua ingenuidade que te impede de ser mais. mulher.
Tenho libido de sobra. Escorro libido.
Uma mulher é mais do que isso.
Você agora quer me ensinar? Agora que me roubou de mim, vai usar o que de mim apreendeu para me E N S I N A R ?
Você me pertencia. Não precisei roubar nada. Me foi dado. Sem choro. Fácil. fácil.
E eu sinto falta do seu sexo de homem que me abandona na cama dormindo de lado pra parede criado mudo do caralho. Você é um criado mudo do caralho.
Não quero te pertencer. Sou maior sou mais que isso de pertencer. MAis que isso de homem e mulher. Sou ser humano. ISso sou.
Até que fomos um tanto gente um ao lado do outro. Mas depois você virou decoração na minha vida. Uma fitinha vermelha extremamente desnecessária. Sou mais mulher que isso de homem e mulher, que isso de pertencer, que isso de ser ser humano. Sou mais. Mulher, amor meu. E isso você não vai aprender nunca.
De reveillon e de libido.
Ela escorria libido. Sofrera sempre com a questão de ser ela a mais dada à "coisa".
Mas por quê reveillon?
Porque a palavra francesa que designa mudança de ano mexia com ele.
E ele mexia com ela. E com a libido dela, certamente. "Reveillon é algo libidinoso" costumava dizer a ele que sempre enchia a cara até cair duro na cama. Ou mole, melhor dizendo.
Mas teve aquela vez em que tomamos um ácido e fui eu quem revirei na cama até vomitar - lembrou sabiamente. Ainda possuía alguma memória.
Sabe?, amor meu, eu acho que nunca fui feliz ao lado de um homem.
Ele caiu mudo. Ligou a televisão acendeu cigarro comeu chocolate atrás do outro.
Ainda mudo, olhou com coragem para os olhos cruéis da mulher (de mulher). Ela sorria.
Sabe?, amor meu, - agora era ele quem arriscava - eu fui feliz com você.
Ela vibrou.
Até certo ponto - ele continuou.
Ela lembrou da desmedida das coisas. Sempre extrapolava o tal do ponto. O tal do ponto. Que ponto? Que porra de certo ponto? Ponto errado do caralho. Ela quis gritar. Não o fez. Enfiou chocolate e cigarro na boca seca de mulher.
Até chegar aqui. E olhar daqui pra trás e dar por falta de mim - ele chiou.
E eu por falta de tudo o que de mulher havia em mim antes de você chegar.
Você com essa coisa de mulher. Não tem nada disso. Não me engana, você não consegue me enganar.
Imbecilidade de homem achar que conhece assim tão dentro.
E é essa sua ingenuidade que te impede de ser mais. mulher.
Tenho libido de sobra. Escorro libido.
Uma mulher é mais do que isso.
Você agora quer me ensinar? Agora que me roubou de mim, vai usar o que de mim apreendeu para me E N S I N A R ?
Você me pertencia. Não precisei roubar nada. Me foi dado. Sem choro. Fácil. fácil.
E eu sinto falta do seu sexo de homem que me abandona na cama dormindo de lado pra parede criado mudo do caralho. Você é um criado mudo do caralho.
Não quero te pertencer. Sou maior sou mais que isso de pertencer. MAis que isso de homem e mulher. Sou ser humano. ISso sou.
Até que fomos um tanto gente um ao lado do outro. Mas depois você virou decoração na minha vida. Uma fitinha vermelha extremamente desnecessária. Sou mais mulher que isso de homem e mulher, que isso de pertencer, que isso de ser ser humano. Sou mais. Mulher, amor meu. E isso você não vai aprender nunca.
quarta-feira, julho 09, 2008
dica cultural (!)
Copacabana, mon amour é o melhor filme de todos os tempos. Viva Sganzerla. Viva Brasil.
sábado, junho 28, 2008
cérebrando
agarrar o teclado com a goela toda. engulir computador. letras. parágrafos. explodi-los num espaço mais real, mais concreto, menos ilusório. o que não é ilusório nestes tempos fictícios? minha unha vermelha é uma mentira. meu sangue negro, branco, amarelo e luso-italiano é uma mentira das grandes? eu sou de pele e de osso. dentro é osso fora é fosso. mas me atiro como quem finge saber por onde anda, em que pisa a sola, onde imprime seu rastro. tudo mentira que nada. egocêntrica, inválida: gosta de escrever depressões no relevo. inscrever na terceira pessoa é menos comprometedor. quero e não (quero) comprometer. escrevo sem significado, as palavras vão me guiando e me desviando de mim. fumaça é hoje o tempo duro de roer. duro de passar músculo, veias e ossos pra chegar no c e r n e .
terça-feira, junho 17, 2008
bomba
Quero me bombardear de algo maior que rua concreto cidadão bem comportado dentro das leis. Quero multas. Mulas de carga. Salada. Roleta russa. Iugoslávia.
Quero escrever ser poder entender o invisível. Escrever cafonice. Ser-me inteira cafona. Sem medo de ser. Sem medo de ser. Sem me perder. Saber o rumo. O caminho de volta pra casa. De noite, me largo, me descalço, me descabelo. De dia sei ler as normas de segurança. Acendo. Aprendo. Abaixo cabeça e ouvido se perde dentro de mim. Quero estar presente. dentro e fora. Quero amor amor, comer amor, me fartar de amor de amor. Carne morta de amor vivo, pulsa, sua, toca sinos o amor. Confunde a visão dispersa na cidade labirinto. Encontra foco. VÊ. Heiner Muller está entre nós, eu sou um pouco de Heiner Muller com Sérgio Malandro. Cifras. Células. Mega bytes. HPs. Hxs. O humano está em extinção dentro de nós. Sou meio gente meio cidade. A cidade me atravessa, me reparte, invade meu cerne de sangue e transforma em CO2 cada fio de meus cabelos. Vou me transgenizando. Higienização do Homem é expulsá-lo de dentro de si. Entendeu? Tanto faz se entendem o que escrevo. Tanto faz. Hoje tudo tanto faz.
Quero escrever ser poder entender o invisível. Escrever cafonice. Ser-me inteira cafona. Sem medo de ser. Sem medo de ser. Sem me perder. Saber o rumo. O caminho de volta pra casa. De noite, me largo, me descalço, me descabelo. De dia sei ler as normas de segurança. Acendo. Aprendo. Abaixo cabeça e ouvido se perde dentro de mim. Quero estar presente. dentro e fora. Quero amor amor, comer amor, me fartar de amor de amor. Carne morta de amor vivo, pulsa, sua, toca sinos o amor. Confunde a visão dispersa na cidade labirinto. Encontra foco. VÊ. Heiner Muller está entre nós, eu sou um pouco de Heiner Muller com Sérgio Malandro. Cifras. Células. Mega bytes. HPs. Hxs. O humano está em extinção dentro de nós. Sou meio gente meio cidade. A cidade me atravessa, me reparte, invade meu cerne de sangue e transforma em CO2 cada fio de meus cabelos. Vou me transgenizando. Higienização do Homem é expulsá-lo de dentro de si. Entendeu? Tanto faz se entendem o que escrevo. Tanto faz. Hoje tudo tanto faz.
quarta-feira, junho 11, 2008
Falar de amor é tocar o improvável o impalpável; algo do tipo alma.
O meu amor é diferente de qualquer outro
Não é verde nem lilás
Não se espreme
Não se corre atrás
Ele me atinge de vez em quando
de vez em nunca
umas vezes poucas na vida ele dá o ar da graça
Faz cócegas, deixa os pensamentos atrapalhados, ensina que a gente não é só cabeça.
Às vezes se confunde com paixão com fogo com tesão
Amor não é fogo nem terra
Nem virgem nem leão
Eu invento o amor quando me dá na telha
Aí eu acredito.
Ele não chama o meu nome
Eu é que escuto bem demais
O meu amor é diferente de qualquer outro
Não é verde nem lilás
Não se espreme
Não se corre atrás
Ele me atinge de vez em quando
de vez em nunca
umas vezes poucas na vida ele dá o ar da graça
Faz cócegas, deixa os pensamentos atrapalhados, ensina que a gente não é só cabeça.
Às vezes se confunde com paixão com fogo com tesão
Amor não é fogo nem terra
Nem virgem nem leão
Eu invento o amor quando me dá na telha
Aí eu acredito.
Ele não chama o meu nome
Eu é que escuto bem demais
segunda-feira, maio 12, 2008
Idade
Bate bate bate. Quem?
Ninguém.
Volta a bater. Alguém aí?
Aparentemente não. Encosto o ouvido na porta, quero ouvir, tentar reconhecer.
Ninguém.
Outra vez. Bate bate.
Corro. Seria aquele que me esqueceu aqui? Mas já faz tanto tempo. Dez, doze anos, vai saber. Nem a idade eu me lembro mais. Devia ter 20 ou 25 anos. E ele 30. Ou 17? Vai saber.
Ninguém.
Até que deu saudades agora. Podia ser ele, não podia? Que acordou no meio da noite e sabe-se lá porque sentiu a minha falta. Justo a minha, que mora aqui comigo há tantos séculos. A falta é minha, mas ele pode tê-la sentido, perfeitamente. Claro que pode.
Não pode?
Quem tá aí?
Ele se lembra de onde eu moro. Acho que ele também viveu aqui por um tempo. Não muito. Pouco tempo. Tempo suficiente pra que ele se lembrasse um dia. Um dia ele teria que contar para os filhos. Contar que um dia ele viveu aqui. Comigo.
Teria filhos?
Bate. Alguém?
Ninguém.
Seria um de seus filhos: O mais velho? Investigando a história de seu pai, que agora havia sido assassinado e tudo o que lhe restara era uma carta que dei ao seu pai quando fiz dezoito anos. Tinha essa mania engraçada. A aniversariante era eu e ainda assim eu escrevia cartas. Mas nunca ouvi que fosse proibido escrever cartas no dia do próprio aniversário. Engraçado é. Ou esquisito. Sei lá. O fato é que fiz dezoito anos. Ou dezenove? E escrevi uma carta só com as melhores palavras. Entreguei-lhe a carta junto com a minha alma. É. Bonita essa história.
É você? Veio buscar as suas coisas afinal?
Fiz questão de que ele esquecesse pertences para que um dia voltasse. Nem que fosse só pra buscar os CDs, livros, agasalhos. Eu o esperaria com o café. Ele reconheceria a casa, quem sabe me reconhecesse também. Eu lhe contaria histórias. Ele ia sorrir e fingir que se lembrava. Eu fingiria que não o amava mais.
Quantos anos?
Não me lembro, 20 ou 25, 17 ou 30, 18 ou 19. Não me lembro não me lembro não me lembro e não esqueço que no dia 27 de outubro de um ano qualquer ele partiu pra um dia entrar de novo pela porta, ouvir as minhas histórias fingidas, e eu fingir que vivi todo esse tempo, que vivi intensamente, vivi tudo, enquanto tudo o que vivi foi espera, longa e infindável espera. Mas fui fiel. Uma vez na vida fui fiel: na espera. Nas história que fingi esquecer, nas fotos que fingi rasgar, nas cartas que misturei com minha alma.
Abro a porta. Uma cesta cheia de migalhas do lado de fora. Me deixaram um presente.
Há 25 anos.
Ou seriam 20?
Ninguém.
Volta a bater. Alguém aí?
Aparentemente não. Encosto o ouvido na porta, quero ouvir, tentar reconhecer.
Ninguém.
Outra vez. Bate bate.
Corro. Seria aquele que me esqueceu aqui? Mas já faz tanto tempo. Dez, doze anos, vai saber. Nem a idade eu me lembro mais. Devia ter 20 ou 25 anos. E ele 30. Ou 17? Vai saber.
Ninguém.
Até que deu saudades agora. Podia ser ele, não podia? Que acordou no meio da noite e sabe-se lá porque sentiu a minha falta. Justo a minha, que mora aqui comigo há tantos séculos. A falta é minha, mas ele pode tê-la sentido, perfeitamente. Claro que pode.
Não pode?
Quem tá aí?
Ele se lembra de onde eu moro. Acho que ele também viveu aqui por um tempo. Não muito. Pouco tempo. Tempo suficiente pra que ele se lembrasse um dia. Um dia ele teria que contar para os filhos. Contar que um dia ele viveu aqui. Comigo.
Teria filhos?
Bate. Alguém?
Ninguém.
Seria um de seus filhos: O mais velho? Investigando a história de seu pai, que agora havia sido assassinado e tudo o que lhe restara era uma carta que dei ao seu pai quando fiz dezoito anos. Tinha essa mania engraçada. A aniversariante era eu e ainda assim eu escrevia cartas. Mas nunca ouvi que fosse proibido escrever cartas no dia do próprio aniversário. Engraçado é. Ou esquisito. Sei lá. O fato é que fiz dezoito anos. Ou dezenove? E escrevi uma carta só com as melhores palavras. Entreguei-lhe a carta junto com a minha alma. É. Bonita essa história.
É você? Veio buscar as suas coisas afinal?
Fiz questão de que ele esquecesse pertences para que um dia voltasse. Nem que fosse só pra buscar os CDs, livros, agasalhos. Eu o esperaria com o café. Ele reconheceria a casa, quem sabe me reconhecesse também. Eu lhe contaria histórias. Ele ia sorrir e fingir que se lembrava. Eu fingiria que não o amava mais.
Quantos anos?
Não me lembro, 20 ou 25, 17 ou 30, 18 ou 19. Não me lembro não me lembro não me lembro e não esqueço que no dia 27 de outubro de um ano qualquer ele partiu pra um dia entrar de novo pela porta, ouvir as minhas histórias fingidas, e eu fingir que vivi todo esse tempo, que vivi intensamente, vivi tudo, enquanto tudo o que vivi foi espera, longa e infindável espera. Mas fui fiel. Uma vez na vida fui fiel: na espera. Nas história que fingi esquecer, nas fotos que fingi rasgar, nas cartas que misturei com minha alma.
Abro a porta. Uma cesta cheia de migalhas do lado de fora. Me deixaram um presente.
Há 25 anos.
Ou seriam 20?
quinta-feira, maio 08, 2008
ME
Frio no dedo e no tendão do meu pé. Endurecida. Auto-censurável ao extremo. Sou a minha pior crítica. Eu poderia assumir a profissão: crítica de mim mesma. Será que existe algo mais chato? Não seria dar importância demais a mim? "Deixe-me ir, deixe-me ir", digo assim, para um eu que mora aqui. Me deixando em paz eu teria um pouco de horário livre para o lazer, as necessidades fisiológicas, os ócios nossos de cada dia. Falta-me libertar de uma impiedosa habitante de mim. Essa daí que vos fala. Que hora é uma, hora aoutra. Hora eu, noutra hora eu mesma, que me rôo inteira em palavras mal cuidadas. Agora quero que se dane esse cuidado tolo; aprisionada dentro de um ego gigante. E me exponho mesmo. Porque já não dói quase nada. Quando quase tudo ainda doía eu me espremia e saía um pouco de sangue lá do fundinho da alma, onde mora a dor e a delícia. O choro e o gozo e a súplica. Agora ando tendo ataques de riso um pouco incontroláveis e nunca foi tão bom habitar essa casinha, esse corpo cavalo que não é fraco não. Ando descobrindo-me dentro de mim ou dentro de algo que me encobria em mim. Que me escondia de mim. Agora tenho vontade de andar rebolando e chamar a atenção dos transeuntes atarefados. E canto alto mesmo "Tira as mãos de mim! E vê se a febre dele guardada em mim te contagia um pouco!". Contagiada de uma liberdade recente, queria que todos ouvissem, vessem, saíssem pra ver a banda passar cantando coisas de amor. Agora falo de amor e é verdade. Agora sim. Enfim sós.
domingo, março 30, 2008
Bob Dylan
Em noites de dormir cedo a insônia me traz as palavras, elas dançam na minha frente enquanto finjo ser Bob Dylan pra me divertir um pouquinho. Quem me dera escrever as palavras de Bob Dylan, palavras terroristas de se escrever, exatas para se cantar desafinadamente Bobdylianamente, deliciosamente, eternamente. Sinto cheiros no ar frio do centro cidade olímpica. Capto algos no ar. Rapto-me a mim e me desfaço disfarçadamente. Digito letras tortas e cheias de amor. E cartas me chegam aos montes perguntando : "Você tem algo a dizer?". Ainda não respondi nenhuma, estão todas arquivadas no armário, por ordem de chegada. Quem sabe eu partisse se fosse menos mundana. Me partiria ao meio: uma parte ia e a outra ficava pra ver como teria sido se fosse diferente. Aí dava pra pesar o que teria valido mais a pena. Ir ou ficar? Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva; foi a Cecília Meireles quem me ensinou isso quando eu era bem pequena. Senti que não tinha passado no exame e que deveria aprender novamente o que havia aprendido. Neste momento o que passa pelo meu cérebro: "devo descer e comprar cigarros e me assumo como alguém que voltou a fumar apesar do juramento para a Deusa ou controlo a minha ansiedade e fuma uma maconha orgânica? ". Opção B. Bem mais sábia.
Vou-me.
Liquidar-me em sonhos.
Vou-me.
Liquidar-me em sonhos.
sábado, março 15, 2008
Ar
Dia frio me transfere pra outro lugar, outro tempo, parece um dia assim que eu já vivi, entre tantos, um dia assim especial e frio, especialmente frio, de casaco e frio na orelha, parece que muda a sensação de vida num dia assim frio. Antes eu fumava. Antes era bom estar frio para fumar. A sensação era boa e cinematográfica. Agora o meu pulmão pede trégua e ar. Pede ar frio e só. Ar frio nos pulmões. Mente alerta, espinha ereta, careta de tudo, preenchida de frio e vida em outro tempo que um dia eu vivi. Agora é assim: em dias frios acho bonito os fumantes na calçada. E vejo se o fogo do cigarro deles me incendeia um pouco.
sábado, março 08, 2008
Ela no telefone falava em monólogo suave, com voz de quem sente dor e tenta disfarçar. Do dia, do calor que fazia, notícias da avó, conselhos da mãe, tropeços na calçada, bandido no farol, trânsito na Rebouças, noite quente, pijamas e novela. Dizia, sem pretender que lhe entendesse aquele do outro lado do fio do telefone. No fundo queria que percebesse a voz que tremulava, a afta que doía, que a vida ardia ultimamente, ela sentia, por fim, saudades. Dizia sem dizer as palavras. Esperava que aquele que um dia tinha conhecido entendesse os silêncios, as pausas, os suspiros, a voz baixa, sem brilho. Se ela o reconhecia? Pouco quase nada. Então enfim, uma pista lhe escapou. Um ruído quase nada, quase mudo, quase completamente abafado, desabafou. "Você tá chorando?" perguntou o sujeito do outro lado da linha do mundo da vida. Ele havia reconhecido o piu do princípio do choro dos olhos dela, que ele nem enxergar enxergava. Mas ouvia. E podia sentir a dor da voz miúda, o gemidinho quase quase, quase choro que viria a desabar cachoeira abaixo, só com a pergunta fatal. "Não é choro" respondeu soluçando. Era dor espremida, esperando só o momento certo de vazar. Era dor prensada, com chumbo forte ou aço duro de roer. Era a pobre da dor que não deixavam viver, que não deixavam vazar, se expressar como queria. E a própria dor já sofria de tão ignorada que tinha sido. Mas desta vez ela vinha firme e convicta, como quem diz: "agora é a minha vez, me deixe viver, me deixe viver!". Deixar viver a dor? Só se for lá longe. Longe no fundo do peito ela se desespremia e galopava violenta, pulmão, língua e lágrimas afora. O outro lá do outro lado ouviu. E sentiu. Nele também doeu, um pouquinho, de leve, bem pouquinho e de leve, mas doeu. Enquanto desabava pensava se para ele também doía. De leve, bem pouquinho. Para ela era o suficiente. Bem pouquinho era um monte de dor para aquele a quem a dor não atingia nunca.
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Pra ver a banda passar
Agora ecoa o som de trompetes e de bumbos, a jardineira que estava tão triste se esqueceu e pulou carnaval, a cabeleira do zezé a essa altura já está curtinha, curtinha, e eu pude ver o momento em que os cariocas são mais cariocas do que nunca, me esqueci das pernas curtas e pulei querendo alcançar os confetes que voavam alto sobre as nossas cabeças. Me encharquei, me joguei, me fantasiei de girassóis. Botei capa de chuva de estádio de futebol pra não rasgar a fantasia, pra não borrar a maquiagem, pra não deixar a alegria desestampar do rosto. Cantei até
estourar as amídalas, até voltar chorando, cheia de doença no ônibus. Mas o carnaval é mesmo droga pesada, que quando passa deixa depressão e vontade de mais mais mais.
estourar as amídalas, até voltar chorando, cheia de doença no ônibus. Mas o carnaval é mesmo droga pesada, que quando passa deixa depressão e vontade de mais mais mais.
sábado, janeiro 26, 2008
Ver de
Sonhei que eu toda nua, toda toda, rodava em cacos pela casa de minha vó. Subia escadas e escorregava de novo. A cada degrau conquistado, dois recuados, como é árduo. Sentia sopro de vento na barriga gelada, na pele de lagarto estirada ao sol. Depois já não era eu nem mundo, já não era nada que valesse a pena de contar.
Tudo mentira.
Como é fácil inventar sonhos.
terça-feira, janeiro 15, 2008
Defeito
Se gostasse de escrever talvez estivesse salva. Sem gastar saliva ruas afora, noites adentro: escreveria cartas. Através de mim passaria o tempo, o sabor, o não saber quase nada. Quem sabe alguém lesse o que escrevo se eu gostasse mesmo de escrever. Talvez o mundo ouvisse as palavras mudas de alguém que precisa se salvar a todo instante. Talvez o mundo salvaria a si próprio, sem a eterna dependência e espera de que alguém o faça. Se escrevesse melhor, as letras se encaixariam perfeitamente; se a perfeição existisse os virginianos seriam perfeitos; se alguém escutasse o som das palavras escorregando no oco do papel a perfeição mal caberia em si. Se entendesse o que escrevo seria Clarice Lispector e não uma reles, defeituosa e cheia de ambições, mortal. Se eu morresse, as palavras ficavam pendidas e tortas no ar. Se eu fosse homem. Não importa o "se" já que ele nunca é e sempre teria sido melhor se fosse de outro jeito. Se não anoitecesse, se não envelhecêssemos, se pudesse prender o ar e todas as palavras viessem `a mim! Que fácil seria gostar de escrever se elas viessem quando mais preciso e eu nem precisaria implorar. Nem me salvar, por supuesto. Salvar os outros tanto faz já que é tarefa árdua e ingrata. Não quero ingratidão nem palavras erradas na hora certa. Meus textos não tem tema e eu nunca sei exatamente sobre o que quero falar, reles, defeituosa e cheia de ambições. Mortal que sou.
domingo, janeiro 13, 2008
Estranho o mundo através da janela. Estranho e branco mundo. Hoje as nuvens estão entre nós e o frio instalou-se na minha alma. Sentia algumas faltas quando elas ainda estavam presentes. Abandonei-as e aprendi a viver sem faltas. Com presenças sim. O mundo está longe: depois da janela, depois do precipício da minha janela, ali talvez haja mundo. Ou será que é só mais uma mulher entre uma janela e um precipício o que há por ali? Se nos víssemos (eu e a mulher) em situações tão semelhantes, se nos identificássemos, quem sabe aí eu pulasse precipício abaixo para alcançá-la e - por quê não? - salvá-la. Quem sabe. Mas por enquanto prefiro não me arriscar, não preciso que ninguém me salve, prefiro o apartamento seco e acolhedor. Então eu rolo pela escadaria e me levanto de susto no meio do sonho. Ao meu lado ele dorme e pareceria morto não fosse a respiração alta e bronquítica. Ao meu lado dorme o tempo, o mundo e a névoa se instaura entre o meu travesseiro e o dele. Naquela noite ele dormia enquanto eu me despedaçava em teias de pensamentos inquietos. E tive que olhar para o podre de minha alma, para o podre do tempo e do mundo, para o vômito e o sangue. Naquela noite me desfiz em sangue e vômito e ele dormia ao meu lado na sua respiração ruidosa e alucinante. Percebi mais uma vez que só eu é que posso me salvar das minhas trevas.
sábado, janeiro 05, 2008
Vendaval
Quero mais é mundo. Passos largos em direção ao mar, lavar alma, sentir areia no pé.
Quero mais é caminho sem medo. Doce-azedo. Caminha pra dormir, carinho pra coçar, roçar perna com perna, deixar levar o vento das horas aconhegada na beira das coxas. Na bainha das ondas do mar, meio renda, meio solta.
Quero deixar soprar a vida por entre cabelos, sentir arrepio de vida na nuca, temperatura ideal embaixo da sombra.
Não quero mais nada que não se encaixe ao tamanho dos meus passos. Quem quiser que me acompanhe.
Eu sempre quis muito mesmo que parecesse ser modesta...
Quero mais é caminho sem medo. Doce-azedo. Caminha pra dormir, carinho pra coçar, roçar perna com perna, deixar levar o vento das horas aconhegada na beira das coxas. Na bainha das ondas do mar, meio renda, meio solta.
Quero deixar soprar a vida por entre cabelos, sentir arrepio de vida na nuca, temperatura ideal embaixo da sombra.
Não quero mais nada que não se encaixe ao tamanho dos meus passos. Quem quiser que me acompanhe.
Eu sempre quis muito mesmo que parecesse ser modesta...
segunda-feira, dezembro 24, 2007
Por onde andei?
Meses voaram por mim e sequer escrevi um recado de geladeira.
Passeei por aqui dentro. Tantas descobertas profundas, amargas, risíveis. Tropeçamos de vez em quando num sapato velho esquecido ali no canto, numa ponta de tapete levantada. Depois a gente lembra que lembrar nem é tão importante assim. Tem feito mais parte desapegar do que qualquer outra coisa: jogar pela janela, queimar livros, esquecer fotografias. É bom assim. Com leveza e amor. Com açúcar com afeto.
E assim sem mais nem menos se vive todos os dias, mais uns do que outros. As vezes é até possível medir a própria existência, não em anos e minutos, mas no inspirar e expirar as toxinas. No engravidar de criação e ação.
Preciso engravidar-me do mundo para depois vomitar tudo em forma de arte.
Eu sigo.
terça-feira, outubro 23, 2007
Fixo
Ai minha cabeça dói. Cheia de idéia fixa que fixa idéia ruim na cabeça que dói. Que se fixe em outro lugar essa idéia fixa cheia na minha cabeça cheia de idéia fixa que nem espaço pra pensar sobra na cabeça cheia. Lotada. Esgotada de idéia fixa que se fixa na cabeça. Vá. Me deixe fixa em minhas idéias próprias em meus estudos em minhas criações. Vá-se embora daqui idéia carangueja, aracnídea, idéia de uma figa. Se aloje em outro apartamento, alugue outra cabeça vazia que se devote à crucifixos de idéias fixas. Circulando idéia cruel. Se retire da minha cabeça que já cabeceia demais vida afora e tem doído desde que você se alojou e me fixou no lugar-concreto. Quero espaço para o abstrato da idéia nova. Venham saltitando suas idéinhas, venham à mim, sim, venham à mim!
terça-feira, julho 24, 2007
(ex)Citação
"(...) Não pensem, pelo amor de Deus, que meus sonhos eróticos inaugurais eram povoados por fios, válvulas e outros componentes eletrônicos, mas a mulher sonhada, a mulher expectativa era muito sonora. Não que eu fosse comê-la com o ouvido, mas o som foi a primeira mulher que, acordando meus ouvidos disseminados pelo corpo, inaugurou em mim a carne como residência de prazeres(...)"
do fantástico Tom Zé, para variar...
do fantástico Tom Zé, para variar...
sábado, julho 21, 2007
Meio-fio
Ela - Preciso.
Ele - Precisa?
Ela - Ardo.
Ele - Ando árduo...
Ela - Sei. Me dói isso.
Ele - Em mim mais.
Ela - Mais?
Ele - Muito.
Ela - Me deixe aqui no meio fio.
Ele - Vamos embora.
Ela - Vá.
Ele - Tarda.
Ela - Ardo-me. Deixe-me.
Ele - Até quando vai arder?
Ela - Quando casar sara.
Ele - Só se for comigo.
Ela - Vá.
Ele - Vem?
Ela - Implore!
Ele - Não me canse.
Ela - Me quer mesmo?
Ele - Às vezes menos.
Ela - Comigo o mesmo.
Ele - Assim, a vida.
Ela - Uma pena.
Ele - Tem pena da vida?
Ela - Mais dela que de mim.
Ele - Comigo o oposto.
Ela - Acontece. Dói mais, né?
Ele - Arde de doer.
Ela - Rói.
Ele - Prefiro quando penso menos. Você está me cansando.
Ela - Então vá. Logo. Não quero me perder de ti.
Ele - Tão cedo ainda.
Ela - Seus olhos secaram.
Ele - Árduos.
Ela - Sei. Dói?
Ele - Acostuma.
Ela - Vá. Antes que me canse de ti.
Ele - Tão cedo?
Ela - E tão novos...
Ele - Nós?
Ela - Os meus olhos. E já não suportam o que vêem, tantas vezes.
Ele - Acostuma.
Ela - Já sei. Já sei.
Ele - Vem.
Ela - Suplique.
Ele - Suplico-te.
Ela - Mais.
Ele - Suplico-te mais.
Ela - E mais...
Ele - E mais e mais e mais e mais e mais e te suplico mais.
Ela - Já basta, seu falso. Vamos. Fingiremos a noite toda. Topa?
Ele - Já vamos tarde.
Ele - Precisa?
Ela - Ardo.
Ele - Ando árduo...
Ela - Sei. Me dói isso.
Ele - Em mim mais.
Ela - Mais?
Ele - Muito.
Ela - Me deixe aqui no meio fio.
Ele - Vamos embora.
Ela - Vá.
Ele - Tarda.
Ela - Ardo-me. Deixe-me.
Ele - Até quando vai arder?
Ela - Quando casar sara.
Ele - Só se for comigo.
Ela - Vá.
Ele - Vem?
Ela - Implore!
Ele - Não me canse.
Ela - Me quer mesmo?
Ele - Às vezes menos.
Ela - Comigo o mesmo.
Ele - Assim, a vida.
Ela - Uma pena.
Ele - Tem pena da vida?
Ela - Mais dela que de mim.
Ele - Comigo o oposto.
Ela - Acontece. Dói mais, né?
Ele - Arde de doer.
Ela - Rói.
Ele - Prefiro quando penso menos. Você está me cansando.
Ela - Então vá. Logo. Não quero me perder de ti.
Ele - Tão cedo ainda.
Ela - Seus olhos secaram.
Ele - Árduos.
Ela - Sei. Dói?
Ele - Acostuma.
Ela - Vá. Antes que me canse de ti.
Ele - Tão cedo?
Ela - E tão novos...
Ele - Nós?
Ela - Os meus olhos. E já não suportam o que vêem, tantas vezes.
Ele - Acostuma.
Ela - Já sei. Já sei.
Ele - Vem.
Ela - Suplique.
Ele - Suplico-te.
Ela - Mais.
Ele - Suplico-te mais.
Ela - E mais...
Ele - E mais e mais e mais e mais e mais e te suplico mais.
Ela - Já basta, seu falso. Vamos. Fingiremos a noite toda. Topa?
Ele - Já vamos tarde.
quarta-feira, julho 11, 2007
silencio
Pedir silêncio aos pensamentos é tarefa árdua. Ouço-os rangendo, martelando, indo e vindo num fluxo intenso, pesando, roendo, partindo-me entre mente e corpo.
Escrever é uma tentativa de silenciar o cérebro. As palavras invisíveis ganham corpo, as idéias se materializam, os fantasmas da mente se tornam nítidos - bem na nossa frente. Fica mais fácil saber contra quem é a guerra e no final das contas é contra o meu próprio pensamento que luto ardilosamente. Preciso expulsá-lo para poder receber o que vem do momento, para escutar o meu corpo, para me relacionar com o mundo. É respirar e sentir que o que possuímos de concreto, muitas vezes, é só a nossa coluna vertebral - o que já dá um grande trabalho perceber.
A minha cabeça dói de pensar demais. A coluna dói se a abandono. Dia cinzento é um pé no saco e eu já começo a me desviar do tema. Porque é tão difícil se manter no tema? Os pensamentos são muito mais rápidos do que os dedos digitando e nos escapa uma infinidade de coisas que não conseguem ser escritas. Continuam no plano da abstração e rapidinho fogem de nós. Como os sonhos - em menos de um segundo nos escorrem pelos dedos e o que resta é uma estranha sensação de que muita coisa aconteceu por aqui, mas eu devia estar tão bêbada que não me lembro de nada! Os sonhos são como o estado de torpor e às vezes passam todo o dia convivendo conosco - hora lembramos de um pedacinho, hora o esquecemos por completo.
É preciso que eu me liberte de mim mesma se eu quiser voar de alguma maneira.
Escrever é uma tentativa de silenciar o cérebro. As palavras invisíveis ganham corpo, as idéias se materializam, os fantasmas da mente se tornam nítidos - bem na nossa frente. Fica mais fácil saber contra quem é a guerra e no final das contas é contra o meu próprio pensamento que luto ardilosamente. Preciso expulsá-lo para poder receber o que vem do momento, para escutar o meu corpo, para me relacionar com o mundo. É respirar e sentir que o que possuímos de concreto, muitas vezes, é só a nossa coluna vertebral - o que já dá um grande trabalho perceber.
A minha cabeça dói de pensar demais. A coluna dói se a abandono. Dia cinzento é um pé no saco e eu já começo a me desviar do tema. Porque é tão difícil se manter no tema? Os pensamentos são muito mais rápidos do que os dedos digitando e nos escapa uma infinidade de coisas que não conseguem ser escritas. Continuam no plano da abstração e rapidinho fogem de nós. Como os sonhos - em menos de um segundo nos escorrem pelos dedos e o que resta é uma estranha sensação de que muita coisa aconteceu por aqui, mas eu devia estar tão bêbada que não me lembro de nada! Os sonhos são como o estado de torpor e às vezes passam todo o dia convivendo conosco - hora lembramos de um pedacinho, hora o esquecemos por completo.
É preciso que eu me liberte de mim mesma se eu quiser voar de alguma maneira.
quarta-feira, maio 30, 2007
fuligem
Sem tapa nem pata na cara áspera, ergueu os olhos suplicantes de perdão.
Ódio e perdão transbordando nos olhos cinzentos que do mundo só conheciam o capim, a cana, aquela fuligem preta que cobre-a depois de ser incendiada e o facão enferrujado.
Golpeava a cana na base com uma força que nem existia mais. Nem ódio mais tinha de tanto acúmulo, de tanto que já engolira.
Engoliu ódio depois de ódio e os olhos agora se tornaram quase inexpressivos.
O perdão vinha da eterna submissão em que vivera. Conviver com a necessidade lhe transformara num homem que se desculpava por existir, por querer espaço neste mundo apertado, por preferir ser chamado simplesmente de Zé (embora o nome fosse bem outro), por detestar a cana e não encontrar outra saída.
As patas pretas lhe deixavam marcas carbonizadas quando ia tirar o suor da cara.
Homem.
Raça triste.
Espécie em extinção.
Ódio e perdão transbordando nos olhos cinzentos que do mundo só conheciam o capim, a cana, aquela fuligem preta que cobre-a depois de ser incendiada e o facão enferrujado.
Golpeava a cana na base com uma força que nem existia mais. Nem ódio mais tinha de tanto acúmulo, de tanto que já engolira.
Engoliu ódio depois de ódio e os olhos agora se tornaram quase inexpressivos.
O perdão vinha da eterna submissão em que vivera. Conviver com a necessidade lhe transformara num homem que se desculpava por existir, por querer espaço neste mundo apertado, por preferir ser chamado simplesmente de Zé (embora o nome fosse bem outro), por detestar a cana e não encontrar outra saída.
As patas pretas lhe deixavam marcas carbonizadas quando ia tirar o suor da cara.
Homem.
Raça triste.
Espécie em extinção.
segunda-feira, maio 28, 2007
soco
Ai que essa vida tava me apertando os ossos os soluços e eu pedindo socorro socorro.
Ela virou-se e foi nitidamente surpreendida por um bêbado perguntando-lhe onde havia nascido. "Aqui mesmo" foi sua resposta. Então ele gritou um grito bêbado: "Eu tô tentando tirar a cachaça da cabeça mas você não me deixa! Eu sou barriga verde...".
Barriga verde... Seria quem nasce no Paraná? Ela não se lembrou. O segurança do local, já bem irritado com o fato de o bêbado ficar chamando-lhe de paraense, pegou nos seus braços com força e arrancou dali o sujeito.
Ele estava tentando tirar a cachaça da cabeça. É perfeitamente compreensível. Ela mesma já tinha vivido situações de "querer tirar a cachaça da cabeça". Sem sucesso - é claro.
Mas então ela pedia um socorro abafado e o que lhe veio foi um sujeito bêbado, aos trapos, gritando confuso. Ela esperava mais. De maus tratos da vida com os seres humanos já estava farta. De andar sozinha por aí também. Farta de ser um ser humano sozinho como todos os outros.
E a vida apertando-lhe, puxando seus cabelos e arranhando as solas dos pés, cuspindo-lhe na cara, e ainda dizendo (tendo a coragem de...!) que a amava.
Mas também ela amava a vida aos trancos e barrancos, aos trapos, nos barracos, nos sopapos que levava na cara. Amava-a em cada pedaço podre de pão, em cada incêndio e inundação. Amava-a sóbria ou caindo de bêbada, amava-a no forró e no botequim mais fuleiro.
E a vida seduzindo: "Não desista... só os fracos é que desistem. Vai mais um pouquinho... mais um pouquinho... mais um pouquinho". E fraca ela não era não e ai de quem dissesse o contrário. E desistir jamais. Então de pouquinho em pouquinho ela amava a vida, amava cada dia de dor, de doença, amava muito todos os dias de sol torrando a cuca, e dias de pinga e dias de aborto, tudo isso ela amava muito.
Como é que fazia pra sair do ciclo dia-a-dia, que parece mais um furacão que envolve todo o mundo dentro e ninguém sai de lá nunca? Ileso - nunca?
Como é que fazia, meu Deus, pra não ver tanta gente judiada por aí?
Ai que essa vida tava me apertando os ossos os soluços e eu pedindo socorro socorro socorro socorro socorro socorro socorro.
É que o socorro tava mais prum SOCO que sai CORRENDO...
Ela virou-se e foi nitidamente surpreendida por um bêbado perguntando-lhe onde havia nascido. "Aqui mesmo" foi sua resposta. Então ele gritou um grito bêbado: "Eu tô tentando tirar a cachaça da cabeça mas você não me deixa! Eu sou barriga verde...".
Barriga verde... Seria quem nasce no Paraná? Ela não se lembrou. O segurança do local, já bem irritado com o fato de o bêbado ficar chamando-lhe de paraense, pegou nos seus braços com força e arrancou dali o sujeito.
Ele estava tentando tirar a cachaça da cabeça. É perfeitamente compreensível. Ela mesma já tinha vivido situações de "querer tirar a cachaça da cabeça". Sem sucesso - é claro.
Mas então ela pedia um socorro abafado e o que lhe veio foi um sujeito bêbado, aos trapos, gritando confuso. Ela esperava mais. De maus tratos da vida com os seres humanos já estava farta. De andar sozinha por aí também. Farta de ser um ser humano sozinho como todos os outros.
E a vida apertando-lhe, puxando seus cabelos e arranhando as solas dos pés, cuspindo-lhe na cara, e ainda dizendo (tendo a coragem de...!) que a amava.
Mas também ela amava a vida aos trancos e barrancos, aos trapos, nos barracos, nos sopapos que levava na cara. Amava-a em cada pedaço podre de pão, em cada incêndio e inundação. Amava-a sóbria ou caindo de bêbada, amava-a no forró e no botequim mais fuleiro.
E a vida seduzindo: "Não desista... só os fracos é que desistem. Vai mais um pouquinho... mais um pouquinho... mais um pouquinho". E fraca ela não era não e ai de quem dissesse o contrário. E desistir jamais. Então de pouquinho em pouquinho ela amava a vida, amava cada dia de dor, de doença, amava muito todos os dias de sol torrando a cuca, e dias de pinga e dias de aborto, tudo isso ela amava muito.
Como é que fazia pra sair do ciclo dia-a-dia, que parece mais um furacão que envolve todo o mundo dentro e ninguém sai de lá nunca? Ileso - nunca?
Como é que fazia, meu Deus, pra não ver tanta gente judiada por aí?
Ai que essa vida tava me apertando os ossos os soluços e eu pedindo socorro socorro socorro socorro socorro socorro socorro.
É que o socorro tava mais prum SOCO que sai CORRENDO...
quinta-feira, abril 19, 2007
É cada vez mais urgente viver o hoje.
Deixar as memórias irem.
Desapegar, sair sem as bugigangas penduradas, sem carregar consigo a gosma se arrastando atrás e prendendo os pés. Fixando-nos no lugar.
Tem que largar dos fantasmas, deixar que eles próprios sigam o caminho deles e parem de seguir o nosso. Largar o osso.
É urgente viver cada dia como cada dia.
Como cada ser novo que surge de nós junto com esse dia novo.
Página em branco todos os dias.
Cada dia a história muda, por mais rotina que haja, por mais horário que haja, por mais cidade que haja. Muda. O jeito de encostar o pé no chão ao sair da cama é outro todos os dias. O Bom Dia do porteiro tem uma entonação diferente. O jeito de engatar a primeira marcha e a sensação de liberdade de abrir o vidro e cantar "Hey You´ve qot to hide your love away" é diferente da do dia que veio antes. Os Beatles são novos sempre.
De noite, as luzes da cidade me encantam sempre.
E o jeito de andar na rua e olhar os prédios desfilando ao lado é outro.
É preciso encontrar encantamentos dentro dessa intoxicação em que vivemos. Dentro desta tubulação de gases transgenizados, monstrificados, mumificados. Inseridos na incomunicação absoluta de mundos, seres, habitáts, bolhas (in) visíveis.
Tem que tirar a cabeça do balde e respirar como se pela primeira vez. Fazendo isso todos os dias quem sabe a gente aprenda que não se nasce só uma vez na vida. E que as mortes estão por tudo, e que precisa arremessar o sapo na parede pra ver surgir o príncipe.
O meu corpo às vezes grita por dentro e eu não tenho ouvidos para lhe dar. Por dentro, de vez em quando os ouvidos são surdos demais, perdendo tempo demais com os ruídos que vêm de fora. E quando o meu corpo, as minhas entranhas, pulmões, os meus rins e o meu coração tentam se comunicar comigo eu opto pelo remédio e não pela saúde.
Hoje o meu corpo pede acolhimento. Ele me chama e eu o escuto. Hoje sim.
Deixar as memórias irem.
Desapegar, sair sem as bugigangas penduradas, sem carregar consigo a gosma se arrastando atrás e prendendo os pés. Fixando-nos no lugar.
Tem que largar dos fantasmas, deixar que eles próprios sigam o caminho deles e parem de seguir o nosso. Largar o osso.
É urgente viver cada dia como cada dia.
Como cada ser novo que surge de nós junto com esse dia novo.
Página em branco todos os dias.
Cada dia a história muda, por mais rotina que haja, por mais horário que haja, por mais cidade que haja. Muda. O jeito de encostar o pé no chão ao sair da cama é outro todos os dias. O Bom Dia do porteiro tem uma entonação diferente. O jeito de engatar a primeira marcha e a sensação de liberdade de abrir o vidro e cantar "Hey You´ve qot to hide your love away" é diferente da do dia que veio antes. Os Beatles são novos sempre.
De noite, as luzes da cidade me encantam sempre.
E o jeito de andar na rua e olhar os prédios desfilando ao lado é outro.
É preciso encontrar encantamentos dentro dessa intoxicação em que vivemos. Dentro desta tubulação de gases transgenizados, monstrificados, mumificados. Inseridos na incomunicação absoluta de mundos, seres, habitáts, bolhas (in) visíveis.
Tem que tirar a cabeça do balde e respirar como se pela primeira vez. Fazendo isso todos os dias quem sabe a gente aprenda que não se nasce só uma vez na vida. E que as mortes estão por tudo, e que precisa arremessar o sapo na parede pra ver surgir o príncipe.
O meu corpo às vezes grita por dentro e eu não tenho ouvidos para lhe dar. Por dentro, de vez em quando os ouvidos são surdos demais, perdendo tempo demais com os ruídos que vêm de fora. E quando o meu corpo, as minhas entranhas, pulmões, os meus rins e o meu coração tentam se comunicar comigo eu opto pelo remédio e não pela saúde.
Hoje o meu corpo pede acolhimento. Ele me chama e eu o escuto. Hoje sim.
quinta-feira, abril 05, 2007
Nublado
Dia nublado quase branco fica o céu. E eu pálida atrás dos óculos escuros encaro o mundo encolhido no espaço entre o meu carro e o carro da frente. Tem música no fundo. O Rubi canta lindo e me transporta para um lugar diferente dessa avenida. Fico só com meus botões girando a mil e uma velocidades (do carro para os precipícios, para o céu, voando livre, para os infinitos portáteis de todos nós).
Hoje acordamos sem acordar.
Estômago vazio e bitucas no cinzeiro. Pernas se encontrando nuas debaixo do lençol. Pés e peito dos pés e peitos e lábios e cabelos embaraçados. Garrafa de vinho aberta durante a noite deixou o cheiro se espalhar pelo quarto. Ele sussurra que me ama e eu nunca amei tanto assim um ser humano. Amo a cor do olho, o tom da voz, o formato da boca...
Agora, nesse carro entalado entre outros tantos engasgados de escapamento, eu conseguia fechar os olhos e refazer todo o seu corpo na minha cabeça. E sentir as suas mãos nos meus quadris. E os seus olhos nos meus olhos, os meus olhos na sua boca, a sua boca nos meus seios.
É a minha salvação.
Em dias brancos é preciso se ausentar do mundo.
Hoje acordamos sem acordar.
Estômago vazio e bitucas no cinzeiro. Pernas se encontrando nuas debaixo do lençol. Pés e peito dos pés e peitos e lábios e cabelos embaraçados. Garrafa de vinho aberta durante a noite deixou o cheiro se espalhar pelo quarto. Ele sussurra que me ama e eu nunca amei tanto assim um ser humano. Amo a cor do olho, o tom da voz, o formato da boca...
Agora, nesse carro entalado entre outros tantos engasgados de escapamento, eu conseguia fechar os olhos e refazer todo o seu corpo na minha cabeça. E sentir as suas mãos nos meus quadris. E os seus olhos nos meus olhos, os meus olhos na sua boca, a sua boca nos meus seios.
É a minha salvação.
Em dias brancos é preciso se ausentar do mundo.
terça-feira, março 27, 2007
Bêbada das palavras. Já é madrugada acorda acorda acorda acorda. E tudo o que vem na mente emaranhada são cacos de músicas partidas e misturadas com pensamento. Ouço o estilhaçar de bemóis e sustenidos, de fás, sis e rés. Geme de loucura e de torpor. Queria saber escrever com a minha própria cabeça. Chega de música. Preciso do silêncio que se torna escasso neste centro de cidade grande, imensa e omissa. Sinto-me mais uma na boiada do trem. Nunca quis ser só mais uma. (Acho que ninguém de fato o quer). O que eu quis foi partir naquele momento mas não poderia. (Nunca se pode nada). Queria poder tudo. Qualquer coisa. Me virar do avesso e exibir as minhas tripas. Era isso o que eu queria com os meus textos e com o teatro.
sexta-feira, março 02, 2007
Quanto mais se quer escrever mais inacessíveis tornam-se as palavras: sinto que fogem-me quando as preciso ardentemente. Assim como os pontos, os dois pontos, as reticências, os travessões. É uma debandada ruidosa. Galopam para quilômetros de distância e escondem-se lá onde a mente não chega e os dedos não datilografam. O fato é que era preciso escrever e na ausência das palavras eu o fazia assim mesmo, tentando mostrar-me autosuficiente no quesito linguagem.
Meu nome é formado por letras. Tem S. Tem F. (e por sinal, nunca gostei muito do som do F em SoFia, mas fazer o quê?).
Fazer o quê se em questão de segundos tudo o que restava era eu e o que de mim restara: as minhas letras não-sonoras, os meus pecados e tristezas, as longas e silenciosas reticências. Tudo formado por letras. O Z em tristeZa é o que torna triste a palavra. Assim como é o X em ineXorável quem traduz o seu significante. E o I em Sofia é o que sempre fez parecer alegre o meu nome, embora agora, no que restava de mim, esse sentimento não se mostrava tão nítido. No que restava de mim (bem ali, no meio do mundo, do caminho, do soluço) moravam algumas lacunas, lembranças e cargas elétricas. Nem palavra tinha mais ali no meio. Muito menos palavra, já que foram elas as primeiras a me abandonarem, ingratas que são. Porque eu jamais as abandonaria. Jamais.
Porque deveria ser proibido escrever quando se está sentindo assim: Nem raso nem fundo. Nem cá nem lá. Nem gato nem peixe.
Porque fica chato de ler (e quem disse que me importo?). (e quem disse que não me importo?).
É. Deveria ser simplesmente proibido. (e então seria ainda mais delicioso!).
Escrever sempre lhe fora delicioso, desde menina pequenina mirradinha ingenuazinha até... bem, até hoje (menina ainda, e pequenina e etc etc).
E as palavras lhe fugiam desde então e com elas foi aprendendo a paciência de esperar pela palavra certa no lugar certo no instante certo. Claro que essas são raras e preciosíssimas, mas não é sempre que elas precisam aparecer. Às vezes elas vêm, como quem-não-quer-nada, de mansinho e vagarinho, até que plim!, dão o ar de sua graça trazendo consigo todo um sabor ao texto que se fazia quase mórbido.
Quase mórbida e a palavra já era tão detestável apenas sonoramente. Como pode, não? Uma palavra possuir um som tão absolutamente repugnante? (vide a própria: repugnante, blah!).
A questão é que não quero me fazer clara nem compreensível e eis aí a razão pela qual as palavras me deixaram, todas. Simplesmente reneguei o motivo principal de suas pobres e cruéis existências: a comunicação. A partir do momento em que não quero, em absoluto, comunicar-me, pluf!, todas desaparecem (espertas elas...).
E eu farei o mesmo.
(queria tanto poder pingar o colírio alucinógeno do Zé Simão...)
Meu nome é formado por letras. Tem S. Tem F. (e por sinal, nunca gostei muito do som do F em SoFia, mas fazer o quê?).
Fazer o quê se em questão de segundos tudo o que restava era eu e o que de mim restara: as minhas letras não-sonoras, os meus pecados e tristezas, as longas e silenciosas reticências. Tudo formado por letras. O Z em tristeZa é o que torna triste a palavra. Assim como é o X em ineXorável quem traduz o seu significante. E o I em Sofia é o que sempre fez parecer alegre o meu nome, embora agora, no que restava de mim, esse sentimento não se mostrava tão nítido. No que restava de mim (bem ali, no meio do mundo, do caminho, do soluço) moravam algumas lacunas, lembranças e cargas elétricas. Nem palavra tinha mais ali no meio. Muito menos palavra, já que foram elas as primeiras a me abandonarem, ingratas que são. Porque eu jamais as abandonaria. Jamais.
Porque deveria ser proibido escrever quando se está sentindo assim: Nem raso nem fundo. Nem cá nem lá. Nem gato nem peixe.
Porque fica chato de ler (e quem disse que me importo?). (e quem disse que não me importo?).
É. Deveria ser simplesmente proibido. (e então seria ainda mais delicioso!).
Escrever sempre lhe fora delicioso, desde menina pequenina mirradinha ingenuazinha até... bem, até hoje (menina ainda, e pequenina e etc etc).
E as palavras lhe fugiam desde então e com elas foi aprendendo a paciência de esperar pela palavra certa no lugar certo no instante certo. Claro que essas são raras e preciosíssimas, mas não é sempre que elas precisam aparecer. Às vezes elas vêm, como quem-não-quer-nada, de mansinho e vagarinho, até que plim!, dão o ar de sua graça trazendo consigo todo um sabor ao texto que se fazia quase mórbido.
Quase mórbida e a palavra já era tão detestável apenas sonoramente. Como pode, não? Uma palavra possuir um som tão absolutamente repugnante? (vide a própria: repugnante, blah!).
A questão é que não quero me fazer clara nem compreensível e eis aí a razão pela qual as palavras me deixaram, todas. Simplesmente reneguei o motivo principal de suas pobres e cruéis existências: a comunicação. A partir do momento em que não quero, em absoluto, comunicar-me, pluf!, todas desaparecem (espertas elas...).
E eu farei o mesmo.
(queria tanto poder pingar o colírio alucinógeno do Zé Simão...)
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