Nesses dias em que meu cérebro vira uma máquina de escrever
galopante ta tatátátá tatá ta fábrica de histórias E nada passa batido, ileso,
incólume. Não escapa pensamento desordenado que não ganhe ordenação na máquina,
imagem vira fotografia, vira descrição, narrativa. Eu viro a personagem
principal, ou a câmera subjetiva, depende do caso. No carro, a cidade passa
tipo filme pela janela, eu a super pilota guio a minha nave e passo batido pela
cidade. A cidade que só passa, não me atravessa. Mas a vida nesses dias é
estranhamente grande e parece que eu seria capaz de fazer qualquer coisa, eu a
super pilota adquiro super poderes e não existe dinheiro, fronteira ou
conhecimento que possa me barrar. Eu decolo meu cavalo nave carro, eu salto no
ar e sou a protagonista de todos os filmes de todos os cineastas mais legais
que já existiram, e de repente eu vivo em nova iorque num loft e pego meu
casacão pra ir até a esquina tomar um café com meus amigos porraloucas
novaiorquinos artistas fantásticos como eu e tomamos café e depois cerveja e
depois whisky e terminamos a noite na casa de um jovem poeta que acabamos de
conhecer e ouvimos vinis no tapete do seu studio de janelas grandes sem
cortinas com vista pras luzes novaiorquinas que não são como as de São Paulo,
são muito muito mais legais porque são novaiorquinas e tudo o que é
novaiorquino é mais legal, óbvio. Daí eu visto meu casacão, a minha bota e saio
galopando sozinha na rua madrugada bêbada, e meus saltos fazem ta tata tatata
ta tata tatata e eu danço tango com os gatos e rio com os caminhantes noturnos
e então amanhece e a maquiagem já borrou e eu uso óculos escuros porque sou
atriz e vou tomar café da manhã numa esquina charmosa. Mas daí já é Berlim e a
câmera subjetiva dos meus olhos capta aqueles jovens malucos estirados na rua
no dia seguinte de uma noitada da pesada e está calor. Corta para cenas no
parque, Corta para cenas no rio, corta para cenas no metrô, Corta para três
jovens encostados num poste enrolando um baseado corta para um flat com chão de
madeira, poucos móveis, e um casal trepando alucinadamente. A vida que ainda
vamos viver não tem tristeza, angústia, testes, editais, reuniões, brigas,
invejas, competição, dinheiro. Não tem dinheiro, Não tem dinheiro, Não tem
dinheiro. E não sou eu que não tenho dinheiro é o dinheiro que não tem. A vida
que ainda vamos viver não tem passagem aérea, nem visto, nem passaporte. E
todos falam todas as línguas e todos se comunicam sem parar e trocam
experiências intercontinentais. A vida que ainda vamos viver não tem profissão
definida, nem vestibular, nem anos passados na carteira do colégio. Mas tem
musica e músicos incessantemente. Tem pessoas que conversam coisas legais e se
amam e viajam juntas pelo mundo. Tem cafés da manhã com pão na chapa e café com
leite no interior do Brasil, tem Brasil, tem Brasil. Tem cama desarrumada no
domingo de manhã. Tem casa de pé direito alto e prédios baixos. Tem cinema o
tempo todo e tem teatro e tem textos lindos e legais de serem lidos em voz alta
com os amigos. Tem gatos que dançam tango na madrugada com seus saltos de
madeira. Tem crianças coloridas de todas as cores que prevêem o futuro e fazem
mágicas e nos fazem felizes. Tem fazendas subaquáticas com cavalos marinhos.
Tem estrelas no céu e estrelas no chão, na imensidão de uma ilha. Corta para
mim. Corta para mim na areia de uma ilha infinita pros dois lados. Corta para
mim, estou nua, doida, cor de rosa, eu meus seios cor de rosa e eu dou pequenos
pulos na beira da água e canto e falo alto todos os textos que um dia eu decorei.
Não tem ninguém ao redor. Só o mar a areia o céu imenso e um pequeno barco ao
fundo, quase sumindo no horizonte. E eu sou o barco, a água, a areia. E eu
sumo.
domingo, dezembro 13, 2015
sexta-feira, outubro 31, 2014
essa noite foi estranha.
cavalo e criança afundaram em um pântano
depois, eu os via petrificados no chão, tipo fóssil.
Eu sentia culpa, a pior das culpas
chorava esperneava
Mostrava pra minha família o que eu tinha feito, me retratava.
quem mais ligava era a minha tia elisa, que também chorava. o resto achava triste, mas logo esquecia.
acordei com os olhos inchados.
cavalo e criança afundaram em um pântano
depois, eu os via petrificados no chão, tipo fóssil.
Eu sentia culpa, a pior das culpas
chorava esperneava
Mostrava pra minha família o que eu tinha feito, me retratava.
quem mais ligava era a minha tia elisa, que também chorava. o resto achava triste, mas logo esquecia.
acordei com os olhos inchados.
terça-feira, fevereiro 25, 2014
poema ela outra
eu fumo
a outra também
até os 30, diz ela
vai saber
ela sabe que não para quando quiser
a outra tem vontade de ser a todo instante
e garante
é bem melhor assim
mas não há intensidade que se mantenha
e precisa sossegar
aí sossega e chora, ela, a mesma
a outra não vem sempre visitar
ela sente saudades da outra
mas não chama,
não precisa chamar
porque a outra vem sem avisar
dá um rolê pelos palcos
pelos blocos
pelas ruas da madrugada paulista
se disfarça de sei lá o quê (deve ser de ela mesma)
pra poder então enfim,
ser.
dois.
Cherry dorme. Eu o amo. Somos parceiros de espírito e carne, de casa e trabalho, de gosto e de criação, de cama, lençol, quarto, comida, chuveiro, privada, louça, conta, viagem, festa, almoço, janela. Somos parceiros de tudo o que existe. Louco. Foda.
quinta-feira, setembro 19, 2013
É tudo uma questão de auto propaganda.
Propagar-se internet afora. Quanto mais views, likes e afins, mais amados nos sentimos. Mais e mais nos propagamos mundo virtual adentro, mais e mais somos de mentira.
Somos o que queremos ser na internet.
Somos só a parte boa. Bonita. Descolada.
Sorrimos eternamente. Somos belos e trabalhamos em coisas incríveis. E tá tudo sempre dando muito certo pra todos nós. Poxa. Que alegria. Penso: então está tudo certo? É simples assim viver, né? Simples assim estar no mundo, saber que vamos morrer a qualquer momento e que nossos vestígios internéticos se perderão por falta de atualização.
Super tranquilo ser um ser humano neste tempo, nesta cidade, nestes corpos. Todos super satisfeitos consigo mesmos. Todos amando suas vidas e querendo que os outros amem também. Só na televisão é melhor que isso, não?
terça-feira, setembro 17, 2013
qual é que é a desse minotauro?
pra mim, bate assim:
sobre monstros que no fundo do fundo do fundo do labirinto
somos nós mesmos.
silêncio.
o monstro faz barulho ou faz silêncio?
o monstro come o quê? quem?
o monstro dorme ou tá acordado? sempre?
quem a gente imagina que é o monstro? quem a gente gostaria que fosse? contra o quê lutamos?
que todos os heróis tem suas falhas trágicas e são degolados pelos deuses.
que deuses são esses? julgamentos? punições? guardem seus monstros pra si!, gritam os deuses!
o destino é um rio que corre corre sem parar... o destino é o tempo?
cada monstro se encontra com dédalo pra pedir ajuda:
me dá uma solução! arruma a minha vida! me dá uma invenção milagrosa que resolva todos os meus problemas!!!
então é:
sobre monstros e muros e paliativos tecnológicos
segunda-feira, agosto 05, 2013
no que é que fomos nos meter?
que estrada é essa que leva, leva, leva sem parar?
vou abrindo porta, conhecendo cidade, campo, terra fora de mim, dentro da cabeça é silêncio.
caminhos bitrifurcando. Expandindo implodindo deixando o que já conhece e indo pro que desconhece. Conhecer a mim já não é o foco, agora é pra fora, caminhar caminhos de cascalho, toco, pedra, pluma. Respirar. Sempre. Com você ao meu lado, passo ante passo, noite após noite, cama, carro, rua, ensaio, espaço, ensaio, conversa, cafécafécafé. Você é meu mestre e meu marido, e meu amigoinimigo de todo dia, meu espelho, meu parágrafo, meu diretor, minha base sólida, você e eu caminhando de mãos dadas vida afora, burilando nossa expressão íntima e necessária. Essa vida nos escolheu, meu amor e o teu.
que estrada é essa que leva, leva, leva sem parar?
vou abrindo porta, conhecendo cidade, campo, terra fora de mim, dentro da cabeça é silêncio.
caminhos bitrifurcando. Expandindo implodindo deixando o que já conhece e indo pro que desconhece. Conhecer a mim já não é o foco, agora é pra fora, caminhar caminhos de cascalho, toco, pedra, pluma. Respirar. Sempre. Com você ao meu lado, passo ante passo, noite após noite, cama, carro, rua, ensaio, espaço, ensaio, conversa, cafécafécafé. Você é meu mestre e meu marido, e meu amigoinimigo de todo dia, meu espelho, meu parágrafo, meu diretor, minha base sólida, você e eu caminhando de mãos dadas vida afora, burilando nossa expressão íntima e necessária. Essa vida nos escolheu, meu amor e o teu.
terça-feira, julho 02, 2013
s o b r e tudo
Se é pra escrever que seja agora, que seja frio, à seco, como dizem. Sem música, sem cigarro, sem vinho. Que seja pá pum. Aqui e já. Agora. Escrever escrever escrever sobre o frio que está desmedido, sobre os dias estranhos, mas assim, só anpassan. Uma passadinha pela Paulista, um filme doido, Tabu, um puta filme, português. Sobre o novo projeto de mi vida. Sobre todos os projetos de mi vida. Sobre mi vida. Foda-se mi vida, isso si. Que este blog é público medos privados em lugares públicos? Será que a gente sabe escrever se não for sobre nós mesmos? Vou dar um pulo ali na FLIP e já volto com a resposta. Mas é verdade que este ano senti vontade de ir pra FLIP. Ouvi dizer que o Brasil precisa de roteiristas novos. E de repente sonhei em ser uma roteirista. Puf. E parece que na FLIP vão ter uns papos com roteiristas, inclusive aquele cara foda, Luís Fernando Carvalho, estará lá. E eu quis. Ir. Mas não, porque nunca posso, porque ensaio, ensaio, ensaio e não chego nunca a lugar... A vida é como um ensaio, eu tenho percebido. A gente ensaia ensaia mas parece que nunca encara assim, pra valer, estamos eternamente ensaiando a vida, o viver, meus escritos são ensaios que vão do nada ao lugar nenhum. E sinto que escrever assim, em fluxo livre leve e solto, é para os amadores. Bueno, é isso que sou mesmo. Uma amadora da escrita, amante das palavras, vedete das letras e das frases.
Mas é tudo culpa do Lenz, aquele poeta esquizofrênico, que de repente se apossou de mi vida. Sim, aquele doido, maluco que me pegou e me levou para o NADA. O vazio, o nada, o vácuo da existência. Me tira daqui, Oberlin! Quando escurece Lenz sente tanto medo que precisa se jogar no poço, na água, a água sempre o traz de volta para o "mundoreal". Agora me pergunto qual será o meu poço? Talvez este cigarro que acabei de acender e desaprendi a digitar, não o cigarro não, porque ele me leva pra mais longe, isso sim. P r e c i s o e n c o n t r a r m e u p o ç o p a r a m e e n c o n t r a r co m L e nz?
Mas é tudo culpa do Lenz, aquele poeta esquizofrênico, que de repente se apossou de mi vida. Sim, aquele doido, maluco que me pegou e me levou para o NADA. O vazio, o nada, o vácuo da existência. Me tira daqui, Oberlin! Quando escurece Lenz sente tanto medo que precisa se jogar no poço, na água, a água sempre o traz de volta para o "mundoreal". Agora me pergunto qual será o meu poço? Talvez este cigarro que acabei de acender e desaprendi a digitar, não o cigarro não, porque ele me leva pra mais longe, isso sim. P r e c i s o e n c o n t r a r m e u p o ç o p a r a m e e n c o n t r a r co m L e nz?
terça-feira, abril 30, 2013
Doeu chorei
doeu paralisei
doeu paca tatu cotia não
doeu elefante
monstro
doeu agudo
doeu desatou choro nó e faladeira insana
as pessoas são capazes de cometer loucuras quando dói
falei o que vinha o que eu fingi que doía mas era dor de verdade coluna entrevada alma presa estancada precisa sempre travar pra olhar?
porque tava numas de não conseguir chorar, numas de aguentar que não é a minha cara. numas de passar por cima, atropelar, carro, marcha, lenta, taurina engessada e trampando sem parar pra ver.
ver o quê?
sábado, abril 20, 2013
Sonhar você
uns beijos proibidos debaixo d'água
o único lugar onde ninguém podia nos ver
fomos espertos
(nos sonhos, somos espertos sempre).
Fugas boas. Dava certo. Ninguém desconfiou.
Confissões e água. Era bom.
Sempre no sonho, sempre você nos sonhos, sempre eu e você nos meus sonhos será que somos nos seus também? Odeio você nos meus sonhos. Amo você nos meus sonhos. Quero você fora dos meus sonhos já. Quero você dentro dos meus sonhos. Já. Quero você dentro e fora dentro e fora dentro e fora já.
Acordei e te vi numa foto. Horroroso, cara de besta. É você mesmo? Aquele que eu sonho que me atormenta nos meus sonhos? Credo. Como eu tenho mau gosto. Acho que inventei uma pessoa que não existe.
segunda-feira, outubro 22, 2012
Ela gosta de brincar de medo
Nunca vou adivinhar o seu segredo
Fui brincar me arranhei inteiro
Ela vive ali na beira
Me convida pra dançar no abismo
E eu louco par cair
Brinquedo
Medo bom
Caixinha negra
Cuidado que explode
Cuidado que pode explodir
Ela nunca vai se jogar
E eu louco par mergulhar
ali.
Nunca vou adivinhar o seu segredo
Fui brincar me arranhei inteiro
Ela vive ali na beira
Me convida pra dançar no abismo
E eu louco par cair
Brinquedo
Medo bom
Caixinha negra
Cuidado que explode
Cuidado que pode explodir
Ela nunca vai se jogar
E eu louco par mergulhar
ali.
sexta-feira, agosto 31, 2012
domingo, agosto 12, 2012
domingo, agosto 05, 2012
E sempre que termina a peça
"que os deuses não nos notem"
faz-se silêncio entre os mortais
a mortal platéia
e o também público mortal
unem-se na escuridão do teatro.
hoje mais uma morte e mais um vento de vida no palco da Ifigênia
hoje mais um despertar de profundezas da alma
hoje uterina, filha, guerreira
hoje suor e sangue
conta a todos nós, Ifigênia: com quantos sacrifícios se entra para a História?
"que os deuses não nos notem"
faz-se silêncio entre os mortais
a mortal platéia
e o também público mortal
unem-se na escuridão do teatro.
hoje mais uma morte e mais um vento de vida no palco da Ifigênia
hoje mais um despertar de profundezas da alma
hoje uterina, filha, guerreira
hoje suor e sangue
conta a todos nós, Ifigênia: com quantos sacrifícios se entra para a História?
sexta-feira, julho 27, 2012
Bagunça criativa neste retiro em Jaú. Retiro ao mesmo tempo alimentar, espiritual, trabalhístico, familiar, emocional, maternal, oxigenal, cerebral, sentimental. U a u . Que bênção esse lugar Deus Meu. Obrigada tataravô, tataravó, bisavô, bisavó, avô, avó! Obrigada antepassados meus, por este lugar existir. Obrigada aos que fazem e conservam este lugar até hoje. Que pri vi lé gio meu deus, que privilégio um lugar assim, com todas as minhas raizes reunidas, enterradas nesta terra boa e roxa, todas as minhas memórias de infância nestas paredes, corredores, vacaria e cocheira, e terreirão e cafezal, canavial, aos cavalos, às galinhas, que bom é ter vocês todos aqui reunidos, basta uma viagem de três horas e meia da minha casa em são paulo que chego aqui neste lugar fora do tempo (será que existe mesmo isso aqui?) e me encontro diretamente COMIGO, e minha família, e a minha avó que já morreu, mas ainda assim me encontrei com ela de um jeito tão lindo desta vez. Que me sentei na sua escrivaninha e mexi em suas fotos e diários e descobri quão linda ela era jovem!! Eu nunca tinha visto a minha avó jovem! Que mulher! Cheia, transbordante de vida! Ela tinha aquele tipo de sorriso com uma gengiva que aparece e eu acho isso tão lindo nas mulheres (acho que minha prima Joana herdou este sorriso..). E como é legal ficar encontrando as minhas tias na minha avó e até ME encontrar na minha avó, meu deus, como é bom saber de onde a gente veio, e as características boas e ruins que vieram para nós sem a gente escolher!
Consegui me aproximar mais da Kátia. Imaginei-a, toquei piano, peguei folhas, pedras, gravetos, flores para levar para São Paulo e usar na cena. E construir meu Totem-Kátia. Escrevi muito como Kátia. Kátia é bichinho do mato, filha da natureza, vive só e bem, inventa suas estórias, se apaixona, loucamente, desvairadamente. Kátia é bichinho desconfiado, observador, se esquiva. Kátia colhe flores. Toca piano. É uma mulher, já. Sente falta do pai, teme a irmã, pouco carinhosa, muito rígida, seca. Criei os cinco quadros mas quero criar outros cinco. Li a novela inacabada do Púchkin, me envolvi, de repente, puft, acabou, ele parou de escrever, nunca saberemos o fim da estória, é terrível!
Minha mãe menininha. Minha tia Lu. Meu irmão. Tonicão.
Estou maluca e feliz.
Obrigada Jaú. Boa noite. Até a volta,
sua
S.
Consegui me aproximar mais da Kátia. Imaginei-a, toquei piano, peguei folhas, pedras, gravetos, flores para levar para São Paulo e usar na cena. E construir meu Totem-Kátia. Escrevi muito como Kátia. Kátia é bichinho do mato, filha da natureza, vive só e bem, inventa suas estórias, se apaixona, loucamente, desvairadamente. Kátia é bichinho desconfiado, observador, se esquiva. Kátia colhe flores. Toca piano. É uma mulher, já. Sente falta do pai, teme a irmã, pouco carinhosa, muito rígida, seca. Criei os cinco quadros mas quero criar outros cinco. Li a novela inacabada do Púchkin, me envolvi, de repente, puft, acabou, ele parou de escrever, nunca saberemos o fim da estória, é terrível!
Minha mãe menininha. Minha tia Lu. Meu irmão. Tonicão.
Estou maluca e feliz.
Obrigada Jaú. Boa noite. Até a volta,
sua
S.
domingo, julho 22, 2012
Apinéia.
Sonho com um mar vermelho transparente cheio de dejetos, sujeira. A onda passa por cima da minha cabeça, estou de pé, ela passa sem me molhar, estou dentro dela, vejo toda a sujeira passando por cima sem me tocar.
Meu caos organizado. Não meto o pé na lama, amo fria, ando sóbria sem chafurdamentos.
Novidade nenhuma, ela ri.
É uma intensidade limpinha. Nem lá nem cá.
Queria não entender tanto. Não explicar assim. Deixar-me ser mar inteira mar. Can't live with no love. Sem paixonar-se é tédio.
Tanto por fazer sem conseguir começar. O processo criativo não pode ser assim racional e ordenado, não é assim, tem que sentir alguma coisa, intuir uma fresta, e IR.
Os dias de julho tem sido lindos e eu nessa casa fria de frente para a porta, vendo os cachorros passearem felizes, vendo sol se por e imaginando como deve estar lindo lá fora mas sem me atrever a sair. Só saio quando escurece e aí é igual, mesmas luzes frias dos postes, mesmo carro, ruas todas iguais quando é de noite. Tem sido assim.
O processo de criar a Kátia está muito dentro, lá no fundo, não consegue ir pra fora, escancarar janela do corpo. Fiz uma colagem, foi uma tentativa de botar fora o que está dentro, um bom primeiro passo, acredito.
E agora pra onde? Criar os quadros, como? Desenhá-los? Botar no corpo? Criar o totem que o Wagner sempre fala. Preciso. Começar é que é difícil, já disse Beckett.
Fico sempre querendo as seguranças, os acertos, só começo quando tenho certeza. Mas como fazer diferente desta vez? Partir de um intuito, de uma imagem, deixar meu instinto procurando trilhas, seguindo alguma coisa mesmo que nebulosa, mas confiante.
Kátia toca piano de maneira séria e severa. Kátia é solitária. Kátia é feliz quando tinha tudo para não ser. É órfã, foi educada pela irmã, vive longe da cidade, com a irmã e a tia velha e chata. Mas é feliz assim. Kátia ama os pássaros, ama a natureza, é inteligente e tem personalidade forte, como a irmã. Kátia está pronta para amar, é tudo o que ela quer. Quando os dois rapazes aparecem em sua casa é um grande acontecimento para ela e sua vida pacata e sozinha. Kátia sente vergonha e muitas vezes mergulha para dentro de si e não há quem a arranque de lá. Kátia é irônica e soube direitinho como fazer para Arkadi ficar a seus pés. Serpentinha. Deixa os rastros de maçãs, uma trilha, uma armadilha, é ardilosa, observadora. Kátia é russa e nova. Nunca deve ter estado com um homem. Quer conquistar a sua liberdade, sair desta casa, dos domínios da irmã autoritária.
Sonho com um mar vermelho transparente cheio de dejetos, sujeira. A onda passa por cima da minha cabeça, estou de pé, ela passa sem me molhar, estou dentro dela, vejo toda a sujeira passando por cima sem me tocar.
Meu caos organizado. Não meto o pé na lama, amo fria, ando sóbria sem chafurdamentos.
Novidade nenhuma, ela ri.
É uma intensidade limpinha. Nem lá nem cá.
Queria não entender tanto. Não explicar assim. Deixar-me ser mar inteira mar. Can't live with no love. Sem paixonar-se é tédio.
Tanto por fazer sem conseguir começar. O processo criativo não pode ser assim racional e ordenado, não é assim, tem que sentir alguma coisa, intuir uma fresta, e IR.
Os dias de julho tem sido lindos e eu nessa casa fria de frente para a porta, vendo os cachorros passearem felizes, vendo sol se por e imaginando como deve estar lindo lá fora mas sem me atrever a sair. Só saio quando escurece e aí é igual, mesmas luzes frias dos postes, mesmo carro, ruas todas iguais quando é de noite. Tem sido assim.
O processo de criar a Kátia está muito dentro, lá no fundo, não consegue ir pra fora, escancarar janela do corpo. Fiz uma colagem, foi uma tentativa de botar fora o que está dentro, um bom primeiro passo, acredito.
E agora pra onde? Criar os quadros, como? Desenhá-los? Botar no corpo? Criar o totem que o Wagner sempre fala. Preciso. Começar é que é difícil, já disse Beckett.
Fico sempre querendo as seguranças, os acertos, só começo quando tenho certeza. Mas como fazer diferente desta vez? Partir de um intuito, de uma imagem, deixar meu instinto procurando trilhas, seguindo alguma coisa mesmo que nebulosa, mas confiante.
Kátia toca piano de maneira séria e severa. Kátia é solitária. Kátia é feliz quando tinha tudo para não ser. É órfã, foi educada pela irmã, vive longe da cidade, com a irmã e a tia velha e chata. Mas é feliz assim. Kátia ama os pássaros, ama a natureza, é inteligente e tem personalidade forte, como a irmã. Kátia está pronta para amar, é tudo o que ela quer. Quando os dois rapazes aparecem em sua casa é um grande acontecimento para ela e sua vida pacata e sozinha. Kátia sente vergonha e muitas vezes mergulha para dentro de si e não há quem a arranque de lá. Kátia é irônica e soube direitinho como fazer para Arkadi ficar a seus pés. Serpentinha. Deixa os rastros de maçãs, uma trilha, uma armadilha, é ardilosa, observadora. Kátia é russa e nova. Nunca deve ter estado com um homem. Quer conquistar a sua liberdade, sair desta casa, dos domínios da irmã autoritária.
domingo, julho 08, 2012
Ariadne trança os fios de seu amor impossível. Pega o carro e atravessa a cidade ouvindo músicas do momento no rádio. Não canta junto. Se enfia no labirinto minhocão, 23 de maio, barra funda, zona norte. Cidade de fios visíveis e invisíveis. Cidade trama. Cidade conexão. Perder-se do outro e de si, cidade afora, noite adentro. Despistar-se. Só. Perder-se.
Mas ela não sabia esquecer. Sabe onde ele mora, sabe onde o encontrar, sabe seu número de telefone, o nome de sua mãe, a cor do seu carro. Sabe como chamá-lo. Sabe, secretamente, que ele ainda... ou inventa. Ou canta. Ou bebe. Ariadne não confia no destino, Ariadne não é mitológica (quem raios é Ariadne, e por quê ela, assim, nos meus escritos?).
"eu amo dois", diz para si no silêncio de seu labirinto.
Ariadne e um minotauro aprisionado.
Deixa seus fios, seu rastro, a pé ou de carro, deixa seu cheiro na avenida das luzes, pixa seu nome debaixo do viaduto, acende uma vela na esquina do cemitério do araçá. Pede pros deuses do asfalto, pros doidos da rua, conta teus segredos à uma criança.
A cidade dorme e ri. A cidade te engole, Ariadne, ele te esquece, Ariadne, ele te esquece, Ariadne, pouco a pouco, ele te esquece, Ariadne.
segunda-feira, maio 14, 2012
dor dor dor no estômago
frio na espinha
estória que se repete ete ete ete até quando deus meu?
até onde?
até que fura
fere
descabela
reflete
estanca
pausa.
e começa eça eça essa coisa ruim que não chega o fim.......................
agora
penso
escrevo pra
pensar
vaza
sai
deixa irrrrrrr
e um muro automaticamente se ergue
muralha da china que não é maravilha nenhuma.
aquilo que impede nosso amor de dar certo
e que não sei porque se transforma em raiva
pura
vermelha
o que tinha que ser amor amor AMOR!
raiva relva escura
me larga me deixa não enche me deixa gozar.
domingo, abril 29, 2012
Meus amigos
eu não viveria sem eles
minha segunda família, a família que escolhi.
e é um amor incondicional, é um cuidar e ser cuidada sempre.
se ontem eu não tivesse amigos nem sei o que aconteceria comigo. mas como eu tenho os melhores, deu tudo certo.
nossos planos são bons, deixaremos obras para o mundo, para o futuro, deixamos músicas, um filme, livros, boas estórias. vamos plantar cada vez mais coisas boas nesse mundo. vamos ter filhos e nossos filhos serão amigos. e será para todo o sempre.
não tenho mais dúvidas disso.
meus amigos, os escolhi e fui escolhida por eles. meu eixo, meu centro, meu repouso, meu porto seguro, minha alegria, minha dança, minha cerveja, meus cigarros todos, minhas merdas, minhas qualidades e meus piores defeitos. compartilhamos tudo!
um brinde à vida que vai mostrando a cara pouco a pouco para nós. um brinde às experiências fortes, fodas, boas, loucas. um brinde ao calejar-se, ao deixar-se passar pelos acidentes e pelas maravilhas. um brinde aos amigos desta estrada afora.
evoé!
e um brinde à Ifigênia, que hoje foi nosso último dia no SESC! Foi lindo! Tesudo!
quarta-feira, abril 25, 2012
retrato desta noite
Cozinha mal iluminada
(sabe? o que gosto mesmo é de escrever)
Ela com resto de maquiagem da peça de teatro no rosto (e algumas espinhas despontando - pelo excesso de maquiagem e chocolate)
sentada na mesa branca
suco de uva sufresh light pra tomar de canudinho
laptop ligado na frente
cigarro cinzeiro fósforo - fuma.
uma sensação estranha na barriga
barulho de geladeira incessante e do canudinho sendo sugado
e uma garrafa térmica laranja.
a natureza é morta.
segunda-feira, abril 23, 2012
a minha vontade de liberdade não vence um medo estúpido de desagradar o outro.
essa estória de caber exatamente no que o outro espera da gente me dá uma coia ruim e cancerígena.
pra que ele me quer aqui, entao???
pra eu estar sob controle. e eu sou besta e me coloco neste lugar.
e fico aqui pagando de santa. ah. fuck you. to fora. agora. parti.
Estou com ela
a gripe
e ela está comigo
a mesma que matou tantos índios quando os brancos invadiram suas terras
a mesma que mata idosos e crianças sem cuidado
eu sou uma cirança sem cuidado quando ela me pega
a gripe
ela me pega e me entorta
no espelho sou outra
meio branca, meio louca
sou eu mesma na minha versão não saudável
sou eu outra, palidez, morta
do ser do ente
não posso me distanciar tanto assim do ente
meu corpo volta para me buscar e cobrar uma atenção
sempre que ela me pega eu escrevo sobre ela
ela me incomoda de fato.
quinta-feira, abril 05, 2012
você por quê?
Era você
E agora?
Meu inconsciente me trai.
Meus seios nus
Os pernilongos
A carona de carro e os motoqueiros tramando um crime
Daí a gente chegava
E você dizia: "como assim? por quê você, ali, nunca achei que você fosse"
E eu entendia que a gente tinha que conversar.
Mas eu entrava no prédio, atendia o celular, você do lado de fora esperava no carro eu voltar. E eu voltaria.
Não fosse o despertador tocar bem na hora!
Então nossa conversa foi adiada, mais uma vez.
E agora?
Meu inconsciente me trai.
Meus seios nus
Os pernilongos
A carona de carro e os motoqueiros tramando um crime
Daí a gente chegava
E você dizia: "como assim? por quê você, ali, nunca achei que você fosse"
E eu entendia que a gente tinha que conversar.
Mas eu entrava no prédio, atendia o celular, você do lado de fora esperava no carro eu voltar. E eu voltaria.
Não fosse o despertador tocar bem na hora!
Então nossa conversa foi adiada, mais uma vez.
quarta-feira, fevereiro 15, 2012
de noite calo deito e esqueço
de noite envelheço nos sonhos
me arrancam os dentes os sonhos
me falam de amor e morte
me mordem os cachorros da rua, me matam os pais, me dão sexo do bom
acordo outra - a mesma outra - estranha.
e tudo dói de forma
que me esqueço de dia
do que a noite me trouxe.
da velha que fui
da menina que sou
dos dias que passam umatrásdooutro.
do medo que o medo dá
________________
um dia vou pular o muro da cidade e vou cair num jardim imenso.
e pra lá vou levar todos os meus amigos, meus amores do presente e os do passado, meus pais, meus irmãos, meus sonhos de dente e morte, minha vontade de vida, meus não seis, minhas falhas, minhas criancices, vou levar o circo e o sol, o galo e a lia, a música boa, a permissão, vamos ser juntos?
eu os convidarei para o meu grande projeto.
topam?
de noite envelheço nos sonhos
me arrancam os dentes os sonhos
me falam de amor e morte
me mordem os cachorros da rua, me matam os pais, me dão sexo do bom
acordo outra - a mesma outra - estranha.
e tudo dói de forma
que me esqueço de dia
do que a noite me trouxe.
da velha que fui
da menina que sou
dos dias que passam umatrásdooutro.
do medo que o medo dá
________________
um dia vou pular o muro da cidade e vou cair num jardim imenso.
e pra lá vou levar todos os meus amigos, meus amores do presente e os do passado, meus pais, meus irmãos, meus sonhos de dente e morte, minha vontade de vida, meus não seis, minhas falhas, minhas criancices, vou levar o circo e o sol, o galo e a lia, a música boa, a permissão, vamos ser juntos?
eu os convidarei para o meu grande projeto.
topam?
peço silêncio ao sol
às folhas das árvores
aos cães
aos carros de som e de pamonha
silencie vento
cabelereiros
calçadas
vassouras
senhoras
silêncio feira, máquinas e postes
silêncio luz, silêncio caetano veloso
silêncio, tempo. quieto. imóvel, tempo.
me deixe, tempo.
me largue, liberte.
silêncio, crianças, a vida passa.
silêncio, cabeça ruidosa, a vida acaba.
silêncio dia, que eu quero passar.
silêncio, vila romana, deixe-me entardecer em paz.
às folhas das árvores
aos cães
aos carros de som e de pamonha
silencie vento
cabelereiros
calçadas
vassouras
senhoras
silêncio feira, máquinas e postes
silêncio luz, silêncio caetano veloso
silêncio, tempo. quieto. imóvel, tempo.
me deixe, tempo.
me largue, liberte.
silêncio, crianças, a vida passa.
silêncio, cabeça ruidosa, a vida acaba.
silêncio dia, que eu quero passar.
silêncio, vila romana, deixe-me entardecer em paz.
sexta-feira, fevereiro 10, 2012
cesta
dia de trânsito e suor
e depois chuva
trânsito suor
e depois chuva
chu
chu
chu
vaaaaaa
depois noite e mais trânsito e ainda mais
chu
va
.
.
.
de manhã
o ensaio para imprensa
prensou-me
.
sexta feira calor infernal sem ar condicionado
e ducha gelada quando entrei em casa
mas agora ele dorme, ela pensou. como ontem, exatamente igual. e como ontem não o tinha visto durante o dia. deu tchau pra ele ainda na cama e chegou com ele na cama de novo.
vida a dois. assim é que é.
sexta feira cheia. sexta feira cedo. sexta feira televisão e internet.
e depois chuva
trânsito suor
e depois chuva
chu
chu
chu
vaaaaaa
depois noite e mais trânsito e ainda mais
chu
va
.
.
.
de manhã
o ensaio para imprensa
prensou-me
.
sexta feira calor infernal sem ar condicionado
e ducha gelada quando entrei em casa
mas agora ele dorme, ela pensou. como ontem, exatamente igual. e como ontem não o tinha visto durante o dia. deu tchau pra ele ainda na cama e chegou com ele na cama de novo.
vida a dois. assim é que é.
sexta feira cheia. sexta feira cedo. sexta feira televisão e internet.
quinta-feira, fevereiro 02, 2012
Hoje no trânsito na avenida faria lima me veio este pensamento. um pensamento novo, inesperado, puro, verdadeiro, que nunca tinha me vindo antes.
um pensamento assim:
eu largaria tudo para aprender equitação.
e viveria saltando e correndo com cavalos, onde quer que fosse.
me veio uma certeza de felicidade meio sem explicação. eu amo cavalos, cresci com eles, mas nunca desejei uma vida assim.
entendi, em meio aos carros, ao co2, ao barulho e aos faróis, que me dedicar a um animal seria algo realmente grandioso.
me vi naqueles filmes americanos, naquelas fazendas infinitas, cavalgando um cavalo marrom escuro muito maior do que eu, pelos campos, no por do sol. pulando rios, cercas, correndo sós, eu e o meu cavalo.
que doideira essa cabeça.
será que podemos viver a vida que quisermos?
tudo é mesmo possível?
só precisa de coragem, acho, mais nada.
um pensamento assim:
eu largaria tudo para aprender equitação.
e viveria saltando e correndo com cavalos, onde quer que fosse.
me veio uma certeza de felicidade meio sem explicação. eu amo cavalos, cresci com eles, mas nunca desejei uma vida assim.
entendi, em meio aos carros, ao co2, ao barulho e aos faróis, que me dedicar a um animal seria algo realmente grandioso.
me vi naqueles filmes americanos, naquelas fazendas infinitas, cavalgando um cavalo marrom escuro muito maior do que eu, pelos campos, no por do sol. pulando rios, cercas, correndo sós, eu e o meu cavalo.
que doideira essa cabeça.
será que podemos viver a vida que quisermos?
tudo é mesmo possível?
só precisa de coragem, acho, mais nada.
sábado, janeiro 28, 2012
ano do dragão
Soltem
os dragões
soprem, tempestades chinesas
tormentas marítmas
fendas nas terra
Se segurem nos sapatos
apertem os cintos da razão
quem manda agora é o coração
deixa vir
transforma
sai daí
desloca
veste outra coisa
carece ter coragem
furacão enlouquecido
vontade é poder
temos as mãos, os olhos, os pés
ação, dragão!
nos devore e cuspa melhores
me deixa entender
me ensina de uma vez por todas como é que faz
pra crescer.
os dragões
soprem, tempestades chinesas
tormentas marítmas
fendas nas terra
Se segurem nos sapatos
apertem os cintos da razão
quem manda agora é o coração
deixa vir
transforma
sai daí
desloca
veste outra coisa
carece ter coragem
furacão enlouquecido
vontade é poder
temos as mãos, os olhos, os pés
ação, dragão!
nos devore e cuspa melhores
me deixa entender
me ensina de uma vez por todas como é que faz
pra crescer.
sexta-feira, janeiro 20, 2012
abriu a torneirinha da escrita
a gota melancólica no papel virtual
(sinto que vários afazeres estão sendo deixados de lado neste momento, mas não há quem me arranque daqui)
sei chorar
eu também já sei sentir a dor
mas isso não é meu, é do cartola. peguei emprestado.
sei lá sei lá sei lá
deu vontade de estar em berlin, right now. plim. e estou ali. em alguma rua do kreuzberg. com meu casaco pesado de penas de ganso que comprei na zara da dinamarca. meu gorro roxo e ridículo que cobre as orelhas, comprado em toulouse, frança. minhas luvas também roxas, que já estão se desfazendo.
o ar frio corta meu rosto, meus lábios. olho pro céu, azul. raro, nesta época fria. penso que o sol é uma dádiva do brasil. que nós não damos o devido valor. em berlin, quando há sol as pessoas comentam e sorriem. é feliz ter sol.
então, eu aqui, no meu transporte imaginário para berlin, agora estou enrolando um cigarrinho de papel, sentada num café, há um homem grande com um cachorro embaixo da mesa. eles deixam fumar aqui dentro, porque lá fora não dá pra ficar. estou enrolando, porque marquei a hora num cabelereiro que passei em frente e ele disse que só estaria livre em uma hora. resolvi cortar o cabelo como o das berlinenses, levar este lugar comigo, de volta ao brasil. ainda há pouco entrei numa biomarket e comi uma quiche. pedi em inglês, já desisti do alemão.
Daqui a pouco irei arrastando minha mala com rodinhas pela skalitzer strasse na neve até o bar em que o marco trabalha pra pegar a chave do ap dele, onde passarei minhas ultimas horas antes de embarcar de volta ao brasil. Mas na volta, vou parar no bar chamando sofia e tomar a minha cerveja preferida que se chama flenzburguer, ou algo do gênero.
Engraçado me lembrar justo do meu último dia em berlim, de uma viagem longa de meses, me veio à lembrança o ultimo dia...
tenho saudades de como me sentia lá. das possibilidades infinitas. das novidades infinitas na cidade mais legal do mundo. tenho saudades da eu que podia ser qualquer uma. da eu que não entrava em paranóia nenhuma. da eu que cresceu tanto tanto longe daqui.
------...-------
agora abro os olhos e estou na cozinha da minha casa, rua mário, vila romana. o cartola canta ao fundo junto com alguns cachorros do bairro que latem. 100% brasil. nossa, não sei como consegui me visualizar na alemanha, estando tão no brasil neste instante exato.
"os tempos idos nunca esquecidos trazem tristeza ao recordar" - o cartola acompanha meu ritmo de nostalgia.
sou tão naftalínica.
saudosista.
memórias a mil.
a laura falou uma coisa linda sobre a memória, outro dia. que as coisas que vivemos estão aqui, impregnadas, ferradas a ferro e fogo, ninguém as tira daqui. jamais. por isso, podemos deixá-las ali, tranquilas, adormecidas. não tem que ficar revirando, remexendo, não adianta, não tem volta. mas o que foi, foi, e ninguém tira o fato de que foi. e é o que basta. já vivemos, não precisamos viver de novo. talvez nem teria graça viver de novo algumas coisas.
então, me resta imaginar como será em berlim quando eu voltar. vou trabalhar, levar meu grupo de teatro, fazer uma residência, criar uma peça lá. sonho absoluto, mor. é o que quero. viver no amado bairro do kreuzberg, frequentar o bar em que o Marco é barman, deslizar de bicicleta pelas ruas lisas alemãs, aprender a língua, fazer teatro naquela cidade ultra inspiradora, apresentar coisas nas ruas, nas feiras, nos bares criativos, únicos.
é mais gostoso imaginar o futuro que lembrar o passado.
a gota melancólica no papel virtual
(sinto que vários afazeres estão sendo deixados de lado neste momento, mas não há quem me arranque daqui)
sei chorar
eu também já sei sentir a dor
mas isso não é meu, é do cartola. peguei emprestado.
sei lá sei lá sei lá
deu vontade de estar em berlin, right now. plim. e estou ali. em alguma rua do kreuzberg. com meu casaco pesado de penas de ganso que comprei na zara da dinamarca. meu gorro roxo e ridículo que cobre as orelhas, comprado em toulouse, frança. minhas luvas também roxas, que já estão se desfazendo.
o ar frio corta meu rosto, meus lábios. olho pro céu, azul. raro, nesta época fria. penso que o sol é uma dádiva do brasil. que nós não damos o devido valor. em berlin, quando há sol as pessoas comentam e sorriem. é feliz ter sol.
então, eu aqui, no meu transporte imaginário para berlin, agora estou enrolando um cigarrinho de papel, sentada num café, há um homem grande com um cachorro embaixo da mesa. eles deixam fumar aqui dentro, porque lá fora não dá pra ficar. estou enrolando, porque marquei a hora num cabelereiro que passei em frente e ele disse que só estaria livre em uma hora. resolvi cortar o cabelo como o das berlinenses, levar este lugar comigo, de volta ao brasil. ainda há pouco entrei numa biomarket e comi uma quiche. pedi em inglês, já desisti do alemão.
Daqui a pouco irei arrastando minha mala com rodinhas pela skalitzer strasse na neve até o bar em que o marco trabalha pra pegar a chave do ap dele, onde passarei minhas ultimas horas antes de embarcar de volta ao brasil. Mas na volta, vou parar no bar chamando sofia e tomar a minha cerveja preferida que se chama flenzburguer, ou algo do gênero.
Engraçado me lembrar justo do meu último dia em berlim, de uma viagem longa de meses, me veio à lembrança o ultimo dia...
tenho saudades de como me sentia lá. das possibilidades infinitas. das novidades infinitas na cidade mais legal do mundo. tenho saudades da eu que podia ser qualquer uma. da eu que não entrava em paranóia nenhuma. da eu que cresceu tanto tanto longe daqui.
------...-------
agora abro os olhos e estou na cozinha da minha casa, rua mário, vila romana. o cartola canta ao fundo junto com alguns cachorros do bairro que latem. 100% brasil. nossa, não sei como consegui me visualizar na alemanha, estando tão no brasil neste instante exato.
"os tempos idos nunca esquecidos trazem tristeza ao recordar" - o cartola acompanha meu ritmo de nostalgia.
sou tão naftalínica.
saudosista.
memórias a mil.
a laura falou uma coisa linda sobre a memória, outro dia. que as coisas que vivemos estão aqui, impregnadas, ferradas a ferro e fogo, ninguém as tira daqui. jamais. por isso, podemos deixá-las ali, tranquilas, adormecidas. não tem que ficar revirando, remexendo, não adianta, não tem volta. mas o que foi, foi, e ninguém tira o fato de que foi. e é o que basta. já vivemos, não precisamos viver de novo. talvez nem teria graça viver de novo algumas coisas.
então, me resta imaginar como será em berlim quando eu voltar. vou trabalhar, levar meu grupo de teatro, fazer uma residência, criar uma peça lá. sonho absoluto, mor. é o que quero. viver no amado bairro do kreuzberg, frequentar o bar em que o Marco é barman, deslizar de bicicleta pelas ruas lisas alemãs, aprender a língua, fazer teatro naquela cidade ultra inspiradora, apresentar coisas nas ruas, nas feiras, nos bares criativos, únicos.
é mais gostoso imaginar o futuro que lembrar o passado.
quinta-feira, janeiro 19, 2012
à um amor.
Do cão, a dona fiel
A zona de Lia me chama
para uma parte do globo qualquer
num ponto preto do olho preto dos pés pretos sem sapato
Tira os pés e pisa o mundo
Solta o cabelo, nuvem de chumbo
Alça teu vôo sereno
Calça minha mão na tua
Vamos juntas estrada da vida afora?
E ela responde:
"e se periga,
noite adentro."
A zona de Lia me chama
para uma parte do globo qualquer
num ponto preto do olho preto dos pés pretos sem sapato
Tira os pés e pisa o mundo
Solta o cabelo, nuvem de chumbo
Alça teu vôo sereno
Calça minha mão na tua
Vamos juntas estrada da vida afora?
E ela responde:
"e se periga,
noite adentro."
quarta-feira, janeiro 18, 2012
A minha carta proibida
- a que nunca será enviada à (o) possível destinatária (o) -
começaria com:
"Adeus,"
A primeira frase da carta poderia ser:
"Você sabia que escrever cartas é o gesto mais desesperado que existe?"
E por aí, eu iria:
"... e que escrever cartas proibidas é ainda mais desesperador?
Mas ao mesmo tempo, é inspirador e solitário, escrever a carta que nunca será lida por seu (sua) destinatário (a). Uma carta disfarçada de conto, poesia, romance, já que esses sim, são destinados à ninguéns. E à todos, por consequência.
À ninguéns e à todos eu diria fatos não específicos pois senão estaria denunciando o teor altamente proibido da carta. Explosivo. Escreveria coisas gerais. Que poderiam atingir qualquer um.
Seria algo como escrever em um contexto de censura. Repressão, ditadura, impossibilidade de livre expressão. Sim, poderia escrever sobre isso. A censura. Que aqui não se trata da censura do Estado, mas do estado das coisas. Do ponto a que elas chegam, e se tornam impossíveis de ser.
Por outro lado, por quê não dar um chute na moral e nos bons costumes? Uma bica no limite entre a sanidade e a loucura, dar adeus à razão e deixar outras partes do cérebro conduzirem a mão pelo papel?
Sabe, isso tudo é bastante desesperado.
Mas gosto, masoquistamente, das marcas proibidas.
Gosto, doentemente, do que me desalinha.
Mas faz tanto tempo, já. A carta começou a ser escrita há séculos, e talvez eu nunca a termine. Não começou com a minha geração, e pode ser que se estenda aos meus descendentes. Como uma maldição grega, vai saber."
A carta não terminaria assim. Ela ainda não terminou, pois o tempo, senhor de tudo, é quem poderá dizer. Quando.
- a que nunca será enviada à (o) possível destinatária (o) -
começaria com:
"Adeus,"
A primeira frase da carta poderia ser:
"Você sabia que escrever cartas é o gesto mais desesperado que existe?"
E por aí, eu iria:
"... e que escrever cartas proibidas é ainda mais desesperador?
Mas ao mesmo tempo, é inspirador e solitário, escrever a carta que nunca será lida por seu (sua) destinatário (a). Uma carta disfarçada de conto, poesia, romance, já que esses sim, são destinados à ninguéns. E à todos, por consequência.
À ninguéns e à todos eu diria fatos não específicos pois senão estaria denunciando o teor altamente proibido da carta. Explosivo. Escreveria coisas gerais. Que poderiam atingir qualquer um.
Seria algo como escrever em um contexto de censura. Repressão, ditadura, impossibilidade de livre expressão. Sim, poderia escrever sobre isso. A censura. Que aqui não se trata da censura do Estado, mas do estado das coisas. Do ponto a que elas chegam, e se tornam impossíveis de ser.
Por outro lado, por quê não dar um chute na moral e nos bons costumes? Uma bica no limite entre a sanidade e a loucura, dar adeus à razão e deixar outras partes do cérebro conduzirem a mão pelo papel?
Sabe, isso tudo é bastante desesperado.
Mas gosto, masoquistamente, das marcas proibidas.
Gosto, doentemente, do que me desalinha.
Mas faz tanto tempo, já. A carta começou a ser escrita há séculos, e talvez eu nunca a termine. Não começou com a minha geração, e pode ser que se estenda aos meus descendentes. Como uma maldição grega, vai saber."
A carta não terminaria assim. Ela ainda não terminou, pois o tempo, senhor de tudo, é quem poderá dizer. Quando.
segunda-feira, janeiro 09, 2012
30. 12. 2011
Ali
onde o mar encontra o rio
Onde o vento faz a curva
Onde vive sobretudo a loucura
outro tempo e outro espaço
a praia longe, longa
infinita, como sempre
como nunca
diferente
todo o mundo outro
Aqui dentro pulso fervilho penso
Vejo e abro os poros
recebo
da terra céu e mar
do papelzinho mágico no meu organismo
teve cajado
teve um bar na ponta de tudo
no ponto alto da doideira
e um brasileiro se fingindo de polonês pra tirar sarro da gente
e eu ri umas cinco horas seguidas
e falei com o Pedrão sobre poderes mágicos
o dele era abrir a Terra
o meu, uma varinha que atraía raios.
depois ele disse que o poder que ele queria era o de se transformar em qualquer ser vivo.
Aí caminhei de olhos fechados (dica do Martim).
E quando abri o olho eu tava no mar.
É onda é espiral.
É ciclo.
É sobe e desce.
O mundo, a vida, o tempo, o espaço, tudo mais do que nunca, cíclico.
onde o mar encontra o rio
Onde o vento faz a curva
Onde vive sobretudo a loucura
outro tempo e outro espaço
a praia longe, longa
infinita, como sempre
como nunca
diferente
todo o mundo outro
Aqui dentro pulso fervilho penso
Vejo e abro os poros
recebo
da terra céu e mar
do papelzinho mágico no meu organismo
teve cajado
teve um bar na ponta de tudo
no ponto alto da doideira
e um brasileiro se fingindo de polonês pra tirar sarro da gente
e eu ri umas cinco horas seguidas
e falei com o Pedrão sobre poderes mágicos
o dele era abrir a Terra
o meu, uma varinha que atraía raios.
depois ele disse que o poder que ele queria era o de se transformar em qualquer ser vivo.
Aí caminhei de olhos fechados (dica do Martim).
E quando abri o olho eu tava no mar.
É onda é espiral.
É ciclo.
É sobe e desce.
O mundo, a vida, o tempo, o espaço, tudo mais do que nunca, cíclico.
Sobre ele
Só te encontro
durante o sono.
Só meu corpo toca o teu
Minha alma dorme no travesseiro ao lado.
No outro dia trocamos palavras
Eu, desperta.
Tu, sonâmbulo.
Desço, faço o café e volto pra te falar tchau e te comparar com o filhote de algum bicho.
Cada manhã você acorda um filhote indefeso diferente, na ingenuidade que habita os que dormem profundamente.
E daí, você é meu.
durante o sono.
Só meu corpo toca o teu
Minha alma dorme no travesseiro ao lado.
No outro dia trocamos palavras
Eu, desperta.
Tu, sonâmbulo.
Desço, faço o café e volto pra te falar tchau e te comparar com o filhote de algum bicho.
Cada manhã você acorda um filhote indefeso diferente, na ingenuidade que habita os que dormem profundamente.
E daí, você é meu.
sobre nós
Quando o silêncio chega assim - avassalador - eu só espero ele partir.
Compactuo com ele. Deixo se instaurar.
(Me traz certo alívio até) o não falar.
Tem coisas que o verbo não resolve.
O silêncio, ele dá conta.
Compactuo com ele. Deixo se instaurar.
(Me traz certo alívio até) o não falar.
Tem coisas que o verbo não resolve.
O silêncio, ele dá conta.
sábado, dezembro 17, 2011
É, agora tem música.
Tem Lia, Papi, Laura, Ana.
Cinco mulheres sentindo compondo nascendo pruma coisa nova para todas nós.
P a t o
P r e t o
Tá sendo simples, grande, bonita a experiência. Que eu sempre sonhei mas nunca me imaginei exatamente aqui. Coisas que a vida guarda pra gente e, quando a gente nem tá esperando, calha de acontecer.
Estamos em acontecimento.
Neste ano 2011 árduo, duro, puta que pariu de dia-a-dia, pé ante pé, de garçonete, pra professora, de professora para atriz de uma companhia que admiro, e daí para me experimentar pela primeira vez como diretora, e agora a banda. Onde ainda damos passos inseguros, notas desafinadas, mas onde o desejo nos arremessa para lá looooonge.
Seria sua leoa, serpente, um raio que corre.
Eu quero mais.
É crua a vida.
Piratas plantados na carne da aventura.
Estremece minha carne, batiza meu osso, tempera meu sangue.
E por aí vamos!!!
Evoé.
terça-feira, dezembro 06, 2011
Antropófago
Foi gigante e libertador assistir ao Evoé - Retrato de um Antropófago, no dia 5 de dezembro de 2011, quando eu, caminhando com as minhas questões (barulhentas para mim, silenciosas para os outros), cansada desse fluxo de pensamentos egóicos, me deparei com um ser LIVRE, ATUANTE e VIVO do nosso tempo, na tela do espaço unibanco.
Entendi que fazer teatro é viver para ele e que o lance maior é o encontro com o outro, é escancarar as portas e ATUAR no mundo. Abrir o corpo, a mente, entregar a alma para o estado de catártico, quando nós somos tudo e NADA. Não importa o EU. Importa o corpo atravessado pelo raio do outro. Importa a alma eletrizada. Importa a VIDA. Isso SIM.
Zé Celso é um devoto da vida e neste ponto eu me encontrei com ele.
Entendi que fazer teatro é viver para ele e que o lance maior é o encontro com o outro, é escancarar as portas e ATUAR no mundo. Abrir o corpo, a mente, entregar a alma para o estado de catártico, quando nós somos tudo e NADA. Não importa o EU. Importa o corpo atravessado pelo raio do outro. Importa a alma eletrizada. Importa a VIDA. Isso SIM.
Zé Celso é um devoto da vida e neste ponto eu me encontrei com ele.
domingo, novembro 20, 2011
Assim como não consigo mais me lembrar dos meus sonhos, não escrevo mais.
O lugar lá longe do de dentro da gente - sabe esse? - parece que perdi o contato com o meu.
Preciso despertá-lo para voltar a sonhar. Voltar a escrever. Aglomerar palavras naturalmente como eu fazia antes. Porque antes elas se formavam sem muito esforço dentro de mim.
"embora escrever me dê a grande medida do silêncio..."
Escrever era crucial, e agora um esforço.
Juntar lá com cá, lé com cré e fazer bonitezas.
Escrever é fazer bonitezas silenciosas.
O lugar lá longe do de dentro da gente - sabe esse? - parece que perdi o contato com o meu.
Preciso despertá-lo para voltar a sonhar. Voltar a escrever. Aglomerar palavras naturalmente como eu fazia antes. Porque antes elas se formavam sem muito esforço dentro de mim.
"embora escrever me dê a grande medida do silêncio..."
Escrever era crucial, e agora um esforço.
Juntar lá com cá, lé com cré e fazer bonitezas.
Escrever é fazer bonitezas silenciosas.
quarta-feira, outubro 19, 2011
tipo uma crônica?
às vezes o tempo falta, noutras ele sobra.
agora sobra. e vim matar duas horinhas numa lan house no bixiga onde sempre me sinto uma estrangeira. na minha própria cidade natal. me sinto em cuba, puerto rico, sei lá eu.
e ao entrar nesta lan house de um casal de chineses (2 e 50 a hora) me lembrei de berlim e dos turcos donos das internet kaffes, onde tantas vezes chorei, me desesperei, ou encontrei meus amores.
tinha uma que eu elegi como a minha internet, e durante um tempo só frequentei aquela. o kit kat custava 50 centavos. o turcão era bem mau humorado, eu ficava chamando ele pra perguntar onde estava o arrouba no teclado, ou o acento tal, ou como faço pra imprimir?? ele não entendia uma palavra do meu inglês, eu não entendia uma palavra do seu alemão-turco. em suma, a gente não se dava lá muito bem. mas acredito secretamente que com o tempo fui conquistando-o, nada me prova isso, só gosto de pensar assim. afinal, ele já conhecia meus horários, minha bicicleta e a minha cara de choro.
daí um dia fui numa outra lan house de um outro bairro de um outro turco. e foi lá que explodi em lágrimas porque não conseguia falar com o meu amor há uma semana e estava desesperada pensando que ele tinha me esquecido. fui pagar no caixa com a cara deformada de tanto que eu chorei. daí o turco me perguntou se eu estava com saudade da minha família. eu respondi - mentindo - que sim. daí ele falou que me entendia porque ele não via a sua família há 23 anos. eu fiquei chocada e fui embora logo antes que ele me perguntasse há quanto tempo eu não via a minha: 3 meses, eu teria que responder...
agora voltando pra cá no espaço tempo. são paulo, 19 de outubro, 16 e 47 da tarde. salto. to com vontade de fazer xixi. o espaço do elevador ta trancada e o tempo deve passar rápido pra que chegue logo 7 da noite, horário do meu ensaio.
estava caminhando na rua e me senti como um espírito que morreu e não percebe que morreu. e por instantes descobri que esta deve ser, sem a menor dúvida, a PIOR coisa a acontecer a alguém (mesmo que este alguém seja um espírito...).
e vou parar por aqui, já está assustador e um pouco esquisito este texto. e vou extrapolar minha hora aqui na lan house dos chinas.
agora sobra. e vim matar duas horinhas numa lan house no bixiga onde sempre me sinto uma estrangeira. na minha própria cidade natal. me sinto em cuba, puerto rico, sei lá eu.
e ao entrar nesta lan house de um casal de chineses (2 e 50 a hora) me lembrei de berlim e dos turcos donos das internet kaffes, onde tantas vezes chorei, me desesperei, ou encontrei meus amores.
tinha uma que eu elegi como a minha internet, e durante um tempo só frequentei aquela. o kit kat custava 50 centavos. o turcão era bem mau humorado, eu ficava chamando ele pra perguntar onde estava o arrouba no teclado, ou o acento tal, ou como faço pra imprimir?? ele não entendia uma palavra do meu inglês, eu não entendia uma palavra do seu alemão-turco. em suma, a gente não se dava lá muito bem. mas acredito secretamente que com o tempo fui conquistando-o, nada me prova isso, só gosto de pensar assim. afinal, ele já conhecia meus horários, minha bicicleta e a minha cara de choro.
daí um dia fui numa outra lan house de um outro bairro de um outro turco. e foi lá que explodi em lágrimas porque não conseguia falar com o meu amor há uma semana e estava desesperada pensando que ele tinha me esquecido. fui pagar no caixa com a cara deformada de tanto que eu chorei. daí o turco me perguntou se eu estava com saudade da minha família. eu respondi - mentindo - que sim. daí ele falou que me entendia porque ele não via a sua família há 23 anos. eu fiquei chocada e fui embora logo antes que ele me perguntasse há quanto tempo eu não via a minha: 3 meses, eu teria que responder...
agora voltando pra cá no espaço tempo. são paulo, 19 de outubro, 16 e 47 da tarde. salto. to com vontade de fazer xixi. o espaço do elevador ta trancada e o tempo deve passar rápido pra que chegue logo 7 da noite, horário do meu ensaio.
estava caminhando na rua e me senti como um espírito que morreu e não percebe que morreu. e por instantes descobri que esta deve ser, sem a menor dúvida, a PIOR coisa a acontecer a alguém (mesmo que este alguém seja um espírito...).
e vou parar por aqui, já está assustador e um pouco esquisito este texto. e vou extrapolar minha hora aqui na lan house dos chinas.
quarta-feira, outubro 05, 2011
entres
silenciar-me
trancar nos meus calabouços os meus calabocas.
ami da li te
ali
onde a lua nasceu
onde dói um filho
onde dói a vida
onde o mundo vibra
ali na beirada da tragédia que tento compreender como atriz
no meu corpo
nas minhas beiras
nos meus entres
eternos
ali que é sem palavra
e junta com essa raiva que aqui tem habitado
e crescido
e eu a rego sem perceber
carrego pra todo lado
sei lá raiva do quê
xô.
trancar nos meus calabouços os meus calabocas.
ami da li te
ali
onde a lua nasceu
onde dói um filho
onde dói a vida
onde o mundo vibra
ali na beirada da tragédia que tento compreender como atriz
no meu corpo
nas minhas beiras
nos meus entres
eternos
ali que é sem palavra
e junta com essa raiva que aqui tem habitado
e crescido
e eu a rego sem perceber
carrego pra todo lado
sei lá raiva do quê
xô.
segunda-feira, outubro 03, 2011
com os olhos voltados pra dentro da cabeça
miolos
o pescoço afundado nos ombros
torcicolo
e as pernas e braços recolhidos
toco
não quero sair daqui
me deixe ficar aqui
ficar em silêncio e só
na minha navegação solitária rumo ao lado de dentro
re organizar
meu organismo dezorganizou
quero meu eu de volta
vibrando
feliz
agora é névoa
é transição de algo pra um algo outro
já vivi isso antes, sei como são as coisas. algumas delas. as minhas, eu ando sabendo mais.
raiva bate na portinha vez ou outra
com frequência ela vem
e eu a barro
quero deixá-la entrar
preciso das minhas ferramentas
arregaçar as mangas
e ajeitar as coisas por aqui.
aqui dentro
onde meus olhos olham pros miolos, a cabeça esmaga o pescoço pra dentro, os braços e pernas se recusam a sair.
aqui não é bom nem ruim. aqui só é. e é longe de você, o que melhora as coisas.
tchau
miolos
o pescoço afundado nos ombros
torcicolo
e as pernas e braços recolhidos
toco
não quero sair daqui
me deixe ficar aqui
ficar em silêncio e só
na minha navegação solitária rumo ao lado de dentro
re organizar
meu organismo dezorganizou
quero meu eu de volta
vibrando
feliz
agora é névoa
é transição de algo pra um algo outro
já vivi isso antes, sei como são as coisas. algumas delas. as minhas, eu ando sabendo mais.
raiva bate na portinha vez ou outra
com frequência ela vem
e eu a barro
quero deixá-la entrar
preciso das minhas ferramentas
arregaçar as mangas
e ajeitar as coisas por aqui.
aqui dentro
onde meus olhos olham pros miolos, a cabeça esmaga o pescoço pra dentro, os braços e pernas se recusam a sair.
aqui não é bom nem ruim. aqui só é. e é longe de você, o que melhora as coisas.
tchau
sábado, setembro 17, 2011
história de amor
nossa dramaturgia começa com
"você já viu a lua?"
e do portãozinho da casa da vanessa pra uns beijos no carro na garagem da thaís em santa terezinha foi um pulo.
daí eu ganhei uma despejada de cera quente de vela na cabeça da cor dos ciúmes.
depois, um dia, um telefonema:
"vem comigo. vamos juntos. eu te apoio e você me apoia. vem comigo, vem".
fui.
e no dia seguinte fomos namorados.
e de namorar para casar, foi outro pulo, curto. longo. árduo. lindo.
tem berlim entre uma coisa e outra.
nossa dramaturgia é de risco.
é de jogar tudo pro alto e recomeçar a cada dor, a cada foda, a cada dia.
mas nosso sonho é junto. é nosso. lindo.
minha declaração maior é a minha certeza. é o fechar os olhos e "me guia" que eu vou. confio. acredito, plenamente. concordo. identifico. pedaço de mim que encontrei perdido no mundo. e juntou pé com cabeça, virgem com escorpião, e florescemos. juntos. lindo.
nossa dramaturgia também é difícil. envolve coisa ruim, lixo, saudades, erros e mancadas, grandes merdas. nossa dramaturgia tem conflito. ô se tem.
hoje a dramaturgia tá no limite. no risco maior que todos os que já foram. sou uma equilibrista de sombrinha literalmente. abora aporta de casa pisando em ovos. mas ainda assim, vou dormir ao seu lado que é o melhor lugar do mundo, sorrindo.
e acordando com seu sono imóvel. sorrindo.
vai passar meu amor.
vai passar.
a nossa dramaturgia não tem desfecho.
beijos,
sua.
"você já viu a lua?"
e do portãozinho da casa da vanessa pra uns beijos no carro na garagem da thaís em santa terezinha foi um pulo.
daí eu ganhei uma despejada de cera quente de vela na cabeça da cor dos ciúmes.
depois, um dia, um telefonema:
"vem comigo. vamos juntos. eu te apoio e você me apoia. vem comigo, vem".
fui.
e no dia seguinte fomos namorados.
e de namorar para casar, foi outro pulo, curto. longo. árduo. lindo.
tem berlim entre uma coisa e outra.
nossa dramaturgia é de risco.
é de jogar tudo pro alto e recomeçar a cada dor, a cada foda, a cada dia.
mas nosso sonho é junto. é nosso. lindo.
minha declaração maior é a minha certeza. é o fechar os olhos e "me guia" que eu vou. confio. acredito, plenamente. concordo. identifico. pedaço de mim que encontrei perdido no mundo. e juntou pé com cabeça, virgem com escorpião, e florescemos. juntos. lindo.
nossa dramaturgia também é difícil. envolve coisa ruim, lixo, saudades, erros e mancadas, grandes merdas. nossa dramaturgia tem conflito. ô se tem.
hoje a dramaturgia tá no limite. no risco maior que todos os que já foram. sou uma equilibrista de sombrinha literalmente. abora aporta de casa pisando em ovos. mas ainda assim, vou dormir ao seu lado que é o melhor lugar do mundo, sorrindo.
e acordando com seu sono imóvel. sorrindo.
vai passar meu amor.
vai passar.
a nossa dramaturgia não tem desfecho.
beijos,
sua.
quarta-feira, setembro 14, 2011
cala a boca bárbara
debaixo da terra é silêncio
debaixo da pele é silêncio
debaixo da água é silêncio
no mergulho dos sonhos é silêncio
ali - entre a quietude e alguns sussurros
o grito abafado no sonho - e eu mordendo o travesseiro.
no som truncado do silêncio
o pesadelo e a queda ancestral
ali, onde adão e eva
ali pecado
ali não
bem ali.
debaixo da pele é silêncio
debaixo da água é silêncio
no mergulho dos sonhos é silêncio
ali - entre a quietude e alguns sussurros
o grito abafado no sonho - e eu mordendo o travesseiro.
no som truncado do silêncio
o pesadelo e a queda ancestral
ali, onde adão e eva
ali pecado
ali não
bem ali.
segunda-feira, setembro 12, 2011
mon day
na outra encarnação fui um homem.
e aí que eu já sei como é.
prefiro ser mulher, mas gosto da companhia dos homens. às vezes prefiro, até.
trago daquela outra vida a simplicidade, o desejo e a coragem.
------
agora meu cabelo crece a olhos nus. quero impedi-lo. não dá. todos os dias acordo e olho pra maquininha e ela olha pra mim e nos perguntamos, juntas: é hoje?
agora eu estou um pouco gorda.
agora eu lido com um bilhão de coisas que eu não lidava antes.
agora tenho uma casa. e às vezes me sinto como a minha mãe e não gosto da sensação. agora, daqui a pouco, tenho 25 anos.
uau. fuck. no.
agora é. agora sou. logo agora. justo agora.
bem aqui, assim. posso ser? pode sim. só querer. um dois três e já.
quero, logo hesito.
logo penso.
logo sou.
logo agora. justo agora.
e aí que eu já sei como é.
prefiro ser mulher, mas gosto da companhia dos homens. às vezes prefiro, até.
trago daquela outra vida a simplicidade, o desejo e a coragem.
------
agora meu cabelo crece a olhos nus. quero impedi-lo. não dá. todos os dias acordo e olho pra maquininha e ela olha pra mim e nos perguntamos, juntas: é hoje?
agora eu estou um pouco gorda.
agora eu lido com um bilhão de coisas que eu não lidava antes.
agora tenho uma casa. e às vezes me sinto como a minha mãe e não gosto da sensação. agora, daqui a pouco, tenho 25 anos.
uau. fuck. no.
agora é. agora sou. logo agora. justo agora.
bem aqui, assim. posso ser? pode sim. só querer. um dois três e já.
quero, logo hesito.
logo penso.
logo sou.
logo agora. justo agora.
terça-feira, agosto 30, 2011
De mudança
Chove na cidade sobre as nossas cabeças num dia típico calor-frio-calor-frio-chuva-torrencial. Sobre a casa: ela ficou vazia do dia para a noite. Há buracos pela sala, a geladeira partiu e deixou um grande vazio na cozinha, o quarto ao lado do nosso foi desocupado. Minha companheira de casa foi-se para o ex-primeiro mundo. Restam eu e o cigarro que sempre fumo. Eu e a casa metade cheia metade vazia. Eu e o país emergente. E o Bob Marley cantando no sonzinho novo.
Tudo muda o tempo todo.
Insistentemente, muda.
Eu, muda, na cozinha, tomo chá. Mudo, junto. Tudo, junto. Sempre tudo muda tudo. Ou nada muda tudo. Simplesmente muda, assim. Tec. Num estalar de dedos, num atravessar a rua, num dia frio que se torna infernalmente quente. Numa vontade que vira apatia. Ou numa frieza que vira desejo.
Ou o desejo que permanece, que não se esquece, que não deixa sossegar).
Tudo muda o tempo todo.
Insistentemente, muda.
Eu, muda, na cozinha, tomo chá. Mudo, junto. Tudo, junto. Sempre tudo muda tudo. Ou nada muda tudo. Simplesmente muda, assim. Tec. Num estalar de dedos, num atravessar a rua, num dia frio que se torna infernalmente quente. Numa vontade que vira apatia. Ou numa frieza que vira desejo.
Ou o desejo que permanece, que não se esquece, que não deixa sossegar).
domingo, julho 31, 2011
sobre os desejos que vem me atormentar
bom, eles vem sempre, direto, cotidianamente.
isso me deixa feliz e angustiada, ao mesmo puto tempo.
1. feliz:
porque desejar é bom. é sinal de que estou viva. muito viva. pulsando. querendo. sinal de que a vida me atravessa, de que abro espaço pra ela entrar.
2. angustiada:
porque vivo numa sociedade baseada, há séculos, numa Moral cristã-monogâmica-casamento-felizes- para-sempre-na-saúde-e-na-doença-na-alegria-e-na-tristeza, onde a família é super valorizada, em que se condena brutalmente todos os tipos de desejo, e, em especial, aqueles de natureza extra conjugal.
e porque não posso tocar neste assunto. nem com meu cônjuge que eu amo tanto.
é que a minha cota bicho não me deixa esquecer. tampouco me imuniza do desejar.
e a cota bicho é egoísta mesmo. e isso é necessariamente ruim? ou será, pura e simplesmente, natural?
era uma vez uma mulher que vivia há um certo tempo sob a égide da monogamia. e se descabelava.
era uma vez uma mulher que se apaixonou por dois homens ao mesmo tempo quando tinha quinze anos de idade. e descobriu que era possível. e impossível, ao mesmo puto tempo.
era uma vez uma mulher que amava muito. tanto. que cabia se apaixonar por um, dois, cinco de uma vez.
e queria experimentá-los, todos. ela não era bruxa, nem histérica, nem vadia.
ela era uma mulher.
e uma mulher é uma mulher.
um homem também é um homem e também carrega dentro de si uma cota bicho considerável.
me atrai esse animal que existe em nós - seres homens e mulheres.
me cativa, me prende, me impulsiona, me atormenta, me amedronta, me seduz.
esse lugar que ainda não foi colonizado por completo.
deve ser por causa da minha herança indígena brasileira. ou da minha herança-macaco. ou por conta da minha herança homem das cavernas. não havia monogamia nas cavernas.
mulheres e homens são bichos lindos e cativantes e é uma perda gigantesca e avassaladora não podermos nos relacionar como realmente gostaríamos.
como bichos livres; como homens e mulheres civilizados.
isso me deixa feliz e angustiada, ao mesmo puto tempo.
1. feliz:
porque desejar é bom. é sinal de que estou viva. muito viva. pulsando. querendo. sinal de que a vida me atravessa, de que abro espaço pra ela entrar.
2. angustiada:
porque vivo numa sociedade baseada, há séculos, numa Moral cristã-monogâmica-casamento-felizes- para-sempre-na-saúde-e-na-doença-na-alegria-e-na-tristeza, onde a família é super valorizada, em que se condena brutalmente todos os tipos de desejo, e, em especial, aqueles de natureza extra conjugal.
e porque não posso tocar neste assunto. nem com meu cônjuge que eu amo tanto.
é que a minha cota bicho não me deixa esquecer. tampouco me imuniza do desejar.
e a cota bicho é egoísta mesmo. e isso é necessariamente ruim? ou será, pura e simplesmente, natural?
era uma vez uma mulher que vivia há um certo tempo sob a égide da monogamia. e se descabelava.
era uma vez uma mulher que se apaixonou por dois homens ao mesmo tempo quando tinha quinze anos de idade. e descobriu que era possível. e impossível, ao mesmo puto tempo.
era uma vez uma mulher que amava muito. tanto. que cabia se apaixonar por um, dois, cinco de uma vez.
e queria experimentá-los, todos. ela não era bruxa, nem histérica, nem vadia.
ela era uma mulher.
e uma mulher é uma mulher.
um homem também é um homem e também carrega dentro de si uma cota bicho considerável.
me atrai esse animal que existe em nós - seres homens e mulheres.
me cativa, me prende, me impulsiona, me atormenta, me amedronta, me seduz.
esse lugar que ainda não foi colonizado por completo.
deve ser por causa da minha herança indígena brasileira. ou da minha herança-macaco. ou por conta da minha herança homem das cavernas. não havia monogamia nas cavernas.
mulheres e homens são bichos lindos e cativantes e é uma perda gigantesca e avassaladora não podermos nos relacionar como realmente gostaríamos.
como bichos livres; como homens e mulheres civilizados.
sexta-feira, julho 29, 2011
doce tarde
flagrei um homem me espionando da janela do outro lado da rua. credo.
sono da tarde, sem sonhos. janela aberta, luz da tarde entrando, barulho de carro da oficina do outro lado da rua. homens falando, outros me espionando.
sono infantil da tarde, durmo, chafurdo. me entrego pra esse sono gostoso e descompromissado das crianças. acordo com o celular tocando e uns pensamentos esquisitos: "quando eu era um bebê, referia-me a mim mesma como bebê teodoro."
Oi, muito prazer, eu sou o Bebê Teodoro.
Pode um pensamento desses?
A porta range no seu abre-fecha. Estou sozinha em casa. Acordo com tesão, tesão da tarde, pensamento vaga por uns e outros.
Amo a janela entreaberta e a luz que vem de fora, junto com a sombra que a árvore faz no teto do quarto. Amo os galhos dessa árvore velha bem na minha janela que se misturam com os fios e o poste, a árvore abraçou o poste, impossível podá-la, eles viraram uma coisa só.
E chega de sono e divagações que já vou me atrasar.
A vida é concreta. A alma não.
sono da tarde, sem sonhos. janela aberta, luz da tarde entrando, barulho de carro da oficina do outro lado da rua. homens falando, outros me espionando.
sono infantil da tarde, durmo, chafurdo. me entrego pra esse sono gostoso e descompromissado das crianças. acordo com o celular tocando e uns pensamentos esquisitos: "quando eu era um bebê, referia-me a mim mesma como bebê teodoro."
Oi, muito prazer, eu sou o Bebê Teodoro.
Pode um pensamento desses?
A porta range no seu abre-fecha. Estou sozinha em casa. Acordo com tesão, tesão da tarde, pensamento vaga por uns e outros.
Amo a janela entreaberta e a luz que vem de fora, junto com a sombra que a árvore faz no teto do quarto. Amo os galhos dessa árvore velha bem na minha janela que se misturam com os fios e o poste, a árvore abraçou o poste, impossível podá-la, eles viraram uma coisa só.
E chega de sono e divagações que já vou me atrasar.
A vida é concreta. A alma não.
quinta-feira, julho 28, 2011
Momento Itamar Assumpção
Dor Elegante
Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios édens analgésicos
Não me toquem nesta dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios édens analgésicos
Não me toquem nesta dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
terça-feira, julho 26, 2011
essa velha senhora
"Seria demais, certamente, supor que eu não precise mais da realidade.
Seria de menos, todavia, suspeitar sequer que a realidade, essa velha senhora, possa ser a verdadeira mãe destes dizeres tão calares".
Paulo Leminsky - introdução de Distraídos Venceremos
Seria de menos, todavia, suspeitar sequer que a realidade, essa velha senhora, possa ser a verdadeira mãe destes dizeres tão calares".
Paulo Leminsky - introdução de Distraídos Venceremos
segunda-feira, julho 25, 2011
Ah que saudades de escrever e só. E ponto. E já.
Escutando uma música maravilhosa do Itamar. Nova aquisição.
De barriga cheia de macarrão de tomate com mussarela de búfala e cerveja gringa.
Amo minha casinha, meu maridinho, minha vidinha maluca.
Tanta tanta crise e no final tá tudo bem, vai ficar tudo bem, confio, confio, confio. Porque não escolhemos o caminho mais fácil então tem que confiar. Troquei um trabalho de carteira assinada e salário bom por um trabalho artisticamente muito mais interessante e financeiramente muito pior. Mas se eu não escolho a arte ela nunca vai me escolher. E eu sempre vou escolhê-la. Como sempre fiz. E não me arrependo de nada, nem da minha escolha, nem da minha devoção, dedicação, anos de escola, não me arrependo.
Só ganhei com tudo isso. Desenvolvi um olhar pro ser humano, pra vida, pros outros, pro mundo, pra estética, pra configuração das coisas, pra desconfiguração das coisas, pro jeito que elas funcionam, não funcionam, deveriam funcionar, ou quebrar, pras brechas, pras frestas, pra janela que dá pro lado de lá do oceano, do tempo, pro fim das coisas e pro inacabado, pro infinito e pro nosso fim, que sempre se aproxima.
Por mais macarrão, cerveja gringa, cigarro, espiritualidade, cidade...
Tem fim.
Escutando uma música maravilhosa do Itamar. Nova aquisição.
De barriga cheia de macarrão de tomate com mussarela de búfala e cerveja gringa.
Amo minha casinha, meu maridinho, minha vidinha maluca.
Tanta tanta crise e no final tá tudo bem, vai ficar tudo bem, confio, confio, confio. Porque não escolhemos o caminho mais fácil então tem que confiar. Troquei um trabalho de carteira assinada e salário bom por um trabalho artisticamente muito mais interessante e financeiramente muito pior. Mas se eu não escolho a arte ela nunca vai me escolher. E eu sempre vou escolhê-la. Como sempre fiz. E não me arrependo de nada, nem da minha escolha, nem da minha devoção, dedicação, anos de escola, não me arrependo.
Só ganhei com tudo isso. Desenvolvi um olhar pro ser humano, pra vida, pros outros, pro mundo, pra estética, pra configuração das coisas, pra desconfiguração das coisas, pro jeito que elas funcionam, não funcionam, deveriam funcionar, ou quebrar, pras brechas, pras frestas, pra janela que dá pro lado de lá do oceano, do tempo, pro fim das coisas e pro inacabado, pro infinito e pro nosso fim, que sempre se aproxima.
Por mais macarrão, cerveja gringa, cigarro, espiritualidade, cidade...
Tem fim.
quarta-feira, julho 06, 2011
dia mundial da falta de voz
perdi, literalmente, a voz.
Engoli um sapão. Uns, talvez. Que bloquearam a minha faringe, e colaram as pregas vocais umas nas outras impedindo a passagem do ar. Daí, calei. Emudeci. Sussurrei bem baixinho o dia todo. Quem ficou perto de mim pôde experimentar a sensação de falar, falar, falar sem ser interrompido. E daí, num certo momento, se entediaram. Se cansaram da minha muda companhia.
Deixei de falar na hora que tinha que falar e agora não falo nunca mais. Sem voz, sem lugar.
Até me perguntaram se eu era muda.
Imagina? Me senti mesmo, várias vezes, como uma muda e só sei que deve ser bem difícil. Mas também, ao mesmo tempo, vi que tem muita coisa desnecessária que deixo de falar. Basicamente tudo, eu diria. As falas por necessidade mesmo são algumas, poucas, ao longo de um dia. O resto vem pra tapar lacuna, preencher o tempo, soar simpatico etc etc.
Contra a mudez, é preciso se colocar na hora certa e da maneira certa.
Ontem fui dormir pensando nisso. Hoje acordei sem voz. Realmente. Preciso plantar meus pés no chão e aprender a dizer uns NÃOS de boca cheia, redondos e sonoros. E me fortalecer de mim. Convicção e confiança. É disso que preciso mais do que nunca. Fiel a mim. Sabendo de mim. Observando o que está ao redor, sem ficar sonsa, distraída, me perder. Não dá mais pra me perder.
Engoli um sapão. Uns, talvez. Que bloquearam a minha faringe, e colaram as pregas vocais umas nas outras impedindo a passagem do ar. Daí, calei. Emudeci. Sussurrei bem baixinho o dia todo. Quem ficou perto de mim pôde experimentar a sensação de falar, falar, falar sem ser interrompido. E daí, num certo momento, se entediaram. Se cansaram da minha muda companhia.
Deixei de falar na hora que tinha que falar e agora não falo nunca mais. Sem voz, sem lugar.
Até me perguntaram se eu era muda.
Imagina? Me senti mesmo, várias vezes, como uma muda e só sei que deve ser bem difícil. Mas também, ao mesmo tempo, vi que tem muita coisa desnecessária que deixo de falar. Basicamente tudo, eu diria. As falas por necessidade mesmo são algumas, poucas, ao longo de um dia. O resto vem pra tapar lacuna, preencher o tempo, soar simpatico etc etc.
Contra a mudez, é preciso se colocar na hora certa e da maneira certa.
Ontem fui dormir pensando nisso. Hoje acordei sem voz. Realmente. Preciso plantar meus pés no chão e aprender a dizer uns NÃOS de boca cheia, redondos e sonoros. E me fortalecer de mim. Convicção e confiança. É disso que preciso mais do que nunca. Fiel a mim. Sabendo de mim. Observando o que está ao redor, sem ficar sonsa, distraída, me perder. Não dá mais pra me perder.
terça-feira, junho 14, 2011
o vinho e mais ninguém
me saca neste momento
será que já foi difícil assim?
quem virá me resgatar desta vez?
e agora mais do que nunca parece que está nas minhas mãos
minhas duas mãos, frias frágeis
são apenas duas mãos pra dar conta de tanta tanta
conta
tudo errado como dois e dois
carcarááááá
eu uivo
eu guincho
relincho
carece ter coragem e coração
já sei
já sei
meu uivo guincho relincho sem direção
sigo queimando em febre
em amor saudades e o que mais vier me azucrinar
me saca neste momento
será que já foi difícil assim?
quem virá me resgatar desta vez?
e agora mais do que nunca parece que está nas minhas mãos
minhas duas mãos, frias frágeis
são apenas duas mãos pra dar conta de tanta tanta
conta
tudo errado como dois e dois
carcarááááá
eu uivo
eu guincho
relincho
carece ter coragem e coração
já sei
já sei
meu uivo guincho relincho sem direção
sigo queimando em febre
em amor saudades e o que mais vier me azucrinar
domingo, junho 12, 2011
about whisky
se arrumou, se enfeitou
(percebeu que era pra ele)
os fios invisíveis da cidade os conectou na noite fria.
(percebeu que era pra ele)
os fios invisíveis da cidade os conectou na noite fria.
quarta-feira, junho 01, 2011
a moira
Escrever sublimar
Escrever entender
Escrever elaborar
Meu pensamento passa pelas palavras lançadas na tela
Encher a cara de vinho
Sozinha
É não pensar?
Ou é sentir tudo mais mais mais
Tenho 10ml de vinho pra me embebedar
Não basta
Tenho natureza melancólica
Tenho beleza na melancolia
Mas sei ser alegre
Sei ser forte
Às vezes é só escolha, mesmo. De colocar For no One do Caetano me embebedar com 10ml de vinho e fumar. E escrever, claro.
Se eu pudesse escolher, eu teria sido na outra encarnação uma poetisa, do romantismo, das tabernas, do vinho e do absinto sinto, sinto muito.
Eu sinto, sinto muito se eu sinto muito.
Eu teria sido uma mulher que anda na companhia dos homens. Dos pintores. E eu escolhia sair com eles pelas noites de paris, sei lá porque paris, mas poderia ser também outro país, outra cidade cheia de história, cheia de clima, cheia de outono. Eu escolheria passear pelos parques, livre. E me envolver com os homens sem me envolver. Sabe como é? Eu sei. Só eu sei. Não, quanto pretensão! Muitos sabem como é. Me envolvendo até o ultimo fio de cabelo, até o último pelo pubiano, sem envolver... alma. Não! Alma envolve sempre, eu envolvo, sempre. Então eu me enganaria, fingindo não me envolver, tratando com banalidade, com cotidianidade. E aquilo ficaria ecoando tanto que eu nem me daria conta e um dia aquilo explode em sonho, em desejo, em vontade de...É sempre assim que começa e sempre assim que acaba. Eu me apaixono. Eu me atraio. Me atrapalho. E daí eu estava tentando mudar o destino, a moira, a maldição que jogaram na minha cabeça, no meu corpo, meu sexo. Eu estava tentando com força. Mas essas coisas parece que nem a força controla. Ou controla? E eu é que não deixo, eu é que quero, sim, me envolver e...Sou eu que escolho? Ou meu corpo? Mas meu corpo sou eu, não?
E agora, terminados os mililitros do vinho eu partiria pra cerveja. Gelada cerveja na noite fria. Fantasmagórica. O vizinho ouve Janis Joplin e eu e meu Caetano de sempre.
Não sei se é ele quem me atrai ou é a minha necessidade de sempre me apaixonar, de desejar uma pessoa nova. Uma aventura. Um marinheiro.
Fugindo e procurando. Fingindo e fugindo e buscando e indo de encontro a.
Escrever entender
Escrever elaborar
Meu pensamento passa pelas palavras lançadas na tela
Encher a cara de vinho
Sozinha
É não pensar?
Ou é sentir tudo mais mais mais
Tenho 10ml de vinho pra me embebedar
Não basta
Tenho natureza melancólica
Tenho beleza na melancolia
Mas sei ser alegre
Sei ser forte
Às vezes é só escolha, mesmo. De colocar For no One do Caetano me embebedar com 10ml de vinho e fumar. E escrever, claro.
Se eu pudesse escolher, eu teria sido na outra encarnação uma poetisa, do romantismo, das tabernas, do vinho e do absinto sinto, sinto muito.
Eu sinto, sinto muito se eu sinto muito.
Eu teria sido uma mulher que anda na companhia dos homens. Dos pintores. E eu escolhia sair com eles pelas noites de paris, sei lá porque paris, mas poderia ser também outro país, outra cidade cheia de história, cheia de clima, cheia de outono. Eu escolheria passear pelos parques, livre. E me envolver com os homens sem me envolver. Sabe como é? Eu sei. Só eu sei. Não, quanto pretensão! Muitos sabem como é. Me envolvendo até o ultimo fio de cabelo, até o último pelo pubiano, sem envolver... alma. Não! Alma envolve sempre, eu envolvo, sempre. Então eu me enganaria, fingindo não me envolver, tratando com banalidade, com cotidianidade. E aquilo ficaria ecoando tanto que eu nem me daria conta e um dia aquilo explode em sonho, em desejo, em vontade de...É sempre assim que começa e sempre assim que acaba. Eu me apaixono. Eu me atraio. Me atrapalho. E daí eu estava tentando mudar o destino, a moira, a maldição que jogaram na minha cabeça, no meu corpo, meu sexo. Eu estava tentando com força. Mas essas coisas parece que nem a força controla. Ou controla? E eu é que não deixo, eu é que quero, sim, me envolver e...Sou eu que escolho? Ou meu corpo? Mas meu corpo sou eu, não?
E agora, terminados os mililitros do vinho eu partiria pra cerveja. Gelada cerveja na noite fria. Fantasmagórica. O vizinho ouve Janis Joplin e eu e meu Caetano de sempre.
Não sei se é ele quem me atrai ou é a minha necessidade de sempre me apaixonar, de desejar uma pessoa nova. Uma aventura. Um marinheiro.
Fugindo e procurando. Fingindo e fugindo e buscando e indo de encontro a.
terça-feira, maio 31, 2011
brainstorm
meyerhold, susanne linke, sayonara pereira, berlim, em mil em mim, sola, osso duro de roer, espaço - página em branco, minha tinta é meu corpo quem pinta, contando uma história de mulher, parto doído, nasci, pari um homem barbado, chupado, sugado, a cena do meu filme particular há quase um ano na avenida paulista. meu material minha letra. rascunho. no final, entram em cena 200 mulheres, como em Lorca. 200 mulheres. E um homem.
"mas se não saio dessa, sufoco".
"mas se não saio dessa, sufoco".
quarta-feira, maio 18, 2011
work in progress
uma só. sozinha. sola. no canto do palco, vestido de balé preto, sentada numa cadeira. preta. cabelo curto. varal de papéis antigos, cartas, mofo.
cocorosie. dança da bailarina triste. "quero gritar pro mundo: NASCI". acendem as luzes. movimento desenfreado de parto parindo pedaços de flor destroçada. chora ri. visto a camisa de homem. "te tiro filho e te tomo mulher. te bebo, ingiro, indigna do posto mãe. mas me esforço - talvez com mãos delicadas demais pra me chamar mulher - por recompensar a tua orfandade". põe tira camisa, joga, amassa, veste, transforma.
entra um homem em cena. ele e ela dançam, de costas, sem nunca mostrar o rosto. o homem sai e não volta mais. uma só. sozinha. sola. anuncia: "do meu filme particular. Cena de filme. Começa com ele me dando um livro do artaud de presente."
no mais, de agora é só.
cocorosie. dança da bailarina triste. "quero gritar pro mundo: NASCI". acendem as luzes. movimento desenfreado de parto parindo pedaços de flor destroçada. chora ri. visto a camisa de homem. "te tiro filho e te tomo mulher. te bebo, ingiro, indigna do posto mãe. mas me esforço - talvez com mãos delicadas demais pra me chamar mulher - por recompensar a tua orfandade". põe tira camisa, joga, amassa, veste, transforma.
entra um homem em cena. ele e ela dançam, de costas, sem nunca mostrar o rosto. o homem sai e não volta mais. uma só. sozinha. sola. anuncia: "do meu filme particular. Cena de filme. Começa com ele me dando um livro do artaud de presente."
no mais, de agora é só.
terça-feira, maio 10, 2011
é viver esse sobe e desce dentro da minha barriga
lidar com esse monte de nãos metralhadora de nãos ratatatatatatataNÃÃÃÔÔÔ
e uns sins grandes, de mudar o rumo
mudo tudo constante e inconstantemente
mudo todo dia, tudo um pouco
mudo o cabelo como quem bebe um copo dágua
dentro muda. as vísceras cresem, encolhem
minha cabeça esquece
aprende
decora
escuto coisas
acordo chorando
ou rindo no meio da madrugada
falo russo dormindo
leio um livro pela metade
escovo os dentes rápido pra me livrar
ando de carro
pego trânsito
faço testes
sinto-me em um laboratório. muitas vezes a vida parece um.
de vários tipos de testes.
de sins e nãos.
lidar com esse monte de nãos metralhadora de nãos ratatatatatatataNÃÃÃÔÔÔ
e uns sins grandes, de mudar o rumo
mudo tudo constante e inconstantemente
mudo todo dia, tudo um pouco
mudo o cabelo como quem bebe um copo dágua
dentro muda. as vísceras cresem, encolhem
minha cabeça esquece
aprende
decora
escuto coisas
acordo chorando
ou rindo no meio da madrugada
falo russo dormindo
leio um livro pela metade
escovo os dentes rápido pra me livrar
ando de carro
pego trânsito
faço testes
sinto-me em um laboratório. muitas vezes a vida parece um.
de vários tipos de testes.
de sins e nãos.
quinta-feira, abril 07, 2011
criar um solo é:
sola de sapato dura de mastigar
soleira da porta com fresta de luz entrando por baixo
cheiro de incenso
música do satie
medite um pouco
depois durma
acorde,
crie
pule
gire
grite
questione se você está sã ou se já enlouqueceu há um tempão mas só se deu conta agora
não tenha vergonha de si mesma - a sua pior inimiga, sempre.
o resto eu vou descobrindo e contando no caminhar.
sola de sapato dura de mastigar
soleira da porta com fresta de luz entrando por baixo
cheiro de incenso
música do satie
medite um pouco
depois durma
acorde,
crie
pule
gire
grite
questione se você está sã ou se já enlouqueceu há um tempão mas só se deu conta agora
não tenha vergonha de si mesma - a sua pior inimiga, sempre.
o resto eu vou descobrindo e contando no caminhar.
quinta-feira, março 24, 2011
quarta-feira, março 16, 2011
Falar sobre a mulher é deixar que eu escreva livremente
Que eu disserte sobre qualquer assunto
Que eu me assuste
Que me arrebate
Feminino é soltar o verbo
Datilografar baixinho
Chorar no escuro da cama da casa dos pais
São meus dedos de mulher que me guiam
É meu corpo
É o que há de natural em mim: ser mulher
Não preciso que me peçam para falar sobre as mulheres
Tudo que eu disser estará atrelado absolutamente ao fato de eu o ser
Não há dissociação entre meu ser e o ser mulher
Tudo que eu escrever
Tudo que pronunciar
A tudo o que me render
Tudo que eu encarar
Tudo tudo tudo
Parte desta mulher que vos canta
encontrei este texto nos meus arquivos e não me lembro quando e nem se fui eu mesma que o escrevi. mas me identifico com ele e por me conhecer minimamente desconfio mesmo de que sou sua autorA.
Que eu disserte sobre qualquer assunto
Que eu me assuste
Que me arrebate
Feminino é soltar o verbo
Datilografar baixinho
Chorar no escuro da cama da casa dos pais
São meus dedos de mulher que me guiam
É meu corpo
É o que há de natural em mim: ser mulher
Não preciso que me peçam para falar sobre as mulheres
Tudo que eu disser estará atrelado absolutamente ao fato de eu o ser
Não há dissociação entre meu ser e o ser mulher
Tudo que eu escrever
Tudo que pronunciar
A tudo o que me render
Tudo que eu encarar
Tudo tudo tudo
Parte desta mulher que vos canta
encontrei este texto nos meus arquivos e não me lembro quando e nem se fui eu mesma que o escrevi. mas me identifico com ele e por me conhecer minimamente desconfio mesmo de que sou sua autorA.
segunda-feira, março 07, 2011
visitinha
hoje me visitei.
eu tinha dezenove anos, muita ingenuidade, muita vontade e acreditava muito. nada disso mudou. eu tinha cabelo mais comprido, eu andava da estação de trem pelas ruas de paralelepípedo de santa terezinha até chegar na pça rui barbosa sem número. onde está a escola livre.
hoje eu tive dezenove anos, cheguei meio perdida ali na porta do galpão, onde estava tendo uma aula de circo do milan e perguntei pros que estavam ali treinando acrobacias num dia quente de janeiro se ali era a escola livre. "é aqui, mas a entrada é por ali".
então por ali eu entrei pra fazer a minha inscrição no núcleo de formação de atores. e não saí nunca mais.
então eu hoje, 24 anos, peguei meu carro vermelho todo estropiado e atravessei a cidade e cheguei em santo andré, que hoje pareceu mais longe do que quando eu fazia o mesmo trajeto todos os dias. e cada lombada me arrepiou. cada farol e curva da avenida do estado me trouxe um fragmento de memória. quando cheguei perto da escola livre me arrepiei inteira. me pareceu que o tempo é uma coisa muito louca mesmo. que tinha uma eu ali, dezenove anos, ingênua e deslumbrada com a escola, vivendo ao mesmo tempo que essa eu de hoje, 24 anos, nostálgica. ali, saltitando, ali caminhando, ali dançando, cantando, vivendo, vivendo muito intensamente todos aqueles dias. eu me vi, me senti, arrepiei, lembrei de situações tantas. tanta história minha presa ali dentro. eu ali dentro, presa no tempo, nas paredes pichadas e a escola quase desabando de tão abandonada que está pela prefeitura podre. hoje eu tive a sensação cristalina de que o tempo não é linear coisa nenhuma e que eu posso tranquilamente conviver com uma outra eu que existe tanto quanto essa eu que vos escreve. existo ali na elt, onde num dia ensolarado entrei pra nunca mais, pro resto da minha vida, sair.
eu tinha dezenove anos, muita ingenuidade, muita vontade e acreditava muito. nada disso mudou. eu tinha cabelo mais comprido, eu andava da estação de trem pelas ruas de paralelepípedo de santa terezinha até chegar na pça rui barbosa sem número. onde está a escola livre.
hoje eu tive dezenove anos, cheguei meio perdida ali na porta do galpão, onde estava tendo uma aula de circo do milan e perguntei pros que estavam ali treinando acrobacias num dia quente de janeiro se ali era a escola livre. "é aqui, mas a entrada é por ali".
então por ali eu entrei pra fazer a minha inscrição no núcleo de formação de atores. e não saí nunca mais.
então eu hoje, 24 anos, peguei meu carro vermelho todo estropiado e atravessei a cidade e cheguei em santo andré, que hoje pareceu mais longe do que quando eu fazia o mesmo trajeto todos os dias. e cada lombada me arrepiou. cada farol e curva da avenida do estado me trouxe um fragmento de memória. quando cheguei perto da escola livre me arrepiei inteira. me pareceu que o tempo é uma coisa muito louca mesmo. que tinha uma eu ali, dezenove anos, ingênua e deslumbrada com a escola, vivendo ao mesmo tempo que essa eu de hoje, 24 anos, nostálgica. ali, saltitando, ali caminhando, ali dançando, cantando, vivendo, vivendo muito intensamente todos aqueles dias. eu me vi, me senti, arrepiei, lembrei de situações tantas. tanta história minha presa ali dentro. eu ali dentro, presa no tempo, nas paredes pichadas e a escola quase desabando de tão abandonada que está pela prefeitura podre. hoje eu tive a sensação cristalina de que o tempo não é linear coisa nenhuma e que eu posso tranquilamente conviver com uma outra eu que existe tanto quanto essa eu que vos escreve. existo ali na elt, onde num dia ensolarado entrei pra nunca mais, pro resto da minha vida, sair.
domingo, março 06, 2011
inventare
restam tres horas pra dormir até que chegue a hora de acordar amanhã. hoje.
resta uma vida pra viver
mas que não chega nunca!
cadê?
a vida é que me molda num sapato apertado - não eu que a invento.
quem sabe inventar a própria vida?
que eu saiba, os artistas
ou os religiosos
os monges
os gurus
os padres
esses inventam uma outra vida
agora eu
(e uma enorme parte da população)
tenho vivido uma coisa que me espreme, aperta, machuca
uma coisa de se vira no que der pra poder pagar o aluguel no fim do mês
uma coisa garçonete de restaurante perda de tempo de vida de alma
cadê meu combustível, minha vida?
"vida minha vida
olha o que é que eu fiz
deixei a fatia mais doce da vida
na mesa dos homens
de vida vazia..."
assim não quero não dá não tem jeito
vou inventar que posso sair deste trabalho e começar a trabalhar no meu mais novo projeto para o qual dedicarei minha alma inteira e parte do meu corpo. e minha voz.
vou reinventar essa vida que sempre foi a que experimentei até chegar neste ponto morto de bater cartão. bater cabeça. dar murro em ponta de faca. nó em pingo d'água. correr atrás do próprio rabo.
inventei para mim uma prisão com casa marido comida na geladeira trabalho com carteira assinada. e quero desinventar tudo isso agora já. estalar os dedos e ser automaticamente transportada para uma sala escura, sem som, com os meus eleitos para criarem comigo esta nova vida que eu ainda vou viver. no palco. e na coxia.
resta uma vida pra viver
mas que não chega nunca!
cadê?
a vida é que me molda num sapato apertado - não eu que a invento.
quem sabe inventar a própria vida?
que eu saiba, os artistas
ou os religiosos
os monges
os gurus
os padres
esses inventam uma outra vida
agora eu
(e uma enorme parte da população)
tenho vivido uma coisa que me espreme, aperta, machuca
uma coisa de se vira no que der pra poder pagar o aluguel no fim do mês
uma coisa garçonete de restaurante perda de tempo de vida de alma
cadê meu combustível, minha vida?
"vida minha vida
olha o que é que eu fiz
deixei a fatia mais doce da vida
na mesa dos homens
de vida vazia..."
assim não quero não dá não tem jeito
vou inventar que posso sair deste trabalho e começar a trabalhar no meu mais novo projeto para o qual dedicarei minha alma inteira e parte do meu corpo. e minha voz.
vou reinventar essa vida que sempre foi a que experimentei até chegar neste ponto morto de bater cartão. bater cabeça. dar murro em ponta de faca. nó em pingo d'água. correr atrás do próprio rabo.
inventei para mim uma prisão com casa marido comida na geladeira trabalho com carteira assinada. e quero desinventar tudo isso agora já. estalar os dedos e ser automaticamente transportada para uma sala escura, sem som, com os meus eleitos para criarem comigo esta nova vida que eu ainda vou viver. no palco. e na coxia.
segunda-feira, fevereiro 14, 2011
uma tempestade se arma
vou descer o morro pra cair no mar
que nesta vida que escolhi, não escolhi ser platéia
cansei de só ficar olhando, também quero me molhar
é aí que o céu desce ao chão
e todos encharcados dançam dentro de seus carros com vidro embaçado, parabris na velocidade máxima e ninguém arrisca
ninguém arrisca nada nesta cidade
nem 10 centavos
risco zero
eu estou arriscada naturalmente
fui pro lugar não confortável e to tendo que rebolar
mas agora preciso apontar pra direção correta e lançar minha flecha de diana paulistana atriz whatever século 21 internet rua cidade ácida casa nova
amanhã é cedo e muito cedo eu vou pirar.
evoé.
vou descer o morro pra cair no mar
que nesta vida que escolhi, não escolhi ser platéia
cansei de só ficar olhando, também quero me molhar
é aí que o céu desce ao chão
e todos encharcados dançam dentro de seus carros com vidro embaçado, parabris na velocidade máxima e ninguém arrisca
ninguém arrisca nada nesta cidade
nem 10 centavos
risco zero
eu estou arriscada naturalmente
fui pro lugar não confortável e to tendo que rebolar
mas agora preciso apontar pra direção correta e lançar minha flecha de diana paulistana atriz whatever século 21 internet rua cidade ácida casa nova
amanhã é cedo e muito cedo eu vou pirar.
evoé.
terça-feira, fevereiro 08, 2011
museu de mim
Mudar de casa é ir de encontro ao futuro desconhecido e, ao mesmo tempo, dar de cara com o passado guardado nas caixas, mofado, nas letras borradas das cartas que guardo há anos e anos e anos. É me encontrar nas coisas que nunca consegui jogar fora. É me desfazer de pedaços de mim que vão deixando de fazer sentido, deixando de me acompanhar. É começar do zero, mas com caixas e caixas de passado lacrado ali, e que não jogo fora nem a pau. Que nem olho, nem preciso, mas sei que estão ali. Me segurando. Me formando. Desapegar é tarefa árdua porque é abrir mão do que a gente já não é mas quer continuar sendo - porque é seguro, afinal de contas. Minhas fotos, meus 57 caderninhos com escritos de todas as fases da minha vida, as cartas que mandaram para mim desde meus 0 anos de idade, os ingressos das peças e shows mais marcantes, os bilhetes das viagens tantas, os presentes de todos os ex namorados, as cartas de amor, as pessoas que fizeram parte e que hoje eu nem sei onde vivem, os objetos que fui acumulando, as coleções de isqueiros que não funcionam, de fitas de cetim, de roupas de bolinha, os figurinos, as roupas que não servem, os sapatos fodidos - ufa - toneladas de passado. Passado pesado! Carrego tudo como se um dia fosse fazer um museu de mim mesma. Como se fosse um atestado de: "Ó, vivi", ou, "Ó, não passei a vida em branco" - os documentos comprovam que viajei, que amei, que trabalhei e estudei. Coisa maluca essa de mudar. E essa de não querer largar o osso. Isso é neurose séria que tem que ser tratada com muita terapia. Apego à matéria.
E se eu jogasse tudo isso fora?
Continuaria sendo a mesma sofia?
E se tudo isso que cultivei por anos e anos e que me dei ao trabalho de guardar e transportar e cuidar bem - isso tudo fosse pro lixo? Sobreviveria, eu?
Penso que minha casa nova merece uma nova eu. Livre desses mofos. Livre do passado. Da que fui. Mas me conheço o suficiente pra saber que não tenho coragem de jogar o passado no lixo.
E se eu jogasse tudo isso fora?
Continuaria sendo a mesma sofia?
E se tudo isso que cultivei por anos e anos e que me dei ao trabalho de guardar e transportar e cuidar bem - isso tudo fosse pro lixo? Sobreviveria, eu?
Penso que minha casa nova merece uma nova eu. Livre desses mofos. Livre do passado. Da que fui. Mas me conheço o suficiente pra saber que não tenho coragem de jogar o passado no lixo.
sexta-feira, fevereiro 04, 2011
espremida
o que me trouxe para esta tela em branco virtual as 3 e 40 da manhã foi um pensamento que me tomou no curto trajeto entre o estacionamento e a minha casa. pensei assim:
se o meu carro, neste momento, representasse algo maior e mais representativo meu - tipo a minha alma - hoje, seria algo beirando (ou mergulhando) o desastroso. Se meu carro representasse algo como o quadro do Dorian Gray que vai envelhecendo e apodrecendo de acordo com tudo de ruim que ele faz na vida, enquanto ele não envelhece jamais.
Resumindo todo esse aparente nonsense:
há oito meses não lavo o meu carro
há dois a capinha do espelhinho caiu
há muitos há batidas em toda a sua volta
e por último:
ontem fui espremida num engavetamento e meu carro está mais amassado que nunca
toda essa situação não pode ser encarada como um simples acaso, uma mera coincidência. isso quer dizer algo.
mostra como (não) cuido do que é meu. como não valorizo. não preservo. não amo.
tudo isso me deixou um pouco preocupada com meu modo de viver esta vida.
se o meu carro, neste momento, representasse algo maior e mais representativo meu - tipo a minha alma - hoje, seria algo beirando (ou mergulhando) o desastroso. Se meu carro representasse algo como o quadro do Dorian Gray que vai envelhecendo e apodrecendo de acordo com tudo de ruim que ele faz na vida, enquanto ele não envelhece jamais.
Resumindo todo esse aparente nonsense:
há oito meses não lavo o meu carro
há dois a capinha do espelhinho caiu
há muitos há batidas em toda a sua volta
e por último:
ontem fui espremida num engavetamento e meu carro está mais amassado que nunca
toda essa situação não pode ser encarada como um simples acaso, uma mera coincidência. isso quer dizer algo.
mostra como (não) cuido do que é meu. como não valorizo. não preservo. não amo.
tudo isso me deixou um pouco preocupada com meu modo de viver esta vida.
segunda-feira, janeiro 10, 2011
trovoada
assim,
o tempo passa
e isso apavora.
mas o tempo também é remédio santo
pra esquecer
ou relembrar
pra perder
reencontrar
pra costurar ferida aberta ou pra dar nó na memória: nada melhor que o tempo
esse caminhãozão que não para jamé
ontem a noite me olhei no espelho do banheiro e senti arrepio na alma de medo do tempo. me vi nova mas me pensei velha. me pensei no fim da vida. me pensei morta. e caiu lágrima do olho e doeu a cabeça de pensar que nessa vida a gente morre e não tem jeito não tem remédio que evite. morre e pronto.
e depois fugi do espelho com medo dos pensamentos que me atingiram feito relâmpago.
cabuuum
o tempo passa
e isso apavora.
mas o tempo também é remédio santo
pra esquecer
ou relembrar
pra perder
reencontrar
pra costurar ferida aberta ou pra dar nó na memória: nada melhor que o tempo
esse caminhãozão que não para jamé
ontem a noite me olhei no espelho do banheiro e senti arrepio na alma de medo do tempo. me vi nova mas me pensei velha. me pensei no fim da vida. me pensei morta. e caiu lágrima do olho e doeu a cabeça de pensar que nessa vida a gente morre e não tem jeito não tem remédio que evite. morre e pronto.
e depois fugi do espelho com medo dos pensamentos que me atingiram feito relâmpago.
cabuuum
quinta-feira, dezembro 23, 2010
quarta-feira, dezembro 15, 2010
Volvi
é como se eu nunca tivesse ido
é como se minha vida tivesse ficado suspensa por 4 meses e agora eu desapertei o pause. mas a sensação é de que voltei pro mesmo ponto em que tinha parado o dvd.
móvel casa cama mesa chuveiro rua calçada prédio elevador trânsito chuva caos são são são paulo a mil natal desenfreado consumo absoluto.
volvi
com o cabelo mais curto
com fotos na camera na retina e na cabeça
com ingressos e bilhetes de metro guardados na carteira
com euros pra trocar
com a cabeça meio lá, voltei com o corpo pra cá
com línguas que se confundem na boca
volvi
e é tão bom ir e tão bom voltar e tão difícil os dois
Mas aqui estou e aqui vou ter que reaprender a ficar
e ver o que faço com tudo isso que tá aqui
é como se eu nunca tivesse ido
é como se minha vida tivesse ficado suspensa por 4 meses e agora eu desapertei o pause. mas a sensação é de que voltei pro mesmo ponto em que tinha parado o dvd.
móvel casa cama mesa chuveiro rua calçada prédio elevador trânsito chuva caos são são são paulo a mil natal desenfreado consumo absoluto.
volvi
com o cabelo mais curto
com fotos na camera na retina e na cabeça
com ingressos e bilhetes de metro guardados na carteira
com euros pra trocar
com a cabeça meio lá, voltei com o corpo pra cá
com línguas que se confundem na boca
volvi
e é tão bom ir e tão bom voltar e tão difícil os dois
Mas aqui estou e aqui vou ter que reaprender a ficar
e ver o que faço com tudo isso que tá aqui
domingo, novembro 28, 2010
San Giuliano Terme
Que hoje conheci a cidade do meu tataravo, perdida entre Pisa e Lucca, a linda e picolina San Giuliano Terme. Debaixo de uma chuva incessante, insistente, jogamos um pedaço recolhido de seu tumulo no Cemiterio do Araça, em Sao paulo, no rio de San Giuliano terme. Trouxemos de volta à cidade natal de Luigi Carlo Carli, um pedaço dele, que morreu no Brasil aos 40 e poucos anos, com um estilhaço de granada na revoluçao de 32, em frente a seu açougue. Tarde chuvosa e fria de encontro com meus antepassados. De agradecer, porque è s'o por causa deles que estou aqui. Grazie mile, Luigi!
terça-feira, novembro 23, 2010
Procura-se:
Mulher
elétrica mansa, 24.
microondas neuronios
pane no fio de cabelo
VOLTAGEM 110 / fumante
a prova d'água
nao solúvel, solucionável
produto frágil: entorna.
Procura homem
forninho elétrico usado sujo de gordura, raspas de queijo gratinado, de bandeja.
de lambuzar.
migalhas de bolacha cream craker murcha no fundo do armário
com prazo de validade vencida - iogurte semi aberto na geladeira
pago bem, cubro qualquer oferta.
call
me
domingo, novembro 14, 2010
sábado, novembro 06, 2010
La mére

Há um oceano entre eu e meu mundo
Há um oceano entre eu e o meu amor
Há um maldito oceano entre eu e o tempo
Há um puto de um oceano entre eu e aquilo que sobrou de mim
Há um puta de um marzao
Há um oceano infinito
Há um tempo que nao acaba, tanta água, lonjura áspera, cava caixa de memória, revira osso, tumba, turbilhao.
Nada, rema, navega, bóia.
Corre, naufraga, respira, recomeça.
Espera. Espera. Passa.
Arde - assopra. Seca - molha. Toma. Come. Come. Come chocolates, minha filha. Pinica, coça, retorce. Chuva ácida, vento frio, rua, castelo, igreja, ingles. Bratislava Cracóvia. Polonia triste, em preto e branco. Auschwitz tanta dor. Bratislava pobre, barata, cidadinha zero a esquerda.
Noite de sonhos fortes no trem. Noite na caminha dura do trem, o som dos trilhos, som de ferro, sonhos de estrada, de idas e voltas e idas de novo.
E nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca chega. Essa é a graça, agora. Está no ir.
E para de pensar, para de querer, para de doer. Para de reclamar.
...
Tanto mar tanto mar
Sei também como é preciso, pá, navegar, navegar...
Canta primavera, pá!
Cá estou carente
Manda novamente algum cheirinho de alecrim
sábado, outubro 30, 2010
barcelonesa
Cigarro entre os dedos
Maconha na cabeça
Pizza no estomago
Barcelona lá embaixo da varanda do ap da Dorinha
e aqui em cima
no oitavo
(ou átimo, em catalao)
estou eu e só
eu e o cigarro e a maconha e os dois peixes dourados e a tartaruguinha de água que sobrevive com um abajur forjando o seu habitat natural
E eu que nao tenho mais habitat natural
Estou aqui há dois dias e nao vi quase nada da cidade
estive trancafiada gravando um curta metragem com espanhóis, tendo que decorar textos em castelhano (!)
DE fato, estava um pouco cansada de só ver cidades. Agora é bom criar essa mini rotininha que vai durar só dois dias. Depois volto pra maré desrotinada que é a viagem. Que vai e vem. E nao sai de mim, nao sai. Nao acabo de viajar. Navego. Vivo dia a dia. Cada um deles. Devorando o tempo e sendo devorada por ele. Que nao me decifra, mas me devora.
Ahora voy dormir en la cama de dorinha e sonhar suenhos em catalan.
Maconha na cabeça
Pizza no estomago
Barcelona lá embaixo da varanda do ap da Dorinha
e aqui em cima
no oitavo
(ou átimo, em catalao)
estou eu e só
eu e o cigarro e a maconha e os dois peixes dourados e a tartaruguinha de água que sobrevive com um abajur forjando o seu habitat natural
E eu que nao tenho mais habitat natural
Estou aqui há dois dias e nao vi quase nada da cidade
estive trancafiada gravando um curta metragem com espanhóis, tendo que decorar textos em castelhano (!)
DE fato, estava um pouco cansada de só ver cidades. Agora é bom criar essa mini rotininha que vai durar só dois dias. Depois volto pra maré desrotinada que é a viagem. Que vai e vem. E nao sai de mim, nao sai. Nao acabo de viajar. Navego. Vivo dia a dia. Cada um deles. Devorando o tempo e sendo devorada por ele. Que nao me decifra, mas me devora.
Ahora voy dormir en la cama de dorinha e sonhar suenhos em catalan.
segunda-feira, outubro 25, 2010
nao tem nada mais bonito que as luzes noturnas desta Toulouse singela e divina nas suas ruinhas medievais, nas igrejas grandiosas, na ponte nova mas que é velha muito velha, no seu rio imenso. bom mesmo é andar por essa cidadela a esmo, pairando como as gaivotas aqui do rio, sentindo o vento gelar o rosto e, depois de um tempao vagando, parar para tomar um café quentinho com leite no bistrot pequeno da esquina. Vive Toulouse!
domingo, outubro 24, 2010
dias de fúria

Marseille, 23 de outubro de 2010
a lua cheia me sobe a cabeça
mexe com as minhas marés
todos os meus líquidos entramemebuliçao
(((panela de pressao prestes a explodir)))
impressionante a relaçao -direta- que existe entre a lua e as mulheres e isso nao é misticismo, astrologia, calendário maia, tarot - NAO - isso é coisa que acontece aqui dentro de mim mulher, bem aqui, eu sinto uma cólera, um tesao, uma vontade de matar, de morrer, um mau humor, tudo exatamente junto. tudo ao mesmo tempo agora. j'a fui mulher eu sei.
vontade de sair correndo pelas ruas incendiadas de marseille.
vontade de atar fogo nas pilhas de lixo que cobrem a cidade nesta greve junto com os moradores daqui. e deixar queimar.
burn burn burn.
e jogar todos os meus dramas na fogueira.
os meus,
dos meus antepassados,
dos grevistas,
dos aposentados da frança e de todo o mundo.
(este velho mundo que naufraga, lentamente)
e se eu me aproximasse do mar nesta noite? sob esta lua, nesta cidade portuária decadente? se eu mergulhasse em suas águas geladas? neste mar mediterraneo... me entregar. quem me resgataria?
nao.
nem fogo
nem mar.
agora é só esperar passar.
gostei de voce, marseille.
voce é muito maluca.
nao por acaso, foi aqui que nasceu nosso Antonin Artaud.
ele vinha sem muita conversa sem muito explicar
eu só sei que falava cheirava e gostava de mar
sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
e minha mae se entregou a este homem perdidamente
ele assim como veio partiu nao se sabe pra onde
e deixou minha mae com um olhar cada dia mais longe
esperando parada pregada na pedra do porto
com seu único velho vestido cada dia mais curto
'Minha História' - Chico Buarque
quinta-feira, outubro 21, 2010
de Marseille
PROCUREI INTENCIONALMENTE matar três urubus de fome e de sede no prédio da Bienal de São Paulo. Pus ali imensas latas cheias de tinta escura, para que se afogassem, além de espelhos, para que batessem a cabeça durante o voo. Construí túneis de areia preta, para que entrassem sem conseguir sair, morrendo ali dentro. E, para forçá-los a voar, costumo lançar rojões em sua direção.
Nuno Ramos
é como os homens
urubuzentos
semi mortos
sendo jogados pra todos os lados
keep walking
move
go
work
make money
fuck yourself
kill yourself with work without money
túneis e sequestros
e escuridoes e putrefaçao
.
o fato é que hoje eu daria tudo para estar em outro lugar que nao aqui e agora
quando o melhor lugar do mundo nao é aqui e agora
pior sensaçao que pode existir (é como se eu fosse um urubu na gaiola)
uma rua sem saída
o tempo espaço pode ser tao aprisionador as vezes!
o fato é que tenho ganas de voltar
para minha cidade meu amor meus amigos minha vida meu trabalho
sinto falta pulando dentro do peito da barriga do cérebro
as saudades estao impregnadas, enraizadas, atracadas em mim
as saudades que a esta altura se instalaram e nao querem mais sair - nao há o que as arranque daqui
o fato é que gosto demais da minha vida na minha cidade
ou gostava (nao sei mais se ela será a mesma)
pode ser que nao seja mais, nunca mais, aquela vida que eu vivi na minha cidade
e é melhor que seja diferente mesmo
que quando eu chegue algo tenha mudado
ou eu ou o mundo
ou algo no meu quarto
um cabelo branco na cabeça de uma amiga
um chupao no pescoço do meu namorado
um ladrilho novo quebrado no chao da cozinha
um bar novo na sao luís
uma linha de metro que ficou pronta
será que o sesc belenzinho já abriu?
será que a dilma será eleita?
será que minha cama estará desarrumada?
como meu pai engordou!
meu irmao transformou meu quarto num atelie
meu carro estará com novas batidas?
meu celular voltará a funcionar com o mesmo número?
alguém regou as plantas?
quem usou as minhas roupas?
uma lacuna maior
o vao que separa minha janela do mundo aumentou
os quadros estao escorregando na parede
meus pés nao cabem nestes sapatos
como a cidade está feia!
já nem me lembrava deste vestido
nao preciso de tanta roupa!
quem é voce mesmo, aqui no meu quarto, nu na minha cama?
quero meu lençol de florzinhas
quero meu banheiro
quero me trancar no quarto com voce e nao sair nunca mais
e procurar no seu corpo as marcas novas
e te mostrar meus quilinhos a mais
e contar meus segredos minhas histórias do além mar
meus ingressos que guardei das exposiçoes das peças dos shows dos metros
minha coleçao de isqueiros de cada país
e as moedas
e os presentes
e as roupas novas
e meu cabelo raspado
e minha cara e meu jeito que nao mudam
que medo de encontrar tudo igual cada canto cada enfeite cada voz cada música
que medo de nao te encontrar nunca mais
que nó
quero dormir e voltar a lembrar dos meus sonhos
bonne nuit, marseille.
Nuno Ramos
é como os homens
urubuzentos
semi mortos
sendo jogados pra todos os lados
keep walking
move
go
work
make money
fuck yourself
kill yourself with work without money
túneis e sequestros
e escuridoes e putrefaçao
.
o fato é que hoje eu daria tudo para estar em outro lugar que nao aqui e agora
quando o melhor lugar do mundo nao é aqui e agora
pior sensaçao que pode existir (é como se eu fosse um urubu na gaiola)
uma rua sem saída
o tempo espaço pode ser tao aprisionador as vezes!
o fato é que tenho ganas de voltar
para minha cidade meu amor meus amigos minha vida meu trabalho
sinto falta pulando dentro do peito da barriga do cérebro
as saudades estao impregnadas, enraizadas, atracadas em mim
as saudades que a esta altura se instalaram e nao querem mais sair - nao há o que as arranque daqui
o fato é que gosto demais da minha vida na minha cidade
ou gostava (nao sei mais se ela será a mesma)
pode ser que nao seja mais, nunca mais, aquela vida que eu vivi na minha cidade
e é melhor que seja diferente mesmo
que quando eu chegue algo tenha mudado
ou eu ou o mundo
ou algo no meu quarto
um cabelo branco na cabeça de uma amiga
um chupao no pescoço do meu namorado
um ladrilho novo quebrado no chao da cozinha
um bar novo na sao luís
uma linha de metro que ficou pronta
será que o sesc belenzinho já abriu?
será que a dilma será eleita?
será que minha cama estará desarrumada?
como meu pai engordou!
meu irmao transformou meu quarto num atelie
meu carro estará com novas batidas?
meu celular voltará a funcionar com o mesmo número?
alguém regou as plantas?
quem usou as minhas roupas?
uma lacuna maior
o vao que separa minha janela do mundo aumentou
os quadros estao escorregando na parede
meus pés nao cabem nestes sapatos
como a cidade está feia!
já nem me lembrava deste vestido
nao preciso de tanta roupa!
quem é voce mesmo, aqui no meu quarto, nu na minha cama?
quero meu lençol de florzinhas
quero meu banheiro
quero me trancar no quarto com voce e nao sair nunca mais
e procurar no seu corpo as marcas novas
e te mostrar meus quilinhos a mais
e contar meus segredos minhas histórias do além mar
meus ingressos que guardei das exposiçoes das peças dos shows dos metros
minha coleçao de isqueiros de cada país
e as moedas
e os presentes
e as roupas novas
e meu cabelo raspado
e minha cara e meu jeito que nao mudam
que medo de encontrar tudo igual cada canto cada enfeite cada voz cada música
que medo de nao te encontrar nunca mais
que nó
quero dormir e voltar a lembrar dos meus sonhos
bonne nuit, marseille.
domingo, outubro 17, 2010
Je suis ici.
A Paris.
A Belle Paris.
Dos sonhos dos filmes dos livros. Ici. Justo aqui.
Viajando com a minha mae, pela primeira vez na minha vida, eu e ela e só. Sem os irmaos que sempre estiveram presentes em todos os momentos.
É o nosso momento. É bonito.
Ela morou aqui quando tinha 24 anos. Eu tenho 24 anos. E a gente se encontrou, na interseccao dos 24, no meio da minha viagem, um oásis, um porto seguro no meio de tudo tao incerto que vivo aqui há dois meses e meio.
É tao bom um pouco de confortável!
Está lindo. É outono, as folhas estao amarelas e eu vendo tudo pela primeira vez. está frio.
E agora eu penso em voce, voce aí, que as vezes me le. É. Voce.
E agora vou dormir.
Estou com os olhos ardendo.
Beijos e boa noite pra Paris.
E
pra
voce.
A Paris.
A Belle Paris.
Dos sonhos dos filmes dos livros. Ici. Justo aqui.
Viajando com a minha mae, pela primeira vez na minha vida, eu e ela e só. Sem os irmaos que sempre estiveram presentes em todos os momentos.
É o nosso momento. É bonito.
Ela morou aqui quando tinha 24 anos. Eu tenho 24 anos. E a gente se encontrou, na interseccao dos 24, no meio da minha viagem, um oásis, um porto seguro no meio de tudo tao incerto que vivo aqui há dois meses e meio.
É tao bom um pouco de confortável!
Está lindo. É outono, as folhas estao amarelas e eu vendo tudo pela primeira vez. está frio.
E agora eu penso em voce, voce aí, que as vezes me le. É. Voce.
E agora vou dormir.
Estou com os olhos ardendo.
Beijos e boa noite pra Paris.
E
pra
voce.
terça-feira, outubro 12, 2010
... lembrar que saí nesta saga maluca de viagem redescobrimento - uma terceiromundista, mundana de tudo, uma brasileira com amor, aqui nas zorópa de meudeus. Nesse velho mundo lindo foda complexo. Quero é me encharcar. Tenho feito. Tenho amado. E se engordo - depois emagreço. E se bebo diariamente - depois paro. E se nao trabalho agora, é porque tenho toda a vida pra isso. Agora é meu momento de viver me entregar no submarino do além mar, é preciso ir além do bojador para ir além da dor. As pessoas que conheci, as línguas que falei, os lugares onde dormi, os museus, as ruas que atravessei, as comidas que provei, os homens que amei, as mulheres que passaram por mim, as ressacas, as bebedeiras, as noites sem fim, o frio, o calor de berlim, as aulas de suadeira, a morte todos os dias nas camas cada dia uma. Que é como uma aventura hippie. Cada dia num lugar - fluindo fluindo fluindo. E que me importa as roupas sujas no fundo da mala? Que amanha nao sei onde estarei? Que me importa? Que me importa? Me importa que tudo agora é maior, mais potente, dentro de mim uma coisa grande cresce. Uma coisa de contramao de tudo. De que nao estou seguindo o que este sistema absoluto quer que eu faça eternamente: ganhando dinheiro, gerando lucro. Nao. To aqui, viajando, me nutrindo, me abastecendo. Com pessoas maravilhosas que me ensinam todos os dias, nem que seja só uma palavra nova numa língua outra. Mas aprendo sempre. E ensino também.
cambio desligo.
............
daí nosso mais-que-perfeito está desfeito.
.............
Antía es una buenissima anfitria. Me gusta su humor terrible. Las espanholas tenen mucho humor. Me encantan, todas.
y basta por hoy.
...............
cambio desligo.
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daí nosso mais-que-perfeito está desfeito.
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Antía es una buenissima anfitria. Me gusta su humor terrible. Las espanholas tenen mucho humor. Me encantan, todas.
y basta por hoy.
...............
quinta-feira, outubro 07, 2010
londonlondon
a man's heart in a woman's body
...
o cabo da boa esperanca é o mesmo que o cabo das tormentas.
e de qualquer modo, atravessando-o, se chega nas Índias.
...
brincando de cantar alto na rua pra provocar os ingleses silenciosos
cantar alto e cantar em brasileiro, ainda por cima
claro que todos olharam - censurando
ou curiosos
que língua ela canta?
mas ela nem ligou, porque era tao mais forte a caçada do chico buarque
nao conheco seu nome ou paradeiro
adivinho seu rastro e cheiro
vou armado de dentes e coragem
vou morder sua carne selvagem
a fuga, o passeio, o vento, as escadas do metro,
tudo meio que contagia a gente
quando se está na vida, literalmente, só a passeio
pra cima pra baixo, mapa, rua, rostos, línguas, cerveja, objetos, comida, semáforo, corvos, esquilos e raposas
e dá uma coisa grande dentro do peito
coisa imensa
forte
sei lá que nome dar, prefiro chamar de coisa imensa
coisa que as vezes é tao boa
inexplicavelmente boa que me incendeia, que vontade de viver, de ver mais e mais, ver tudo, o mundo - tao lindo o mundo - nao preciso de mais nada, quero viver assim, navegando navegando
noutras vezes
é
coisa
silenciosa
pelas beiradas vai me deixando inteira num estado
de coisa estranha
que nao sei nomear
prefiro chamar de coisa estranha
e tudo perde um pouco o sentido
que que eu to fazendo aqui gastando em pounds comendo doce sem parar. e esse buraco que só cresce? que nao preenche? nunca?
em londres
na turquia
na conchinchina
no himalaia
na argentina
na putaqueopariu
maldito médico que me cortou o umbigo justo no dia em que respirei o ar do mundo pela primeira vez. esse médico me paga.
em pounds, claro.
...
o cabo da boa esperanca é o mesmo que o cabo das tormentas.
e de qualquer modo, atravessando-o, se chega nas Índias.
...
brincando de cantar alto na rua pra provocar os ingleses silenciosos
cantar alto e cantar em brasileiro, ainda por cima
claro que todos olharam - censurando
ou curiosos
que língua ela canta?
mas ela nem ligou, porque era tao mais forte a caçada do chico buarque
nao conheco seu nome ou paradeiro
adivinho seu rastro e cheiro
vou armado de dentes e coragem
vou morder sua carne selvagem
a fuga, o passeio, o vento, as escadas do metro,
tudo meio que contagia a gente
quando se está na vida, literalmente, só a passeio
pra cima pra baixo, mapa, rua, rostos, línguas, cerveja, objetos, comida, semáforo, corvos, esquilos e raposas
e dá uma coisa grande dentro do peito
coisa imensa
forte
sei lá que nome dar, prefiro chamar de coisa imensa
coisa que as vezes é tao boa
inexplicavelmente boa que me incendeia, que vontade de viver, de ver mais e mais, ver tudo, o mundo - tao lindo o mundo - nao preciso de mais nada, quero viver assim, navegando navegando
noutras vezes
é
coisa
silenciosa
pelas beiradas vai me deixando inteira num estado
de coisa estranha
que nao sei nomear
prefiro chamar de coisa estranha
e tudo perde um pouco o sentido
que que eu to fazendo aqui gastando em pounds comendo doce sem parar. e esse buraco que só cresce? que nao preenche? nunca?
em londres
na turquia
na conchinchina
no himalaia
na argentina
na putaqueopariu
maldito médico que me cortou o umbigo justo no dia em que respirei o ar do mundo pela primeira vez. esse médico me paga.
em pounds, claro.
terça-feira, outubro 05, 2010
Sonhos edimburguenses
sonhei com um homem bravo muito muito bravo e eu correndo de roupa vermelha e branca dizendo NAO NAO QUERO NAO QUERO NAO QUERO NAO NAO E NAO, louca histérica, nao querendo mesmo, gritava com toda a capacidade dos meus pulmoes. Me cansava, e continuava gritando. Muito. Nao sei o que eu nao queria. Mas ele gritava de volta. E uma mulher, uma matrona, uma mulher forte, firme, seca, nos observava. Ela estava e nao estava do meu lado. Depois de um tempo ela se cansava da situacao e se pronunciava. Nao sei o que ela dizia. SOnhei com o eslovaco respondendo meu bilhete. Secretly and silently. Sonhei com uma cena que eu tinha que ensaiar. Sonhei com figurinos.
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