terça-feira, outubro 23, 2007
Fixo
Ai minha cabeça dói. Cheia de idéia fixa que fixa idéia ruim na cabeça que dói. Que se fixe em outro lugar essa idéia fixa cheia na minha cabeça cheia de idéia fixa que nem espaço pra pensar sobra na cabeça cheia. Lotada. Esgotada de idéia fixa que se fixa na cabeça. Vá. Me deixe fixa em minhas idéias próprias em meus estudos em minhas criações. Vá-se embora daqui idéia carangueja, aracnídea, idéia de uma figa. Se aloje em outro apartamento, alugue outra cabeça vazia que se devote à crucifixos de idéias fixas. Circulando idéia cruel. Se retire da minha cabeça que já cabeceia demais vida afora e tem doído desde que você se alojou e me fixou no lugar-concreto. Quero espaço para o abstrato da idéia nova. Venham saltitando suas idéinhas, venham à mim, sim, venham à mim!
terça-feira, julho 24, 2007
(ex)Citação
"(...) Não pensem, pelo amor de Deus, que meus sonhos eróticos inaugurais eram povoados por fios, válvulas e outros componentes eletrônicos, mas a mulher sonhada, a mulher expectativa era muito sonora. Não que eu fosse comê-la com o ouvido, mas o som foi a primeira mulher que, acordando meus ouvidos disseminados pelo corpo, inaugurou em mim a carne como residência de prazeres(...)"
do fantástico Tom Zé, para variar...
do fantástico Tom Zé, para variar...
sábado, julho 21, 2007
Meio-fio
Ela - Preciso.
Ele - Precisa?
Ela - Ardo.
Ele - Ando árduo...
Ela - Sei. Me dói isso.
Ele - Em mim mais.
Ela - Mais?
Ele - Muito.
Ela - Me deixe aqui no meio fio.
Ele - Vamos embora.
Ela - Vá.
Ele - Tarda.
Ela - Ardo-me. Deixe-me.
Ele - Até quando vai arder?
Ela - Quando casar sara.
Ele - Só se for comigo.
Ela - Vá.
Ele - Vem?
Ela - Implore!
Ele - Não me canse.
Ela - Me quer mesmo?
Ele - Às vezes menos.
Ela - Comigo o mesmo.
Ele - Assim, a vida.
Ela - Uma pena.
Ele - Tem pena da vida?
Ela - Mais dela que de mim.
Ele - Comigo o oposto.
Ela - Acontece. Dói mais, né?
Ele - Arde de doer.
Ela - Rói.
Ele - Prefiro quando penso menos. Você está me cansando.
Ela - Então vá. Logo. Não quero me perder de ti.
Ele - Tão cedo ainda.
Ela - Seus olhos secaram.
Ele - Árduos.
Ela - Sei. Dói?
Ele - Acostuma.
Ela - Vá. Antes que me canse de ti.
Ele - Tão cedo?
Ela - E tão novos...
Ele - Nós?
Ela - Os meus olhos. E já não suportam o que vêem, tantas vezes.
Ele - Acostuma.
Ela - Já sei. Já sei.
Ele - Vem.
Ela - Suplique.
Ele - Suplico-te.
Ela - Mais.
Ele - Suplico-te mais.
Ela - E mais...
Ele - E mais e mais e mais e mais e mais e te suplico mais.
Ela - Já basta, seu falso. Vamos. Fingiremos a noite toda. Topa?
Ele - Já vamos tarde.
Ele - Precisa?
Ela - Ardo.
Ele - Ando árduo...
Ela - Sei. Me dói isso.
Ele - Em mim mais.
Ela - Mais?
Ele - Muito.
Ela - Me deixe aqui no meio fio.
Ele - Vamos embora.
Ela - Vá.
Ele - Tarda.
Ela - Ardo-me. Deixe-me.
Ele - Até quando vai arder?
Ela - Quando casar sara.
Ele - Só se for comigo.
Ela - Vá.
Ele - Vem?
Ela - Implore!
Ele - Não me canse.
Ela - Me quer mesmo?
Ele - Às vezes menos.
Ela - Comigo o mesmo.
Ele - Assim, a vida.
Ela - Uma pena.
Ele - Tem pena da vida?
Ela - Mais dela que de mim.
Ele - Comigo o oposto.
Ela - Acontece. Dói mais, né?
Ele - Arde de doer.
Ela - Rói.
Ele - Prefiro quando penso menos. Você está me cansando.
Ela - Então vá. Logo. Não quero me perder de ti.
Ele - Tão cedo ainda.
Ela - Seus olhos secaram.
Ele - Árduos.
Ela - Sei. Dói?
Ele - Acostuma.
Ela - Vá. Antes que me canse de ti.
Ele - Tão cedo?
Ela - E tão novos...
Ele - Nós?
Ela - Os meus olhos. E já não suportam o que vêem, tantas vezes.
Ele - Acostuma.
Ela - Já sei. Já sei.
Ele - Vem.
Ela - Suplique.
Ele - Suplico-te.
Ela - Mais.
Ele - Suplico-te mais.
Ela - E mais...
Ele - E mais e mais e mais e mais e mais e te suplico mais.
Ela - Já basta, seu falso. Vamos. Fingiremos a noite toda. Topa?
Ele - Já vamos tarde.
quarta-feira, julho 11, 2007
silencio
Pedir silêncio aos pensamentos é tarefa árdua. Ouço-os rangendo, martelando, indo e vindo num fluxo intenso, pesando, roendo, partindo-me entre mente e corpo.
Escrever é uma tentativa de silenciar o cérebro. As palavras invisíveis ganham corpo, as idéias se materializam, os fantasmas da mente se tornam nítidos - bem na nossa frente. Fica mais fácil saber contra quem é a guerra e no final das contas é contra o meu próprio pensamento que luto ardilosamente. Preciso expulsá-lo para poder receber o que vem do momento, para escutar o meu corpo, para me relacionar com o mundo. É respirar e sentir que o que possuímos de concreto, muitas vezes, é só a nossa coluna vertebral - o que já dá um grande trabalho perceber.
A minha cabeça dói de pensar demais. A coluna dói se a abandono. Dia cinzento é um pé no saco e eu já começo a me desviar do tema. Porque é tão difícil se manter no tema? Os pensamentos são muito mais rápidos do que os dedos digitando e nos escapa uma infinidade de coisas que não conseguem ser escritas. Continuam no plano da abstração e rapidinho fogem de nós. Como os sonhos - em menos de um segundo nos escorrem pelos dedos e o que resta é uma estranha sensação de que muita coisa aconteceu por aqui, mas eu devia estar tão bêbada que não me lembro de nada! Os sonhos são como o estado de torpor e às vezes passam todo o dia convivendo conosco - hora lembramos de um pedacinho, hora o esquecemos por completo.
É preciso que eu me liberte de mim mesma se eu quiser voar de alguma maneira.
Escrever é uma tentativa de silenciar o cérebro. As palavras invisíveis ganham corpo, as idéias se materializam, os fantasmas da mente se tornam nítidos - bem na nossa frente. Fica mais fácil saber contra quem é a guerra e no final das contas é contra o meu próprio pensamento que luto ardilosamente. Preciso expulsá-lo para poder receber o que vem do momento, para escutar o meu corpo, para me relacionar com o mundo. É respirar e sentir que o que possuímos de concreto, muitas vezes, é só a nossa coluna vertebral - o que já dá um grande trabalho perceber.
A minha cabeça dói de pensar demais. A coluna dói se a abandono. Dia cinzento é um pé no saco e eu já começo a me desviar do tema. Porque é tão difícil se manter no tema? Os pensamentos são muito mais rápidos do que os dedos digitando e nos escapa uma infinidade de coisas que não conseguem ser escritas. Continuam no plano da abstração e rapidinho fogem de nós. Como os sonhos - em menos de um segundo nos escorrem pelos dedos e o que resta é uma estranha sensação de que muita coisa aconteceu por aqui, mas eu devia estar tão bêbada que não me lembro de nada! Os sonhos são como o estado de torpor e às vezes passam todo o dia convivendo conosco - hora lembramos de um pedacinho, hora o esquecemos por completo.
É preciso que eu me liberte de mim mesma se eu quiser voar de alguma maneira.
quarta-feira, maio 30, 2007
fuligem
Sem tapa nem pata na cara áspera, ergueu os olhos suplicantes de perdão.
Ódio e perdão transbordando nos olhos cinzentos que do mundo só conheciam o capim, a cana, aquela fuligem preta que cobre-a depois de ser incendiada e o facão enferrujado.
Golpeava a cana na base com uma força que nem existia mais. Nem ódio mais tinha de tanto acúmulo, de tanto que já engolira.
Engoliu ódio depois de ódio e os olhos agora se tornaram quase inexpressivos.
O perdão vinha da eterna submissão em que vivera. Conviver com a necessidade lhe transformara num homem que se desculpava por existir, por querer espaço neste mundo apertado, por preferir ser chamado simplesmente de Zé (embora o nome fosse bem outro), por detestar a cana e não encontrar outra saída.
As patas pretas lhe deixavam marcas carbonizadas quando ia tirar o suor da cara.
Homem.
Raça triste.
Espécie em extinção.
Ódio e perdão transbordando nos olhos cinzentos que do mundo só conheciam o capim, a cana, aquela fuligem preta que cobre-a depois de ser incendiada e o facão enferrujado.
Golpeava a cana na base com uma força que nem existia mais. Nem ódio mais tinha de tanto acúmulo, de tanto que já engolira.
Engoliu ódio depois de ódio e os olhos agora se tornaram quase inexpressivos.
O perdão vinha da eterna submissão em que vivera. Conviver com a necessidade lhe transformara num homem que se desculpava por existir, por querer espaço neste mundo apertado, por preferir ser chamado simplesmente de Zé (embora o nome fosse bem outro), por detestar a cana e não encontrar outra saída.
As patas pretas lhe deixavam marcas carbonizadas quando ia tirar o suor da cara.
Homem.
Raça triste.
Espécie em extinção.
segunda-feira, maio 28, 2007
soco
Ai que essa vida tava me apertando os ossos os soluços e eu pedindo socorro socorro.
Ela virou-se e foi nitidamente surpreendida por um bêbado perguntando-lhe onde havia nascido. "Aqui mesmo" foi sua resposta. Então ele gritou um grito bêbado: "Eu tô tentando tirar a cachaça da cabeça mas você não me deixa! Eu sou barriga verde...".
Barriga verde... Seria quem nasce no Paraná? Ela não se lembrou. O segurança do local, já bem irritado com o fato de o bêbado ficar chamando-lhe de paraense, pegou nos seus braços com força e arrancou dali o sujeito.
Ele estava tentando tirar a cachaça da cabeça. É perfeitamente compreensível. Ela mesma já tinha vivido situações de "querer tirar a cachaça da cabeça". Sem sucesso - é claro.
Mas então ela pedia um socorro abafado e o que lhe veio foi um sujeito bêbado, aos trapos, gritando confuso. Ela esperava mais. De maus tratos da vida com os seres humanos já estava farta. De andar sozinha por aí também. Farta de ser um ser humano sozinho como todos os outros.
E a vida apertando-lhe, puxando seus cabelos e arranhando as solas dos pés, cuspindo-lhe na cara, e ainda dizendo (tendo a coragem de...!) que a amava.
Mas também ela amava a vida aos trancos e barrancos, aos trapos, nos barracos, nos sopapos que levava na cara. Amava-a em cada pedaço podre de pão, em cada incêndio e inundação. Amava-a sóbria ou caindo de bêbada, amava-a no forró e no botequim mais fuleiro.
E a vida seduzindo: "Não desista... só os fracos é que desistem. Vai mais um pouquinho... mais um pouquinho... mais um pouquinho". E fraca ela não era não e ai de quem dissesse o contrário. E desistir jamais. Então de pouquinho em pouquinho ela amava a vida, amava cada dia de dor, de doença, amava muito todos os dias de sol torrando a cuca, e dias de pinga e dias de aborto, tudo isso ela amava muito.
Como é que fazia pra sair do ciclo dia-a-dia, que parece mais um furacão que envolve todo o mundo dentro e ninguém sai de lá nunca? Ileso - nunca?
Como é que fazia, meu Deus, pra não ver tanta gente judiada por aí?
Ai que essa vida tava me apertando os ossos os soluços e eu pedindo socorro socorro socorro socorro socorro socorro socorro.
É que o socorro tava mais prum SOCO que sai CORRENDO...
Ela virou-se e foi nitidamente surpreendida por um bêbado perguntando-lhe onde havia nascido. "Aqui mesmo" foi sua resposta. Então ele gritou um grito bêbado: "Eu tô tentando tirar a cachaça da cabeça mas você não me deixa! Eu sou barriga verde...".
Barriga verde... Seria quem nasce no Paraná? Ela não se lembrou. O segurança do local, já bem irritado com o fato de o bêbado ficar chamando-lhe de paraense, pegou nos seus braços com força e arrancou dali o sujeito.
Ele estava tentando tirar a cachaça da cabeça. É perfeitamente compreensível. Ela mesma já tinha vivido situações de "querer tirar a cachaça da cabeça". Sem sucesso - é claro.
Mas então ela pedia um socorro abafado e o que lhe veio foi um sujeito bêbado, aos trapos, gritando confuso. Ela esperava mais. De maus tratos da vida com os seres humanos já estava farta. De andar sozinha por aí também. Farta de ser um ser humano sozinho como todos os outros.
E a vida apertando-lhe, puxando seus cabelos e arranhando as solas dos pés, cuspindo-lhe na cara, e ainda dizendo (tendo a coragem de...!) que a amava.
Mas também ela amava a vida aos trancos e barrancos, aos trapos, nos barracos, nos sopapos que levava na cara. Amava-a em cada pedaço podre de pão, em cada incêndio e inundação. Amava-a sóbria ou caindo de bêbada, amava-a no forró e no botequim mais fuleiro.
E a vida seduzindo: "Não desista... só os fracos é que desistem. Vai mais um pouquinho... mais um pouquinho... mais um pouquinho". E fraca ela não era não e ai de quem dissesse o contrário. E desistir jamais. Então de pouquinho em pouquinho ela amava a vida, amava cada dia de dor, de doença, amava muito todos os dias de sol torrando a cuca, e dias de pinga e dias de aborto, tudo isso ela amava muito.
Como é que fazia pra sair do ciclo dia-a-dia, que parece mais um furacão que envolve todo o mundo dentro e ninguém sai de lá nunca? Ileso - nunca?
Como é que fazia, meu Deus, pra não ver tanta gente judiada por aí?
Ai que essa vida tava me apertando os ossos os soluços e eu pedindo socorro socorro socorro socorro socorro socorro socorro.
É que o socorro tava mais prum SOCO que sai CORRENDO...
quinta-feira, abril 19, 2007
É cada vez mais urgente viver o hoje.
Deixar as memórias irem.
Desapegar, sair sem as bugigangas penduradas, sem carregar consigo a gosma se arrastando atrás e prendendo os pés. Fixando-nos no lugar.
Tem que largar dos fantasmas, deixar que eles próprios sigam o caminho deles e parem de seguir o nosso. Largar o osso.
É urgente viver cada dia como cada dia.
Como cada ser novo que surge de nós junto com esse dia novo.
Página em branco todos os dias.
Cada dia a história muda, por mais rotina que haja, por mais horário que haja, por mais cidade que haja. Muda. O jeito de encostar o pé no chão ao sair da cama é outro todos os dias. O Bom Dia do porteiro tem uma entonação diferente. O jeito de engatar a primeira marcha e a sensação de liberdade de abrir o vidro e cantar "Hey You´ve qot to hide your love away" é diferente da do dia que veio antes. Os Beatles são novos sempre.
De noite, as luzes da cidade me encantam sempre.
E o jeito de andar na rua e olhar os prédios desfilando ao lado é outro.
É preciso encontrar encantamentos dentro dessa intoxicação em que vivemos. Dentro desta tubulação de gases transgenizados, monstrificados, mumificados. Inseridos na incomunicação absoluta de mundos, seres, habitáts, bolhas (in) visíveis.
Tem que tirar a cabeça do balde e respirar como se pela primeira vez. Fazendo isso todos os dias quem sabe a gente aprenda que não se nasce só uma vez na vida. E que as mortes estão por tudo, e que precisa arremessar o sapo na parede pra ver surgir o príncipe.
O meu corpo às vezes grita por dentro e eu não tenho ouvidos para lhe dar. Por dentro, de vez em quando os ouvidos são surdos demais, perdendo tempo demais com os ruídos que vêm de fora. E quando o meu corpo, as minhas entranhas, pulmões, os meus rins e o meu coração tentam se comunicar comigo eu opto pelo remédio e não pela saúde.
Hoje o meu corpo pede acolhimento. Ele me chama e eu o escuto. Hoje sim.
Deixar as memórias irem.
Desapegar, sair sem as bugigangas penduradas, sem carregar consigo a gosma se arrastando atrás e prendendo os pés. Fixando-nos no lugar.
Tem que largar dos fantasmas, deixar que eles próprios sigam o caminho deles e parem de seguir o nosso. Largar o osso.
É urgente viver cada dia como cada dia.
Como cada ser novo que surge de nós junto com esse dia novo.
Página em branco todos os dias.
Cada dia a história muda, por mais rotina que haja, por mais horário que haja, por mais cidade que haja. Muda. O jeito de encostar o pé no chão ao sair da cama é outro todos os dias. O Bom Dia do porteiro tem uma entonação diferente. O jeito de engatar a primeira marcha e a sensação de liberdade de abrir o vidro e cantar "Hey You´ve qot to hide your love away" é diferente da do dia que veio antes. Os Beatles são novos sempre.
De noite, as luzes da cidade me encantam sempre.
E o jeito de andar na rua e olhar os prédios desfilando ao lado é outro.
É preciso encontrar encantamentos dentro dessa intoxicação em que vivemos. Dentro desta tubulação de gases transgenizados, monstrificados, mumificados. Inseridos na incomunicação absoluta de mundos, seres, habitáts, bolhas (in) visíveis.
Tem que tirar a cabeça do balde e respirar como se pela primeira vez. Fazendo isso todos os dias quem sabe a gente aprenda que não se nasce só uma vez na vida. E que as mortes estão por tudo, e que precisa arremessar o sapo na parede pra ver surgir o príncipe.
O meu corpo às vezes grita por dentro e eu não tenho ouvidos para lhe dar. Por dentro, de vez em quando os ouvidos são surdos demais, perdendo tempo demais com os ruídos que vêm de fora. E quando o meu corpo, as minhas entranhas, pulmões, os meus rins e o meu coração tentam se comunicar comigo eu opto pelo remédio e não pela saúde.
Hoje o meu corpo pede acolhimento. Ele me chama e eu o escuto. Hoje sim.
quinta-feira, abril 05, 2007
Nublado
Dia nublado quase branco fica o céu. E eu pálida atrás dos óculos escuros encaro o mundo encolhido no espaço entre o meu carro e o carro da frente. Tem música no fundo. O Rubi canta lindo e me transporta para um lugar diferente dessa avenida. Fico só com meus botões girando a mil e uma velocidades (do carro para os precipícios, para o céu, voando livre, para os infinitos portáteis de todos nós).
Hoje acordamos sem acordar.
Estômago vazio e bitucas no cinzeiro. Pernas se encontrando nuas debaixo do lençol. Pés e peito dos pés e peitos e lábios e cabelos embaraçados. Garrafa de vinho aberta durante a noite deixou o cheiro se espalhar pelo quarto. Ele sussurra que me ama e eu nunca amei tanto assim um ser humano. Amo a cor do olho, o tom da voz, o formato da boca...
Agora, nesse carro entalado entre outros tantos engasgados de escapamento, eu conseguia fechar os olhos e refazer todo o seu corpo na minha cabeça. E sentir as suas mãos nos meus quadris. E os seus olhos nos meus olhos, os meus olhos na sua boca, a sua boca nos meus seios.
É a minha salvação.
Em dias brancos é preciso se ausentar do mundo.
Hoje acordamos sem acordar.
Estômago vazio e bitucas no cinzeiro. Pernas se encontrando nuas debaixo do lençol. Pés e peito dos pés e peitos e lábios e cabelos embaraçados. Garrafa de vinho aberta durante a noite deixou o cheiro se espalhar pelo quarto. Ele sussurra que me ama e eu nunca amei tanto assim um ser humano. Amo a cor do olho, o tom da voz, o formato da boca...
Agora, nesse carro entalado entre outros tantos engasgados de escapamento, eu conseguia fechar os olhos e refazer todo o seu corpo na minha cabeça. E sentir as suas mãos nos meus quadris. E os seus olhos nos meus olhos, os meus olhos na sua boca, a sua boca nos meus seios.
É a minha salvação.
Em dias brancos é preciso se ausentar do mundo.
terça-feira, março 27, 2007
Bêbada das palavras. Já é madrugada acorda acorda acorda acorda. E tudo o que vem na mente emaranhada são cacos de músicas partidas e misturadas com pensamento. Ouço o estilhaçar de bemóis e sustenidos, de fás, sis e rés. Geme de loucura e de torpor. Queria saber escrever com a minha própria cabeça. Chega de música. Preciso do silêncio que se torna escasso neste centro de cidade grande, imensa e omissa. Sinto-me mais uma na boiada do trem. Nunca quis ser só mais uma. (Acho que ninguém de fato o quer). O que eu quis foi partir naquele momento mas não poderia. (Nunca se pode nada). Queria poder tudo. Qualquer coisa. Me virar do avesso e exibir as minhas tripas. Era isso o que eu queria com os meus textos e com o teatro.
sexta-feira, março 02, 2007
Quanto mais se quer escrever mais inacessíveis tornam-se as palavras: sinto que fogem-me quando as preciso ardentemente. Assim como os pontos, os dois pontos, as reticências, os travessões. É uma debandada ruidosa. Galopam para quilômetros de distância e escondem-se lá onde a mente não chega e os dedos não datilografam. O fato é que era preciso escrever e na ausência das palavras eu o fazia assim mesmo, tentando mostrar-me autosuficiente no quesito linguagem.
Meu nome é formado por letras. Tem S. Tem F. (e por sinal, nunca gostei muito do som do F em SoFia, mas fazer o quê?).
Fazer o quê se em questão de segundos tudo o que restava era eu e o que de mim restara: as minhas letras não-sonoras, os meus pecados e tristezas, as longas e silenciosas reticências. Tudo formado por letras. O Z em tristeZa é o que torna triste a palavra. Assim como é o X em ineXorável quem traduz o seu significante. E o I em Sofia é o que sempre fez parecer alegre o meu nome, embora agora, no que restava de mim, esse sentimento não se mostrava tão nítido. No que restava de mim (bem ali, no meio do mundo, do caminho, do soluço) moravam algumas lacunas, lembranças e cargas elétricas. Nem palavra tinha mais ali no meio. Muito menos palavra, já que foram elas as primeiras a me abandonarem, ingratas que são. Porque eu jamais as abandonaria. Jamais.
Porque deveria ser proibido escrever quando se está sentindo assim: Nem raso nem fundo. Nem cá nem lá. Nem gato nem peixe.
Porque fica chato de ler (e quem disse que me importo?). (e quem disse que não me importo?).
É. Deveria ser simplesmente proibido. (e então seria ainda mais delicioso!).
Escrever sempre lhe fora delicioso, desde menina pequenina mirradinha ingenuazinha até... bem, até hoje (menina ainda, e pequenina e etc etc).
E as palavras lhe fugiam desde então e com elas foi aprendendo a paciência de esperar pela palavra certa no lugar certo no instante certo. Claro que essas são raras e preciosíssimas, mas não é sempre que elas precisam aparecer. Às vezes elas vêm, como quem-não-quer-nada, de mansinho e vagarinho, até que plim!, dão o ar de sua graça trazendo consigo todo um sabor ao texto que se fazia quase mórbido.
Quase mórbida e a palavra já era tão detestável apenas sonoramente. Como pode, não? Uma palavra possuir um som tão absolutamente repugnante? (vide a própria: repugnante, blah!).
A questão é que não quero me fazer clara nem compreensível e eis aí a razão pela qual as palavras me deixaram, todas. Simplesmente reneguei o motivo principal de suas pobres e cruéis existências: a comunicação. A partir do momento em que não quero, em absoluto, comunicar-me, pluf!, todas desaparecem (espertas elas...).
E eu farei o mesmo.
(queria tanto poder pingar o colírio alucinógeno do Zé Simão...)
Meu nome é formado por letras. Tem S. Tem F. (e por sinal, nunca gostei muito do som do F em SoFia, mas fazer o quê?).
Fazer o quê se em questão de segundos tudo o que restava era eu e o que de mim restara: as minhas letras não-sonoras, os meus pecados e tristezas, as longas e silenciosas reticências. Tudo formado por letras. O Z em tristeZa é o que torna triste a palavra. Assim como é o X em ineXorável quem traduz o seu significante. E o I em Sofia é o que sempre fez parecer alegre o meu nome, embora agora, no que restava de mim, esse sentimento não se mostrava tão nítido. No que restava de mim (bem ali, no meio do mundo, do caminho, do soluço) moravam algumas lacunas, lembranças e cargas elétricas. Nem palavra tinha mais ali no meio. Muito menos palavra, já que foram elas as primeiras a me abandonarem, ingratas que são. Porque eu jamais as abandonaria. Jamais.
Porque deveria ser proibido escrever quando se está sentindo assim: Nem raso nem fundo. Nem cá nem lá. Nem gato nem peixe.
Porque fica chato de ler (e quem disse que me importo?). (e quem disse que não me importo?).
É. Deveria ser simplesmente proibido. (e então seria ainda mais delicioso!).
Escrever sempre lhe fora delicioso, desde menina pequenina mirradinha ingenuazinha até... bem, até hoje (menina ainda, e pequenina e etc etc).
E as palavras lhe fugiam desde então e com elas foi aprendendo a paciência de esperar pela palavra certa no lugar certo no instante certo. Claro que essas são raras e preciosíssimas, mas não é sempre que elas precisam aparecer. Às vezes elas vêm, como quem-não-quer-nada, de mansinho e vagarinho, até que plim!, dão o ar de sua graça trazendo consigo todo um sabor ao texto que se fazia quase mórbido.
Quase mórbida e a palavra já era tão detestável apenas sonoramente. Como pode, não? Uma palavra possuir um som tão absolutamente repugnante? (vide a própria: repugnante, blah!).
A questão é que não quero me fazer clara nem compreensível e eis aí a razão pela qual as palavras me deixaram, todas. Simplesmente reneguei o motivo principal de suas pobres e cruéis existências: a comunicação. A partir do momento em que não quero, em absoluto, comunicar-me, pluf!, todas desaparecem (espertas elas...).
E eu farei o mesmo.
(queria tanto poder pingar o colírio alucinógeno do Zé Simão...)
quinta-feira, dezembro 21, 2006
Cegos
Estranha e nua sentei-me na mesa de um café. Não percebi as minhas unhas pintadas (vermelho) e mal notei o cego que tateava as minhas medidas, ao lado. Se ele me queria, não entendi. E também não o quis, não ali, não assim nua e densa. Era preciso estar leve como pluma leve pousa, como abelha em girassóis, era preciso o frescor da abelha no momento incerto. Instante raro de perceber sem ser notada era o que eu buscava por detrás dos meus óculos escuros. Ócios. Era como se eles me tornassem invisível: ali detrás podia ver a sinceridade da cidade escondida, aquilo que não se diz, sequer se pensa. Eu pensei tanto quanto um cão ao abanar o rabo e passei batido em brancas nuvens. Esqueci. E continuei ali. Nua. Estampadamente nua. Rodeada por cinzeiros e cigarros apagados, cafés fortes descendo pela goela fraca e empapuçada. Empapucei-me cedo. Então não havia mais espaço para o mundo dentro de mim.
Perdas e danos
Preciso precioso tempo e palavras perdidas à toa pelo ar conden-concentrado. Ouvido absolutamente límpido para não causar interferências largas. Passos de bêbado caolho entrecruzando a guia da calçada destruída. Em ruínas, cegos caminham caminho noite e vida afora, no escuro do dia que brilha sem se ver. Vendemo-nos em gatilhos e estouros sem som. Procura-se calor entre pernas moles que não firmam carinho, estagnam. Estagnamo-nos no amor, na desculpa de um companheiro tão solitário quanto nós mesmos. Solidões que se encontram, se penetram e não preenchem-se. Olha lá como eles caminham sem se notar. Tocam-se as mãos mas o áspero da pele morta não se faz perceber. Tocar sem sentir o outro é sintomático de uma civilização em cadências quietas e acobertadas. É preciso o amor tanto quanto o vazio de dentro fundo que nos move. A arte diminui, à medida em que não se vê as cores lá fora, o dia passando, a rua em eterno movimento de pés-anté-pés, de bundas justas que desfilam um rebolado intrigante. É preciso a arte tanto quanto o amanhecer infinito, quanto a pele na outra pele, tanto quanto escurecer acende os vagalumes.
sábado, dezembro 16, 2006
Não há nada mais melancólico do que a voz e a gaita de Bob Dylan.
Mora toda uma beleza na melancolia; nas almas que mergulham livres pelos abismos nossos de cada dia. Nas entranhas e estranhezas da casa, da cidade ruídos, desse mundo grande que a gente desconhece.
Encontros afora, voamos incertos rumo ao que nos parece mais certo. De escolhas e atalhos. De atarmo-nos e desentrelaçarmo-nos do que nos atrai e desconcerta.
A infância que nos abandona cedo: quando menos percebi já me escorria o sangue que escorrega agora veias e impulsos, saltos e buracos.
É que me dói um pouco essa coisa vida. Me foi dada assim, sem que eu pedisse a ninguém. Mas agora a imploro como quem reza. Procuro-a dentro e fora, e às vezes encontro migalhas tão preciosas que dá vontade de chorar.
And it´s all over now, Baby Blue.
Mora toda uma beleza na melancolia; nas almas que mergulham livres pelos abismos nossos de cada dia. Nas entranhas e estranhezas da casa, da cidade ruídos, desse mundo grande que a gente desconhece.
Encontros afora, voamos incertos rumo ao que nos parece mais certo. De escolhas e atalhos. De atarmo-nos e desentrelaçarmo-nos do que nos atrai e desconcerta.
A infância que nos abandona cedo: quando menos percebi já me escorria o sangue que escorrega agora veias e impulsos, saltos e buracos.
É que me dói um pouco essa coisa vida. Me foi dada assim, sem que eu pedisse a ninguém. Mas agora a imploro como quem reza. Procuro-a dentro e fora, e às vezes encontro migalhas tão preciosas que dá vontade de chorar.
And it´s all over now, Baby Blue.
segunda-feira, dezembro 11, 2006
número dois
Correu. E correu tanto que se esqueceu da direção correta. Correu sem dó. Correu como quem se despede, se desmede, se desvencilha.
Atravessar cipós partindo-os ao meio ou carregando um pouquinho deles consigo tornou-se a atividade favorita. Assim como desenterrar minhocas ou encontrar ninhos com ovos dentro! Era gostoso, ela achava. Mesmo que fosse assim, sozinha e só, sem dó, sem lá, sem cá. Meio cá e lá, capengando ao pé de montanhas e capins. Os pés de cana tinha aos montes também (desses ela gostava menos, sabe-se lá porque). E cavou por cenouras e lavou-as da terra nos riachos.
Chega de ruralidade.
Atravessar cipós partindo-os ao meio ou carregando um pouquinho deles consigo tornou-se a atividade favorita. Assim como desenterrar minhocas ou encontrar ninhos com ovos dentro! Era gostoso, ela achava. Mesmo que fosse assim, sozinha e só, sem dó, sem lá, sem cá. Meio cá e lá, capengando ao pé de montanhas e capins. Os pés de cana tinha aos montes também (desses ela gostava menos, sabe-se lá porque). E cavou por cenouras e lavou-as da terra nos riachos.
Chega de ruralidade.
sábado, novembro 11, 2006
Fuga número um
Como se partisse para não voltar, olhou as horas no relógio pela última vez. E escovou os dentes com calma. Em cima embaixo atrás, fazendo movimentos arredondados do jeito que a dentista ensinou quando era criança. Tinha sido criança e poucas memórias deste tempo ainda lhe pertenciam. O resto tinha ficado dentro de cada casa que morou, de cada cidade, cada coleguinha de escola, cada boneca Barbie, cada primo, de cada doce de leite.
Agora a idéia era partir novamente. E se fosse preciso deixar as lembranças trancafiadas ali mesmo, o faria. Sairia apenas com a mala das roupas e alguns utensílios especiais (é engraçado como alguns objetos são fundamentais para seguirmos viagem). Até uma foto ou outra ela levaria consigo. "Se um dia as saudades apertarem doídas, é uma solução", pensou.
Olhou o quarto como quem se despede do que um dia foi, mas não houve apego: afeto um dia houve. Fechou a porta de casa e saiu deixando o cãozinho branco esperando por um breve tchau, pelo menos. Nem se virou.
A estrada era dessas que não se vê o fim. Mas em algum lugar ela tinha que dar, já que é esta a função das estradas afora (ligar uma ponta na outra ponta). E a menina caminhou paciente no início, depois faminta e mau humorada, então alegre e exausta, e pessimista do meio para o final. Depois deitou-se um pouco no meio daquela estrada (sem carros, sem vacas, sem bicicletas), e colocou os pés para cima. Fez movimentos de quem caminha pelo céu e cantarolou algumas canções que ocupavam-lhe a memória. Remoeu remorsos e roeu as unhas. Depois colocou-se firme sobre os pés pequenos e seguiu viagem.
Recolheu pedrinhas e lavou-as.
Encontrou um cavalo que batizou de Lulu, mas logo o deixou para trás, pastando calmo no seu ritmo-cavalo.
Pulou rios. "Os riozinhos parecem cortes em carne viva da terra roxa. No lugar do sangue, a água vivinha que lhes escorre pelas veias."- pensou. Ela mesma andava sangrando por aqueles dias, deixando rastros finos pela terra.
Alimentou macacos e passarinhos. Cuidou de pombas feridas por aqueles que as atiravam com suas espingardas de chumbo, por pura diversão.
"O homem é mais profundo que os animais", pensou.
Não viu homem naquela estrada que agora escurecia afoita. E cansada da própria voz, resolveu calar-se. Sentia falta de conversa de bar, de violão, de gente falando alto sem se escutar, das ruas intranquilas da cidade que um dia havia lhe abrigado. Agora a luz que tinha era a da lanterna pequena que carregava consigo. O resto era breu. Uma caverna infinita que se tornava o mundo naquelas noites sem lua.
Quando amanhecia ela já punha-se a caminhar novamente. E o fim, quanto mais perto mais longe se tornava.
( a continuar...)
Agora a idéia era partir novamente. E se fosse preciso deixar as lembranças trancafiadas ali mesmo, o faria. Sairia apenas com a mala das roupas e alguns utensílios especiais (é engraçado como alguns objetos são fundamentais para seguirmos viagem). Até uma foto ou outra ela levaria consigo. "Se um dia as saudades apertarem doídas, é uma solução", pensou.
Olhou o quarto como quem se despede do que um dia foi, mas não houve apego: afeto um dia houve. Fechou a porta de casa e saiu deixando o cãozinho branco esperando por um breve tchau, pelo menos. Nem se virou.
A estrada era dessas que não se vê o fim. Mas em algum lugar ela tinha que dar, já que é esta a função das estradas afora (ligar uma ponta na outra ponta). E a menina caminhou paciente no início, depois faminta e mau humorada, então alegre e exausta, e pessimista do meio para o final. Depois deitou-se um pouco no meio daquela estrada (sem carros, sem vacas, sem bicicletas), e colocou os pés para cima. Fez movimentos de quem caminha pelo céu e cantarolou algumas canções que ocupavam-lhe a memória. Remoeu remorsos e roeu as unhas. Depois colocou-se firme sobre os pés pequenos e seguiu viagem.
Recolheu pedrinhas e lavou-as.
Encontrou um cavalo que batizou de Lulu, mas logo o deixou para trás, pastando calmo no seu ritmo-cavalo.
Pulou rios. "Os riozinhos parecem cortes em carne viva da terra roxa. No lugar do sangue, a água vivinha que lhes escorre pelas veias."- pensou. Ela mesma andava sangrando por aqueles dias, deixando rastros finos pela terra.
Alimentou macacos e passarinhos. Cuidou de pombas feridas por aqueles que as atiravam com suas espingardas de chumbo, por pura diversão.
"O homem é mais profundo que os animais", pensou.
Não viu homem naquela estrada que agora escurecia afoita. E cansada da própria voz, resolveu calar-se. Sentia falta de conversa de bar, de violão, de gente falando alto sem se escutar, das ruas intranquilas da cidade que um dia havia lhe abrigado. Agora a luz que tinha era a da lanterna pequena que carregava consigo. O resto era breu. Uma caverna infinita que se tornava o mundo naquelas noites sem lua.
Quando amanhecia ela já punha-se a caminhar novamente. E o fim, quanto mais perto mais longe se tornava.
( a continuar...)
quinta-feira, outubro 26, 2006
avesso
Quando entrei a casa estava revirada.
O estrago tinha sido grande e aparentemente irreparável. Irreversível.
Parei um instante.
Porta-retratos em cacos no chão. Paredes pichadas de tinta preta, escorrendo ainda; vasos jogados e terra esparramada; espelhos desfigurados e panelas sem tampa; cinzeiros esvoaçantes e bitucas por todo o carpete. Minhas fotos queimadas. Meus armários esvaziados.
Sentei-me, quieta, num pedaço de mesa que restara. Estava sã. E salva.
Por onde andei? Por quanto tempo estive fora?
Quis chorar mas não pude perder tempo com este tipo de auto-piedade.
Quis desistir.
Quis rir e dançar pelo carpete da casa detruída.
Quis gritar para os vizinhos. Quis ajuda.
Mas não movi um dedo, quase nem respirei. Fiquei encolhida sobre o teco de mesa pensando em como eu pude ter deixado as coisas chegarem a este ponto.
Rabisquei letras num papel e recitei palavras para ninguém. Passei a rabiscar a parede, molhando o dedo na tinta ainda fresca e esparramando para os pedaços que haviam ficado em branco. Desenhei ilhas, florestas, sóis.
Remei pela sala e fui me reencontrando em cada canto. Lembrei da posição usual dos móveis. Ri da posição usual dos móveis. Ri da minha antiga posição dentro daquela casa, dentro da disposiçao dos móveis, dos cômodos, dos cantos. Naquela época eu andava desviando. Eu gostava de fumar perto das janelas e agora eu acendia o cigarro no meio daquilo que um dia foi sala.
E agora era o que bastava.
O estrago tinha sido grande e aparentemente irreparável. Irreversível.
Parei um instante.
Porta-retratos em cacos no chão. Paredes pichadas de tinta preta, escorrendo ainda; vasos jogados e terra esparramada; espelhos desfigurados e panelas sem tampa; cinzeiros esvoaçantes e bitucas por todo o carpete. Minhas fotos queimadas. Meus armários esvaziados.
Sentei-me, quieta, num pedaço de mesa que restara. Estava sã. E salva.
Por onde andei? Por quanto tempo estive fora?
Quis chorar mas não pude perder tempo com este tipo de auto-piedade.
Quis desistir.
Quis rir e dançar pelo carpete da casa detruída.
Quis gritar para os vizinhos. Quis ajuda.
Mas não movi um dedo, quase nem respirei. Fiquei encolhida sobre o teco de mesa pensando em como eu pude ter deixado as coisas chegarem a este ponto.
Rabisquei letras num papel e recitei palavras para ninguém. Passei a rabiscar a parede, molhando o dedo na tinta ainda fresca e esparramando para os pedaços que haviam ficado em branco. Desenhei ilhas, florestas, sóis.
Remei pela sala e fui me reencontrando em cada canto. Lembrei da posição usual dos móveis. Ri da posição usual dos móveis. Ri da minha antiga posição dentro daquela casa, dentro da disposiçao dos móveis, dos cômodos, dos cantos. Naquela época eu andava desviando. Eu gostava de fumar perto das janelas e agora eu acendia o cigarro no meio daquilo que um dia foi sala.
E agora era o que bastava.
domingo, outubro 15, 2006
- E sabe do que mais?!! - sussurrou soltando a fumaça entre os dentes. Falava entre dentes. Rangia-os, quase.
- Hum? - perguntou-lhe, displicente.
- Eu cansei. Cansei de alimentar os pássaros todos os dias. De regar as plantas que você comprou e nunca, nunca, nem sequer olhou para ver se permaneciam vivas. Se hoje estão verdes e radiantes é porque eu as criei. E você jamais me agradeceu por regar as suas plantas idiotas. Eu nem gosto de plantas.
- Nem eu, tampouco. Só comprei aqueles vasos para ver se trazia alguma alegria para essa casa, que já andava quase mórbida...
- Boa essa palavra. Mórbida. É como tenho me sentido vivendo com você. - apagou o baseado, sem passá-lo para Martim.
- Você sempre teve esse humor um tanto peculiar, Ana. Não venha me culpar pelas suas melancolias que já estavam aí bem antes de eu aportar nessas terras áridas.
- "Terras áridas"?! É você quem assassina as plantas e eu é que sou árida?
- Não, não. Se você continuar falando nesse tom que eu não suporto, eu vou dormir, agora mesmo.
- Não na minha cama.
- A cama é minha, Ana.
- Nunca!
- Sempre foi... - disse Martim, tentando acender a ponta que havia restado no cinzeiro.
Ana desistiu do embate por um instante. Olhou ao redor, a sala mobiliada por uma junção desorganizada e sem muito estilo dos móveis dele com os dela. A mesa que herdara de sua avó contrastava comicamente com as cadeiras modernas que Martim havia achado num brechó, baratíssimas. O sofá velho, dele. A luminária que pagou com esforço, dela. A vitrola dele. E os discos, a maioria, dela. Ao perceber-se pensando espontaneamente na divisão dos bens e assobiando "A Rita levou meu sorriso..." , arrepiaram-lhe os pelos da nuca e lhe subiu uma aflição pela espinha.
Chegara a hora fatídica?
- No que você está pensando? - perguntou Martim, que desde que se conheceram, tinha a mania de lhe fazer essa pergunta desagradável nos piores momentos possíveis.
- Estou com medo. - respondeu fechando os olhos para que ele não percebesse o seu choro contido.
- Já? - perguntou, tentando uma aproximação desajeitada e não muito carinhosa.
- Ainda...
E virou-se de costas, e fez um esforço grande para não chorar até que não pôde mais, e libertou todas as lágrimas que havia contido para parecer forte ao lado daquele homem forte com quem vivera por quase quatro anos.
- Isso. Chorar é bom, Ana. - e cantarolou inoportunamente "Chora, disfarça e chora. Todo o pranto tem hora...", tentando consolá-la.
- Cartola agora não, Martim. É muita maldade. Chega de crueldade comigo. Eu queria ter sido feliz com você. Não queria ter que chorar nunca. Muito menos na sua frente. - soluçou.
Martim não soube reagir. Afastou-se de Ana, foi até a janela e enfiou a cabeça para fora, como quando criança, passeando de carro com o pai.
- Pode chorar agora. Eu não olho. Prometo.
Ana fumou. E soluçou e fumou e soluçou e levantou e tremeu e bateu o pé forte no chão e rodopiou sem sair do lugar e se contorceu e levou as mãos à barriga e apertou as próprias coxas. Pausa.
Olhos abertos com dificuldade de tanto choro que tinha escapado, Ana começava a andar na direção de Martim, que de fato não se virara nem um instantinho para ver o espetáculo de sua dor (a dor é quase grotesca, animalesca). Ele lhe tinha sido fiel. Ele sempre lhe fora fiel. Mas nunca regou os vasos, nem alimentou os pássaros e nem cuidou daquele amor tão fértil que ela sentia por ele. Amor de mulher entregue, devota quase. Olhou-o no fundo dos olhos e da alma como que agradecendo por todo o tempo que haviam vivido juntos, naquela casa de móveis e plantas e dores-amores reprimidos. Agora era ele quem sentia medo, percebeu.
Ana foi embora.
E levou, no sorriso dela, meu assunto. Levou junto com ela o que me é de direito, arrancou-me do peito e tem mais...
- Hum? - perguntou-lhe, displicente.
- Eu cansei. Cansei de alimentar os pássaros todos os dias. De regar as plantas que você comprou e nunca, nunca, nem sequer olhou para ver se permaneciam vivas. Se hoje estão verdes e radiantes é porque eu as criei. E você jamais me agradeceu por regar as suas plantas idiotas. Eu nem gosto de plantas.
- Nem eu, tampouco. Só comprei aqueles vasos para ver se trazia alguma alegria para essa casa, que já andava quase mórbida...
- Boa essa palavra. Mórbida. É como tenho me sentido vivendo com você. - apagou o baseado, sem passá-lo para Martim.
- Você sempre teve esse humor um tanto peculiar, Ana. Não venha me culpar pelas suas melancolias que já estavam aí bem antes de eu aportar nessas terras áridas.
- "Terras áridas"?! É você quem assassina as plantas e eu é que sou árida?
- Não, não. Se você continuar falando nesse tom que eu não suporto, eu vou dormir, agora mesmo.
- Não na minha cama.
- A cama é minha, Ana.
- Nunca!
- Sempre foi... - disse Martim, tentando acender a ponta que havia restado no cinzeiro.
Ana desistiu do embate por um instante. Olhou ao redor, a sala mobiliada por uma junção desorganizada e sem muito estilo dos móveis dele com os dela. A mesa que herdara de sua avó contrastava comicamente com as cadeiras modernas que Martim havia achado num brechó, baratíssimas. O sofá velho, dele. A luminária que pagou com esforço, dela. A vitrola dele. E os discos, a maioria, dela. Ao perceber-se pensando espontaneamente na divisão dos bens e assobiando "A Rita levou meu sorriso..." , arrepiaram-lhe os pelos da nuca e lhe subiu uma aflição pela espinha.
Chegara a hora fatídica?
- No que você está pensando? - perguntou Martim, que desde que se conheceram, tinha a mania de lhe fazer essa pergunta desagradável nos piores momentos possíveis.
- Estou com medo. - respondeu fechando os olhos para que ele não percebesse o seu choro contido.
- Já? - perguntou, tentando uma aproximação desajeitada e não muito carinhosa.
- Ainda...
E virou-se de costas, e fez um esforço grande para não chorar até que não pôde mais, e libertou todas as lágrimas que havia contido para parecer forte ao lado daquele homem forte com quem vivera por quase quatro anos.
- Isso. Chorar é bom, Ana. - e cantarolou inoportunamente "Chora, disfarça e chora. Todo o pranto tem hora...", tentando consolá-la.
- Cartola agora não, Martim. É muita maldade. Chega de crueldade comigo. Eu queria ter sido feliz com você. Não queria ter que chorar nunca. Muito menos na sua frente. - soluçou.
Martim não soube reagir. Afastou-se de Ana, foi até a janela e enfiou a cabeça para fora, como quando criança, passeando de carro com o pai.
- Pode chorar agora. Eu não olho. Prometo.
Ana fumou. E soluçou e fumou e soluçou e levantou e tremeu e bateu o pé forte no chão e rodopiou sem sair do lugar e se contorceu e levou as mãos à barriga e apertou as próprias coxas. Pausa.
Olhos abertos com dificuldade de tanto choro que tinha escapado, Ana começava a andar na direção de Martim, que de fato não se virara nem um instantinho para ver o espetáculo de sua dor (a dor é quase grotesca, animalesca). Ele lhe tinha sido fiel. Ele sempre lhe fora fiel. Mas nunca regou os vasos, nem alimentou os pássaros e nem cuidou daquele amor tão fértil que ela sentia por ele. Amor de mulher entregue, devota quase. Olhou-o no fundo dos olhos e da alma como que agradecendo por todo o tempo que haviam vivido juntos, naquela casa de móveis e plantas e dores-amores reprimidos. Agora era ele quem sentia medo, percebeu.
Ana foi embora.
E levou, no sorriso dela, meu assunto. Levou junto com ela o que me é de direito, arrancou-me do peito e tem mais...
domingo, outubro 01, 2006
Proparoxítona
Vida
me espera áspera
que venho sórdida
e escrevo póstuma
ou semi-lúcida
Espere-me no vão do momento-vôo
Que eu vou
Vida
me esqueça trágica
ou me beije ácida
que lhe sonho fétida
andando-te estúpida mente
...
Me escorra líquida
quando não mais puder máquina
Para, quem sabe?, lástima
No instante ínfimo
me espera áspera
que venho sórdida
e escrevo póstuma
ou semi-lúcida
Espere-me no vão do momento-vôo
Que eu vou
Vida
me esqueça trágica
ou me beije ácida
que lhe sonho fétida
andando-te estúpida mente
...
Me escorra líquida
quando não mais puder máquina
Para, quem sabe?, lástima
No instante ínfimo
fino fino
Crepuscúlo
sábado, setembro 23, 2006
Im publicável
Fumar café e tomar cigarros. Nostalgi cafeí cotinas.
Cafetina e libidinosa: ando estranhamente virginiana- ascendente-touro.
De desamarrar dos cadarços, desamorosamente dolorida.
Noite chuva à beça nas cabeças harmônicamente doentes. Musical.
Deixando a vida andar com as próprias pernas, crescidinha que está, agora na segunda década nascimento.
Quantas bandas? Quantos vasos vazios, frases sem cor? Anominal.
Anônima.
Animal.
Cafetina e libidinosa: ando estranhamente virginiana- ascendente-touro.
De desamarrar dos cadarços, desamorosamente dolorida.
Noite chuva à beça nas cabeças harmônicamente doentes. Musical.
Deixando a vida andar com as próprias pernas, crescidinha que está, agora na segunda década nascimento.
Quantas bandas? Quantos vasos vazios, frases sem cor? Anominal.
Anônima.
Animal.
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