quarta-feira, maio 30, 2007

fuligem

Sem tapa nem pata na cara áspera, ergueu os olhos suplicantes de perdão.
Ódio e perdão transbordando nos olhos cinzentos que do mundo só conheciam o capim, a cana, aquela fuligem preta que cobre-a depois de ser incendiada e o facão enferrujado.
Golpeava a cana na base com uma força que nem existia mais. Nem ódio mais tinha de tanto acúmulo, de tanto que já engolira.
Engoliu ódio depois de ódio e os olhos agora se tornaram quase inexpressivos.
O perdão vinha da eterna submissão em que vivera. Conviver com a necessidade lhe transformara num homem que se desculpava por existir, por querer espaço neste mundo apertado, por preferir ser chamado simplesmente de Zé (embora o nome fosse bem outro), por detestar a cana e não encontrar outra saída.
As patas pretas lhe deixavam marcas carbonizadas quando ia tirar o suor da cara.
Homem.
Raça triste.
Espécie em extinção.

segunda-feira, maio 28, 2007

soco

Ai que essa vida tava me apertando os ossos os soluços e eu pedindo socorro socorro.

Ela virou-se e foi nitidamente surpreendida por um bêbado perguntando-lhe onde havia nascido. "Aqui mesmo" foi sua resposta. Então ele gritou um grito bêbado: "Eu tô tentando tirar a cachaça da cabeça mas você não me deixa! Eu sou barriga verde...".
Barriga verde... Seria quem nasce no Paraná? Ela não se lembrou. O segurança do local, já bem irritado com o fato de o bêbado ficar chamando-lhe de paraense, pegou nos seus braços com força e arrancou dali o sujeito.
Ele estava tentando tirar a cachaça da cabeça. É perfeitamente compreensível. Ela mesma já tinha vivido situações de "querer tirar a cachaça da cabeça". Sem sucesso - é claro.

Mas então ela pedia um socorro abafado e o que lhe veio foi um sujeito bêbado, aos trapos, gritando confuso. Ela esperava mais. De maus tratos da vida com os seres humanos já estava farta. De andar sozinha por aí também. Farta de ser um ser humano sozinho como todos os outros.

E a vida apertando-lhe, puxando seus cabelos e arranhando as solas dos pés, cuspindo-lhe na cara, e ainda dizendo (tendo a coragem de...!) que a amava.

Mas também ela amava a vida aos trancos e barrancos, aos trapos, nos barracos, nos sopapos que levava na cara. Amava-a em cada pedaço podre de pão, em cada incêndio e inundação. Amava-a sóbria ou caindo de bêbada, amava-a no forró e no botequim mais fuleiro.

E a vida seduzindo: "Não desista... só os fracos é que desistem. Vai mais um pouquinho... mais um pouquinho... mais um pouquinho". E fraca ela não era não e ai de quem dissesse o contrário. E desistir jamais. Então de pouquinho em pouquinho ela amava a vida, amava cada dia de dor, de doença, amava muito todos os dias de sol torrando a cuca, e dias de pinga e dias de aborto, tudo isso ela amava muito.

Como é que fazia pra sair do ciclo dia-a-dia, que parece mais um furacão que envolve todo o mundo dentro e ninguém sai de lá nunca? Ileso - nunca?

Como é que fazia, meu Deus, pra não ver tanta gente judiada por aí?

Ai que essa vida tava me apertando os ossos os soluços e eu pedindo socorro socorro socorro socorro socorro socorro socorro.

É que o socorro tava mais prum SOCO que sai CORRENDO...

quinta-feira, abril 19, 2007

É cada vez mais urgente viver o hoje.
Deixar as memórias irem.
Desapegar, sair sem as bugigangas penduradas, sem carregar consigo a gosma se arrastando atrás e prendendo os pés. Fixando-nos no lugar.
Tem que largar dos fantasmas, deixar que eles próprios sigam o caminho deles e parem de seguir o nosso. Largar o osso.
É urgente viver cada dia como cada dia.
Como cada ser novo que surge de nós junto com esse dia novo.
Página em branco todos os dias.
Cada dia a história muda, por mais rotina que haja, por mais horário que haja, por mais cidade que haja. Muda. O jeito de encostar o pé no chão ao sair da cama é outro todos os dias. O Bom Dia do porteiro tem uma entonação diferente. O jeito de engatar a primeira marcha e a sensação de liberdade de abrir o vidro e cantar "Hey You´ve qot to hide your love away" é diferente da do dia que veio antes. Os Beatles são novos sempre.
De noite, as luzes da cidade me encantam sempre.
E o jeito de andar na rua e olhar os prédios desfilando ao lado é outro.
É preciso encontrar encantamentos dentro dessa intoxicação em que vivemos. Dentro desta tubulação de gases transgenizados, monstrificados, mumificados. Inseridos na incomunicação absoluta de mundos, seres, habitáts, bolhas (in) visíveis.

Tem que tirar a cabeça do balde e respirar como se pela primeira vez. Fazendo isso todos os dias quem sabe a gente aprenda que não se nasce só uma vez na vida. E que as mortes estão por tudo, e que precisa arremessar o sapo na parede pra ver surgir o príncipe.

O meu corpo às vezes grita por dentro e eu não tenho ouvidos para lhe dar. Por dentro, de vez em quando os ouvidos são surdos demais, perdendo tempo demais com os ruídos que vêm de fora. E quando o meu corpo, as minhas entranhas, pulmões, os meus rins e o meu coração tentam se comunicar comigo eu opto pelo remédio e não pela saúde.

Hoje o meu corpo pede acolhimento. Ele me chama e eu o escuto. Hoje sim.

quinta-feira, abril 05, 2007

Nublado

Dia nublado quase branco fica o céu. E eu pálida atrás dos óculos escuros encaro o mundo encolhido no espaço entre o meu carro e o carro da frente. Tem música no fundo. O Rubi canta lindo e me transporta para um lugar diferente dessa avenida. Fico só com meus botões girando a mil e uma velocidades (do carro para os precipícios, para o céu, voando livre, para os infinitos portáteis de todos nós).

Hoje acordamos sem acordar.
Estômago vazio e bitucas no cinzeiro. Pernas se encontrando nuas debaixo do lençol. Pés e peito dos pés e peitos e lábios e cabelos embaraçados. Garrafa de vinho aberta durante a noite deixou o cheiro se espalhar pelo quarto. Ele sussurra que me ama e eu nunca amei tanto assim um ser humano. Amo a cor do olho, o tom da voz, o formato da boca...

Agora, nesse carro entalado entre outros tantos engasgados de escapamento, eu conseguia fechar os olhos e refazer todo o seu corpo na minha cabeça. E sentir as suas mãos nos meus quadris. E os seus olhos nos meus olhos, os meus olhos na sua boca, a sua boca nos meus seios.

É a minha salvação.

Em dias brancos é preciso se ausentar do mundo.

terça-feira, março 27, 2007

Bêbada das palavras. Já é madrugada acorda acorda acorda acorda. E tudo o que vem na mente emaranhada são cacos de músicas partidas e misturadas com pensamento. Ouço o estilhaçar de bemóis e sustenidos, de fás, sis e rés. Geme de loucura e de torpor. Queria saber escrever com a minha própria cabeça. Chega de música. Preciso do silêncio que se torna escasso neste centro de cidade grande, imensa e omissa. Sinto-me mais uma na boiada do trem. Nunca quis ser só mais uma. (Acho que ninguém de fato o quer). O que eu quis foi partir naquele momento mas não poderia. (Nunca se pode nada). Queria poder tudo. Qualquer coisa. Me virar do avesso e exibir as minhas tripas. Era isso o que eu queria com os meus textos e com o teatro.

sexta-feira, março 02, 2007

Pensando em mudar o nome do blog para "Entredentes". Que, pensando bem, é o oposto de "Estrada Afora". Veremos. Pode ser uma fase, uma fase e só ( e assim espero, sinceramente...)
Quanto mais se quer escrever mais inacessíveis tornam-se as palavras: sinto que fogem-me quando as preciso ardentemente. Assim como os pontos, os dois pontos, as reticências, os travessões. É uma debandada ruidosa. Galopam para quilômetros de distância e escondem-se lá onde a mente não chega e os dedos não datilografam. O fato é que era preciso escrever e na ausência das palavras eu o fazia assim mesmo, tentando mostrar-me autosuficiente no quesito linguagem.
Meu nome é formado por letras. Tem S. Tem F. (e por sinal, nunca gostei muito do som do F em SoFia, mas fazer o quê?).

Fazer o quê se em questão de segundos tudo o que restava era eu e o que de mim restara: as minhas letras não-sonoras, os meus pecados e tristezas, as longas e silenciosas reticências. Tudo formado por letras. O Z em tristeZa é o que torna triste a palavra. Assim como é o X em ineXorável quem traduz o seu significante. E o I em Sofia é o que sempre fez parecer alegre o meu nome, embora agora, no que restava de mim, esse sentimento não se mostrava tão nítido. No que restava de mim (bem ali, no meio do mundo, do caminho, do soluço) moravam algumas lacunas, lembranças e cargas elétricas. Nem palavra tinha mais ali no meio. Muito menos palavra, já que foram elas as primeiras a me abandonarem, ingratas que são. Porque eu jamais as abandonaria. Jamais.

Porque deveria ser proibido escrever quando se está sentindo assim: Nem raso nem fundo. Nem cá nem lá. Nem gato nem peixe.

Porque fica chato de ler (e quem disse que me importo?). (e quem disse que não me importo?).

É. Deveria ser simplesmente proibido. (e então seria ainda mais delicioso!).

Escrever sempre lhe fora delicioso, desde menina pequenina mirradinha ingenuazinha até... bem, até hoje (menina ainda, e pequenina e etc etc).
E as palavras lhe fugiam desde então e com elas foi aprendendo a paciência de esperar pela palavra certa no lugar certo no instante certo. Claro que essas são raras e preciosíssimas, mas não é sempre que elas precisam aparecer. Às vezes elas vêm, como quem-não-quer-nada, de mansinho e vagarinho, até que plim!, dão o ar de sua graça trazendo consigo todo um sabor ao texto que se fazia quase mórbido.

Quase mórbida e a palavra já era tão detestável apenas sonoramente. Como pode, não? Uma palavra possuir um som tão absolutamente repugnante? (vide a própria: repugnante, blah!).

A questão é que não quero me fazer clara nem compreensível e eis aí a razão pela qual as palavras me deixaram, todas. Simplesmente reneguei o motivo principal de suas pobres e cruéis existências: a comunicação. A partir do momento em que não quero, em absoluto, comunicar-me, pluf!, todas desaparecem (espertas elas...).

E eu farei o mesmo.

(queria tanto poder pingar o colírio alucinógeno do Zé Simão...)

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Cegos

Estranha e nua sentei-me na mesa de um café. Não percebi as minhas unhas pintadas (vermelho) e mal notei o cego que tateava as minhas medidas, ao lado. Se ele me queria, não entendi. E também não o quis, não ali, não assim nua e densa. Era preciso estar leve como pluma leve pousa, como abelha em girassóis, era preciso o frescor da abelha no momento incerto. Instante raro de perceber sem ser notada era o que eu buscava por detrás dos meus óculos escuros. Ócios. Era como se eles me tornassem invisível: ali detrás podia ver a sinceridade da cidade escondida, aquilo que não se diz, sequer se pensa. Eu pensei tanto quanto um cão ao abanar o rabo e passei batido em brancas nuvens. Esqueci. E continuei ali. Nua. Estampadamente nua. Rodeada por cinzeiros e cigarros apagados, cafés fortes descendo pela goela fraca e empapuçada. Empapucei-me cedo. Então não havia mais espaço para o mundo dentro de mim.

Perdas e danos

Preciso precioso tempo e palavras perdidas à toa pelo ar conden-concentrado. Ouvido absolutamente límpido para não causar interferências largas. Passos de bêbado caolho entrecruzando a guia da calçada destruída. Em ruínas, cegos caminham caminho noite e vida afora, no escuro do dia que brilha sem se ver. Vendemo-nos em gatilhos e estouros sem som. Procura-se calor entre pernas moles que não firmam carinho, estagnam. Estagnamo-nos no amor, na desculpa de um companheiro tão solitário quanto nós mesmos. Solidões que se encontram, se penetram e não preenchem-se. Olha lá como eles caminham sem se notar. Tocam-se as mãos mas o áspero da pele morta não se faz perceber. Tocar sem sentir o outro é sintomático de uma civilização em cadências quietas e acobertadas. É preciso o amor tanto quanto o vazio de dentro fundo que nos move. A arte diminui, à medida em que não se vê as cores lá fora, o dia passando, a rua em eterno movimento de pés-anté-pés, de bundas justas que desfilam um rebolado intrigante. É preciso a arte tanto quanto o amanhecer infinito, quanto a pele na outra pele, tanto quanto escurecer acende os vagalumes.

sábado, dezembro 16, 2006

Não há nada mais melancólico do que a voz e a gaita de Bob Dylan.
Mora toda uma beleza na melancolia; nas almas que mergulham livres pelos abismos nossos de cada dia. Nas entranhas e estranhezas da casa, da cidade ruídos, desse mundo grande que a gente desconhece.
Encontros afora, voamos incertos rumo ao que nos parece mais certo. De escolhas e atalhos. De atarmo-nos e desentrelaçarmo-nos do que nos atrai e desconcerta.
A infância que nos abandona cedo: quando menos percebi já me escorria o sangue que escorrega agora veias e impulsos, saltos e buracos.
É que me dói um pouco essa coisa vida. Me foi dada assim, sem que eu pedisse a ninguém. Mas agora a imploro como quem reza. Procuro-a dentro e fora, e às vezes encontro migalhas tão preciosas que dá vontade de chorar.

And it´s all over now, Baby Blue.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

número dois

Correu. E correu tanto que se esqueceu da direção correta. Correu sem dó. Correu como quem se despede, se desmede, se desvencilha.

Atravessar cipós partindo-os ao meio ou carregando um pouquinho deles consigo tornou-se a atividade favorita. Assim como desenterrar minhocas ou encontrar ninhos com ovos dentro! Era gostoso, ela achava. Mesmo que fosse assim, sozinha e só, sem dó, sem lá, sem cá. Meio cá e lá, capengando ao pé de montanhas e capins. Os pés de cana tinha aos montes também (desses ela gostava menos, sabe-se lá porque). E cavou por cenouras e lavou-as da terra nos riachos.

Chega de ruralidade.

sábado, novembro 11, 2006

Fuga número um

Como se partisse para não voltar, olhou as horas no relógio pela última vez. E escovou os dentes com calma. Em cima embaixo atrás, fazendo movimentos arredondados do jeito que a dentista ensinou quando era criança. Tinha sido criança e poucas memórias deste tempo ainda lhe pertenciam. O resto tinha ficado dentro de cada casa que morou, de cada cidade, cada coleguinha de escola, cada boneca Barbie, cada primo, de cada doce de leite.
Agora a idéia era partir novamente. E se fosse preciso deixar as lembranças trancafiadas ali mesmo, o faria. Sairia apenas com a mala das roupas e alguns utensílios especiais (é engraçado como alguns objetos são fundamentais para seguirmos viagem). Até uma foto ou outra ela levaria consigo. "Se um dia as saudades apertarem doídas, é uma solução", pensou.
Olhou o quarto como quem se despede do que um dia foi, mas não houve apego: afeto um dia houve. Fechou a porta de casa e saiu deixando o cãozinho branco esperando por um breve tchau, pelo menos. Nem se virou.

A estrada era dessas que não se vê o fim. Mas em algum lugar ela tinha que dar, já que é esta a função das estradas afora (ligar uma ponta na outra ponta). E a menina caminhou paciente no início, depois faminta e mau humorada, então alegre e exausta, e pessimista do meio para o final. Depois deitou-se um pouco no meio daquela estrada (sem carros, sem vacas, sem bicicletas), e colocou os pés para cima. Fez movimentos de quem caminha pelo céu e cantarolou algumas canções que ocupavam-lhe a memória. Remoeu remorsos e roeu as unhas. Depois colocou-se firme sobre os pés pequenos e seguiu viagem.

Recolheu pedrinhas e lavou-as.
Encontrou um cavalo que batizou de Lulu, mas logo o deixou para trás, pastando calmo no seu ritmo-cavalo.
Pulou rios. "Os riozinhos parecem cortes em carne viva da terra roxa. No lugar do sangue, a água vivinha que lhes escorre pelas veias."- pensou. Ela mesma andava sangrando por aqueles dias, deixando rastros finos pela terra.
Alimentou macacos e passarinhos. Cuidou de pombas feridas por aqueles que as atiravam com suas espingardas de chumbo, por pura diversão.
"O homem é mais profundo que os animais", pensou.

Não viu homem naquela estrada que agora escurecia afoita. E cansada da própria voz, resolveu calar-se. Sentia falta de conversa de bar, de violão, de gente falando alto sem se escutar, das ruas intranquilas da cidade que um dia havia lhe abrigado. Agora a luz que tinha era a da lanterna pequena que carregava consigo. O resto era breu. Uma caverna infinita que se tornava o mundo naquelas noites sem lua.

Quando amanhecia ela já punha-se a caminhar novamente. E o fim, quanto mais perto mais longe se tornava.

( a continuar...)

quinta-feira, outubro 26, 2006

avesso

Quando entrei a casa estava revirada.
O estrago tinha sido grande e aparentemente irreparável. Irreversível.

Parei um instante.
Porta-retratos em cacos no chão. Paredes pichadas de tinta preta, escorrendo ainda; vasos jogados e terra esparramada; espelhos desfigurados e panelas sem tampa; cinzeiros esvoaçantes e bitucas por todo o carpete. Minhas fotos queimadas. Meus armários esvaziados.
Sentei-me, quieta, num pedaço de mesa que restara. Estava sã. E salva.

Por onde andei? Por quanto tempo estive fora?

Quis chorar mas não pude perder tempo com este tipo de auto-piedade.
Quis desistir.
Quis rir e dançar pelo carpete da casa detruída.
Quis gritar para os vizinhos. Quis ajuda.

Mas não movi um dedo, quase nem respirei. Fiquei encolhida sobre o teco de mesa pensando em como eu pude ter deixado as coisas chegarem a este ponto.
Rabisquei letras num papel e recitei palavras para ninguém. Passei a rabiscar a parede, molhando o dedo na tinta ainda fresca e esparramando para os pedaços que haviam ficado em branco. Desenhei ilhas, florestas, sóis.

Remei pela sala e fui me reencontrando em cada canto. Lembrei da posição usual dos móveis. Ri da posição usual dos móveis. Ri da minha antiga posição dentro daquela casa, dentro da disposiçao dos móveis, dos cômodos, dos cantos. Naquela época eu andava desviando. Eu gostava de fumar perto das janelas e agora eu acendia o cigarro no meio daquilo que um dia foi sala.
E agora era o que bastava.

domingo, outubro 15, 2006

- E sabe do que mais?!! - sussurrou soltando a fumaça entre os dentes. Falava entre dentes. Rangia-os, quase.
- Hum? - perguntou-lhe, displicente.
- Eu cansei. Cansei de alimentar os pássaros todos os dias. De regar as plantas que você comprou e nunca, nunca, nem sequer olhou para ver se permaneciam vivas. Se hoje estão verdes e radiantes é porque eu as criei. E você jamais me agradeceu por regar as suas plantas idiotas. Eu nem gosto de plantas.
- Nem eu, tampouco. Só comprei aqueles vasos para ver se trazia alguma alegria para essa casa, que já andava quase mórbida...
- Boa essa palavra. Mórbida. É como tenho me sentido vivendo com você. - apagou o baseado, sem passá-lo para Martim.
- Você sempre teve esse humor um tanto peculiar, Ana. Não venha me culpar pelas suas melancolias que já estavam aí bem antes de eu aportar nessas terras áridas.
- "Terras áridas"?! É você quem assassina as plantas e eu é que sou árida?
- Não, não. Se você continuar falando nesse tom que eu não suporto, eu vou dormir, agora mesmo.
- Não na minha cama.
- A cama é minha, Ana.
- Nunca!
- Sempre foi... - disse Martim, tentando acender a ponta que havia restado no cinzeiro.

Ana desistiu do embate por um instante. Olhou ao redor, a sala mobiliada por uma junção desorganizada e sem muito estilo dos móveis dele com os dela. A mesa que herdara de sua avó contrastava comicamente com as cadeiras modernas que Martim havia achado num brechó, baratíssimas. O sofá velho, dele. A luminária que pagou com esforço, dela. A vitrola dele. E os discos, a maioria, dela. Ao perceber-se pensando espontaneamente na divisão dos bens e assobiando "A Rita levou meu sorriso..." , arrepiaram-lhe os pelos da nuca e lhe subiu uma aflição pela espinha.
Chegara a hora fatídica?

- No que você está pensando? - perguntou Martim, que desde que se conheceram, tinha a mania de lhe fazer essa pergunta desagradável nos piores momentos possíveis.
- Estou com medo. - respondeu fechando os olhos para que ele não percebesse o seu choro contido.
- Já? - perguntou, tentando uma aproximação desajeitada e não muito carinhosa.
- Ainda...
E virou-se de costas, e fez um esforço grande para não chorar até que não pôde mais, e libertou todas as lágrimas que havia contido para parecer forte ao lado daquele homem forte com quem vivera por quase quatro anos.

- Isso. Chorar é bom, Ana. - e cantarolou inoportunamente "Chora, disfarça e chora. Todo o pranto tem hora...", tentando consolá-la.

- Cartola agora não, Martim. É muita maldade. Chega de crueldade comigo. Eu queria ter sido feliz com você. Não queria ter que chorar nunca. Muito menos na sua frente. - soluçou.

Martim não soube reagir. Afastou-se de Ana, foi até a janela e enfiou a cabeça para fora, como quando criança, passeando de carro com o pai.
- Pode chorar agora. Eu não olho. Prometo.

Ana fumou. E soluçou e fumou e soluçou e levantou e tremeu e bateu o pé forte no chão e rodopiou sem sair do lugar e se contorceu e levou as mãos à barriga e apertou as próprias coxas. Pausa.


Olhos abertos com dificuldade de tanto choro que tinha escapado, Ana começava a andar na direção de Martim, que de fato não se virara nem um instantinho para ver o espetáculo de sua dor (a dor é quase grotesca, animalesca). Ele lhe tinha sido fiel. Ele sempre lhe fora fiel. Mas nunca regou os vasos, nem alimentou os pássaros e nem cuidou daquele amor tão fértil que ela sentia por ele. Amor de mulher entregue, devota quase. Olhou-o no fundo dos olhos e da alma como que agradecendo por todo o tempo que haviam vivido juntos, naquela casa de móveis e plantas e dores-amores reprimidos. Agora era ele quem sentia medo, percebeu.

Ana foi embora.

E levou, no sorriso dela, meu assunto. Levou junto com ela o que me é de direito, arrancou-me do peito e tem mais...

domingo, outubro 01, 2006

Proparoxítona

Vida
me espera áspera
que venho sórdida
e escrevo póstuma


ou semi-lúcida

Espere-me no vão do momento-vôo

Que eu vou

Vida

me esqueça trágica
ou me beije ácida
que lhe sonho fétida

andando-te estúpida mente

...

Me escorra líquida
quando não mais puder máquina
Para, quem sabe?, lástima
No instante ínfimo


fino fino

Crepuscúlo

sábado, setembro 23, 2006

Im publicável

Fumar café e tomar cigarros. Nostalgi cafeí cotinas.

Cafetina e libidinosa: ando estranhamente virginiana- ascendente-touro.
De desamarrar dos cadarços, desamorosamente dolorida.

Noite chuva à beça nas cabeças harmônicamente doentes. Musical.

Deixando a vida andar com as próprias pernas, crescidinha que está, agora na segunda década nascimento.

Quantas bandas? Quantos vasos vazios, frases sem cor? Anominal.

Anônima.

Animal.

quinta-feira, setembro 21, 2006

O Elevador

com a colaboração imprescindível de Cristiano Gouveia

Afrouxou o nó da gravata que já o sufocava havia um bom tempo:

dezessete anos, mais ou menos.

Elevador. Térreo.

Encostou a testa no espelho do elevador como quem se abandona e o corpo pendeu vencido pela gravidade dos dias de vento seco e ar abafado que acompanhvam aquela semana.

Terceiro andar.

Triste e seca semana de agosto.

De fato, o mês do cachorro louco nunca havia lhe trazido benefícios, não que fosse supersticioso, o sujeito.

Dependurado pela testa colada no espelho, o elevador levava-o rumo ao apartamento que dividia com um papagaio e um peixe solitário, ambos instalados na lavanderia - assim faziam-se companhia, mutuamente (embora não se possa imaginar que tipo de relação pode estabelecer-se entre espécies tão distantes na escala evolutiva).

Nesta hora do dia, tudo o que se permitia a fazer era deixar-se encostar num dos cantos do elevador após ter libertado o pescoço do nó da gravata, fechar os olhos e não pensar em nada. Absolutamente. Décimo quarto andar era o tempo exato que tinha para se recompor de todo um dia de neurônios, discussões, mediocridades. E como eram bons aqueles vinte segundos! Deliciosa a sensação de deixar-se pender, a cabeça pesar, os olhos irem se acomodando e os pensamentos subindo lá para o teto. Ficava o ruído das engrenagens, estalos no elevador que precisava ser consertado diariamente.

Sexto andar.

A porta abre antes do tempo.

Uma mulher que é só perfume desfila elevador adentro, sobre os saltos-agulhas espremendo-lhe os pés. O cheiro entra de maneira avassaladora e o homem sente-se como se de repente tivesse cheirado um litro de lança-perfume fora de época; salta os olhos tentando entender. Desbaratinado, olhos abertos com dificuldade, custa a tomar consciência de que não estava mais solitário no seu trajeto térreo-apartamento - havia agora uma mulher plantada ao seu lado, de cara para o espelho examinando cuidadosamente as novas rugas que lhe vinham despontando na testa, embaixo dos olhos, ao redor da boca. "Ah, mais essa agora!", era o que ele pensava que ela poderia estar pensando naquele instante. Também o mês de agosto para ela nunca tinha sido muito fortuito, adivinhou.
- Ah, tá subindo?! - perguntou a mulher, com ar entediado.
- Sim. Décimo quarto.
- Hum. - bufou. Perfume doce, um casaco preto que lhe caía estranhamente bem e os olhos contornados por um lápis forte. A sensação peculiar de que era a primeira e última vez que a veria por ali. Não devia ser moradora. Seria a amante de algum velho babão? Uma prostituta de luxo? Ou até mesmo a amiga de uma moradora que também sempre havia chamado a sua atenção dentro do elevador.

Nono andar.

Engraçada era a relação que ele estabelecia com os moradores daquele prédio. Com timidíssimos "ois" e "tchaus", de atravessar a portaria e não ver nunca mais. Parecia que as pessoas simplesmente se dissolviam, se desintegravam cidade afora, e só voltavam a ter consistência ali, naquele espaço gélido, íntimo, que é o elevador. De luz fria e espelho escancarando os defeitos.

Envolvente aquela mulher que atravessava sua vida de dias sequencialmente iguais, numa noite que deveria ser como as outras todas.

Mas ali ele permaneceu, imóvel, olhos fechados, cabeça encontro de espelho. Pra deixar crescer outros sentidos, ver passear o cheiro, o quase-tato da pele da mulher sem nome, estrangeira, sombra, nenhuma mulher, ouvir sons, as batidas cardíacas aceleradas do coração daquela, misturadas com o seu, descompassado.

Décimo primeiro andar.

Quase pode sentir sua mão entre dedos. Quase um convite para o 14º andar, para o apartamento, para o sofá, depois a cama, depois cozinha, mesa, banheiro, loucos, encorpados um no outro. Pra ficar ali, na história, pra se contar ao papagaio sua aventura, beber todas e contar ao peixe certas borbulhas de certo amor.

Décimo segundo andar.

Já podia sentir o gosto do pós sexo, de olhos fechados dentro de certo elevador, dentro de certa mulher, nenhuma mulher, estrangeira. E pensamentos rarefeitos no teto, cheirando pele, suor, fim de um dia imperfeito de gravata apertada quase, quase transformado em noite delírio.

Décimo quarto.

Abre os olhos, quase em agradecimento ao que aquela mulher, estrangeira, proporcionou. Que não estava. Não era. Nenhuma mulher. Sonhos só. Só o “pim!” do elevador gritando aos ouvidos o momento de descer Vagar corredor chave porta trinco abrir e fechar descalçar calçado roupa toalha chuveiro aspirina cama.

Cama para novo encontro com nenhuma mulher.Tratar de assuntos de elevador...

“Sonhos sonhos são.”

domingo, setembro 10, 2006

Até o Fim

Boemia que me suga, leva-me a alma e transporta-a ao paraíso dos que pretendem fugir de si mesmos. Pulmão doído. Tempos nebulosos, esses.
Acordo com sol e durmo nesta embriaguez faminta, insaciável, impaciente que ando. De pulos, aos trancos, sem paciência para o farol vermelho, nem pudor para cantar desafinado no meio da rua. Apegada a novas pessoas e a tristes velhos hábitos. De encher e esvaziar, de não se sustentar, de correr e perder o fôlego rapidinho.
Boemia que me suga, leve-me para passear nos teus braços peçonhentos, sob o céu da chuva ácida, sobre o arco-íris da felicidade clandestina dos outdoors. Me leve para correr nas calçadas vazias e remotas, na selva fria da cidade mórbida, moribunda. Tire-me, morta-viva que tenho estado, deste limbo agridoce enjoativo. Vomite-me para que me renasça limpa, sem angústia que reste para contar a história. A minha história começa quando eu me desamarrei sem querer ser desatada. Quando fui descartada sem mais. E é difícil ir fundo nas coisas porque é difícil relacionar-se com tudo isso que nos cerca. Porque é difícil se doar, deixar doer, roer o osso, triturá-lo em pedacinhos de liquidificador. É difícil deixar-se reduzir, quase impossível.

terça-feira, setembro 05, 2006

Manifesto-desabafo-maniqueísta (eu sei)-a-favor-da-arte

O problema é que eles estavam despreocupados demais, e numa sociedade como aquela, era preciso manter-se produtivo a todo o instante. Lá o ócio não era muito bem visto, muito menos este tal ócio criativo de que falam. O importante era estar servindo ao sistema vigente, não deixando nunca que a grande máquina parasse de girar. Era preciso alimentá-la incessantemente, do próprio suor, das próprias noites mal dormidas e dos próprios filhos mal alimentados. Era importante inscrever-se no Exército ao completar os belos e fortes 18 anos e jurar pela própria bandeira defender aquela pátria que tão bem os acolhia. Lá, quando não se vinha de berço bom e farto, era tudo muito mais difícil, e então as horas dormidas eram menores ainda, e os filhos mais e mais mal alimentados. Também ficava difícil de morar em lugar agradável. O mais aconselhável, em casos de baixa renda, era construir a sua própria casa própria na força do muque e, se muito, com alguns companheiros e tijolos. Senão era papelão mesmo. Ou então podia ser até banco de praça para dormir, amamentar os filhos, fazer as necessidades. Comer, lá, era luxo. Coisa para poucos mesmo. Estudar então, nem se fale.Aos que não se enquadravam muito bem no tal regime, dava-se automaticamente alguns nomes facilmente identificáveis, como louco, marginal, trombadinha, drogado, hippie. Assim ficava mais fácil de controlar. É que lá, quando se dava nome às coisas, era possível exercer uma coisa chamada poder sobre elas. É. Tinha essa coisa chamada poder, lá. Era uma coisa que corrompia os que a possuíam, e ela sempre acabava por estar na mão de poucos. Por coincidência ou não, era sempre na mão daqueles que tinham, em maior quantidade uma coisa chamada dinheiro, que calhava de estar esse tal poder. Não era uma regra absoluta, mas naquele lugar, dinheiro e poder eram quase sinônimos. E o mais engraçado é que essa coisa de poder, dinheiro e tudo o mais, calhava de estar na mão de uma tal minoria privilegiada da sociedade. É. Engraçado isso.Enfim.Eles - aqueles aos quais me referia no início do texto- haviam nascido sob este sistema, e por sorte ou não, inseriam-se nesta tal minoria privilegiada. Portanto tinham frequentado escolas em que se pagava para obter educação (sim, pagavam como se paga um produto qualquer). Foram bem alimentados quando crianças, dormiram em camas quentinhas, fizeram aulas de natação, balé clássico, inglês, futebol, violão. Ganharam carros aos 18 anos e escaparam do exército. Cursaram faculdade pública. Viajaram. Fumaram maconha e tomaram vinhos bons nas belas festas de família. Enfim. Eles. Era uma menina e um menino. Irmãos. Criados juntos, mesma mãe, mesmo pai, mesmo leite, mesmo esperma, mesma cor dos olhos. Apesar de tudo eram bem diferentes.Ele desde cedo integrou grupos de discussão marxista, socialista, leninista. Pensou em pegar em armas e fazer a tal máquina parar de girar à força, embora essa coisa de armas fosse parte fundamental da engrenhagem, e ela rapidamente as absorveria. Sem contar que as armas da máquina eram maiores e mais fumegantes que a dos riquinhos revolucionários. Pois é. Ele passava o dia a falar de socialismo e, ao chegar em casa, a empregada havia sempre preparado para ele um prato diferente.Ela descobriu o teatro muito cedo, não se sabe bem como, mas o que ocorreu foi uma súbita identificação. Súbita e profunda. Quando percebeu que fazia parte daqueles que haviam sido excluídos do grande sistema vigente, era tarde demais. Mas junto com esta descoberta, veio também a de que este tal teatro, e esta coisa chamada arte que havia naquele lugar, eram coisas muito poderosas, prontas para voltarem-se contra a máquina a qualquer instante, se não fossem tão sufocadas pela falta de dinheiro. Era muito perigoso dar dinheiro a este tipo de trabalho. Sim, porque a própria essência da arte possuía seus valores fixados em elementos bem divergentes daqueles predominantes. E mesmo porque, era fácil convencer o resto da população de que a arte estava em segundo plano, e afinal de contas fazia sentido, já que a maior parte da população estava antes preocupada em conseguir sobreviver. Muito mais tranquilo era deixar essas pessoas preocupadas e ocupadas o bastante na tentativa de sobreviver num sistema que dependia delas mas as oprimia- simultaneamente, do que deixar espaço para que se preenchessem de teatro, música, literatura. E aí está mais uma coisa que mantinha-se na mão de uma tal minoria privilegiada, e que portanto, estava fadada a correr atrás do próprio rabo, ad infinitum. Mas esta era uma outra tática daquela engrenhagem poderosíssima. Esgotar a arte nela mesma, sufocá-la, "proteger" dela a população domesticada. Para estes eles haviam reservado um brinde especial chamado cultura de massa, para não quebrar com a velha e funcional regra do panis et circences. Amansar a massa para domesticá-la cada dia mais.De qualquer maneira havia uma coisa até meio de outro plano chamada fé a qual ela se apegava. Uma fé quase que imprescindível para se viver em tempos tão fúnebres, cheios de más intenções. Uma fé ardida de que o novo deveria vir pela arte e em especial pelo teatro, de que era lá que a população-massa-de-manobra talvez encontrasse e resgatasse um sentido maior do que era o estar vivo, fazer parte deste mundo, conviver com outras pessoas, conhecer-se a si mesmo, desalienar-se, motivar-se, alimentar-se de algo que vai além da vida e da morte do dia-a-dia. Numa situação em que estar vivo era morrer um pouco todos os dias. E ir murchando. Secando. Até ficar como asfalto, como tijolo, como banco da praça.Contra o acinzentamento contínuo e crescente, estava a arte. E era com ela que todos deveriam confrontar-se, pelo menos uma vez, durante a dura caminhada nesta estrada escura.

quinta-feira, agosto 31, 2006

orgia

Os corpos nus e jogados, manchados de vinho tinto, preenchiam bem o curto espaço da quitenete. Se chegasse alguém de fora naquele momento pensaria ter ocorrido uma chacina, das bem sanguinárias, ali dentro. Na verdade, era bonito de ver aquela cena. Uma composição quase perfeita de corpo largado, bituca e taça de vinho manchada.
Mais nenhum cigarro aceso e todos acometidos por um cansaço insuportável, os corpos não mais dançavam nem se tocavam, agora era só sono que preenchia
o espaço. A luz entrava forte pela janela grande da quitenete sem cortinas e um dos corpinhos começou a querer despertar. Foi vestindo calcinha, calça, sapato, enquanto o frio lhe maltratava os ossos. Tropeçou numa garrafa que fez com que os outros levantassem, rápidos. Entre eles, um silêncio quase absoluto, não fosse a vida real acontecendo lá fora à todo vapor. Mas nos ouvidos ainda ecoavam risadas, música, tosses e gemidos da noitada e tanto. Alguma risadinha sonolenta ainda se mostrou, mas as palavras não se faziam necessárias naquele momento de procurar a meia, vestir a blusa cheirando a cigarro e maconha, tropeçar no cinzeiro, sentindo o gosto desagradável e inevitável da ressaca. O fato é que amanhecia, e toda aquela luz, junto com o sono mal dormido, pareciam varrer dali qualquer dose de romantismo e embriaguez que ainda pudesse ter restado. Havia até um certo incômodo em olhar para os outros.
Os corpos agora vestidos e amassados se dirigiam para a porta, e da porta para o elevador, e do elevador para a rua. Rua.
Vida voltando ao normal , de uma só vez, sem dó.
Há cinco minutos eles eram corpos nus, amontoados e embebidos de vinho.
Agora ele era publicitário, ela atendente de telemarketing, a outra garçonete e o outro escritor. Alguns tchaus e beijinhos comportados.
Os caminhos rapidamente se dividiram, cada um indo cumprir o papel que lhe cabia na sociedade.
Frio doído de amanhecer, rua cheia, e ela seguiu desviando, a pé, até a sua casa, com a frase dita na noite anterior ecoando nos seus pensamentos: "Você me é perigosamente familiar."