quinta-feira, janeiro 07, 2010

Do caderno

Natal, R.N.
11 de dezembro de 2009


Cigarro, ar condicionado, frigobar, cama de casal, TV acoplada na parede, latinha de cerveja SKOL. Embarquei nesta viagem sozinha, all by myself, on my own, suela, solita, só. Me chamaram para este trabalho de publicidade do Governo do Rio Grande do Norte e eu vim. Eu e só. Eu e meus pensamentos e meu corpo e minhas questões e meus cigarros. Sempre detestei a combinação cigarro - ar condicionado, mas aqui em Natal não tem muito jeito, já que lá fora, mesmo nublado, faz um calor de derreter miolos.

Estar sozinha é uma arte. Noutras vezes, um tédio sem fim. Preciso ousar um pouco e começar a conhecer lugares que vão um pouco além dos dez metros que rodeiam a minha pousada.

Hoje vou sair pra passear no bairro da Ribeira.

Estou feliz e triste. Gosto e não gosto daqui. O trabalho é fácil: decoro textos rápidos e técnicos e vou para as obras gravar. A equipe é simpática e desorganizada. Fico me questionando o tempo todo sobre o que estou fazendo e penso que talvez fosse mais fácil e mais saudável encarar como trabalho mesmo e fazer a minha parte. Mas pensar com cabeça de artista é não se conformar mesmo e agora não tem mais volta: ou serei artista ou serei infeliz.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Ilha do Cardoso

Back to Babylon.

Sem tempo de sentir falta da ultracidade atômica prestes a nos explodir.

Preferi o silêncio sobre as tábuas de um pier precário em cima do mangue.

Preferi o gole da Cataia artesanal de um certo Seu Malaquias.

Preferi o som do vento na praia que por um triz não nos leva embora de uma vez por todas.

Flutuei sobre ondas. Deslizei no chão do bar do Seu Malaquias ao som do forró que só lá consegue ser tão bom.

Amei as ondas, os siris, a chuva no zero da contagem regressiva para o início do novo ano. E correr pelo mar quente com a chuva fria e o vento absoluto. E abraçar meus amores, meus pedaços de mim que me acompanharam nesta jornada.

Amei a cama ruim e o calor onde quem manda são os mosquitos. Prefiro.

Agora eu aqui. Nua diante de uma máquina. Cigarro na boca. Cerveja quente na mão. E lá fora a chuva que castiga essa São Paulo sem solução.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Dias depois um amigo ator me conta que estava bêbado na madrugada voltando para casa na Avenida Paulista ouvindo música no talo quando percebe um homem com uma arma apontada pros seus miolos.

Sonhos não são apenas sonhos.
Arma na cabeça. Eu fujo num descampado. Tento me esconder muito inutilmente. Ele me alcança. Choro grito esperneio. E falo. Você não pode me matar que eu tenho função neste mundo. Sou atriz. Você não pode me matar. Ele tira uma garrafinha do bolso contendo algum tipo de bebida alcoólica forte. Vira a garrafa goela abaixo, ingerindo coragem pra me matar. Grito mais. Sou atriz. Sou atriz. Me deixe em paz. E aquela pequena e prateada coisa mortífera apontada na minha cabeça. Ele desiste. Ele desiste! Venço a batalha. Acordo do sonho e leio na minha parede: a arte não ama os covardes. Aprendo diariamente com os sonhos e com a arte.

domingo, novembro 22, 2009

Das ventosasescamasemexplosão
Chama vulcão que arde
Chama: vulcão que arde
Urge

Semexplodir

Mexplodir

Me

explodir

quinta-feira, outubro 29, 2009

desabafo

o lobo do Homem não é o Homem
mas alguns tipos de homem
os tipos ignorantes
os tipos oportunistas
os tipos corruptos

a prefeitura de santo andré tem cumprido lindamente o seu papel de assassina da cultura e da história da cidade de sto. andré. seria tão maravilhoso se a população pudesse enxergar e ouvir o que está se passando na escola livre. é uma luta que tem se tornado desesperançosa e em vão, por parte da comunidade elt. não há voz para os aprendizes e mestres da escola livre. não tem pra onde correr, quem socorrer, quem compreender, quem defender a escola das mãos ignornates e destruidoras da atual prefeitura de sto. andré. será que tudo o que dá certo neste mundo, tudo o que é público e funciona está fadado a acabar assim que um novo partido assume o poder?
que tipo de administração é essa que desmantela uma escola que há vinte anos tem feito uma diferença absurda na vida daqueles que dela participaram e participam?
o que será que eles tem na cabeça? nada, eu acho. eles não tem absolutamente nada na cabeça. eles não tem plano de governo algum e vão querer mexer na única coisa que funciona em sto. andré. vai mexer na saúde. vai cuidar da violência. da educação. deixem a escola livre em paz, catso. deixem a escola livre funcionar, deixem os aprendizes aprenderem seu ofício, deixem os mestres livres para ensinar. deixem-nos deixar de se preocupar com a ameaça paralisadora que se instalou desde que essa nova coordenadora chegou. tirem essa mulher daí. tirem ela daí. ela não merece esse cargo. ela não merece os vinte anos de luta e vida desta escola da qual ele não faz parte em absoluto. é um insulto ao trabalho e suor dos que batalharam vinte anos pra essa escola existir. é um desrespeito a arte, à Dioniso, é um crime acabar com a escola livre de teatro. será que eu posso processar uma prefeitura por assassinato da cultura? por assassinato de um órgão que pertence a todos?
a tarefa da prefeitura não deveria ser a de facilitadora do funcionamento de uma escola? porque eles entram como pedras gigantescas no caminho? como rochas antiquadas e paralisadas no meio do grande nada de onde vieram. voltem pra lá seus parasitas. deixem a escola respirar de novo. desgrudem seus carrapatos. esse projeto não tem nada a ver com vocês ele não diz respeito a vocês, seus sangue sugas. vão mamar noutro lugar. o nosso galho é na escola livre o de vocês é em outro lugar. xô xuá. xô xuá. xô xuá. sai pra lá coisa ruim. sai pra lá seus retardatários.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Araçá

Queria escrever algo tão maravilhoso e sublime como a música Araçá Azul do Caetano.
Se o que escrevo pudesse gerar nos outros uma pitada do que essa música provoca em mim eu quem sabe seria um ser humano feliz. É tão curta e tão intensa. Me lembra de vida, de infância, de amor de tristeza de morte, de alegria de momentos de futuro de amor de amor de amor. É algo muito mais forte que eu e minha arte incipiente. É muito mais forte que é impossível não me emocionar. Mesmo se eu fizesse um esforço de frieza e indiferença, ainda assim, ela me acertaria em cheio, bem no meio de mim ela chega e atravessa e eu. Simplesmente deixo atravessar. E coloco-a para repetir e repetir e repetir. E não me canso nunca.
Não é segredo
Com Fé em Deus
Eu não vou morrer tão cedo

Viu?
Ela me atravessa e quando percebo meus dedos digitam suas palavras no teclado. Obedeço. Como não, Caetano?
Como pode você, Caetano? Há tantos anos fazer parte assim de mim?
Você e essas palavras desconexas e perfeitas que me atingem de manhã cedo ou à noite quando chego a olhar pro céu e pensar: Com Fé em Deus eu não vou morrer tão cedo. Quando me lembro que não são minhas as palavras e nem o desejo de não morrer tão cedo. São suas, Caetano. Você as transferiu para mim e eu as acolho e escolho a hora certa para cantar suas canções de amor, de infância, de passado de paisagem de passagem. Essa nossa passagem aqui na coisa vida que fica mais completa por sua causa, Caetano.

domingo, outubro 18, 2009

Domingo em família

Meu irmão massacra a minha mãe de perguntas e pressões e críticas e neuras e raivas e não aceitações. E ela se dá ao trabalho de responder e argumentar e dizer que não é bem assim. Eu, daqui da sala, daqui do computador, escuto fingindo não fazer parte disso, usando a desculpa: eles que se resolvam, que não me meto mais nisso. Mas a vontade de dar um grito de "DEIXA ELA EM PAZ E CUIDA DA SUA VIDA PORRA" é tão gigantesca que corro para o escrever (esse jeito silencioso de berrar aos quatro cantos as minhas indignações).
Desligo a televisão que massacra meus ouvidos e cérebro. Esse ente da família chamado TV. Este DOENTE na família que contamina todo o mundo, deixando todo o mundo louco. Celular tocando, namorado da mãe carente ligando de cinco em cinco minutos. "É Sô, a gente ta numa vibe meio pesada", comenta meu irmão. "É muito carbono, é muito motor ligado, muito carbono", ele explica. Mal sabe ele que transcrevo tudo o que ele diz no mesmo instante em que ele toma sorvete ao meu lado, ele nem desconfia. É a minha traição.
"É muito bom o final do Traisnpotting!" - puxo o assunto.
"Os irlandeses são todos malucos" - diz meu irmão. "Quando cheguei em Londres, entrei no Metrô e vi um cara sendo espancado dentro do vagão. Os caras saem do vagão e o cara fica se contorcendo no chão e quando um outro se aproxima dele para tentar ajudá-lo, ele arruma briga com ele". Aí a conversa vai pra outro lugar. Irlandeses,ingleses, drogados, desapegados, ateus, pobres, ricos, irlandeses otários dominados por ingleses mais otários (fala do Trainspotting), terra de ninguém, Londres e Amsterdam é igualzinho, você sente o dinheiro voando no ar.
Não conheço nenhum desses lugares. Desenvolvi um certo fascínio pela decadência, um glamour fodido, sei lá. É tudo mentira. É tudo um bando de infeliz que ganha dinheiro sem trabalho, diferente do Brasil. No Brasil a galera sua o bigode por um salário mínimo. Lá os caras se entopem de droga pra não pirar de tédio. O céu cor de CO2 caindo sobre nós, diariamente.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Aniversário

Tudo o que me distancia daquela que fui aos quinze é tudo o que me aproxima do que de original havia em mim. Do que vinha de dentro, embora pareça tão exterior, aquele conjunto de atitudes, comentários e risos daquela que fui aos quinze. Aos quinze nunca se é - se está vindo a ser - sem querer me meter no vir a ser xodó dos filósofos. Era mais um algo de se transformar diariamente, de pegar o jeito que a amiga falava para si, de cair na gargalhada, de não fazer nada de útil o dia todo, de ficar cinco horas e meia no telefone com uma amiga, desligar e ligar pra outra, para uma nova conversa, de, tá, 2 e meia. De fumar maconha e enlouquecer, de ver filme cabeçudo, de viajar com uma penca de amigos em qualquer feriado que aparecesse. Tudo beira a nostalgia, bate nas paredes da cabeça que é memória pura, e a gente finge que um dia foi aquele que a gente imagina que a gente foi. Pode não ter sido nada daquilo, mas a minha memória escolheu que fosse assim. Que aquela de cabelo comprido partido ao meio, que cantava Mutantes e os alquimistas estão chegando é algo que faz tão parte de mim quanto o meu cabelo curto de hoje. Aquela que não sabia de si é uma anterior a outra que começa a se familiarizar consigo mesma. Crescer é esquecer coisas e lembrar outras. É sentir saudades da que fui e orgulho de quem sou hoje e medo de encarar o buraco que se mostra aos poucos. Que se revela. Todo aniversário me sinto só. Que é algo que diz respeito a mim e só. Mas sempre sinto a necessidade gigantesca de ter muitos por perto.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Sobre a Nota enviada à Imprensa a respeito da ELT, a Comunidade escolar tem a dizer o seguinte:

Nossa questão essencial, que para a Prefeitura - por desconhecimento ou conveniência - continua sendo tratada apenas como coisa acidental, é que não se trata de um ingênuo "ajuste" administrativo, como se quer fazer crer. Depois de oito meses - não são oito dias - de incessantes tentativas de diálogo com a enviada pelo governo e com o Secretário, o que temos visto é o desmantelamento diário do projeto ELT nos seus aspectos mais essenciais, já relatados: o da gestão democrática e o de uma pedagogia específica, esta em bases radicalmente experimentais e livres, sobre a qual estão assentados três pressupostos, estes sim, inegociáveis (mas que não definem um "modelo", como diz a nota - definem uma prática aberta):

1) O de que o mestre da ELT e suas coordenação sejam ARTISTAS com algum lugar de inquietação no panorama teatral e oriundos de experiência artística que esteja contribuindo de alguma forma com o alargamento das linguagens do teatro no Brasil ;

2) Que este mestre tenha vocação para dividir com os aprendizes não um "programa de aula", mas uma experiência artística e de maneira horizontal - com suas variações estéticas e técnicas, que é a Experiência do próprio artista, aqui colocado na posição de mestre. Não é por mero formalismo que não adotamos os termos "professor" e "aluno" ("aquele que não tem luz") na escola. É que não há uma grade curricular pronta, nem toda aquela visão do ensino "bancário", como diz Paulo Freire, que vê o aprendiz como um receptáculo para o "depósito" de informações muitas delas estranhas ao seu próprio desejo de SER no mundo. O que há é uma relação de parceria entre criadores, mestres e aprendizes, de maneira que o "programa" de aula vá se estruturando neste encontro livre entre um repertório artístico já sedimentado, mas em pleno e inqueto movimento (o do mestre) e o universo de expectativas de expressão daquela turma específica de aprendizes e as suas visões de mundo. Isto não é simples, é sempre um desafio complexo, mas que tem resultados extraordinários tanto para os aprendizes quanto para os artistas que se colocam esta tarefa. Sobre isto, temos o maior orgulho em dizer que uma parte considerável entre os mais importantes artistas do cenário nacional "aprenderam a ensinar" teatro na ELT e esse aprendizado foi fundamental para alimentar as suas próprias práticas artísticas. Consulte artistas do porte de Cacá Carvalho, Tiche Viana, Luis Alberto De Abreu, Antônio Araújo, Hugo Possolo, Sérgio de Carvalho, J.C. Serroni, Denise Weinberg, Cristiane Paoli Quito, Francisco Medeiros, Márcio Tadeu, Cláudia Schapira. E veja o que eles têm a dizer sobre este aspecto.

3) O exercício da gestão democrática - Não precisamos de lições de democracia porque nossa prática a respira, dia a dia. E aqui não se trata de uma falácia - que o papel aceita pacificamente e os correios eletrônicos enviam pacificamente às redações dos jornais. Trata-se de um exercício ordinário feito na Escola, que encontra espaço dentro do próprio processo pedagógico - em que os lugares de professor e aluno são substituídos pelos lugares de parceiros de criação e pensamento - e nos incontáveis fóruns coletivos de discussão e deliberação dos problemas da Escola - nos quais, diga-se, o papel de protagonismo nem é dos mestres, mas dos aprendizes. Não é à toa que são eles - os aprendizes - que agora lideram as manifestações de rua, os contatos com os vereadores da cidade, os contatos com a Imprensa. É que há uma noção de pertencimento plantada no mais íntimo de cada um deles. Eles têm consciência de que a ELT não é do governo de plantão, mas da comunidade que a constrói dia após dia, em uma experiência que é exemplar para todos, em termos artísticos, éticos e políticos.

Com este breve relato - que nem de longe alcança todos os pormenores de um projeto de formação complexo como o da ELT, mas que aponta o seu essencial - temos certeza que os argumentos da "Nota à imprensa" divulgada pela Secretaria não sobrevivem.

Quando o Secretário demite sumariamente o mestre Edgar Castro, há onze anos um construtor efetivo deste projeto; e quando envia para a Escola alguém que não tem a menor idéia do que significa a criação teatral verdadeira e julga uma aberração as práticas de convivência e criação relatadas acima, não nos parece que isso deva fazer parte da paisagem. Seguindo os mesmos pontos elencados acima como os fundamentos do projeto, reafirmamos que trata-se de uma operação de desmonte da essência, articulada em um discurso que parece inofensivo, mas que a própria prática desmente. Por isso permanecem algumas contradições, que gostaríamos de ver esclarecidas.

- A escolha da coordenadora, amiga de infância do Prefeito Aidan Ravin, em bases afetivas, na prática da política não como coisa preocupada com a Pólis, com a cidade, mas com os ambientes da intimidade, com os laços fraternos e particulares de afeto, a velha confusão conveniente entre o público e o privado. A esse respeito, a Secretaria em sua nota reafirma os anos de magistério da Professora Eliana Gonçalves - o que para nós não diz nada, porque a ELT se afasta deliberadamente das coordenadas do ensino formal. Mas aqui o problema é ainda maior: é que a nova Coordenadora, passados estes oito meses, até agora não propôs linha pedagógica NENHUMA, nem as elencadas na nota da Secretaria, nem nenhuma outra. A Comunidade escolar permanece, neste tempo, esperando que o declamado repertório venha à tona, para que possamos colocá-lo em movimento à luz da História da ELT.
No capítulo "Experiência artística" o caso parece ser ainda mais grave, pois salvo engano, a despeito da sempre lembrada mas nunca esclarecida Experiência, a Professora Eliana Gonçalves, é um exemplo provavelmente sui gêneris de artista anônimo, de quem nunca se ouviu falar, sobre quem a classe artística nunca ouviu nenhuma notícia de criação relevante. Também estamos há oito meses - desde que ela se apresentou aos mestres da ELT dizendo gentilmente que não conhecia nenhum deles - à espera da Obra e dos prêmios conquistados "desde os 17 anos", como diz a nota. Gostaríamos de saber por que esta carreira adormecida foi agora repentinamente lembrada, em nota à imprensa, e NUNCA compartilhada no ambiente escolar, como é a prática mais fundamental da Escola. Esta seria uma ótima oportunidade de a Prefeitura prestar contas sobre as suas escolhas em um campo mais técnico e menos afetivo.

- A redefinição dos espaços de convivência coletiva da escola, transformados em feudos, ambientes privados e de uso pessoal, acrescida de uma política administrativa que "disciplina" não só estes espaços, mas os próprios lugares de poder - antes horizontalizados e agora verticalizados na forma do "professor manda, aluno obedece", "coordenador decide, professores cumprem". Não se trata, como parece crer o Sr. Secretário, de "organizar a casa". Trata-se de uma operação de "higienização" e substituição dos lugares da convivência comum, onde o contato comunitário viceja e, no lugar destes, a criação de espaços pautados na hierarquia e no mando, em tudo estranhos à nossa identidade. De novo: o que é tomado como acidente, como "questão de ajuste" para nós é essência.


- Cortaram a cabeça da Escola e salvo engano planejam - pelas especulações e ameaças veladas feitas pela nova coordenadora - cortar os seus membros, na sequência, provavelmente para dar prosseguimento à política do "empreguismo amigo" já iniciada. Isto é um fato que merece esclarecimento. Até agora a Prefeitura não justificou tecnicamente a saída do mestre Edgar Castro - este sim, um artista verdadeiro (hoje do elenco da premiada Companhia Livre). A Comunidade espera uma justificativa factível.

Por fim, mas não menos grave, há duas questões: a dos investimentos na Escola e a questão da legitimidade do governo eleito.

Quanto à primeira, o investimento anunciado na Escola é o usual, herdado da gestão anterior. Não há ampliação dos serviços e do atendimento à população. Reconhecemos, entretanto, que isso não é pouco. No recorte é atitude admirável e demonstra a disposição do governo eleito em preservar estruturalmente o projeto. Mas, como relatado acima, isso não diz tudo. Preservar a Escola modificando nela o essencial é o mesmo que manter dela apenas a fachada e usar a sua História arduamente construída em benefício de práticas em tudo estranhas a ela.

Quanto ao tema da legitimidade do governo eleito, consideramos que há um equívoco, uma inversão preocupante na nota do Secretário enviada à imprensa. O fato de o Prefeito ter sido eleito pelo voto não dá ao governante o direito de fazer com os equipamentos públicos o que bem entender. É PRECISAMENTE, justamente porque ele foi eleito democraticamente que, democraticamente, a Sociedade Civil pode, e deve, colocar em questão as práticas de governo. Entendemos que uma eleição é um acordo ético entre o eleito e os cidadãos. Se o eleito não cumpre minimamente o acordado, a Sociedade deve se posicionar criticamente - é o que neste momento está acontecendo, quanto à ELT.

É o que a Comunidade ELT tem a dizer.

Santo André, 18 de Setembro de 2009
ENQUANTO A QUESTÃO - ESCOLA LIVRE DE TEATRO NÃO SE RESOLVER, ENQUANTO A COMUNIDADE ELT NÃO FOR OUVIDA PELOS POLÍTICOS DE SANTO ANDRÉ, ENQUANTO NÃO TIVERMOS O NOSSO COORDENADOR EDGAR CASTRO DE VOLTA, NESTE BLOG SÓ SE IRÁ LER A RESPEITO DESTAS QUESTÕES, SÓ SERÃO PUBLICADAS MATÉRIAS FOTOS, PENSAMENTOS E DISCUSSÕES SOBRE ESTE ASSUNTO.
Artistas da ELT divulgam manifesto de repúdio
Manifesto critica a postura da Secretaria de Cultura da cidade e diz que a “predisposição à luta” vai continuar; em mostra durante a semana coletivos teatrais se unem com arte

Por: Thiago Domenici
Publicado em 18/09/2009

Carta entregue ao Sec. de Cultura pela atriz Leona Cavalli na sexta-feira (11); readmissão de Edgar Castro e afastamento de Eliana Gonçalves não foram atendidos (Foto: Lucas Duarte de Souza)

O movimento de aprendizes e mestres da Escola Livre de Teatro (ELT), em Santo André, divulgou nesta sexta-feira (18) manifesto em repúdio à carta resposta da Secretaria de Cultura que não justificou a demissão do coordenador pedagógico Edgar Castro, há 11 anos mestre da ELT. “Quando uma comunidade como a ELT – absolutamente regida por uma práxis democrática – clama pela permanência de um profissional respeitadíssimo não só por esta comunidade, mas com o apoio substantivo de outros cidadãos (e nem simples semelhantes: para muito além do campo teatral) que incorporam-se à luta; quando estas comunidades esbarram na arrogância e ignorância do poder constituído, com quem será que a autoridade conta para legitimar-se no poder?”, diz trecho do manifesto.

Leia mais:>> ELT é "apaixonante", diz aprendiz
Prefeitura responde às reivindicações da ELT em carta oficial>> Escola Livre de Teatro em Santo André vive drama e pede "volta da autonomia">> Veja o blog do movimento ELT em Alerta
>> Deixe seu recado para a ELT

Procurada pela reportagem da Rede Brasil Atual a Secretaria de Cultura não deu resposta à pergunta sobre a motivação da demissão de Castro, alegando que a carta enviada à imprensa é a posição oficial. O manifesto, divulgado após manifestação nesta quinta-feira (17) na câmara municipal de Santo André, diz ainda. “Salvaguardadas todas as proporções históricas, Edgar Castro foi expulso e condenado à errância fora das instituições de ensino de Santo André, por motivos absolutamente imponderáveis e idiossincráticos.”

Negociação

Edgar Castro afirmou à Rede Brasil Atual que propôs a Secretaria de Cultura de Santo André que pudesse voltar como mestre, após fazer a transição do cargo de coordenador pedagógico para a pessoa indicada pela secretaria. A contrapartida seria acatar o pedido da comunidade artística da ELT de transferência de Eliana Gonçalves, coordenadora administrativa, há oito meses no cargo. “Você tem um filho na escola e toda a escola diz que não quer a coordenadora que o dono da escola colocou lá porque ela atrapalha, prejudica, atravanca, parece que é tão óbvio que o problema não está no coordenador pedagógico reconhecido e aprovado pela comunidade”, protesta Castro.
O ex-coordenador afirmou ainda que existem mecanismo legais da sociedade civil para coibir o que julga "abuso de poder" caso permaneça o impasse entre o poder público e os aprendizes e mestres da ELT. “É uma clara postura fechada e surda do poder público”, finaliza.

Mostra ELT em Alerta

Como forma de manter acessa a “predisposição a Luta” o movimento ELT em Alerta preparou uma Mostra entre os dias 21 e 25 de setembro. Na programação companhias parceiras como Cia. São Jorge, Cia. do Nó e Cia. Veraluz entre outras. Abaixo, a íntegra do manifesto:

Manifesto Escola Livre de Teatro de Santo André
Dürrenmatt disse: se o teatro fosse eliminado da história do mundo, poucos seriam aqueles que perceberiam tal supressão. Entretanto, Santo André seguramente seria um dos espaços em que essa ausência se faria notar, tendo em vista que neste município, localizada em Santa Terezinha encontra-se a Escola Livre Teatro, fruto de um dos mais belos sonhos em que a estética é conciliada à pertinência política, constituído por tantos Quixotes com os pés plantados no chão e os olhos descortinando a história, num significativo processo de lutas e conquistas em prol do melhor teatro já feito no Brasil, reconhecido não apenas pelos cidadãos andreenses, paulistas e paulistanos, mas por inúmeros coletivos de teatro espalhados pelo mundo afora e adentro. Múltiplos são os teatrólogos, dentre os quais pode ser citado Bertolt Brecht, que foram obrigados pela ascensão de Adolf Hitler ao poder, eleito por um terço da população alemã, a errar pelo mundo, perseguidos pelas concepções de que o teatro representava muito mais do que mero entretenimento. Junto com Charlie Chaplin, Bertolt Brecht foi expulso dos Estados Unidos da América por um Tribunal constituído por “democratas” condenado por políticas antiamericanas (leia-se, para muitos, comunistas). “Salvaguardadas todas as proporções históricas, Edgar Castro foi expulso e condenado à errância fora das instituições de ensino de Santo André, por motivos absolutamente imponderáveis e idiossincráticos.”Quando tem-se autoridades constituídas, eleitas por parte da população, em um contexto democrático, no mínimo, há que se estranhar atitudes de imposição de uma profissional não afeita às artes cênicas em uma escola de formação de atores. A quem tais pessoas precisam prestar contas de seus atos se não aos cidadãos que os elegeram e os colocaram na instância de poder? Que outra razão senão a arrogância explica a atitude exarada pelos detentores do poder da hora, na medida em que o período de sua permanência dura apenas quatro anos? Que prepotência pensar que podem combater 20 anos de história, de luta, de sabedoria. “Quando uma comunidade como a ELT – absolutamente regida por uma práxis democrática – clama pela permanência de um profissional respeitadíssimo não só por esta comunidade, mas com o apoio substantivo de outros cidadãos (e nem simples semelhantes: para muito além do campo teatral) que incorporam-se à luta; quando estas comunidades esbarram na arrogância e ignorância do poder constituído, com quem será que a autoridade conta para legitimar-se no poder?” Carlos Drummond de Andrade no poema Infância afirma que a nossa história é mais interessante que a de Robson Crusoé. O mesmo poeta afirma um pouco adiante que “esse é um tempo de partido”. Conciliando, portanto, Infância ao poema Nosso Tempo, a trilha que se tem tenta nos lamber como uma tsunami raivosa e desrespeitadora. Como é que se dá a prática democrática nesse país depois de mais de 20 anos de barbárie imposta à população brasileira pelo golpe de 1964? Como os democratas brasileiros conversam com outros democratas? Evidentemente que não pode ser por decretos e editos mandarinescos. “Agora não pergunto mais aonde vai a estrada Agora não espero mais aquela madrugada Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada” Um abatido – mas, entretanto, repleto de garra, de força, de predisposição à luta - fim de tarde de inverno andreense e paulistano,

Comunidade da Escola Livre de Teatro
Demissão na ELT pode ter motivação política
Edgar Castro também disse que atual coordenadora administrativa é amiga de infância do prefeito; aprendizes protestam com arte na Câmara

Por: Thiago Domenici
Publicado em 17/09/2009

Protesto feito pelos aprendizes na sexta no Paço Municipal de Santo André (Foto: Lucas Duarte de Souza)
Santo André – O coordenador pedagógico da Escola Livre de Teatro (ELT), Edgar Castro, disse nesta quinta-feira (17) que sua demissão ocorreu sem justificativa e que a autonomia da escola foi quebrada após a escolha da atual coordenadora administrativa, que é “amiga de infância do atual prefeito” de Santo André, dr. Aidan Ravin (PTB). A escolhida, no caso, é Eliana Gonçalves, há oito meses no cargo.
Na tarde de quarta-feira (16), entre a comissão da ELT com o diretor de cultura, Pedro Botaro, foi dada a seguinte argumentação quando o grupo questionou a demissão de Castro: “Não podemos dar nomes. Foram nossos agentes políticos”, segundo relato dos aprendizes que participaram da reunião.

Leia mais:>> Prefeitura responde às reivindicações da ELT em carta oficial>> Escola Livre de Teatro em Santo André vive drama e pede "volta da autonomia">> Veja o blog do movimento ELT em Alerta

“Na reunião em que fui demitido pelo diretor de cultura, ele me disse que um dos motivos foi minha ‘falta de afinação com a coordenadora' e que, portanto, não precisavam mais dos meus serviços", disse Castro, que há 11 anos é professor da escola.
Chateado, o professor não se conforma com o que chama de "abuso de poder" da autoridade pública.
“Personalizar a discussão é um absurdo. Na verdade o que existe é um movimento de uma comunidade inteira dizendo que as atitudes tomadas pela professora Eliana Gonçalves são atitudes que agridem o projeto pedagógico e é muito curioso que a Secretaria não dê ouvidos pra isso. Qual a justificativa? Qual a razão para eu ser afastado não só do cargo de coordenador pedagógico, mas da Escola?”, indaga.
Perguntado se acredita numa resposta oficial sobre sua demissão, Castro se diz sem esperança. “Se me for dada uma resposta clara sobre o meu afastamento, eu saio. Se houver uma razão plausível, eu saio. Não nasci grudado nessa cadeira e nem vou morrer grudado nela", desabafa.O ex-coordenador e cerca de 100 aprendizes da ELT participaram de um protesto pacífico na Câmara Municipal da cidade, contra a falta de autonomia e solicitaram apoio dos parlamentares.
Com 17 anos de existência, a escola sempre foi pautada pela liberdade, inclusive, com a escolha democrática de seus gestores. Eles querem não só o retorno de Castro, como a transferência de Eliana e a volta do diálogo. Os aprendizes Lilian Cardoso e Mario Augusto Simões falaram sobre a importância da autonomia aos parlamentares e foram muito aplaudidos ao final. No encerramento, com o plenário lotado, todos os estudantes cantaram o hino da ELT.
A Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer de Santo André afirmou à Rede Brasil Atual que não pretende justificar nos próximos dias a demissão e que mantém oficialmente a posição expressa em carta apresentada nesta quinta-feira (17) e assinada pelo secretário, Edson Salvo Melo.
O comunicado oficial pondera inúmeras questões da carta entregue pela atriz Leona Cavali ao secretário de cultura na última sexta-feira (11), mas não responde conclusivamente as reivindicações dos aprendizes e mestres da ELT.Segundo a aprendiz Carolina Splendore as aulas continuarão suspensas e em assembléia permanente. “Estamos programando para a semana que vem uma mostra chamada ELT em Alerta que já tem o apoio de mais de 30 coletivos de São Paulo, vamos colocar a programação no blog”, finalizou.
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quarta-feira, setembro 09, 2009

URGENTE! ALERTA ELT!

A Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), projeto artístico-pedagógico que se firmou como referência para a formação de atores no Brasil e que se aproxima agora dos seus 20 anos de enraizamento na cidade, acaba de ter seu coordenador, o ator Edgar Castro, sumariamente demitido.

Nesta sexta-feira, onze de setembro, artistas representantes dos principais coletivos de artes cênicas das cidades de Santo André e São Paulo - entre os confirmados as atrizes Maria Alice Vergueiro e Leona Cavalli, o ator Antônio Petrim, os diretores Francisco Medeiros e Cibele Forjaz - farão um ato público em prol da manutenção do projeto artístico-pedagógico original, que se encontra ameaçado.

Internacionalmente conhecida por seu projeto inovador desde sua fundação, em 1990, a ELT foi idealizada pela artista-pedagoga Maria Thaís Lima Santos, (hoje professora doutora da USP e coordenadora do TUSP), e coerentemente transformada pela experiência e pelos diversos mestres que passaram por ela tais como: Luis Alberto de Abreu Antonio Araújo, Tiche Vianna, Francisco Medeiros, Cacá Carvalho, Renata Zhaneta, Cibele Forjaz, Cláudia Schapira, Denise Weinberg, Sergio de Carvalho.

Da palavra "Livre" - presente no nome da Escola - emerge um campo pedagógico próprio, que pressupõe o conceito de deliberação coletiva, derivado do contínuo diálogo entre mestres, aprendizes e funcionários (constituintes legítimos da comunidade ELT), num processo de não-hierarquização, radicalmente contrário a imposições.

Desde o final do ano passado, após a eleição do atual prefeito Dr. Aidan Ravin, a comunidade da Escola Livre de Teatro tem se reunido para conhecer o projeto cultural para a cidade de Santo André. Em 28 de novembro, organizou um ato público, o Encontro Cultural da Cidade, quando se esperava como convidado principal Dr. Aidan Ravin. O então futuro prefeito não compareceu, mas fez-se presente através de seus assessores e do vereador recém eleito Gilberto do Primavera, que firmou publicamente seu compromisso com a cultura da cidade e com a manutenção do projeto original da ELT.

No entanto, como primeira medida, designaram para escola uma nova coordenadora não pertencente ao quadro de mestres e desconhecedora do projeto em curso. Em assembléia geral da escola, em 3 de fevereiro de 2009, com a presença de toda comunidade ELT e da coordenadora, o atual Secretário de Cultura, sr. Edson Salvo Melo, não só reiterou a continuidade do projeto artístico-pedagógico como também acenou a reforma física do prédio da ELT, readequando o espaço para as atuais necessidades da escola.

Passados oito meses da nova gestão, de contínuas tentativas de diálogo entre a comunidade, a coordenadora sra. Eliana Gonçalves e os funcionários também recém transferidos para a escola, encontros mediados pelo coordenador Edgar Castro (mestre da escola há 11 anos), fomos surpreendidos por esta repentina demissão feita pelo diretor de cultura Sr. Pedro Botaro no dia oito de setembro.

No ato público os artistas entregarão uma carta ao Secretário de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo, sr. Edson Salvo Melo. A idéia é pedir que se reveja a demissão de Edgar Castro - escolhido democraticamente pela comunidade escolar e com ampla aderência de todos - e a que se possa dialogar sobre a presença da sra. Eliana Gonçalves.

A concentração para o ato será às 14h em frente à ELT:
Praça Rui Barbosa s/ nº, bairro Santa Terezinha, Santo André.
Segue em passeata até o Paço Municipal de Santo André.

Os interessados também poderão participar do movimento que reivindica a manutenção do projeto pelo blog: http://www.movimentolivre-sa.blogspot.com/

Assessoria de imprensa:

Carolina Splendore Cameron carolsplendore@gmail.com
Tel. 3705-0741 / 8144-8350

Mariana França mari_arcadia@yahoo.com.br
Tel. 8216-2683


http://www.youtube.com/watch?v=DYxK8cbCSiY

quinta-feira, setembro 03, 2009

Da série COLAPSO

Pseuda paz

Psicos

délicos

somáticos

cóticos

trópicos

come come come
vomita

bebe bebe bebe
desmaia

trepa trepa trepa
machuca

incha incha incha
explode

qual é o ponto?

até onde se aguenta

o corpo

a cidade

a carência

a miséria

a desumanidade

Qual é o ponto?
A ponte?
Atravessar o rio. Encarar a tempestade.

Tanto bate até que fura.

Existe ponto final?

Por
um
triz

A cidade se organiza num fio de navalha
cama de pregos
em cacos quebrados no chão sob os pés descalços

Vai explodir.

Meninas e meninos nascem sem parar
sem parar carros novos chegam às ruas abarrotadas
agentes do CET não param de se multiplicar invasão amarela e marrom
motoboys se atiram nos carros todos os dias

Qual é o limite do insuportável?
Quanto mais o ser humano pode suportar?

Ficar três horas fechado dentro de um carro com milhões de outros carros ao redor. Entalados.
Respirar ar preto.
Passar fome.
Cansaço.
Trabalhos terríveis.
Televisão mundo de merda.
Turbilhão de corrupção nojenta.

Até quando?

Carência

Carece de ter coragem
Esquece da coisa que foi e vai ver
Procura saborear
de olhos desritmados
Venha ver o sol que sobrou pra nós

Venha ver o asfalto que pintou

A parede que cresceu
entre minha janela e o mundo

conhece-te a qualquer preço
antes que te esquece
te desconecte

quarta-feira, agosto 12, 2009

estranha

estranha

em frangalhos tô acostumada

de migalha

em migalha

minha casa eu sou
entrada única do meu envoltório

estou cansada

minha cara

minha cara não me diz nada

lacre involuntário
porta pra parede

estanca

dança

sai daí criança

sai daí

estanca

costura o que sobrou de tripa
vê o que é que fica

e vai

e vai passear

sábado, agosto 01, 2009

Menina 1

Unha preta no teclado branco tec tec tec tec tec tec tec tec
dor nas juntas

menina 1 fala para menina 2:
Por quê tem que ser assim?
menina 2 pensa nem um segundo e fala para menina 1:
meu dorso pesa levando todo o meu corpo para frente
menina 1:
é o meu também

ou é esse colar que pesa demais no meu pescoço

que me puxa pra baixo
pra dentro do centro gravitacional existencial

Sai de mim, existência!

Xô pra lá vã filosofia vã. Vá.

Vinde o simples o óbvio concreto ululante.

Venha mesa de bar, copo americano, papo furado. Roupa nova, esmalte que cor, o próximo show, a gasolina, o sutiã me aperta. 

Sai prá lá ideinha dificinha. Ideinha inha inha. Escrever é mais difícil do que parece. E quem disse que escrevo? Escrever é isso? Basta ter um Blog og og?

Responde o eco bode de dentro dos meus parafusos:
Uso.

Unhas descascando tempo vazando por entre os dedos. Não agarro nada, nada se salva. Vai tudo na enchente, enxurrada de tempo me arrasta me leva, me deixa me deixa aqui!
Me agarro ao aqui. Não tempo, não. Venha agora não. Me deixe aqui, mais um pouquinho, só mais um pouquinho. Queria que de manhã cinco minutos durassem cinco horas, mas cruel é o tempo, e o máximo que ele faz por mim é durar cinco milésimos de alguma coisa tempo.

Xô pra lá que eu fico aqui. Aqui não tem tempo ruim. Aqui sou eu e minhas unhas tec tec tec tec tec tec tec tec tec tec tec
e um mundo virtual aos meus pés. 

Sou dona deste mundo, deste tempo, pelo menos deste! 

segunda-feira, julho 27, 2009

cento e um

Um lapso.
Lápis desenhando o risco tênue dos seus cílios inferiores (eu quis ser desenhista e mal virei um escritor).
Escrever é desenhar com palavras na imaginação dos que nos lêem. Escrever é bênção e alívio, prazer e dor. De nunca acertar. De estar em busca todos os dias. De enfrentar falta de idéia, palavras que nunca preenchem, buraco na alma. Enfrentar, insônia adentro, o silêncio insuportável de uma rua inabitada. Cabeça inabitada.
Então escrevo sobre:
Dificuldade de encontrar o outro que me foge eternamente por entre os dedos, vivo tapando sol com peneira, tentando te buscar de peneira e alçapões nas minhas mãos duras de quem ama até demais. Mas quando? O amor te machuca não é? O amor te arranha te cospe na cara te xinga na madrugada. Te liga e te acorda cheio de rancor, o amor, essa besta desvairada. Essa coisa feita sei lá de que substância que às vezes corrói e arde quando entra em contato com a pele. Eu só queria que. Só queria. Você e só. Só você só pra mim. Você só pra mim. Você pra mim e só. Doença esse amor compulsivo esse amor enjoado egoísta mesquinho.
Quando você se esquece de mim e eu me esqueço de ser sã. O amor me possui me retorce e me transformo em monstra desvairada Medéia maluca de amor nas veias. Então é tarde. Nada segura ou contém. Jogo tudo no lixo, cuspo no seu nome, te juro o ódio mais horroroso. Aí é tarde. Porque você se volta contra o meu amor doente e não quer mais compactuar.
E a Medéia vira cordeiro manso rapidinho pra não te perder. A Medéia morde a língua e esquece de tudo pra não te perder. Vira Ofélia num instante. E diz que estava possuída, sei lá o que me deu, essas coisas, a Lua, a TPM, acho que to no meu inferno astral. Não, aquela ali não era eu, não, imagine, como pode? Eu sou essa aqui, meu amor, você me conhece, não é? Eu jamais seria capaz de.

segunda-feira, julho 20, 2009

TRAGA-ME UM COPO D'AGUA TENHO SEDE
E ESSA SEDE PODE ME MATAR.

domingo, julho 12, 2009

sobre ser

Períodos longos sem palavras deixam buracos nos blogs nos cadernos na vontade de juntar. Lé com cré. 

Desorganizadamente, caminho. Sem ponto cardeal pra me guiar, já basta o horóscopo diário do jornal que obedeço re li gi osamente. Me deixo orientar por pequenas intuições e possíveis sinais. Mas sigo sem um 'projeto de vida'. Nem sei o que é isso. 

Precisa ter pensamento sobre tudo e minha cabeça dói. Não sei sequer de onde vim, pra onde vou, porque existo hoje neste mundo, o que fui em vidas passadas, o planeta que está na sétima casa do meu mapa astral, qual personagem eu gostaria de viver no palco, se quero dirigir, escrever, atuar, dançar, cantar ou se quero, e devo, simplesmente, ser.

"Se a gente fosse a pé até a Lua, chegaríamos em nove anos".

Se até isso é possível

Se me der a louca e eu quiser sair navegando por todos os rios de todas as cidades.
Ou se me der vontade de viver na rua? Abandonar. Tudo. E se?
Ir parar em Berlim. Viver de artesanato. Perseguir o dono do SESC até o meu projeto ser aceito. Chegar em Belém de bicicleta. Andar pelada. Fingir ser outra, a partir de agora. Usar peruca e trocar de nome. Clandestinidade, exílio. Pode. Não pode?
Como seguir? 

Não ter de pensar. não ter de escolher o tempo inteiro. não ter que saber o que quero como artista. não ter que saber discernir neste mundo difuso. não ter que ser coerente comigo mesma. poder errar. errar feio. ser mau educada quando der vontade. ir embora quando meu corpo mandar. me revirar de dor em pleno meio dia Avenida Paulista. saltar no pescoço de um homem bonito. ou mulher. não ter de aceitar tudo. não me preocupar se meu texto é legal ou se ele não é. pra mim é legal escrever, oras. 

pra mim é legal acordar num dia de sol. 
pra mim é legal andar a esmo cantando alto pela rua um samba do Cartola quando estou me sentindo a mulher mais especial deste mundo.
ou quando percebo a lua cheia nascendo laranja. é legal quando olho da minha janela e vejo uma cidade que não conheço se esparramando debaixo dos meus pés. e a vontade de voar que me acompanha. quando ele dorme segurando meu seio esquerdo. e quando eu acordo com tesão na madrugada.

e não ter de encontrar um fim pro que não tem.








sexta-feira, junho 05, 2009

Perda da inocência

Ontem passei por uma dessas coisas inevitáveis e incompreensíveis da vida:

arranquei os cisos.

Dois dentões de dentro da minha boca

Dois dentões com suas raizes atravancadas na minha gengiva

que não queriam sair dali

e talvez jamais precisassem sair dali

se não fossem estes instrumentos alicates e essas profissões dentistas pairando por aí.

sexta-feira, abril 17, 2009

em louqueci

Ano do Búfalo no Hemisfério Terrestre. Os chineses, provavelmente os mais sábios seres deste Planeta, já avisaram: trabalho árduo e poucos frutos. Os resultados, parece que ficam para o ano que vem. Praqueles que trabalharem, é claro. E eu, que não vim pra essa vida à passeio, já estou plantando as sementinhas. E me virando, revirando nesta cidade exigência absoluta.
Às vezes, queria mais é relaxar e esquecer que nessa vida é pra labutar. Já me esqueci que pode viajar, nunca mais fumei maconha, nem toquei violão com os amigos. Estranha São Paulo que me sangue suga energias vitais de diversão e arte. De sono até o meio dia, de vida leve, andar solta por aí, de não saber caminho, trânsito, perder fio da meada, perder cabeça, lenço e documento, estribeiras, as eiras as beiras. Sou do Tigre no horóscopo dos chineses. E Tigre e Búfalo não se dão lá muito bem. Quero mais é andar sorrateira no meio do mato, caçar passarinhos, descalçada das meias apertadas. Quero minhas listras de volta de tigresa de iris cor de mel esfregando a pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu. Quero o meu tigrinho ao meu lado, ronronar amor no meio das árvores, sentir mato acariciar a barriga. Que ano do Búfalo que nada! Que cidade absurda que porra nenhuma. Que vidinha ordinária de concreto apartamento carro celular cigarro cafécofcofcofcofco cof cof. Gente é pra brilhar. Quero minhas listras selvagens de volta. Quero regredir 100.000 anos. E dançar na beira da fogueira com minha máscara de tigresa de unhas negras. E cantar. E soltar os diabos. E que plantar sementinha que puta babaquice que me infiltram na cabeça diária e arduamente. E obedeçoobedeçoobedeço. Sim senhor, Olá Sesc Paulista, meu nome é Sofia e ...., bom dia, por favor eu gostaria de.... , será que existe uma vaga pra mim eu sou simpática, bonita, me relaciono bem e...., oi, eu não tenho experiência mas tenho muita força de vontade...., sim, sim, eu sei servir café..., sou atriz tenho drt sim, senhora, e adoraria fazer este comercial para o mc donald´s..., ah, mas será que é o meu perfil?....
Será que existem vagas para uma tigresa de unhas negras e iris cor de mel que quer mais é andar por aí no meio dos carros florestas adentro?

terça-feira, abril 14, 2009

Mais uma para a Nekropolis!

"Hoje à noite, tive contato com aquilo que se pode chamar BELEZA.
Espetáculo "teatral": coisa cada dia mais difícil de se ter em teatro. Por aí muita forma cristalizada engessando o espetáculo. Nekropolis tem corpo, encenação, texto, atores... atores... Puro encantamento!
Tenho assistido a muitos espetáculos por aí, mas depois, depois de muito tempo levantei-me para aplaudir obra tão bela.
Mestre-parceiro obrigado por obra tão bela. Isso renova a esperança estética. Cumprimente cada um, e a todos dialeticamente.
Saí repleto de estética partilhada.
Muitos beijos, carinho e admiração verdadeiros!
Viva!"


Alexandre Matte

domingo, abril 05, 2009

Um sonho

Sonhei.
Eu engolia dois olhos de macaco. Para que eu pudesse enxergar através deles, ver como um macaco veria. A surpresa é que eu continuava enxergando igualzinho ao ser humano. Não mudava nada - talvez desse uma ampliada no campo de visão, mas era só. Eu estava debaixo do Minhocão, centro da cidade e via, com meus olhos novos de macaco, o mundo se acabar. Explosões de fogo, maremotos ali debaixo do Minhocão, centro da cidade explosão diante dos meus olhos de macaco novo. Nada me atingia de fato. Parecia um filme a que eu assitia, imóvel e apática. Quando decidi me entregar à destruição, ao fim de tudo, corri e percebi que corria como um macaco. E era delicioso. Uma pata depois da outra e não havia cansaço, era fácil e divino, deslizando cidade abaixo, escorrendo ao encontro das ondas que explodiam debaixo do Minhocão. Enquanto corria com meu jeito de macaco novo, descobrindo a delícia de ser o que agora eu era, entendendo meus novos sons, outros dons, passei por uma fileira de mendigos sentados na calçada. Ao me perceberem nos meus "AAA" "UUUUU" vieram atrás de mim, em bando, querendo me entender, me descobrir.
Acordei.
Abri meus olhos de ser humano e encontrei meu namorado, dormindo, ao meu lado.

quarta-feira, abril 01, 2009

carne alma e coração

digo que vai Cor do texto
ô se vai
vamos todos
conseguir
encontrar
nem que tivermos que cavar
cavar

cavar
Tem espaço no mundo
há de haver
espaço no mundo
olha só o tamanho disso tudo
olha só o meu metro e sessenta vagando na imensidão eternidade
um esqueletinho
um mero esqueletinho se equilibrando sobre dois apoios nos seus precários metroesessenta
então
os de nós
de carne osso e coração
que fazem arte e aos que não
aos que aceitam o caos e se misturam com ele
e aos que navegam contra a maré
a todos esses que vagam esqueletinhos noite afora
vida adentro
carne alma e coração
buscando
buscando
buscando
eu lhes digo:
não será em vão

quinta-feira, março 26, 2009

aidemim

Momento esquisitofrênico de nem lá nem cá. angústia funda garganta / arranca unha a dentadas
quem se salva na barbárie/
nem eu nem seu nem meu
só sei de mim e mais ninguém
meu carro
meu aparelho celular
meu espírito de porco
meu sono
abandono celular msn blog estrada afora. blog spot.
solidão de ler escrever pra ninguém
de mim para o mundo de ninguém
do fundo do mundo de mim
pra imensidão internet raios ultravermelhos anos luz sem gravidade e ondas sonoras
tenho medo tenho medo tenho medo
medo de ir e de ficar
minha arte insipiente
recipiente de desuso
kit pessoa moderna são paulo século XXI
o que resta / o que resta / o que resta
burgueses da usp não sabem produzir arte
burgueses da usp jamais serão artistas importantes e interessantes
gente desinteressada e desinteressante

sexta-feira, março 20, 2009

Se partir e ficar são verbos opostos, é preciso escolher entre um e outro. Ficar é mais natural em mim. Que me enraizo com facilidade, me entrego ao local, aos seres, à terra. E lá permaneço até quanto for preciso. Difícil pra mim é partir. Deixar a minha raizinha exposta, não criar vínculos profundos mas viver em estado de transformação, de busca, de emoção e aventura. Tenho medo de emoção e aventura. Mas tenho mais medo das minhas raizes apodrecerem debaixo da terra. As árvores muito velhas apodrecem suas raizes e então é preciso arrancá-las dali. Será que só saio quando me arrancam? É tão difícil assim viver ao sabor do vento e da chuva, voando de galho em galho? Me permitindo descobrir, odiar, me foder, me encantar? Se partir e ficar são verbos e são opostos. Eu escolho

segunda-feira, março 16, 2009

Afetado por Nekropolis

"É lindo ver um coro que não é massa (mesmo que ironicamente interpretando uma)

É lindo ver a palavra cantada, ou não, defendida na voz, no corpo, na mente e na alma

É lindo ver que no mais belo solo de canção a respiração e a ressonância vem de todos

É lindo ver uma platéia atenta, pulsando e em dúvida

É mais lindo ainda saber que a peça foi resultado de embate, de discussão mas sem nunca perder o pulso da arte

Enfim, foi lindo, é lindo, e na minha opinião tem que ser lindo... vinda looooooooooonga a esta peça

Vida loooooooooonda a Escola Livre..... Vida!!!!!!!!


Lubi
AGRADECIDO e
AFETADO "

Trecho retirado do e-mail enviado pelo diretor Luís Fernando Marques (Lubi) aos mestres que participaram do processo de Nekropolis.

Devaneio

Ontem fui à ELT para participar da reunião com a comissão de Aprendizes e Mestres sobre a reprogramação do Semanão. Foi uma conversa produtiva e cheia de saudáveis pontos de vista divergentes. Falamos sobre os caminhos do nosso espaço Assembléia, ou Bléia (como sugeriu a Georgette). É uma construção delicada, essa a que nos propusemos. Fácil seria ficar quieto e deixar as coisas acontecerem por inércia. Mas a liberdade dá trabalho, e algumas questões importantes, como a autonomia dos coletivos dentro do coletivo maior, serão discutidas na quarta. Depois fui assistir ao corrido do Nekrópolis. Ao fim, impactado pela radicalidade do que me foi apresentado, saí disposto a olhar o céu em busca de algum norte. O trabalho me levou a pensar sobre minha participação silenciosa nesse holocausto social que vivemos e outras coisas mais ainda não elaboradas. Eita semana intensa!!! Licitação, Assembléia, Nekrópolis.... definitivamente a ELT não é um espaço para visões conformistas. Não há como ficar imune a esse lugar.

Por: Edgar Castro

Nekropolis

Quando a arte chega ao seu sumo (ou quando vai em direção a ele) ela afeta as pessoas. Tocando as pessoas é impossível não mexer com o cotidiano, com a vida, com a cidade, logo com a política.Um dos exemplos disso é, sem dúvida, Nekrópolis, a nova peça da Escola Livre de Teatro (ELT).Incrível é ver pulsar tanta criatividade num só trabalho. Inúmeras novas linguagens teatrais, musicais, poéticas dividindo o palco, muito bem exploradas. Tantas sacadas, que martelam e culminam no que o país precisa: discussão, cultura. Cutuca a ferida que estanca como gangrena. Nos faz lembrar quem somos: humanos.

Por: Lucas Botelho

segunda-feira, março 09, 2009

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Cansada cansada cansada estou sempre cansada cansada cansada.
Quando fui criança acreditei que só as pessoas mais velhas é que se sentiam assim cansadas.
Agora sou mais velha, mas nem tão velha, e já descobri o cansaço, o cansaço mesmo, assim de esgotar idéia, desabar corpo ladeira abaixo, estirar na cama e só levantar no outro dia, mas ainda assim, no outro dia, sinto muito cansaço e assim por diante. Por diante, quero dizer, assim: acordo e durmo cansada todos os dias.
Uma vez tive anemia e me sentia assim cansada. Mas agora não tenho anemia. Tenho estado até mais gordinha (e isso me irrita tanto). Gordinha e cansada no trânsito, gordinha e cansada no ensaio, gordinha e cansada no banho, onde quer que eu vá: gordinha e cansada. Não sou velha nem nada e me sinto gordinha e cansada. Aliás, sempre pareci mais nova do que sou (dizem as outras pessoas - pode ser tudo mentira, só pra ter assunto, só pra me agradar, o povo mente o tempo todo o tempo todo mente o povo todo). O barulho de britadeira no fundo me enferniza os miolos, tímpanos e ne inpede de dormir todo este cansaço.
Boa noite.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Viagem de Volta

Volta, meu irmãozinho, volta. Que você partiu e me deixou a ver navios em frente ao mar. Que você me deixou só com o Rubi. Volta, irmãozinho, para fazermos música, pra conversarmos noites afora, pra passearmos na noite linda de São Paulo, em meio a fumaça, mendigos e luzes, mas linda. Volta baby brother, a Avenida São Luís não é a mesmo sem ti. O porteiro Otaviano manda notícias, também ele sente saudades. Volta que quando você foi parecia que tudo morria. Volta Gordines. Venha ver essa gente bronzeada mostrar seu valor. Que Europa que nada. Aqui estamos com a faca e o queijo. Não neva. A gente é quente por dentro e por fora. Volta que as mulatas te querem no sambódromo no carnaval. Volta que a Inês faz tutu de feijão pra você. Volta, irmãozinho, que o Guimarães pra mim caiu no esquecimento, sem você por perto pra me ler trechos cansativos e geniais. Venha ver a tua irmã de cabelo curto. Venha ver a vista do Ambassador - 8b. Venha que nada mudou muito. Nada mudou. Tudo te espera. Venha ver a minha peça que estréia no dia do seu aniversário. Venha irmãozinho. Venha ver Irene rir e venha mostrar tua risada. Que Europa que nada. Vamos dar cambalhota, assistir Chaves, perseguir o Tom Zé, Gero Camilo, nos entupir de comida em Jaú. Vem meu irmãozinho que já não dá mais pra não te ter por perto. Vem que o coração arde.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Isso de medo

Que medo de merda isso de medo é uma merda medo do quê cara pálida? Medo de quem, oras bolas? Medo do medo do medo de não saber mais de onde vem o medo. Tão grande ele já é. Há tanto já se instalou. E você deixou ficar o medo, aí morar o medo, então ele fica, então ele mora e aceita esse lar que o medroso o cedeu. Não há melhor lar para o medo do que o corpo do medroso. Isso de medo é invenção ancestral pra não nos deixarem viver, não nos deixarem deixar o lar dos papais e mamães, não sairmos viajando mundo afora e largar o que nos gerou pra trás. Isso de medo acorrenta pés, ata nós em nós mesmos, paralisa. É uma grande merda imensa o medo. Medo de quê? Medo de quem? Se for da morte, nem o sinta, nem precisa. A morte virá quando tiver que vir, ninguém a contem, nem medo nem nada. A morte é forte mais forte que o mundo e quando está determinada a chegar, é preciso apenas abrir as portas e entregar. Nada a fará parar. Muito menos medo. O medo serve só pra não deixar os vivos degustarem do presente vida que lhes foi dado. O resto é se jogar.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Joãozinho

Cortou o cabelo igual de menino e foi pra rua se mostrar. passou batom vermelho, colocou brinco e saia pra não ser confundida. entrou na rua errada, se confundiu. tava distraída demais com aquela nova ela que surgia. nova mesmo. cabelo mexe com as profundezas; e começou a reparar de fato, pela primeira vez, que quase todo homem tem cabelo curto e quase toda mulher tem cabelo comprido e que isso é engraçado demais, afinal de contas, é uma convenção, porque no fundo é tudo gente igual. tirando algumas diferenças, é tudo igual. homem e mulher. e quem inventou isso de cabelo curto cabelo comprido tava mais é enganado. que homem de cabelo comprido é bonito igual mulher de cabelo curto. mas que por vias da dúvida, era melhor que ela passasse um batom, enroscasse um brinco na orelha e vestisse uma saia para não ser confundida por aí.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

À ELT, minha homenagem

A Escola Livre de Teatro é a prova viva e pulsante de que existe uma saída para o Ser Humano; sim, nós podemos nos suportar, nos ouvir, nos amar e até podemos produzir arte. Tudo ao mesmo tempo. Sem dinheiro. Com pombos e goteiras. Ratos e moscas varejeiras vigiando nossos passos. Sim. Mesmo assim. É possível. Na periferia de Santo André existe um lugar em que as pessoas aprendem a ser Ser Humano. E é isso que interessa. E o melhor: não paga nada. Aceita-se: ricos, pobres, analfabetos, acadêmicos, cegos, surdos, gringos, atores, não-atores, enfim, aceita-se gente. O que importa é a disposição e disponibilidade para a entrega absoluta. Da mente, do corpo, das noites, do transportar-se até lá diariamente. Do afinco. Do amor a isso tudo que é possível de criar, recriar, do amor à vida, do amor à arte, do querer descobrir-se mais e mais a fundo. Da pesquisa. Eu amo tanto isso tudo que já começo a chorar quando lembro que me resta tão pouco tempo lá dentro. Mas que foi eterno. Pra mim será eterno até o fim da minha vida.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Elas, as

Não sou máquina de escrever. Meus dedos doem de bater no teclado depois de noites incessantes de palavras e cocaína. Tremem. Que eu durmo sonho acordo escrevo durmo. Escrevo dormindo. Escrevo acordando. No carro, na ioga, na sala de estar, trepando com meu namorado, assistindo tevê. É que palavras me perseguem. Frases chegam prontas na minha cabeça e eu tenho a obrigação de armazená-las em mim. Não escolho o momento em que chegam. Elas vêm quando querem (quando não querem não vêm). E quando cismo em escrever sobre elas, as palavras, saem correndo de mim. Acho que não gostam da metalinguagem, preferem ser utilizadas para escrever sobre outros temas ( e é possível escrever sobre tantos, não? As palavras dão conta de tantos temas!). Todos os temas estão nas palavras. E elas me vêm assim, aos montes, às vezes toneladas de palavras caem sobre mim durante o dia, então as descarrego no caderninho, no blog, na parede, no travesseiro, no ralo do chuveiro... Mas eu não sou máquina de escrever. Sou coisa de sentir de viver, não quero ter que escrever sempre e detestaria ser escritora (escrever por obrigação é um fardo!).E agora, tendo dito isso, todas as palavras se perderam de mim, me deixaram só, de frente para o branco da tela que é igual ou pior que o branco do papel em branco.

terça-feira, janeiro 20, 2009

"(...) É preciso afirmar que o sonho também faz parte da vida tanto quanto o cotidiano; isso precisa ser imposto (...)"


Heiner Muller

domingo, janeiro 11, 2009

Ser e não ser

Eu sou de cada um um pouco/ Um pouco amontoado - diz o Gero Camilo.
Enquanto eu: eu sou um amontoado de cada um um pouco.
Tenho um braço de cada tamanho e olhos de cores diferentes. Tenho língua de um, cheiro de outro. Tenho medo de amor. Sinto forte, tenho suor de uns três, quatro, cinco. Tenho voz de muitas. Amor de mãe, dor de filha. Tenho eu com cinco anos, treze anos, dezenove. Sou amontoado de fotos, fatos, pactos de vida e morte, arrependimentos e marés de sorte. Um aglomerado de tias, vós, bisavós. Enterros. Linhas da mão. Passado e futuro no aquiagora. Sou todos os corpos que passaram por mim. Tenho pernas de mil antepassados, força de mil espíritos. Sou Logun Edé. Tigre. Virgem ascendente Touro. Sou minha mãe, meio Bel meio Ana, meio Clara Iza, meio Marina, meio Julia. Meio Cecília. Sou minhas mulheres em mil, em mil em mim. Sobreviventes de guerra me habitam, sobrevivi ao nascimento e chorei nos piores e melhores momentos. Sou uma qualquer. Uma lembrança. O que poderia ter sido. A máxima potência. O menor pecado. De carne osso e sentimento que corta e sangra. Sou todas as menstruações, sou óvulo e espermatozóide. Sou as piores trepadas e os melhores orgasmos. Sou cabelos caindo no ralo, olheiras na ressaca, sou produto frágil: cuidado que entorna. Sou venenosa e líquida. E fleumática e melancólica. E chega disso.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Inescrevível

Sei que sobre experiência de vida se escreve a todo o momento. Tudo são experiências de vida. Relatos, descrições, contos, matérias jornalísticas, romances, poemas, memórias. Escreve-se sempre sobre o dia-a-dia, imagens flagradas na rua, conversas de boteco, filmes ou peças a que assistimos, isso, enfim, a que chamamos vida.
Mas quero hoje escrever sobre algo que vou chamar assim: experiência de morte.
Será que pode?
Sim, estou aqui, meus dedos se movem, meu cérebro funciona, meu estômago ronca - sim, estou viva - mas quero relatar um pouco do que se apresentou para mim na minha experiência de morte e não, não quero gerar expectativas. Não, ainda não sei o que há do outro lado. (Mas agora estou começando a acreditar que deveria ter começado este texto de outra maneira. Assim, só descrevendo o que estou chamando de experiência de morte, sem dar nome, sem começar dizendo que se costuma escrever sobre experiência de vida mas que neste caso eu falaria sobre outra coisa, algo pouco mais incomum mas que é tema de tudo no mundo, ao mesmo tempo).
É o abismo abrindo as suas portas para mim. Quando tenho coragem ele se mostra um pouquinho, quando vem o medo o enjôo toma conta de mim, minha cabeça gira, sinto que estou realmente morrendo. Se esqueço medo corpo Terra gente, enxergo coisas que antes não poderia sequer imaginar. Será que é proibido escrever sobre isso? Será que é escrevível escrever sobre isso? Está difícil. A experiência toda é muito difícil, muito difícil, muito difícil. Me seguro no que me resta: meu ser Sofia, não superior nem inferior a nenhum outro ser, meu ser sabe do seu tamanho, sabe que pode se aguentar - é preciso que eu aguente o meu próprio corpo para que eu continue viva. É preciso morrer assim, essa dor e essa dificuldade, esse abismo me sugando e eu tentando em vão me segurar nos meus sapatos. Preciso me deixar ir, voar queda abaixo e ladeira acima, me entrego Sofia, me entrego ser humano pra voltar melhor, mais corajosa, mais disposta a encarar este mundo de experiência de vida, preciso aprofundar minhas experiências de viva mortal que sou enquanto dura há de ser eternidade.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Materno

Te tiro filho e te tomo mulher. Te bebo, ingiro - indigna do posto Mãe. Mas me esforço - talvez com mãos delicadas demais para me chamar mulher - me esforço por recompensar a tua orfandade. E embalo nos braços um filho com pelos barba cabelos a mamar nos meus seios: secos. Enquanto me mama, me suga, um homem sem fome de filho, com nome de homem, a barba que me machuca a pele fina de menina se fazendo mulher. Te rapto filho e me faço mãe, injusta; um filho que chupo e sequer tive o trabalho de criar. Me chegou pronto, crescido, cheio de pelos e medos pelo corpo todo, crescido dos cuidados da mãe real. A que te nomeou e amamentou sem sentir prazer sequer nos seios, estes sim, cheios de leite e de vida para te dar, para que sobrevivesse ao crescimento e chegasse até mim, assim formado, assim, para me lamber os seios a boca e me chamar de sua mulher. E me disponho, cumprindo um papel roubado da outra - aquela sim, mulher - te amamento de nada, com mamilos vazios e rosados de menina que ainda sou. Enquanto isso fumo, eu a mãe torta, a mãe que pode fumar enquanto dá de mamar, mãe e mulher de um filho homem e pai de mim. Já me chega peludo, cheio de raiva e tesão, os erros da outra - daquela mãe mãe - sou eu quem devo arcar. Não tive a chance nem o trabalho árduo de te educar, mas posso lhe ensinar o ponto onde sinto mais prazer quando me toca, me lambe me roça, eu a mãe que fuma, que se entrega pros seus pelos e medos. Mas nunca te poderei ter pra sempre, já que ela, ela é que sempre o terá, como o pariu filho homem, peludo, barbado, pai de mim.

terça-feira, novembro 04, 2008

Massa

Cadê tua voz
Tua alma
Tua saga?

Cadê Homem nessa estrada?

Tua língua?
Tua pátria?

Tua sorte mora onde morre tua sorte
Onde mora Homem nessa casa?

Cadê tua cruz, vida,
cadê tua saída?

Te retorce
Esperneia
Inventa maneira pra fazer escutar

Se gritasse
Se gemesse
Se tocasse
Se cansasse
Se dormisse
Se morre...

sexta-feira, outubro 17, 2008

Satisfaction

Que me apaixono com a mesma facilidade com que me entristeço. São nuvens que pairam sobre a minha cabeça. De amor, de tristeza, de euforia. Em cada momento me embrulho numa nuvenzinha diferente e embarco; ela permanece instaurada até que venha outra um pouco mais densa, um pouco mais atraente, que me toma e eu - vou.
Tomar as rédeas próprias do meu corpo cavalo. Aprender a domá-lo. Aprender a ser dentro dele, habitando a única casa que me pertence de verdade. Se eu não morar em mim, quem é que vai? Se eu não gostar daqui, quem é que vai? Se eu não domar a mim mesma, se não me confiar, se não me entregar nem pra mim, pra quem será?
É difícil lidar com algo que não me foi dado o poder da escolha (nascer, onde nascer, como, com quem, em que formato!). Ao mesmo tempo, penso, ainda bem que não dependeu de mim a escolha. Talvez eu não tivesse nascido nunca. Teria ficado pra sempre escolhendo qual seria a melhor casa, o melhor corpo, os melhores pais, o melhor signo (quereria ser de Sagitário!). E como não existem as tais condições ideais de pressão e temperatura eu não teria vindo nunca pra esse mundo.
Prefiro ter vindo toda incompleta, mas vim! Prefiro que me tenha sido dado este direito de aprimorar, de trabalhar, de ser, de me deparar, de ir e vir. Prefiro a vida do que a perfeição. Prefiro a dificuldade do erro do que o estático. Prefiro aprender na raça. No vivo. Com os vivos. Prefiro isso tudo a uma espera eterna pelo ideal que não existe. Ideal sedutor, perfeição filha da puta, signo difícil.
Mas que eu queria ser de sagitário, ah, como eu queria!

segunda-feira, setembro 29, 2008

História real

Acordamos com a fumaça invadindo a sala, pela janela do quarto pela janela da sala, pelas frestas deste apartamento antigo que habito. Quatro da manhã. Ao invés do galo, meu pai: "Acorda. Vamos sair daqui. Tá pegando fogo". Não pensei em nada. Calcei meu sapato, peguei um casaco e corri. Quando te perguntarem: "O que você salvaria num incêndio?" responda que apenas a sua própria pele. Impossível pensar em salvar alguma outra coisa. Enquanto desço as escadas do prédio descubro os outros habitantes daqui, aqueles que só encontro vez ou outra no elevador, que às vezes dou bom dia noutras nem tanto, que às vezes até me tratam bem - os vizinhos enfim. Agora descubro-os todos de pijama (e todos descobrem o meu pijama lastimável!). Descemos aflitos e medrosos as escadas intermináveis deste prédio antigo que habitamos. Quantos idosos moram aqui! E eu nem sabia! Tantos já nem andam mais. E agora o zelador os coloca nos ombros e desce com eles as escadas. Corremos para a rua e de lá a visão: um apartamento inteiro em chamas. Chamas grossas, largas, fogo mesmo. Fogo brabo, cruel varrendo o apartamento do sexta andar. Eu moro no oitavo andar e morro de medo de que as chamas o alcancem. "Devia ter pego isto, devia ter salvado aquilo. E o meu celular? Não pegeui nem o celular?" Não. Está tudo lá. Uma vez sonhei que a minha casa pegava fogo inteira, não restava nada e eu só lamentava as minhas perdas materiais. Quanto apego. Quantos materiais. Quantas coisas que ficam guardadas em nossa casa. Nossa vida, eu diria. Aquela nossa vida que vai além da vida fisológica. Aquela vida dos registros, dos sons, dos livros, dos sabores, das roupas, dos lençóis, dos dinheiros. Aquela outra vida que nós temos. E o fogo avançava a cada segundo, rápido que ele é. Os bombeiros se enfiaram no prédio armados de mangueira, muita água para tanto fogo. Lentamente, as labaredas imensas deram lugar à uma fumaça densa e preta. Controlaram o fogo. Aprisionaram o louco, o rebelde o sem limites. Agora havia paz novamente. Amanhecia e os vizinhos voltavam às suas tocas enfumaçadas.

sexta-feira, agosto 29, 2008

os de nós

Será que é de escrever que preciso?
Mesmo que escrever não seja preciso.
Mesmo que viver seja inventar a cada dia um dia novo. Porque a tendência é todo dia ser igual. Sol nasce. Flor murcha. Nuvem passa. Nós, seres de carne e sentimento, de cimento e ciúmes, nós é que inventamos que um dia é diferente de outro dia. A natureza é sempre ela, tem ciclo, tem tempo, mas não está mais feliz num dia do que no outro. Não está de bom ou mau humor. Ela s i m p l e s m e n t e está. E convive com seus semelhantes simplesmente estando. Nós é que destruímos e nos deixamos destruir pelos semelhantes. Nós é que fazemos barulho no sono dos outros. Nós é que engarrafamos o mundo. Nós é que. Nós é que.
Mesmo que escrever não seja preciso, nós é que escrevemos.

às vezes, é o que me resta. noutras, o que me basta.

domingo, agosto 10, 2008

Do tanto que lembrar me dói

Bate relógio bate cabeça na parede
joga relógio no chão
cabeça voa
pé fincado no cimento
agarra



Bate pirulito que bate bate
o anel que tu me destes
joga ciranda na parede
cai de bunda quebrada no paralelepípedo



Qual é a palavra mais difícil do mundo?



Bate na porta
tempo que bate torto
joga tempo pela janela
Sobra eu o relógio o mundo a parede o asfalto



Bate e me parte ao meio
um seio aqui
ali outro seio
um meio que fica meio sem saber
aonde ir

sábado, julho 12, 2008

descabido

Mas do que falávamos, amor meu?
De reveillon e de libido.

Ela escorria libido. Sofrera sempre com a questão de ser ela a mais dada à "coisa".

Mas por quê reveillon?

Porque a palavra francesa que designa mudança de ano mexia com ele.

E ele mexia com ela. E com a libido dela, certamente. "Reveillon é algo libidinoso" costumava dizer a ele que sempre enchia a cara até cair duro na cama. Ou mole, melhor dizendo.

Mas teve aquela vez em que tomamos um ácido e fui eu quem revirei na cama até vomitar - lembrou sabiamente. Ainda possuía alguma memória.

Sabe?, amor meu, eu acho que nunca fui feliz ao lado de um homem.

Ele caiu mudo. Ligou a televisão acendeu cigarro comeu chocolate atrás do outro.

Ainda mudo, olhou com coragem para os olhos cruéis da mulher (de mulher). Ela sorria.

Sabe?, amor meu, - agora era ele quem arriscava - eu fui feliz com você.

Ela vibrou.

Até certo ponto - ele continuou.

Ela lembrou da desmedida das coisas. Sempre extrapolava o tal do ponto. O tal do ponto. Que ponto? Que porra de certo ponto? Ponto errado do caralho. Ela quis gritar. Não o fez. Enfiou chocolate e cigarro na boca seca de mulher.

Até chegar aqui. E olhar daqui pra trás e dar por falta de mim - ele chiou.

E eu por falta de tudo o que de mulher havia em mim antes de você chegar.

Você com essa coisa de mulher. Não tem nada disso. Não me engana, você não consegue me enganar.

Imbecilidade de homem achar que conhece assim tão dentro.

E é essa sua ingenuidade que te impede de ser mais. mulher.

Tenho libido de sobra. Escorro libido.

Uma mulher é mais do que isso.

Você agora quer me ensinar? Agora que me roubou de mim, vai usar o que de mim apreendeu para me E N S I N A R ?

Você me pertencia. Não precisei roubar nada. Me foi dado. Sem choro. Fácil. fácil.

E eu sinto falta do seu sexo de homem que me abandona na cama dormindo de lado pra parede criado mudo do caralho. Você é um criado mudo do caralho.

Não quero te pertencer. Sou maior sou mais que isso de pertencer. MAis que isso de homem e mulher. Sou ser humano. ISso sou.

Até que fomos um tanto gente um ao lado do outro. Mas depois você virou decoração na minha vida. Uma fitinha vermelha extremamente desnecessária. Sou mais mulher que isso de homem e mulher, que isso de pertencer, que isso de ser ser humano. Sou mais. Mulher, amor meu. E isso você não vai aprender nunca.

quarta-feira, julho 09, 2008

dica cultural (!)

Copacabana, mon amour é o melhor filme de todos os tempos. Viva Sganzerla. Viva Brasil.

sábado, junho 28, 2008

cérebrando

agarrar o teclado com a goela toda. engulir computador. letras. parágrafos. explodi-los num espaço mais real, mais concreto, menos ilusório. o que não é ilusório nestes tempos fictícios? minha unha vermelha é uma mentira. meu sangue negro, branco, amarelo e luso-italiano é uma mentira das grandes? eu sou de pele e de osso. dentro é osso fora é fosso. mas me atiro como quem finge saber por onde anda, em que pisa a sola, onde imprime seu rastro. tudo mentira que nada. egocêntrica, inválida: gosta de escrever depressões no relevo. inscrever na terceira pessoa é menos comprometedor. quero e não (quero) comprometer. escrevo sem significado, as palavras vão me guiando e me desviando de mim. fumaça é hoje o tempo duro de roer. duro de passar músculo, veias e ossos pra chegar no c e r n e .

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gfuhfdshfszbkfduh

terça-feira, junho 17, 2008

bomba

Quero me bombardear de algo maior que rua concreto cidadão bem comportado dentro das leis. Quero multas. Mulas de carga. Salada. Roleta russa. Iugoslávia.
Quero escrever ser poder entender o invisível. Escrever cafonice. Ser-me inteira cafona. Sem medo de ser. Sem medo de ser. Sem me perder. Saber o rumo. O caminho de volta pra casa. De noite, me largo, me descalço, me descabelo. De dia sei ler as normas de segurança. Acendo. Aprendo. Abaixo cabeça e ouvido se perde dentro de mim. Quero estar presente. dentro e fora. Quero amor amor, comer amor, me fartar de amor de amor. Carne morta de amor vivo, pulsa, sua, toca sinos o amor. Confunde a visão dispersa na cidade labirinto. Encontra foco. VÊ. Heiner Muller está entre nós, eu sou um pouco de Heiner Muller com Sérgio Malandro. Cifras. Células. Mega bytes. HPs. Hxs. O humano está em extinção dentro de nós. Sou meio gente meio cidade. A cidade me atravessa, me reparte, invade meu cerne de sangue e transforma em CO2 cada fio de meus cabelos. Vou me transgenizando. Higienização do Homem é expulsá-lo de dentro de si. Entendeu? Tanto faz se entendem o que escrevo. Tanto faz. Hoje tudo tanto faz.

quarta-feira, junho 11, 2008

Falar de amor é tocar o improvável o impalpável; algo do tipo alma.
O meu amor é diferente de qualquer outro
Não é verde nem lilás
Não se espreme
Não se corre atrás

Ele me atinge de vez em quando
de vez em nunca
umas vezes poucas na vida ele dá o ar da graça

Faz cócegas, deixa os pensamentos atrapalhados, ensina que a gente não é só cabeça.

Às vezes se confunde com paixão com fogo com tesão
Amor não é fogo nem terra
Nem virgem nem leão

Eu invento o amor quando me dá na telha
Aí eu acredito.
Ele não chama o meu nome
Eu é que escuto bem demais

segunda-feira, maio 12, 2008

Idade

Bate bate bate. Quem?
Ninguém.
Volta a bater. Alguém aí?

Aparentemente não. Encosto o ouvido na porta, quero ouvir, tentar reconhecer.
Ninguém.
Outra vez. Bate bate.

Corro. Seria aquele que me esqueceu aqui? Mas já faz tanto tempo. Dez, doze anos, vai saber. Nem a idade eu me lembro mais. Devia ter 20 ou 25 anos. E ele 30. Ou 17? Vai saber.
Ninguém.

Até que deu saudades agora. Podia ser ele, não podia? Que acordou no meio da noite e sabe-se lá porque sentiu a minha falta. Justo a minha, que mora aqui comigo há tantos séculos. A falta é minha, mas ele pode tê-la sentido, perfeitamente. Claro que pode.
Não pode?

Quem tá aí?

Ele se lembra de onde eu moro. Acho que ele também viveu aqui por um tempo. Não muito. Pouco tempo. Tempo suficiente pra que ele se lembrasse um dia. Um dia ele teria que contar para os filhos. Contar que um dia ele viveu aqui. Comigo.
Teria filhos?

Bate. Alguém?
Ninguém.

Seria um de seus filhos: O mais velho? Investigando a história de seu pai, que agora havia sido assassinado e tudo o que lhe restara era uma carta que dei ao seu pai quando fiz dezoito anos. Tinha essa mania engraçada. A aniversariante era eu e ainda assim eu escrevia cartas. Mas nunca ouvi que fosse proibido escrever cartas no dia do próprio aniversário. Engraçado é. Ou esquisito. Sei lá. O fato é que fiz dezoito anos. Ou dezenove? E escrevi uma carta só com as melhores palavras. Entreguei-lhe a carta junto com a minha alma. É. Bonita essa história.

É você? Veio buscar as suas coisas afinal?

Fiz questão de que ele esquecesse pertences para que um dia voltasse. Nem que fosse só pra buscar os CDs, livros, agasalhos. Eu o esperaria com o café. Ele reconheceria a casa, quem sabe me reconhecesse também. Eu lhe contaria histórias. Ele ia sorrir e fingir que se lembrava. Eu fingiria que não o amava mais.

Quantos anos?

Não me lembro, 20 ou 25, 17 ou 30, 18 ou 19. Não me lembro não me lembro não me lembro e não esqueço que no dia 27 de outubro de um ano qualquer ele partiu pra um dia entrar de novo pela porta, ouvir as minhas histórias fingidas, e eu fingir que vivi todo esse tempo, que vivi intensamente, vivi tudo, enquanto tudo o que vivi foi espera, longa e infindável espera. Mas fui fiel. Uma vez na vida fui fiel: na espera. Nas história que fingi esquecer, nas fotos que fingi rasgar, nas cartas que misturei com minha alma.

Abro a porta. Uma cesta cheia de migalhas do lado de fora. Me deixaram um presente.

Há 25 anos.

Ou seriam 20?

quinta-feira, maio 08, 2008

ME

Frio no dedo e no tendão do meu pé. Endurecida. Auto-censurável ao extremo. Sou a minha pior crítica. Eu poderia assumir a profissão: crítica de mim mesma. Será que existe algo mais chato? Não seria dar importância demais a mim? "Deixe-me ir, deixe-me ir", digo assim, para um eu que mora aqui. Me deixando em paz eu teria um pouco de horário livre para o lazer, as necessidades fisiológicas, os ócios nossos de cada dia. Falta-me libertar de uma impiedosa habitante de mim. Essa daí que vos fala. Que hora é uma, hora aoutra. Hora eu, noutra hora eu mesma, que me rôo inteira em palavras mal cuidadas. Agora quero que se dane esse cuidado tolo; aprisionada dentro de um ego gigante. E me exponho mesmo. Porque já não dói quase nada. Quando quase tudo ainda doía eu me espremia e saía um pouco de sangue lá do fundinho da alma, onde mora a dor e a delícia. O choro e o gozo e a súplica. Agora ando tendo ataques de riso um pouco incontroláveis e nunca foi tão bom habitar essa casinha, esse corpo cavalo que não é fraco não. Ando descobrindo-me dentro de mim ou dentro de algo que me encobria em mim. Que me escondia de mim. Agora tenho vontade de andar rebolando e chamar a atenção dos transeuntes atarefados. E canto alto mesmo "Tira as mãos de mim! E vê se a febre dele guardada em mim te contagia um pouco!". Contagiada de uma liberdade recente, queria que todos ouvissem, vessem, saíssem pra ver a banda passar cantando coisas de amor. Agora falo de amor e é verdade. Agora sim. Enfim sós.

domingo, março 30, 2008

Ninguém mais lê hoje em dia. Apesar de tudo, eu escrevo. E quem divulgar meu blog ganha um pirulito!

Bob Dylan

Em noites de dormir cedo a insônia me traz as palavras, elas dançam na minha frente enquanto finjo ser Bob Dylan pra me divertir um pouquinho. Quem me dera escrever as palavras de Bob Dylan, palavras terroristas de se escrever, exatas para se cantar desafinadamente Bobdylianamente, deliciosamente, eternamente. Sinto cheiros no ar frio do centro cidade olímpica. Capto algos no ar. Rapto-me a mim e me desfaço disfarçadamente. Digito letras tortas e cheias de amor. E cartas me chegam aos montes perguntando : "Você tem algo a dizer?". Ainda não respondi nenhuma, estão todas arquivadas no armário, por ordem de chegada. Quem sabe eu partisse se fosse menos mundana. Me partiria ao meio: uma parte ia e a outra ficava pra ver como teria sido se fosse diferente. Aí dava pra pesar o que teria valido mais a pena. Ir ou ficar? Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva; foi a Cecília Meireles quem me ensinou isso quando eu era bem pequena. Senti que não tinha passado no exame e que deveria aprender novamente o que havia aprendido. Neste momento o que passa pelo meu cérebro: "devo descer e comprar cigarros e me assumo como alguém que voltou a fumar apesar do juramento para a Deusa ou controlo a minha ansiedade e fuma uma maconha orgânica? ". Opção B. Bem mais sábia.
Vou-me.
Liquidar-me em sonhos.

sábado, março 15, 2008

Ar

Dia frio me transfere pra outro lugar, outro tempo, parece um dia assim que eu já vivi, entre tantos, um dia assim especial e frio, especialmente frio, de casaco e frio na orelha, parece que muda a sensação de vida num dia assim frio. Antes eu fumava. Antes era bom estar frio para fumar. A sensação era boa e cinematográfica. Agora o meu pulmão pede trégua e ar. Pede ar frio e só. Ar frio nos pulmões. Mente alerta, espinha ereta, careta de tudo, preenchida de frio e vida em outro tempo que um dia eu vivi. Agora é assim: em dias frios acho bonito os fumantes na calçada. E vejo se o fogo do cigarro deles me incendeia um pouco.

sábado, março 08, 2008

Ela no telefone falava em monólogo suave, com voz de quem sente dor e tenta disfarçar. Do dia, do calor que fazia, notícias da avó, conselhos da mãe, tropeços na calçada, bandido no farol, trânsito na Rebouças, noite quente, pijamas e novela. Dizia, sem pretender que lhe entendesse aquele do outro lado do fio do telefone. No fundo queria que percebesse a voz que tremulava, a afta que doía, que a vida ardia ultimamente, ela sentia, por fim, saudades. Dizia sem dizer as palavras. Esperava que aquele que um dia tinha conhecido entendesse os silêncios, as pausas, os suspiros, a voz baixa, sem brilho. Se ela o reconhecia? Pouco quase nada. Então enfim, uma pista lhe escapou. Um ruído quase nada, quase mudo, quase completamente abafado, desabafou. "Você tá chorando?" perguntou o sujeito do outro lado da linha do mundo da vida. Ele havia reconhecido o piu do princípio do choro dos olhos dela, que ele nem enxergar enxergava. Mas ouvia. E podia sentir a dor da voz miúda, o gemidinho quase quase, quase choro que viria a desabar cachoeira abaixo, só com a pergunta fatal. "Não é choro" respondeu soluçando. Era dor espremida, esperando só o momento certo de vazar. Era dor prensada, com chumbo forte ou aço duro de roer. Era a pobre da dor que não deixavam viver, que não deixavam vazar, se expressar como queria. E a própria dor já sofria de tão ignorada que tinha sido. Mas desta vez ela vinha firme e convicta, como quem diz: "agora é a minha vez, me deixe viver, me deixe viver!". Deixar viver a dor? Só se for lá longe. Longe no fundo do peito ela se desespremia e galopava violenta, pulmão, língua e lágrimas afora. O outro lá do outro lado ouviu. E sentiu. Nele também doeu, um pouquinho, de leve, bem pouquinho e de leve, mas doeu. Enquanto desabava pensava se para ele também doía. De leve, bem pouquinho. Para ela era o suficiente. Bem pouquinho era um monte de dor para aquele a quem a dor não atingia nunca.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Pra ver a banda passar

Agora ecoa o som de trompetes e de bumbos, a jardineira que estava tão triste se esqueceu e pulou carnaval, a cabeleira do zezé a essa altura já está curtinha, curtinha, e eu pude ver o momento em que os cariocas são mais cariocas do que nunca, me esqueci das pernas curtas e pulei querendo alcançar os confetes que voavam alto sobre as nossas cabeças. Me encharquei, me joguei, me fantasiei de girassóis. Botei capa de chuva de estádio de futebol pra não rasgar a fantasia, pra não borrar a maquiagem, pra não deixar a alegria desestampar do rosto. Cantei até
estourar as amídalas, até voltar chorando, cheia de doença no ônibus. Mas o carnaval é mesmo droga pesada, que quando passa deixa depressão e vontade de mais mais mais.