segunda-feira, abril 23, 2012

Estou com ela a gripe e ela está comigo a mesma que matou tantos índios quando os brancos invadiram suas terras a mesma que mata idosos e crianças sem cuidado eu sou uma cirança sem cuidado quando ela me pega a gripe ela me pega e me entorta no espelho sou outra meio branca, meio louca sou eu mesma na minha versão não saudável sou eu outra, palidez, morta do ser do ente não posso me distanciar tanto assim do ente meu corpo volta para me buscar e cobrar uma atenção sempre que ela me pega eu escrevo sobre ela ela me incomoda de fato.

quinta-feira, abril 05, 2012

Pato

preto

gato

gordo

porco

torpe

trapo

prata

pretas

patas

sapo

topa

prato

preso

trepa-trepa

você por quê?

Era você
E agora?
Meu inconsciente me trai.

Meus seios nus
Os pernilongos
A carona de carro e os motoqueiros tramando um crime

Daí a gente chegava
E você dizia: "como assim? por quê você, ali, nunca achei que você fosse"
E eu entendia que a gente tinha que conversar.
Mas eu entrava no prédio, atendia o celular, você do lado de fora esperava no carro eu voltar. E eu voltaria.

Não fosse o despertador tocar bem na hora!
Então nossa conversa foi adiada, mais uma vez.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

de noite calo deito e esqueço
de noite envelheço nos sonhos
me arrancam os dentes os sonhos
me falam de amor e morte
me mordem os cachorros da rua, me matam os pais, me dão sexo do bom
acordo outra - a mesma outra - estranha.
e tudo dói de forma
que me esqueço de dia
do que a noite me trouxe.


da velha que fui
da menina que sou
dos dias que passam umatrásdooutro.
do medo que o medo dá

________________

um dia vou pular o muro da cidade e vou cair num jardim imenso.
e pra lá vou levar todos os meus amigos, meus amores do presente e os do passado, meus pais, meus irmãos, meus sonhos de dente e morte, minha vontade de vida, meus não seis, minhas falhas, minhas criancices, vou levar o circo e o sol, o galo e a lia, a música boa, a permissão, vamos ser juntos?
eu os convidarei para o meu grande projeto.

topam?
peço silêncio ao sol
às folhas das árvores
aos cães
aos carros de som e de pamonha

silencie vento
cabelereiros
calçadas

vassouras
senhoras
silêncio feira, máquinas e postes

silêncio luz, silêncio caetano veloso

silêncio, tempo. quieto. imóvel, tempo.

me deixe, tempo.
me largue, liberte.

silêncio, crianças, a vida passa.

silêncio, cabeça ruidosa, a vida acaba.

silêncio dia, que eu quero passar.

silêncio, vila romana, deixe-me entardecer em paz.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

cesta

dia de trânsito e suor
e depois chuva
trânsito suor
e depois chuva

chu
chu
chu
vaaaaaa

depois noite e mais trânsito e ainda mais
chu
va
.
.
.
de manhã
o ensaio para imprensa
prensou-me
.
sexta feira calor infernal sem ar condicionado
e ducha gelada quando entrei em casa
mas agora ele dorme, ela pensou. como ontem, exatamente igual. e como ontem não o tinha visto durante o dia. deu tchau pra ele ainda na cama e chegou com ele na cama de novo.
vida a dois. assim é que é.

sexta feira cheia. sexta feira cedo. sexta feira televisão e internet.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Hoje no trânsito na avenida faria lima me veio este pensamento. um pensamento novo, inesperado, puro, verdadeiro, que nunca tinha me vindo antes.
um pensamento assim:

eu largaria tudo para aprender equitação.

e viveria saltando e correndo com cavalos, onde quer que fosse.

me veio uma certeza de felicidade meio sem explicação. eu amo cavalos, cresci com eles, mas nunca desejei uma vida assim.

entendi, em meio aos carros, ao co2, ao barulho e aos faróis, que me dedicar a um animal seria algo realmente grandioso.

me vi naqueles filmes americanos, naquelas fazendas infinitas, cavalgando um cavalo marrom escuro muito maior do que eu, pelos campos, no por do sol. pulando rios, cercas, correndo sós, eu e o meu cavalo.

que doideira essa cabeça.

será que podemos viver a vida que quisermos?
tudo é mesmo possível?

só precisa de coragem, acho, mais nada.


sábado, janeiro 28, 2012

ano do dragão

Soltem
os dragões


soprem, tempestades chinesas
tormentas marítmas
fendas nas terra


Se segurem nos sapatos
apertem os cintos da razão
quem manda agora é o coração

deixa vir
transforma
sai daí
desloca

veste outra coisa
carece ter coragem

furacão enlouquecido
vontade é poder
temos as mãos, os olhos, os pés

ação, dragão!

nos devore e cuspa melhores
me deixa entender

me ensina de uma vez por todas como é que faz
pra crescer.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

abriu a torneirinha da escrita
a gota melancólica no papel virtual

(sinto que vários afazeres estão sendo deixados de lado neste momento, mas não há quem me arranque daqui)

sei chorar
eu também já sei sentir a dor

mas isso não é meu, é do cartola. peguei emprestado.

sei lá sei lá sei lá

deu vontade de estar em berlin, right now. plim. e estou ali. em alguma rua do kreuzberg. com meu casaco pesado de penas de ganso que comprei na zara da dinamarca. meu gorro roxo e ridículo que cobre as orelhas, comprado em toulouse, frança. minhas luvas também roxas, que já estão se desfazendo.
o ar frio corta meu rosto, meus lábios. olho pro céu, azul. raro, nesta época fria. penso que o sol é uma dádiva do brasil. que nós não damos o devido valor. em berlin, quando há sol as pessoas comentam e sorriem. é feliz ter sol.



então, eu aqui, no meu transporte imaginário para berlin, agora estou enrolando um cigarrinho de papel, sentada num café, há um homem grande com um cachorro embaixo da mesa. eles deixam fumar aqui dentro, porque lá fora não dá pra ficar. estou enrolando, porque marquei a hora num cabelereiro que passei em frente e ele disse que só estaria livre em uma hora. resolvi cortar o cabelo como o das berlinenses, levar este lugar comigo, de volta ao brasil. ainda há pouco entrei numa biomarket e comi uma quiche. pedi em inglês, já desisti do alemão.


Daqui a pouco irei arrastando minha mala com rodinhas pela skalitzer strasse na neve até o bar em que o marco trabalha pra pegar a chave do ap dele, onde passarei minhas ultimas horas antes de embarcar de volta ao brasil. Mas na volta, vou parar no bar chamando sofia e tomar a minha cerveja preferida que se chama flenzburguer, ou algo do gênero.


Engraçado me lembrar justo do meu último dia em berlim, de uma viagem longa de meses, me veio à lembrança o ultimo dia...
tenho saudades de como me sentia lá. das possibilidades infinitas. das novidades infinitas na cidade mais legal do mundo. tenho saudades da eu que podia ser qualquer uma. da eu que não entrava em paranóia nenhuma. da eu que cresceu tanto tanto longe daqui.


------...-------
agora abro os olhos e estou na cozinha da minha casa, rua mário, vila romana. o cartola canta ao fundo junto com alguns cachorros do bairro que latem. 100% brasil. nossa, não sei como consegui me visualizar na alemanha, estando tão no brasil neste instante exato.

"os tempos idos nunca esquecidos trazem tristeza ao recordar" - o cartola acompanha meu ritmo de nostalgia.

sou tão naftalínica.
saudosista.
memórias a mil.

a laura falou uma coisa linda sobre a memória, outro dia. que as coisas que vivemos estão aqui, impregnadas, ferradas a ferro e fogo, ninguém as tira daqui. jamais. por isso, podemos deixá-las ali, tranquilas, adormecidas. não tem que ficar revirando, remexendo, não adianta, não tem volta. mas o que foi, foi, e ninguém tira o fato de que foi. e é o que basta. já vivemos, não precisamos viver de novo. talvez nem teria graça viver de novo algumas coisas.

então, me resta imaginar como será em berlim quando eu voltar. vou trabalhar, levar meu grupo de teatro, fazer uma residência, criar uma peça lá. sonho absoluto, mor. é o que quero. viver no amado bairro do kreuzberg, frequentar o bar em que o Marco é barman, deslizar de bicicleta pelas ruas lisas alemãs, aprender a língua, fazer teatro naquela cidade ultra inspiradora, apresentar coisas nas ruas, nas feiras, nos bares criativos, únicos.

é mais gostoso imaginar o futuro que lembrar o passado.


Numa via calma e torta
tua linda alma voa

solta teus cabelos grossos
canta até raiar o dia

jura amor
perde a razão
samba até cair no chão

vê a menina mais fogosa
foge selvagem
some no breu

Reza pros teus
clama pro Sol

Se a lua fosse nossa, pensa,
seria bom.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

à um amor.

Do cão, a dona fiel
A zona de Lia me chama
para uma parte do globo qualquer
num ponto preto do olho preto dos pés pretos sem sapato

Tira os pés e pisa o mundo
Solta o cabelo, nuvem de chumbo
Alça teu vôo sereno
Calça minha mão na tua

Vamos juntas estrada da vida afora?
E ela responde:

"e se periga,
noite adentro."

quarta-feira, janeiro 18, 2012

A minha carta proibida
- a que nunca será enviada à (o) possível destinatária (o) -
começaria com:

"Adeus,"

A primeira frase da carta poderia ser:

"Você sabia que escrever cartas é o gesto mais desesperado que existe?"

E por aí, eu iria:
"... e que escrever cartas proibidas é ainda mais desesperador?
Mas ao mesmo tempo, é inspirador e solitário, escrever a carta que nunca será lida por seu (sua) destinatário (a). Uma carta disfarçada de conto, poesia, romance, já que esses sim, são destinados à ninguéns. E à todos, por consequência.

À ninguéns e à todos eu diria fatos não específicos pois senão estaria denunciando o teor altamente proibido da carta. Explosivo. Escreveria coisas gerais. Que poderiam atingir qualquer um.

Seria algo como escrever em um contexto de censura. Repressão, ditadura, impossibilidade de livre expressão. Sim, poderia escrever sobre isso. A censura. Que aqui não se trata da censura do Estado, mas do estado das coisas. Do ponto a que elas chegam, e se tornam impossíveis de ser.

Por outro lado, por quê não dar um chute na moral e nos bons costumes? Uma bica no limite entre a sanidade e a loucura, dar adeus à razão e deixar outras partes do cérebro conduzirem a mão pelo papel?
Sabe, isso tudo é bastante desesperado.

Mas gosto, masoquistamente, das marcas proibidas.
Gosto, doentemente, do que me desalinha.

Mas faz tanto tempo, já. A carta começou a ser escrita há séculos, e talvez eu nunca a termine. Não começou com a minha geração, e pode ser que se estenda aos meus descendentes. Como uma maldição grega, vai saber."

A carta não terminaria assim. Ela ainda não terminou, pois o tempo, senhor de tudo, é quem poderá dizer. Quando.

segunda-feira, janeiro 09, 2012



eu, nua, meu pequenino corpo que se confundia ali naquele universo de mar, céu, areia, é tudo tão maior, vai tão além deste pedaço de carne, esse corpo, humano.

Ifigênia - Se Ártemis quer meu corpo em santo sacrifício, que ela saiba que serei então a mãe do vento!
Tatá Aeroplano
tocando
sob o céu
da meia lua
inteira
no degrau da
capela
a música que
mais gosto e
se chama
cama.

30. 12. 2011

Ali
onde o mar encontra o rio
Onde o vento faz a curva
Onde vive sobretudo a loucura
outro tempo e outro espaço

a praia longe, longa
infinita, como sempre
como nunca
diferente

todo o mundo outro
Aqui dentro pulso fervilho penso
Vejo e abro os poros
recebo
da terra céu e mar
do papelzinho mágico no meu organismo

teve cajado
teve um bar na ponta de tudo
no ponto alto da doideira
e um brasileiro se fingindo de polonês pra tirar sarro da gente

e eu ri umas cinco horas seguidas
e falei com o Pedrão sobre poderes mágicos
o dele era abrir a Terra
o meu, uma varinha que atraía raios.

depois ele disse que o poder que ele queria era o de se transformar em qualquer ser vivo.

Aí caminhei de olhos fechados (dica do Martim).
E quando abri o olho eu tava no mar.

É onda é espiral.
É ciclo.
É sobe e desce.
O mundo, a vida, o tempo, o espaço, tudo mais do que nunca, cíclico.


Sobre ele

Só te encontro
durante o sono.

Só meu corpo toca o teu
Minha alma dorme no travesseiro ao lado.

No outro dia trocamos palavras

Eu, desperta.
Tu, sonâmbulo.

Desço, faço o café e volto pra te falar tchau e te comparar com o filhote de algum bicho.

Cada manhã você acorda um filhote indefeso diferente, na ingenuidade que habita os que dormem profundamente.

E daí, você é meu.

sobre nós

Quando o silêncio chega assim - avassalador - eu só espero ele partir.

Compactuo com ele. Deixo se instaurar.

(Me traz certo alívio até) o não falar.

Tem coisas que o verbo não resolve.

O silêncio, ele dá conta.

sábado, dezembro 17, 2011





É, agora tem música.
Tem Lia, Papi, Laura, Ana.
Cinco mulheres sentindo compondo nascendo pruma coisa nova para todas nós.
P a t o
P r e t o
Tá sendo simples, grande, bonita a experiência. Que eu sempre sonhei mas nunca me imaginei exatamente aqui. Coisas que a vida guarda pra gente e, quando a gente nem tá esperando, calha de acontecer.
Estamos em acontecimento.
Neste ano 2011 árduo, duro, puta que pariu de dia-a-dia, pé ante pé, de garçonete, pra professora, de professora para atriz de uma companhia que admiro, e daí para me experimentar pela primeira vez como diretora, e agora a banda. Onde ainda damos passos inseguros, notas desafinadas, mas onde o desejo nos arremessa para lá looooonge.

Seria sua leoa, serpente, um raio que corre.
Eu quero mais.
É crua a vida.
Piratas plantados na carne da aventura.
Estremece minha carne, batiza meu osso, tempera meu sangue.

E por aí vamos!!!

Evoé.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Antropófago

Foi gigante e libertador assistir ao Evoé - Retrato de um Antropófago, no dia 5 de dezembro de 2011, quando eu, caminhando com as minhas questões (barulhentas para mim, silenciosas para os outros), cansada desse fluxo de pensamentos egóicos, me deparei com um ser LIVRE, ATUANTE e VIVO do nosso tempo, na tela do espaço unibanco.
Entendi que fazer teatro é viver para ele e que o lance maior é o encontro com o outro, é escancarar as portas e ATUAR no mundo. Abrir o corpo, a mente, entregar a alma para o estado de catártico, quando nós somos tudo e NADA. Não importa o EU. Importa o corpo atravessado pelo raio do outro. Importa a alma eletrizada. Importa a VIDA. Isso SIM.
Zé Celso é um devoto da vida e neste ponto eu me encontrei com ele.

domingo, novembro 20, 2011

Assim como não consigo mais me lembrar dos meus sonhos, não escrevo mais.

O lugar lá longe do de dentro da gente - sabe esse? - parece que perdi o contato com o meu.

Preciso despertá-lo para voltar a sonhar. Voltar a escrever. Aglomerar palavras naturalmente como eu fazia antes. Porque antes elas se formavam sem muito esforço dentro de mim.

"embora escrever me dê a grande medida do silêncio..."

Escrever era crucial, e agora um esforço.

Juntar lá com cá, lé com cré e fazer bonitezas.

Escrever é fazer bonitezas silenciosas.

quarta-feira, outubro 19, 2011

tipo uma crônica?

às vezes o tempo falta, noutras ele sobra.

agora sobra. e vim matar duas horinhas numa lan house no bixiga onde sempre me sinto uma estrangeira. na minha própria cidade natal. me sinto em cuba, puerto rico, sei lá eu.

e ao entrar nesta lan house de um casal de chineses (2 e 50 a hora) me lembrei de berlim e dos turcos donos das internet kaffes, onde tantas vezes chorei, me desesperei, ou encontrei meus amores.
tinha uma que eu elegi como a minha internet, e durante um tempo só frequentei aquela. o kit kat custava 50 centavos. o turcão era bem mau humorado, eu ficava chamando ele pra perguntar onde estava o arrouba no teclado, ou o acento tal, ou como faço pra imprimir?? ele não entendia uma palavra do meu inglês, eu não entendia uma palavra do seu alemão-turco. em suma, a gente não se dava lá muito bem. mas acredito secretamente que com o tempo fui conquistando-o, nada me prova isso, só gosto de pensar assim. afinal, ele já conhecia meus horários, minha bicicleta e a minha cara de choro.
daí um dia fui numa outra lan house de um outro bairro de um outro turco. e foi lá que explodi em lágrimas porque não conseguia falar com o meu amor há uma semana e estava desesperada pensando que ele tinha me esquecido. fui pagar no caixa com a cara deformada de tanto que eu chorei. daí o turco me perguntou se eu estava com saudade da minha família. eu respondi - mentindo - que sim. daí ele falou que me entendia porque ele não via a sua família há 23 anos. eu fiquei chocada e fui embora logo antes que ele me perguntasse há quanto tempo eu não via a minha: 3 meses, eu teria que responder...

agora voltando pra cá no espaço tempo. são paulo, 19 de outubro, 16 e 47 da tarde. salto. to com vontade de fazer xixi. o espaço do elevador ta trancada e o tempo deve passar rápido pra que chegue logo 7 da noite, horário do meu ensaio.

estava caminhando na rua e me senti como um espírito que morreu e não percebe que morreu. e por instantes descobri que esta deve ser, sem a menor dúvida, a PIOR coisa a acontecer a alguém (mesmo que este alguém seja um espírito...).

e vou parar por aqui, já está assustador e um pouco esquisito este texto. e vou extrapolar minha hora aqui na lan house dos chinas.

quarta-feira, outubro 05, 2011

entres

silenciar-me

trancar nos meus calabouços os meus calabocas.













ami da li te

ali









onde a lua nasceu

onde dói um filho

onde dói a vida

onde o mundo vibra

ali na beirada da tragédia que tento compreender como atriz




no meu corpo
nas minhas beiras
nos meus entres
eternos
ali que é sem palavra
e junta com essa raiva que aqui tem habitado
e crescido
e eu a rego sem perceber
carrego pra todo lado
sei lá raiva do quê
xô.
e eu ali olhando ela
















e eu ali olhando











gracias, galo.

segunda-feira, outubro 03, 2011

com os olhos voltados pra dentro da cabeça
miolos

o pescoço afundado nos ombros
torcicolo

e as pernas e braços recolhidos
toco

não quero sair daqui
me deixe ficar aqui
ficar em silêncio e só
na minha navegação solitária rumo ao lado de dentro

re organizar
meu organismo dezorganizou
quero meu eu de volta
vibrando
feliz

agora é névoa
é transição de algo pra um algo outro
já vivi isso antes, sei como são as coisas. algumas delas. as minhas, eu ando sabendo mais.

raiva bate na portinha vez ou outra
com frequência ela vem
e eu a barro
quero deixá-la entrar
preciso das minhas ferramentas
arregaçar as mangas
e ajeitar as coisas por aqui.

aqui dentro
onde meus olhos olham pros miolos, a cabeça esmaga o pescoço pra dentro, os braços e pernas se recusam a sair.
aqui não é bom nem ruim. aqui só é. e é longe de você, o que melhora as coisas.

tchau

sábado, setembro 17, 2011

história de amor

nossa dramaturgia começa com

"você já viu a lua?"

e do portãozinho da casa da vanessa pra uns beijos no carro na garagem da thaís em santa terezinha foi um pulo.
daí eu ganhei uma despejada de cera quente de vela na cabeça da cor dos ciúmes.
depois, um dia, um telefonema:

"vem comigo. vamos juntos. eu te apoio e você me apoia. vem comigo, vem".

fui.
e no dia seguinte fomos namorados.

e de namorar para casar, foi outro pulo, curto. longo. árduo. lindo.

tem berlim entre uma coisa e outra.

nossa dramaturgia é de risco.
é de jogar tudo pro alto e recomeçar a cada dor, a cada foda, a cada dia.

mas nosso sonho é junto. é nosso. lindo.

minha declaração maior é a minha certeza. é o fechar os olhos e "me guia" que eu vou. confio. acredito, plenamente. concordo. identifico. pedaço de mim que encontrei perdido no mundo. e juntou pé com cabeça, virgem com escorpião, e florescemos. juntos. lindo.

nossa dramaturgia também é difícil. envolve coisa ruim, lixo, saudades, erros e mancadas, grandes merdas. nossa dramaturgia tem conflito. ô se tem.

hoje a dramaturgia tá no limite. no risco maior que todos os que já foram. sou uma equilibrista de sombrinha literalmente. abora aporta de casa pisando em ovos. mas ainda assim, vou dormir ao seu lado que é o melhor lugar do mundo, sorrindo.

e acordando com seu sono imóvel. sorrindo.

vai passar meu amor.

vai passar.

a nossa dramaturgia não tem desfecho.

beijos,
sua.

quarta-feira, setembro 14, 2011

cala a boca bárbara

debaixo da terra é silêncio

debaixo da pele é silêncio

debaixo da água é silêncio

no mergulho dos sonhos é silêncio





ali - entre a quietude e alguns sussurros
o grito abafado no sonho - e eu mordendo o travesseiro.

no som truncado do silêncio
o pesadelo e a queda ancestral

ali, onde adão e eva
ali pecado
ali não




bem ali.

segunda-feira, setembro 12, 2011

mon day

na outra encarnação fui um homem.
e aí que eu já sei como é.
prefiro ser mulher, mas gosto da companhia dos homens. às vezes prefiro, até.
trago daquela outra vida a simplicidade, o desejo e a coragem.

------

agora meu cabelo crece a olhos nus. quero impedi-lo. não dá. todos os dias acordo e olho pra maquininha e ela olha pra mim e nos perguntamos, juntas: é hoje?

agora eu estou um pouco gorda.

agora eu lido com um bilhão de coisas que eu não lidava antes.

agora tenho uma casa. e às vezes me sinto como a minha mãe e não gosto da sensação. agora, daqui a pouco, tenho 25 anos.

uau. fuck. no.

agora é. agora sou. logo agora. justo agora.

bem aqui, assim. posso ser? pode sim. só querer. um dois três e já.

quero, logo hesito.
logo penso.
logo sou.

logo agora. justo agora.

terça-feira, agosto 30, 2011

De mudança

Chove na cidade sobre as nossas cabeças num dia típico calor-frio-calor-frio-chuva-torrencial. Sobre a casa: ela ficou vazia do dia para a noite. Há buracos pela sala, a geladeira partiu e deixou um grande vazio na cozinha, o quarto ao lado do nosso foi desocupado. Minha companheira de casa foi-se para o ex-primeiro mundo. Restam eu e o cigarro que sempre fumo. Eu e a casa metade cheia metade vazia. Eu e o país emergente. E o Bob Marley cantando no sonzinho novo.

Tudo muda o tempo todo.
Insistentemente, muda.

Eu, muda, na cozinha, tomo chá. Mudo, junto. Tudo, junto. Sempre tudo muda tudo. Ou nada muda tudo. Simplesmente muda, assim. Tec. Num estalar de dedos, num atravessar a rua, num dia frio que se torna infernalmente quente. Numa vontade que vira apatia. Ou numa frieza que vira desejo.

Ou o desejo que permanece, que não se esquece, que não deixa sossegar).

domingo, julho 31, 2011

sobre os desejos que vem me atormentar

bom, eles vem sempre, direto, cotidianamente.
isso me deixa feliz e angustiada, ao mesmo puto tempo.

1. feliz:
porque desejar é bom. é sinal de que estou viva. muito viva. pulsando. querendo. sinal de que a vida me atravessa, de que abro espaço pra ela entrar.

2. angustiada:
porque vivo numa sociedade baseada, há séculos, numa Moral cristã-monogâmica-casamento-felizes- para-sempre-na-saúde-e-na-doença-na-alegria-e-na-tristeza, onde a família é super valorizada, em que se condena brutalmente todos os tipos de desejo, e, em especial, aqueles de natureza extra conjugal.
e porque não posso tocar neste assunto. nem com meu cônjuge que eu amo tanto.

é que a minha cota bicho não me deixa esquecer. tampouco me imuniza do desejar.

e a cota bicho é egoísta mesmo. e isso é necessariamente ruim? ou será, pura e simplesmente, natural?

era uma vez uma mulher que vivia há um certo tempo sob a égide da monogamia. e se descabelava.

era uma vez uma mulher que se apaixonou por dois homens ao mesmo tempo quando tinha quinze anos de idade. e descobriu que era possível. e impossível, ao mesmo puto tempo.

era uma vez uma mulher que amava muito. tanto. que cabia se apaixonar por um, dois, cinco de uma vez.

e queria experimentá-los, todos. ela não era bruxa, nem histérica, nem vadia.

ela era uma mulher.
e uma mulher é uma mulher.

um homem também é um homem e também carrega dentro de si uma cota bicho considerável.

me atrai esse animal que existe em nós - seres homens e mulheres.
me cativa, me prende, me impulsiona, me atormenta, me amedronta, me seduz.

esse lugar que ainda não foi colonizado por completo.

deve ser por causa da minha herança indígena brasileira. ou da minha herança-macaco. ou por conta da minha herança homem das cavernas. não havia monogamia nas cavernas.

mulheres e homens são bichos lindos e cativantes e é uma perda gigantesca e avassaladora não podermos nos relacionar como realmente gostaríamos.

como bichos livres; como homens e mulheres civilizados.

sexta-feira, julho 29, 2011

doce tarde

flagrei um homem me espionando da janela do outro lado da rua. credo.

sono da tarde, sem sonhos. janela aberta, luz da tarde entrando, barulho de carro da oficina do outro lado da rua. homens falando, outros me espionando.

sono infantil da tarde, durmo, chafurdo. me entrego pra esse sono gostoso e descompromissado das crianças. acordo com o celular tocando e uns pensamentos esquisitos: "quando eu era um bebê, referia-me a mim mesma como bebê teodoro."

Oi, muito prazer, eu sou o Bebê Teodoro.

Pode um pensamento desses?

A porta range no seu abre-fecha. Estou sozinha em casa. Acordo com tesão, tesão da tarde, pensamento vaga por uns e outros.

Amo a janela entreaberta e a luz que vem de fora, junto com a sombra que a árvore faz no teto do quarto. Amo os galhos dessa árvore velha bem na minha janela que se misturam com os fios e o poste, a árvore abraçou o poste, impossível podá-la, eles viraram uma coisa só.

E chega de sono e divagações que já vou me atrasar.
A vida é concreta. A alma não.

quinta-feira, julho 28, 2011

Momento Itamar Assumpção

Dor Elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios édens analgésicos
Não me toquem nesta dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

terça-feira, julho 26, 2011


cocorosie

j'aime beaucoup.

essa velha senhora

"Seria demais, certamente, supor que eu não precise mais da realidade.

Seria de menos, todavia, suspeitar sequer que a realidade, essa velha senhora, possa ser a verdadeira mãe destes dizeres tão calares".

Paulo Leminsky - introdução de Distraídos Venceremos

segunda-feira, julho 25, 2011

Ah que saudades de escrever e só. E ponto. E já.

Escutando uma música maravilhosa do Itamar. Nova aquisição.

De barriga cheia de macarrão de tomate com mussarela de búfala e cerveja gringa.

Amo minha casinha, meu maridinho, minha vidinha maluca.

Tanta tanta crise e no final tá tudo bem, vai ficar tudo bem, confio, confio, confio. Porque não escolhemos o caminho mais fácil então tem que confiar. Troquei um trabalho de carteira assinada e salário bom por um trabalho artisticamente muito mais interessante e financeiramente muito pior. Mas se eu não escolho a arte ela nunca vai me escolher. E eu sempre vou escolhê-la. Como sempre fiz. E não me arrependo de nada, nem da minha escolha, nem da minha devoção, dedicação, anos de escola, não me arrependo.
Só ganhei com tudo isso. Desenvolvi um olhar pro ser humano, pra vida, pros outros, pro mundo, pra estética, pra configuração das coisas, pra desconfiguração das coisas, pro jeito que elas funcionam, não funcionam, deveriam funcionar, ou quebrar, pras brechas, pras frestas, pra janela que dá pro lado de lá do oceano, do tempo, pro fim das coisas e pro inacabado, pro infinito e pro nosso fim, que sempre se aproxima.

Por mais macarrão, cerveja gringa, cigarro, espiritualidade, cidade...

Tem fim.

quarta-feira, julho 06, 2011

dia mundial da falta de voz

perdi, literalmente, a voz.
Engoli um sapão. Uns, talvez. Que bloquearam a minha faringe, e colaram as pregas vocais umas nas outras impedindo a passagem do ar. Daí, calei. Emudeci. Sussurrei bem baixinho o dia todo. Quem ficou perto de mim pôde experimentar a sensação de falar, falar, falar sem ser interrompido. E daí, num certo momento, se entediaram. Se cansaram da minha muda companhia.

Deixei de falar na hora que tinha que falar e agora não falo nunca mais. Sem voz, sem lugar.

Até me perguntaram se eu era muda.

Imagina? Me senti mesmo, várias vezes, como uma muda e só sei que deve ser bem difícil. Mas também, ao mesmo tempo, vi que tem muita coisa desnecessária que deixo de falar. Basicamente tudo, eu diria. As falas por necessidade mesmo são algumas, poucas, ao longo de um dia. O resto vem pra tapar lacuna, preencher o tempo, soar simpatico etc etc.

Contra a mudez, é preciso se colocar na hora certa e da maneira certa.

Ontem fui dormir pensando nisso. Hoje acordei sem voz. Realmente. Preciso plantar meus pés no chão e aprender a dizer uns NÃOS de boca cheia, redondos e sonoros. E me fortalecer de mim. Convicção e confiança. É disso que preciso mais do que nunca. Fiel a mim. Sabendo de mim. Observando o que está ao redor, sem ficar sonsa, distraída, me perder. Não dá mais pra me perder.

terça-feira, junho 14, 2011

o vinho e mais ninguém
me saca neste momento
será que já foi difícil assim?
quem virá me resgatar desta vez?
e agora mais do que nunca parece que está nas minhas mãos

minhas duas mãos, frias frágeis

são apenas duas mãos pra dar conta de tanta tanta
conta
tudo errado como dois e dois
carcarááááá
eu uivo
eu guincho
relincho

carece ter coragem e coração
já sei
já sei

meu uivo guincho relincho sem direção
sigo queimando em febre
em amor saudades e o que mais vier me azucrinar

domingo, junho 12, 2011

about whisky

se arrumou, se enfeitou

(percebeu que era pra ele)

os fios invisíveis da cidade os conectou na noite fria.

quarta-feira, junho 01, 2011

a moira

Escrever sublimar
Escrever entender
Escrever elaborar
Meu pensamento passa pelas palavras lançadas na tela
Encher a cara de vinho
Sozinha
É não pensar?
Ou é sentir tudo mais mais mais
Tenho 10ml de vinho pra me embebedar
Não basta
Tenho natureza melancólica
Tenho beleza na melancolia
Mas sei ser alegre
Sei ser forte
Às vezes é só escolha, mesmo. De colocar For no One do Caetano me embebedar com 10ml de vinho e fumar. E escrever, claro.
Se eu pudesse escolher, eu teria sido na outra encarnação uma poetisa, do romantismo, das tabernas, do vinho e do absinto sinto, sinto muito.
Eu sinto, sinto muito se eu sinto muito.
Eu teria sido uma mulher que anda na companhia dos homens. Dos pintores. E eu escolhia sair com eles pelas noites de paris, sei lá porque paris, mas poderia ser também outro país, outra cidade cheia de história, cheia de clima, cheia de outono. Eu escolheria passear pelos parques, livre. E me envolver com os homens sem me envolver. Sabe como é? Eu sei. Só eu sei. Não, quanto pretensão! Muitos sabem como é. Me envolvendo até o ultimo fio de cabelo, até o último pelo pubiano, sem envolver... alma. Não! Alma envolve sempre, eu envolvo, sempre. Então eu me enganaria, fingindo não me envolver, tratando com banalidade, com cotidianidade. E aquilo ficaria ecoando tanto que eu nem me daria conta e um dia aquilo explode em sonho, em desejo, em vontade de...É sempre assim que começa e sempre assim que acaba. Eu me apaixono. Eu me atraio. Me atrapalho. E daí eu estava tentando mudar o destino, a moira, a maldição que jogaram na minha cabeça, no meu corpo, meu sexo. Eu estava tentando com força. Mas essas coisas parece que nem a força controla. Ou controla? E eu é que não deixo, eu é que quero, sim, me envolver e...Sou eu que escolho? Ou meu corpo? Mas meu corpo sou eu, não?
E agora, terminados os mililitros do vinho eu partiria pra cerveja. Gelada cerveja na noite fria. Fantasmagórica. O vizinho ouve Janis Joplin e eu e meu Caetano de sempre.
Não sei se é ele quem me atrai ou é a minha necessidade de sempre me apaixonar, de desejar uma pessoa nova. Uma aventura. Um marinheiro.
Fugindo e procurando. Fingindo e fugindo e buscando e indo de encontro a.

terça-feira, maio 31, 2011

brainstorm

meyerhold, susanne linke, sayonara pereira, berlim, em mil em mim, sola, osso duro de roer, espaço - página em branco, minha tinta é meu corpo quem pinta, contando uma história de mulher, parto doído, nasci, pari um homem barbado, chupado, sugado, a cena do meu filme particular há quase um ano na avenida paulista. meu material minha letra. rascunho. no final, entram em cena 200 mulheres, como em Lorca. 200 mulheres. E um homem.

"mas se não saio dessa, sufoco".

quarta-feira, maio 18, 2011

work in progress

uma só. sozinha. sola. no canto do palco, vestido de balé preto, sentada numa cadeira. preta. cabelo curto. varal de papéis antigos, cartas, mofo.
cocorosie. dança da bailarina triste. "quero gritar pro mundo: NASCI". acendem as luzes. movimento desenfreado de parto parindo pedaços de flor destroçada. chora ri. visto a camisa de homem. "te tiro filho e te tomo mulher. te bebo, ingiro, indigna do posto mãe. mas me esforço - talvez com mãos delicadas demais pra me chamar mulher - por recompensar a tua orfandade". põe tira camisa, joga, amassa, veste, transforma.
entra um homem em cena. ele e ela dançam, de costas, sem nunca mostrar o rosto. o homem sai e não volta mais. uma só. sozinha. sola. anuncia: "do meu filme particular. Cena de filme. Começa com ele me dando um livro do artaud de presente."

no mais, de agora é só.
Nossos dentes mordendo ao outro a boca como se mordessem a carne macia do coração

Raduan Nassar. Copo de Cólera.

terça-feira, maio 10, 2011

é viver esse sobe e desce dentro da minha barriga
lidar com esse monte de nãos metralhadora de nãos ratatatatatatataNÃÃÃÔÔÔ
e uns sins grandes, de mudar o rumo
mudo tudo constante e inconstantemente
mudo todo dia, tudo um pouco
mudo o cabelo como quem bebe um copo dágua
dentro muda. as vísceras cresem, encolhem
minha cabeça esquece
aprende
decora
escuto coisas
acordo chorando
ou rindo no meio da madrugada
falo russo dormindo
leio um livro pela metade
escovo os dentes rápido pra me livrar
ando de carro
pego trânsito
faço testes
sinto-me em um laboratório. muitas vezes a vida parece um.
de vários tipos de testes.
de sins e nãos.

quinta-feira, abril 07, 2011

criar um solo é:

sola de sapato dura de mastigar
soleira da porta com fresta de luz entrando por baixo
cheiro de incenso
música do satie

medite um pouco
depois durma
acorde,
crie
pule
gire
grite
questione se você está sã ou se já enlouqueceu há um tempão mas só se deu conta agora
não tenha vergonha de si mesma - a sua pior inimiga, sempre.

o resto eu vou descobrindo e contando no caminhar.

quinta-feira, março 24, 2011

exaurida sangue sugada anêmica garçonete, 24.
atriz, não sei.
viver não tá sendo bolinho.
ano do coelho.
do coelho caolho.
doar do árduo do ar doendo.
falta dormir.
comer.
amar.
trepar.
ver cinema.
fazer teatro.
beber cerveja.

falta

eu.

quarta-feira, março 16, 2011

Falar sobre a mulher é deixar que eu escreva livremente
Que eu disserte sobre qualquer assunto
Que eu me assuste
Que me arrebate
Feminino é soltar o verbo
Datilografar baixinho
Chorar no escuro da cama da casa dos pais
São meus dedos de mulher que me guiam
É meu corpo
É o que há de natural em mim: ser mulher
Não preciso que me peçam para falar sobre as mulheres
Tudo que eu disser estará atrelado absolutamente ao fato de eu o ser
Não há dissociação entre meu ser e o ser mulher
Tudo que eu escrever
Tudo que pronunciar
A tudo o que me render
Tudo que eu encarar
Tudo tudo tudo
Parte desta mulher que vos canta


encontrei este texto nos meus arquivos e não me lembro quando e nem se fui eu mesma que o escrevi. mas me identifico com ele e por me conhecer minimamente desconfio mesmo de que sou sua autorA.

segunda-feira, março 07, 2011

visitinha

hoje me visitei.
eu tinha dezenove anos, muita ingenuidade, muita vontade e acreditava muito. nada disso mudou. eu tinha cabelo mais comprido, eu andava da estação de trem pelas ruas de paralelepípedo de santa terezinha até chegar na pça rui barbosa sem número. onde está a escola livre.
hoje eu tive dezenove anos, cheguei meio perdida ali na porta do galpão, onde estava tendo uma aula de circo do milan e perguntei pros que estavam ali treinando acrobacias num dia quente de janeiro se ali era a escola livre. "é aqui, mas a entrada é por ali".
então por ali eu entrei pra fazer a minha inscrição no núcleo de formação de atores. e não saí nunca mais.
então eu hoje, 24 anos, peguei meu carro vermelho todo estropiado e atravessei a cidade e cheguei em santo andré, que hoje pareceu mais longe do que quando eu fazia o mesmo trajeto todos os dias. e cada lombada me arrepiou. cada farol e curva da avenida do estado me trouxe um fragmento de memória. quando cheguei perto da escola livre me arrepiei inteira. me pareceu que o tempo é uma coisa muito louca mesmo. que tinha uma eu ali, dezenove anos, ingênua e deslumbrada com a escola, vivendo ao mesmo tempo que essa eu de hoje, 24 anos, nostálgica. ali, saltitando, ali caminhando, ali dançando, cantando, vivendo, vivendo muito intensamente todos aqueles dias. eu me vi, me senti, arrepiei, lembrei de situações tantas. tanta história minha presa ali dentro. eu ali dentro, presa no tempo, nas paredes pichadas e a escola quase desabando de tão abandonada que está pela prefeitura podre. hoje eu tive a sensação cristalina de que o tempo não é linear coisa nenhuma e que eu posso tranquilamente conviver com uma outra eu que existe tanto quanto essa eu que vos escreve. existo ali na elt, onde num dia ensolarado entrei pra nunca mais, pro resto da minha vida, sair.

domingo, março 06, 2011

inventare

restam tres horas pra dormir até que chegue a hora de acordar amanhã. hoje.

resta uma vida pra viver

mas que não chega nunca!
cadê?

a vida é que me molda num sapato apertado - não eu que a invento.

quem sabe inventar a própria vida?
que eu saiba, os artistas

ou os religiosos
os monges
os gurus
os padres

esses inventam uma outra vida

agora eu
(e uma enorme parte da população)
tenho vivido uma coisa que me espreme, aperta, machuca
uma coisa de se vira no que der pra poder pagar o aluguel no fim do mês
uma coisa garçonete de restaurante perda de tempo de vida de alma

cadê meu combustível, minha vida?

"vida minha vida
olha o que é que eu fiz
deixei a fatia mais doce da vida
na mesa dos homens
de vida vazia..."

assim não quero não dá não tem jeito

vou inventar que posso sair deste trabalho e começar a trabalhar no meu mais novo projeto para o qual dedicarei minha alma inteira e parte do meu corpo. e minha voz.

vou reinventar essa vida que sempre foi a que experimentei até chegar neste ponto morto de bater cartão. bater cabeça. dar murro em ponta de faca. nó em pingo d'água. correr atrás do próprio rabo.

inventei para mim uma prisão com casa marido comida na geladeira trabalho com carteira assinada. e quero desinventar tudo isso agora já. estalar os dedos e ser automaticamente transportada para uma sala escura, sem som, com os meus eleitos para criarem comigo esta nova vida que eu ainda vou viver. no palco. e na coxia.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

uma tempestade se arma

vou descer o morro pra cair no mar

que nesta vida que escolhi, não escolhi ser platéia

cansei de só ficar olhando, também quero me molhar

é aí que o céu desce ao chão

e todos encharcados dançam dentro de seus carros com vidro embaçado, parabris na velocidade máxima e ninguém arrisca

ninguém arrisca nada nesta cidade

nem 10 centavos

risco zero

eu estou arriscada naturalmente

fui pro lugar não confortável e to tendo que rebolar

mas agora preciso apontar pra direção correta e lançar minha flecha de diana paulistana atriz whatever século 21 internet rua cidade ácida casa nova

amanhã é cedo e muito cedo eu vou pirar.

evoé.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

museu de mim

Mudar de casa é ir de encontro ao futuro desconhecido e, ao mesmo tempo, dar de cara com o passado guardado nas caixas, mofado, nas letras borradas das cartas que guardo há anos e anos e anos. É me encontrar nas coisas que nunca consegui jogar fora. É me desfazer de pedaços de mim que vão deixando de fazer sentido, deixando de me acompanhar. É começar do zero, mas com caixas e caixas de passado lacrado ali, e que não jogo fora nem a pau. Que nem olho, nem preciso, mas sei que estão ali. Me segurando. Me formando. Desapegar é tarefa árdua porque é abrir mão do que a gente já não é mas quer continuar sendo - porque é seguro, afinal de contas. Minhas fotos, meus 57 caderninhos com escritos de todas as fases da minha vida, as cartas que mandaram para mim desde meus 0 anos de idade, os ingressos das peças e shows mais marcantes, os bilhetes das viagens tantas, os presentes de todos os ex namorados, as cartas de amor, as pessoas que fizeram parte e que hoje eu nem sei onde vivem, os objetos que fui acumulando, as coleções de isqueiros que não funcionam, de fitas de cetim, de roupas de bolinha, os figurinos, as roupas que não servem, os sapatos fodidos - ufa - toneladas de passado. Passado pesado! Carrego tudo como se um dia fosse fazer um museu de mim mesma. Como se fosse um atestado de: "Ó, vivi", ou, "Ó, não passei a vida em branco" - os documentos comprovam que viajei, que amei, que trabalhei e estudei. Coisa maluca essa de mudar. E essa de não querer largar o osso. Isso é neurose séria que tem que ser tratada com muita terapia. Apego à matéria.
E se eu jogasse tudo isso fora?
Continuaria sendo a mesma sofia?
E se tudo isso que cultivei por anos e anos e que me dei ao trabalho de guardar e transportar e cuidar bem - isso tudo fosse pro lixo? Sobreviveria, eu?
Penso que minha casa nova merece uma nova eu. Livre desses mofos. Livre do passado. Da que fui. Mas me conheço o suficiente pra saber que não tenho coragem de jogar o passado no lixo.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

espremida

o que me trouxe para esta tela em branco virtual as 3 e 40 da manhã foi um pensamento que me tomou no curto trajeto entre o estacionamento e a minha casa. pensei assim:
se o meu carro, neste momento, representasse algo maior e mais representativo meu - tipo a minha alma - hoje, seria algo beirando (ou mergulhando) o desastroso. Se meu carro representasse algo como o quadro do Dorian Gray que vai envelhecendo e apodrecendo de acordo com tudo de ruim que ele faz na vida, enquanto ele não envelhece jamais.
Resumindo todo esse aparente nonsense:
há oito meses não lavo o meu carro
há dois a capinha do espelhinho caiu
há muitos há batidas em toda a sua volta
e por último:
ontem fui espremida num engavetamento e meu carro está mais amassado que nunca

toda essa situação não pode ser encarada como um simples acaso, uma mera coincidência. isso quer dizer algo.
mostra como (não) cuido do que é meu. como não valorizo. não preservo. não amo.

tudo isso me deixou um pouco preocupada com meu modo de viver esta vida.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

trovoada

assim,

o tempo passa

e isso apavora.

mas o tempo também é remédio santo

pra esquecer
ou relembrar

pra perder
reencontrar

pra costurar ferida aberta ou pra dar nó na memória: nada melhor que o tempo

esse caminhãozão que não para jamé

ontem a noite me olhei no espelho do banheiro e senti arrepio na alma de medo do tempo. me vi nova mas me pensei velha. me pensei no fim da vida. me pensei morta. e caiu lágrima do olho e doeu a cabeça de pensar que nessa vida a gente morre e não tem jeito não tem remédio que evite. morre e pronto.

e depois fugi do espelho com medo dos pensamentos que me atingiram feito relâmpago.

cabuuum

quinta-feira, dezembro 23, 2010

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Volvi

é como se eu nunca tivesse ido

é como se minha vida tivesse ficado suspensa por 4 meses e agora eu desapertei o pause. mas a sensação é de que voltei pro mesmo ponto em que tinha parado o dvd.

móvel casa cama mesa chuveiro rua calçada prédio elevador trânsito chuva caos são são são paulo a mil natal desenfreado consumo absoluto.

volvi

com o cabelo mais curto
com fotos na camera na retina e na cabeça
com ingressos e bilhetes de metro guardados na carteira
com euros pra trocar
com a cabeça meio lá, voltei com o corpo pra cá
com línguas que se confundem na boca

volvi

e é tão bom ir e tão bom voltar e tão difícil os dois

Mas aqui estou e aqui vou ter que reaprender a ficar
e ver o que faço com tudo isso que tá aqui

domingo, novembro 28, 2010

San Giuliano Terme

Que hoje conheci a cidade do meu tataravo, perdida entre Pisa e Lucca, a linda e picolina San Giuliano Terme. Debaixo de uma chuva incessante, insistente, jogamos um pedaço recolhido de seu tumulo no Cemiterio do Araça, em Sao paulo, no rio de San Giuliano terme. Trouxemos de volta à cidade natal de Luigi Carlo Carli, um pedaço dele, que morreu no Brasil aos 40 e poucos anos, com um estilhaço de granada na revoluçao de 32, em frente a seu açougue. Tarde chuvosa e fria de encontro com meus antepassados. De agradecer, porque è s'o por causa deles que estou aqui. Grazie mile, Luigi!

terça-feira, novembro 23, 2010

Procura-se:





Mulher

elétrica mansa, 24.

microondas neuronios

pane no fio de cabelo

VOLTAGEM 110 / fumante

a prova d'água

nao solúvel, solucionável

produto frágil: entorna.

Procura homem

forninho elétrico usado sujo de gordura, raspas de queijo gratinado, de bandeja.

de lambuzar.

migalhas de bolacha cream craker murcha no fundo do armário

com prazo de validade vencida - iogurte semi aberto na geladeira

pago bem, cubro qualquer oferta.

call

me


domingo, novembro 14, 2010

tunhunhummm

hoje deu tilte

pifou

explodiu

inchou
inchou

encheu o saco

doeu


cansei de brincar de saudades.

sábado, novembro 06, 2010

La mére


Há um oceano entre eu e meu mundo

Há um oceano entre eu e o meu amor

Há um maldito oceano entre eu e o tempo

Há um puto de um oceano entre eu e aquilo que sobrou de mim

Há um puta de um marzao

Há um oceano infinito


Há um tempo que nao acaba, tanta água, lonjura áspera, cava caixa de memória, revira osso, tumba, turbilhao.
Nada, rema, navega, bóia.
Corre, naufraga, respira, recomeça.
Espera. Espera. Passa.
Arde - assopra. Seca - molha. Toma. Come. Come. Come chocolates, minha filha. Pinica, coça, retorce. Chuva ácida, vento frio, rua, castelo, igreja, ingles. Bratislava Cracóvia. Polonia triste, em preto e branco. Auschwitz tanta dor. Bratislava pobre, barata, cidadinha zero a esquerda.
Noite de sonhos fortes no trem. Noite na caminha dura do trem, o som dos trilhos, som de ferro, sonhos de estrada, de idas e voltas e idas de novo.
E nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca chega. Essa é a graça, agora. Está no ir.
E para de pensar, para de querer, para de doer. Para de reclamar.




...

Tanto mar tanto mar
Sei também como é preciso, pá, navegar, navegar...
Canta primavera, pá!
Cá estou carente
Manda novamente algum cheirinho de alecrim

sábado, outubro 30, 2010

barcelonesa

Cigarro entre os dedos
Maconha na cabeça
Pizza no estomago
Barcelona lá embaixo da varanda do ap da Dorinha

e aqui em cima
no oitavo
(ou átimo, em catalao)
estou eu e só
eu e o cigarro e a maconha e os dois peixes dourados e a tartaruguinha de água que sobrevive com um abajur forjando o seu habitat natural

E eu que nao tenho mais habitat natural

Estou aqui há dois dias e nao vi quase nada da cidade
estive trancafiada gravando um curta metragem com espanhóis, tendo que decorar textos em castelhano (!)

DE fato, estava um pouco cansada de só ver cidades. Agora é bom criar essa mini rotininha que vai durar só dois dias. Depois volto pra maré desrotinada que é a viagem. Que vai e vem. E nao sai de mim, nao sai. Nao acabo de viajar. Navego. Vivo dia a dia. Cada um deles. Devorando o tempo e sendo devorada por ele. Que nao me decifra, mas me devora.

Ahora voy dormir en la cama de dorinha e sonhar suenhos em catalan.

segunda-feira, outubro 25, 2010

nao tem nada mais bonito que as luzes noturnas desta Toulouse singela e divina nas suas ruinhas medievais, nas igrejas grandiosas, na ponte nova mas que é velha muito velha, no seu rio imenso. bom mesmo é andar por essa cidadela a esmo, pairando como as gaivotas aqui do rio, sentindo o vento gelar o rosto e, depois de um tempao vagando, parar para tomar um café quentinho com leite no bistrot pequeno da esquina. Vive Toulouse!

domingo, outubro 24, 2010




que a saudade quando é demais

mata

dias de fúria



Marseille, 23 de outubro de 2010





a lua cheia me sobe a cabeça
mexe com as minhas marés
todos os meus líquidos entramemebuliçao

(((panela de pressao prestes a explodir)))

impressionante a relaçao -direta- que existe entre a lua e as mulheres e isso nao é misticismo, astrologia, calendário maia, tarot - NAO - isso é coisa que acontece aqui dentro de mim mulher, bem aqui, eu sinto uma cólera, um tesao, uma vontade de matar, de morrer, um mau humor, tudo exatamente junto. tudo ao mesmo tempo agora. j'a fui mulher eu sei.

vontade de sair correndo pelas ruas incendiadas de marseille.
vontade de atar fogo nas pilhas de lixo que cobrem a cidade nesta greve junto com os moradores daqui. e deixar queimar.
burn burn burn.
e jogar todos os meus dramas na fogueira.
os meus,
dos meus antepassados,
dos grevistas,
dos aposentados da frança e de todo o mundo.
(este velho mundo que naufraga, lentamente)
e se eu me aproximasse do mar nesta noite? sob esta lua, nesta cidade portuária decadente? se eu mergulhasse em suas águas geladas? neste mar mediterraneo... me entregar. quem me resgataria?
nao.
nem fogo
nem mar.
agora é só esperar passar.

gostei de voce, marseille.
voce é muito maluca.
nao por acaso, foi aqui que nasceu nosso Antonin Artaud.

ele vinha sem muita conversa sem muito explicar
eu só sei que falava cheirava e gostava de mar
sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
e minha mae se entregou a este homem perdidamente
ele assim como veio partiu nao se sabe pra onde
e deixou minha mae com um olhar cada dia mais longe
esperando parada pregada na pedra do porto
com seu único velho vestido cada dia mais curto
'Minha História' - Chico Buarque

quinta-feira, outubro 21, 2010

de Marseille

PROCUREI INTENCIONALMENTE matar três urubus de fome e de sede no prédio da Bienal de São Paulo. Pus ali imensas latas cheias de tinta escura, para que se afogassem, além de espelhos, para que batessem a cabeça durante o voo. Construí túneis de areia preta, para que entrassem sem conseguir sair, morrendo ali dentro. E, para forçá-los a voar, costumo lançar rojões em sua direção.

Nuno Ramos


é como os homens
urubuzentos
semi mortos
sendo jogados pra todos os lados
keep walking
move
go
work
make money
fuck yourself
kill yourself with work without money
túneis e sequestros
e escuridoes e putrefaçao

.

o fato é que hoje eu daria tudo para estar em outro lugar que nao aqui e agora
quando o melhor lugar do mundo nao é aqui e agora
pior sensaçao que pode existir (é como se eu fosse um urubu na gaiola)
uma rua sem saída
o tempo espaço pode ser tao aprisionador as vezes!
o fato é que tenho ganas de voltar
para minha cidade meu amor meus amigos minha vida meu trabalho
sinto falta pulando dentro do peito da barriga do cérebro
as saudades estao impregnadas, enraizadas, atracadas em mim
as saudades que a esta altura se instalaram e nao querem mais sair - nao há o que as arranque daqui

o fato é que gosto demais da minha vida na minha cidade
ou gostava (nao sei mais se ela será a mesma)
pode ser que nao seja mais, nunca mais, aquela vida que eu vivi na minha cidade

e é melhor que seja diferente mesmo
que quando eu chegue algo tenha mudado
ou eu ou o mundo

ou algo no meu quarto
um cabelo branco na cabeça de uma amiga
um chupao no pescoço do meu namorado
um ladrilho novo quebrado no chao da cozinha
um bar novo na sao luís
uma linha de metro que ficou pronta
será que o sesc belenzinho já abriu?
será que a dilma será eleita?
será que minha cama estará desarrumada?
como meu pai engordou!
meu irmao transformou meu quarto num atelie
meu carro estará com novas batidas?
meu celular voltará a funcionar com o mesmo número?
alguém regou as plantas?
quem usou as minhas roupas?

uma lacuna maior
o vao que separa minha janela do mundo aumentou
os quadros estao escorregando na parede
meus pés nao cabem nestes sapatos
como a cidade está feia!
já nem me lembrava deste vestido
nao preciso de tanta roupa!

quem é voce mesmo, aqui no meu quarto, nu na minha cama?

quero meu lençol de florzinhas
quero meu banheiro
quero me trancar no quarto com voce e nao sair nunca mais
e procurar no seu corpo as marcas novas
e te mostrar meus quilinhos a mais
e contar meus segredos minhas histórias do além mar
meus ingressos que guardei das exposiçoes das peças dos shows dos metros
minha coleçao de isqueiros de cada país
e as moedas
e os presentes
e as roupas novas
e meu cabelo raspado
e minha cara e meu jeito que nao mudam

que medo de encontrar tudo igual cada canto cada enfeite cada voz cada música
que medo de nao te encontrar nunca mais
que nó
quero dormir e voltar a lembrar dos meus sonhos
bonne nuit, marseille.

domingo, outubro 17, 2010

Je suis ici.
A Paris.
A Belle Paris.
Dos sonhos dos filmes dos livros. Ici. Justo aqui.

Viajando com a minha mae, pela primeira vez na minha vida, eu e ela e só. Sem os irmaos que sempre estiveram presentes em todos os momentos.
É o nosso momento. É bonito.
Ela morou aqui quando tinha 24 anos. Eu tenho 24 anos. E a gente se encontrou, na interseccao dos 24, no meio da minha viagem, um oásis, um porto seguro no meio de tudo tao incerto que vivo aqui há dois meses e meio.
É tao bom um pouco de confortável!

Está lindo. É outono, as folhas estao amarelas e eu vendo tudo pela primeira vez. está frio.


E agora eu penso em voce, voce aí, que as vezes me le. É. Voce.

E agora vou dormir.

Estou com os olhos ardendo.

Beijos e boa noite pra Paris.

E
pra
voce.

terça-feira, outubro 12, 2010

... lembrar que saí nesta saga maluca de viagem redescobrimento - uma terceiromundista, mundana de tudo, uma brasileira com amor, aqui nas zorópa de meudeus. Nesse velho mundo lindo foda complexo. Quero é me encharcar. Tenho feito. Tenho amado. E se engordo - depois emagreço. E se bebo diariamente - depois paro. E se nao trabalho agora, é porque tenho toda a vida pra isso. Agora é meu momento de viver me entregar no submarino do além mar, é preciso ir além do bojador para ir além da dor. As pessoas que conheci, as línguas que falei, os lugares onde dormi, os museus, as ruas que atravessei, as comidas que provei, os homens que amei, as mulheres que passaram por mim, as ressacas, as bebedeiras, as noites sem fim, o frio, o calor de berlim, as aulas de suadeira, a morte todos os dias nas camas cada dia uma. Que é como uma aventura hippie. Cada dia num lugar - fluindo fluindo fluindo. E que me importa as roupas sujas no fundo da mala? Que amanha nao sei onde estarei? Que me importa? Que me importa? Me importa que tudo agora é maior, mais potente, dentro de mim uma coisa grande cresce. Uma coisa de contramao de tudo. De que nao estou seguindo o que este sistema absoluto quer que eu faça eternamente: ganhando dinheiro, gerando lucro. Nao. To aqui, viajando, me nutrindo, me abastecendo. Com pessoas maravilhosas que me ensinam todos os dias, nem que seja só uma palavra nova numa língua outra. Mas aprendo sempre. E ensino também.
cambio desligo.


............




daí nosso mais-que-perfeito está desfeito.




.............




Antía es una buenissima anfitria. Me gusta su humor terrible. Las espanholas tenen mucho humor. Me encantan, todas.


y basta por hoy.




...............

quinta-feira, outubro 07, 2010

londonlondon

a man's heart in a woman's body

...



o cabo da boa esperanca é o mesmo que o cabo das tormentas.

e de qualquer modo, atravessando-o, se chega nas Índias.


...



brincando de cantar alto na rua pra provocar os ingleses silenciosos

cantar alto e cantar em brasileiro, ainda por cima

claro que todos olharam - censurando
ou curiosos
que língua ela canta?

mas ela nem ligou, porque era tao mais forte a caçada do chico buarque

nao conheco seu nome ou paradeiro
adivinho seu rastro e cheiro
vou armado de dentes e coragem
vou morder sua carne selvagem


a fuga, o passeio, o vento, as escadas do metro,
tudo meio que contagia a gente

quando se está na vida, literalmente, só a passeio

pra cima pra baixo, mapa, rua, rostos, línguas, cerveja, objetos, comida, semáforo, corvos, esquilos e raposas

e dá uma coisa grande dentro do peito
coisa imensa
forte
sei lá que nome dar, prefiro chamar de coisa imensa

coisa que as vezes é tao boa
inexplicavelmente boa que me incendeia, que vontade de viver, de ver mais e mais, ver tudo, o mundo - tao lindo o mundo - nao preciso de mais nada, quero viver assim, navegando navegando

noutras vezes
é
coisa
silenciosa
pelas beiradas vai me deixando inteira num estado
de coisa estranha
que nao sei nomear
prefiro chamar de coisa estranha
e tudo perde um pouco o sentido

que que eu to fazendo aqui gastando em pounds comendo doce sem parar. e esse buraco que só cresce? que nao preenche? nunca?

em londres
na turquia
na conchinchina
no himalaia
na argentina
na putaqueopariu


maldito médico que me cortou o umbigo justo no dia em que respirei o ar do mundo pela primeira vez. esse médico me paga.

em pounds, claro.

terça-feira, outubro 05, 2010

Sonhos edimburguenses

sonhei com um homem bravo muito muito bravo e eu correndo de roupa vermelha e branca dizendo NAO NAO QUERO NAO QUERO NAO QUERO NAO NAO E NAO, louca histérica, nao querendo mesmo, gritava com toda a capacidade dos meus pulmoes. Me cansava, e continuava gritando. Muito. Nao sei o que eu nao queria. Mas ele gritava de volta. E uma mulher, uma matrona, uma mulher forte, firme, seca, nos observava. Ela estava e nao estava do meu lado. Depois de um tempo ela se cansava da situacao e se pronunciava. Nao sei o que ela dizia. SOnhei com o eslovaco respondendo meu bilhete. Secretly and silently. Sonhei com uma cena que eu tinha que ensaiar. Sonhei com figurinos.

quinta-feira, setembro 30, 2010

escrevo pro que der
(se vier)

uma escritora sem leitor


fazedora de palavras que saem caem
e navegam sem destino, mundao virtual adentro
sem ancorar nem fisgar ninguém

estrada afora
estrada foda
afoita

...


aqui tem raposas andando pelas ruas a noite
me assusto porque sao animais selvagens, soltos pela cidade
mas elas se assustam mais comigo do que eu com elas
porque sao selvagens

aqui venta faz frio e é a cidade mais linda que conheci até agora

aqui tem energia forte inexplicável

aqui eu ficaria mais

mas tenho que ir
estrada afora
afoita
agora

segunda-feira, setembro 27, 2010

Parece que meu corpo e espírito ainda estao lá. E acho que uma parte de mim vai ficar por lá mesmo, assim como eu sei que tem uma parte de mim que já ficou em Berlim. E assim vou indo, me despedacando e deixando migalhinhas pedacos de mim em cada cantinho que elejo como meu. O resto carrego no meu cavalo, e vou colhendo flores e pedras no caminho.

domingo, setembro 26, 2010

carta a mim em noite de ventos desconhecidos

4 da manha
flor do apogeu
a lua já se escondeu
enchendo o céu de puro breu

...

Poesia va
pobre verso meu
que brota quando feneceu

...

olhou pro céu sentiu frio. ouviu que ele quase tinha se apaixonado por ela. e ela que quase se apaixonou pelo outro? e o outro se apaixonou por uma que nao ela, uma outra.

danco eu, danca voce.

...

vestiu branco e dancou oxum pra ela mesma.

...

bestiais simpáticos enérgicos sedentos
beijos,

sofia

quinta-feira, setembro 23, 2010

Catártica minha festa dinamarquesa brasileira italiana espanhola argentina eslovaca inglesa.

Catártica a lua cheia de ponta cabeca.

Eu de ponta cabeca. Do outro lado do mundo, outro lado de mim e de todos.

Bebi como crianca.

Ri como uma menina maluca.

Precisei.

E foi bom assim.

E sofri depois e chorei e depois dormi e acordei depois hoje, mais velha, 24, e agora ressaca sem direito de ter ressaca porque tem que trabalhar lavora lavora lavora.

E aqui sinto e suo mais que o normal.

E aqui apaixono e desapaixono. E fico obcecada como quando tinha 15. Mas agora sao 24e a coisa tem que andar.

Deixe-me ir.

La jornada continua........................

terça-feira, setembro 21, 2010

Prezado

voce.
Aí do lado de lá
da tela
do oceano
do tempo
da estacao do ano

aqui dentro tá frio congelando

que eu sabia e temia muito, o desencontro de desejos

que no fundo era o que eu mais temia

e eis que o espetáculo se desenrola agora diante dos meus olhos do jeitinho que eu já tinha imaginado. e temido. tanto.

e eu aqui
do outro lado da tela
do oceano
do tempo
da estacao do ano

do outro lado - que nao é do seu lado - estou eu
inerte
e
em silencio

um dia antes
dos meus 24 anos

silenciei

aqui

jaz

eu

.

segunda-feira, setembro 20, 2010


e o meu coracao embora finja fazer mil viagens fica batendo parado naquela estacao

domingo, setembro 19, 2010

Músculo carne osso tripa pés bolha calo salto bracos olhos coluna espaco reservado para a alma espaco reservado para a fala, porta. oxum ogun xango oxossi iemanjá. cavalo arco e flecha espada saia rio mar mata machado. por una parte pienso. por otra parte pienso. por una parte sinto ele cuerpo abrir e fechar. ai tá ficando bom. ai tá péssimo. ai nao consigo. ai, como é fácil. gosto gosto gosto. suo suo suo. ardo. incho. doo. piso pé no chao, bato pé no chao: acorda alma, pra vida. acorda vamos galopar. vamos cantar. cria cria gira gira bota em movimento, bota pra rodar acontecer. bota fora. tá difícil escrever ai tá tao difícil. quando está tudo bem é mais difícil do que nunca. precisa estar doendo faltando arranhando? sempre? e nem sempre doi falta arranha. as vezes é bom e só. e daí nao vem as palavras. parece que elas nao chegam até holstebro. aqui o vento as leva embora, junto com os pensamentos truncados que vinham me acompanhando. agora se foram os pensamentos truncados, mas também as palavras, todas elas. fico eu e minhas experiencias secretas, pensamentos, minhas línguas mal aprendidas, meus novos amigos e meus mestres de aqui.
e me vou dormir na suíte royal. e me vou pra acordar daqui a pouco e voltar a galopar suar pés pernas músculo carne osso tripa bolha calo salto coluna alma...

sexta-feira, setembro 10, 2010

Holstebro, Dinamarca

Odin Teatret

Aqui nesta cidade pequeniníssima no norte da Dinamarca, estamos eu e mais 21 pessoas imersos numa vida de comunidade no Odin Teatret, do iluminado Eugenio Barba. Este lugar foi dado pelo governo para o grupo, que veio da Noruega para cá em 1966, e fizeram desta antiga fazenda um teatro! Lugar lindo, energia maravilhosa, pessoas ótimas! Rodeada de brasileiros!! Sao uns 8 no total, contando o professor, Augusto Omulu, baiano de Salvador, dancarino maravilhoso e ator aqui do Odin. Hoje aprendemos a danca de Ogum, Orixá guerreiro, das estradas, do ferro. Os bracos se transformam em espadas afiadas, movimentos de forca vindos da terra, do fogo, prestes a talhar, a matar. Qual é a energia de alguém prestes a matar?
Os movimentos nao podem ser apenas movimentos. Principalmente os movimentos de um Orixá. Nao basta ser uma danca bonita.
Tudo deve estar preenchido desta intencao, deste instinto, da essencia de cada um dos orixás. Sugar a energia da terra e transformá-la em movimento grandioso, forte, sagrado.E que através do movimento, de um simples levantar de um braco esticado para o céu, algo muito maior possa ser lido. Porque se o movimento do ator está transbordando esta intencao, aí a terra treme. Aí se segura na cadeira e espera a banda passar! Quando o Augusto danca, o chao treme e a terra agradece seus pés. É impressionante.
Muito maravilhoso tudo.
Estou silenciosa e vivendo com calma. Me sinto numa espécie de retiro. Me sinto privilegiada. O teatro é lindo, grande, caótico. Foi crescendo ao longo dos anos, sem planejamento algum, se transformando num grande labirinto. E por toda parte as máscaras nas paredes, os cartazes de todos os espetáculos que eles já fizeram, os livros, a história de 45 anos de um grupo de pessoas que dedicaram a vida toda pra isso aqui. É lindo demais. É tudo história, tudo memória.
No primeiro dia aqui, a Else Marie, atriz mais antiga do Grupo (uma sessentona) apresentou um solo em que narrava a sua trajetória no Odin, a sua história e a história de todas as personagens, entidades, máscaras, bonecos, seres, que criou aqui. Tao maravilhoso!
Vou dormir e sonhar com Ogun e com os deuses que moram aqui no Odin e que nos acompanham nesta empreitada.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Seguindo

Amsterdam

De brinquedo

de pontezinha ruazinha vielinha bequinho

Canais

e ceu azul

Cheia de gente de dia de noite

Nenhum bar tao legal quanto os de Berlin

Tudo bem turistico

Tudo bem rigido, disfarcado de legalizado

Pessoas grossas e tristes

Putas tristes nas vitrines vermelhas
Putas entediadas
Putas gordas e negras

Tudo caro
Everything is about money here
Tudo feito para os turistas, da uma sensacao de que essa cidade nao tem alma
Sinto isso das cidades muito turisticas

Cade as pessoas que vivem aqui? O que elas fazem? Por onde elas andam?

Elas nao comem nestes restaurantes
Elas nao alugam estas bikes
Elas nao entram nestes museus
Elas nao passam a tarde nestes parques lindos
Elas nao tomam cerveja de 4 euros um copo

Entao
O que elas fazem por aqui?

Parece que tem essa Amsterdam de mentira, feita toda pros tursitas que querem fumar maconha sem parar

E uma outra

Escondida em algum lugar que nao imagino onde porque nem cabe aqui e tudo tao pequenininho apertadinho

Parece ate de mentira

Mas a historia 'e legal
Historia de mar, de grandes navegadores que construiram tudo o que tem porque eram os melhores no mar
nas batalhas do mar afundaram os ingleses
chegaram na africa na india no brasil e ficaram muito ricos

e os marinheiros vinham para amsterdam atras de bebida sexo drogas
a'i construiram uma igreja pros marinheiros se confessarem
pra eles fazerem tudo isso mas sem tanta culpa

entao
ao lado da zona das prostitutas nas vitrines tem uma igreja imensa
que cresceu junto com os pecados e dinheiro dos marinheiros

nao 'e legal?
eu sempre achei que este povo do mar, estes marinheiros piratas e tudo o mais, sao os mais malucos da historia.

sábado, agosto 14, 2010

ando masculinamente mulher.
ando carnívora incandescente.
ando torta, dolorida.
ando a esmo, berlim em mim, em mil.
kreuzberg me atravessa e eu o atravesso diariamente em minha super bicleta foguete. turbinas nos meus pés, festa na minha bacia, deleite pros meus olhos; essa cidade me amansa me excita, me amansa me excita.
me entorpece, me abastece de vontade dessa coisa de vida.
andar. andar e só é o bastante.

quero raspar o cabelo. meu lado masculino se apresentando, nos meus sonhos lésbicos, nessas mulheres homens que caminham livres por esta cidade.
foda-se as mulherzinhas com o cabelinho comprido pra agradar os homens. aqui elas sao e ponto. elas sao foda. nao precisa ficar provando que é mulherzona, super feminina, sensual. elas sao sensuais. mais que todas.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Sobre Berlin e os meus pés

que estou cansada
meu corpo pede trégua mas quero continuar nessa aventura maluca de conhecer e ter domínio sobre o nosso cavalo-corpo
nunca fiquei tao exaurida
mentalmente
fisicamente
meus pés nao podem mais tocar o chao porque estao cheios de bolhas
meus ombros e minha perna doem diariamente
e assim eu passo o dia todo sentindo meu corpo, porque ele nao me deixa esquecer nem por um minuto. sao tantas dores!
tantas coisas crescendo aqui dentro. as minhas vontades reprimidas, meus medos, sao minhas travas, todas sendo obrigadas a sair pra fora. mostrar a cara. venham aqui fora pra eu olhar pra voces cara a cara e ver que nao é tao grande assim. nao é tanto medo assim. nao sou tao fraca, meu corpo aguenta, minhas pernas sao uma boa base pra eu me apoiar. vem que o meu centro ta explodindo e só nao explode mais porque voces vem me atormentar. em tudo estao voces, meus monstrinhos, meus fantasminhas, minhas nhacas, por toda a parte. e como faco pra abandona-las pelo caminho? quando vou sentir que fez créc e destravou? quando?
porque estou trabalhando arudamente agora pra isso. mas nunca parece o bastante.
saiam já e me deixem experimentar isso tudo daqui.

sexta-feira, agosto 06, 2010

berlin

Neste momento, o melhor lugar do mundo é aqui e agora.
Aqui nesta cidade absolutamente tesuda, maluca, desorientada, em construcäo, descontrucao, reconstrucao, tudo jogado, um milhao de bares e eu querendo entrar em cada um e provar cada coisa, pessoas lindas de cabelos incríveis, bicicletas velhas, lojas de comida organica, um milhao de lojas de comida organica, cada esquina uma surpresa, cada passo um deslumbre, um olhar pra cada coisa e uma vontade, um tesao absoluto por tudo isso que me rodeia neste momento. Berlin é foda. Nao existe igual. Cada parque foda, cheio de gente, cada bar surreal, cada rio, cada tudo. E eu na minha Lucy, minha nova bicicleta velha, cor de rosa, deslizando por esta cidade fácil, por essa vida tranquila, esta paz depois de tanta guerra que já teve aqui. É tanta paz. Eles sao tao desencanados, tranquilos, andam como quem veio pra vida a passeio, sinto que eles sabem aproveitar a cidade deles muito bem. Os bares tao sempre cheios nao importa o dia da semana. De manha, quando saio pra aula de teatro, os cafés estao cheios com todos tomando café da manha juntos! Os berlinenses sao zero materialistas, zero aparencias, se vestem de qualquer jeito, moram em casas lindas e simples, tudo meio baguncado mas extremamente organizado ao mesmo tempo. Como pode? Tudo mais coletivizado. Tudo mais humano. Menos capital, material, bla bla bla. Puta cidade foda. Puta clima bom, de cidade bem cidade mesmo, mas com essa calma, esse saber viver gostoso, esse tesao todo. Uau. E isso é so o comeco.

sexta-feira, julho 30, 2010

lá da travessia

28.07 - em trânsito

Nono and last day

La Strada

Melhor sensação que eu conheço
Que relembrei
Redescobri aqui
Que quero viajar muito pro resto da vida
Viajar é preciso
Viajo porque preciso viver
Aqui é tudo muito.
Tudo tão
Tudo bem
Basta existir e sugar o sangue da vida que me beija na boca de língua
Quero trepar com a vida
Mais e mais
Forte
Devagarinho
Deixar ela entrar e me amar
Porque eu amo ela

domingo, julho 18, 2010

do ente

momento em que te pegam te viram do avesso e te o bri gam a ficar quietinho, descansandinho, tomando chazinho, paradinho, no sofazinho, dormindinho, bonitinho, tomando remedinho, xaropinho, nhé nhé nhé nhé nhé, tudo aquilo que é mais chato de fazer nesta vida.

do ser

ou, para os mais chegados nessa coisa de explorar a fundo o ser humano, quando se fica doente, do ente, é um momento de entrar em contato consigo mesmo, com o seu ser. o corpo pede estes momentos de vez em quando. esta pausa. quando você está se atropelando demais, não se olhando o suficiente, não se respeitando o mínimo. quando tá fumando demais, bebendo demais, trepando demais, se divertindo demais, o corpo pára, pede arrego, não aguenta, pede trégua, pára peloamordedeus!

com clusão

equilíbrio, meus caros, equilíbrio. ele é de fato meio mala, mas, pelo menos, busquem-no.

quinta-feira, julho 15, 2010

o mais maluco disso tudo é que a gente caminha caminha caminha pra voltar pro mesmo lugar. só que diferente. a gente muda na caminhada. e a gente vai andar porque tem alguma coisa errada. e tem alguma coisa errada porque aquele lugar não tá bastando, não tá preenchendo. aí, depois que a gente se bota pra andar, trabalhar, aprender, a gente volta praquele lugar que não tava fazendo sentido mas que agora faz. e não tava fazendo sentido porque faltava andar, trabalhar, aprender. olha que ciclo maluco.

do meu filme particular

cena de filme:

começa com ele me dando um livro do artaud de presente.

eu gosto, digo que será útil na viagem.

aí sentamos, ele desata a falar, chorar, falar, chorar.

aí passa.

aí chegam os pedaços de pizza.
minha portuguesa, dele marguerita.

aí eu. minha vez. tô puta, puta. e falo falo falo. xingo. hipócrita escroto dissimulado canalha. (nunca achei que eu fosse dizer essa palavra). ele diz: viu como dói?
esperneio sapateio no meio do salão. e os outros na mesa do lado naquele fingimento, "vou evitar olhar, mas to ouvindo tudo o que essa louca ta falando". foda-se.

aí - chega. quero ir embora, vamoembora.
tá.

aí lá fora. cigarro molhado, chuva insuportável na cidade que ficou fria do dia pra noite. aí me abraça. me abraça, não quero. e volto a falar. e falo. tudo. cuspo. que você nunca foi homem o suficiente. pra mim.não bastou. não foi. ele me chama de machista. não tem nada a ver com machismo, é questão de macho e de fêmea. simples assim.
ele: pior que eu sei disso. silêncio. olhos fixos.
eu sei disso.
eu sei disso.

aí vou pro carro.
ele parado do lado de fora.
eu desenroscando os fios do fone do ipod. levo horas nesse desatar um nó impossível. ele se aproxima pra ver o que tá acontecendo. eu abro a janela. mais chuva. ele na chuva. eu coloco um fone nele. ó o que eu vou ouvir, digo.
já lhe dei meu corpo minha alegria já estanquei meu sangue quando fervia olha a voz que me resta olha a veia que salta olha a gota que falta pro desfecho da festa por favor deixa em paz meu coração que ele é um pote até aqui de mágoa...

canto: pode ser a gota d'água. ele beija minha boca violento. ele me pega de jeito. homem. me beija e me beija e me beija. ele do lado de fora da janela do carro. ele diz que eu sou todas as mulheres do chico buarque. ele me beija tanto até que acaba entrando no carro pela janela mesmo, de onde ele estava. e a gente se pega e se entrega.
avenida paulista.

e qualquer desatenção, faça não.
pode ser a gota d'água.

terça-feira, julho 13, 2010

sou a assimetria em forma de gente.

sou curvilínea

melancólica

agressiva

eufórica

e

baixinha

segunda-feira, julho 12, 2010

sai culpacristã
me larga moralcatólica
sai seusrepressores estabilizadores da ordem
sai ordem
sai
sai
sai

eu não peço desculpas e nem peço perdão
eu sou assim ué
mais livre que os outros ué
eu sei lidar com essas coisas do desejo ué
"os normais tinham inveja de mim que era louca"
não que eu seja
sou só mais livre em determinados assuntos que os outros não aturam não compreendem não se conformam
que pode ser diferente
sou só diferente ué
não egoísta como ele quer
não escrota como ele quer
não dele como ele quer
não sou de ninguém e obedeço às minhas vontades ué
e não tá escrito em lugar nenhum que isso é crime
que isso é pecado
que isso é feio
não tá escrito
não existe pecado
existe respeitar a nós mesmos e aos nossos desejos isso é saudável não reprimível
não é egoísmo é sobrevivência
é vontade de viver
se ele não consegue me prender o problema é dele
se ele não me basta é ele quem vai ter que rever as suas atitudes como homem

chega de ficar na culpinha na mulherzinha no medinho
na inquisiçãozinha
na fragilidadezinha
sou mais mulher que isso de boa moça boa esposa boa mãe
sentar de perninha fechada e dar risada baixo
ter medo dos homens
ser fiel acima de tudo
sou fiel a mim

domingo, julho 11, 2010

Quero sentir isso tudo. Não pensar. Não agir. Não questionar. Sentir e só. Entender que as coisas chegam na gente e leva um tempo pra maturar. Não adianta querer responder automaticamente a tudo. Receber. Absorver. Amadurecer. E aí sim, responder. Com arte, com palavra, com ação, com música, do jeito que for. Mas deixar as coisas chegarem, abir as portas e janelas: entrem, venham, se acomodem. E fiquem por um tempo aqui comigo. Aí depois, só depois, posso dizer se entendi, se discordei, se odiei, se achei engraçado ou se sofri. Talvez eu seja meio lenta, mesmo. E tudo bem.

sábado, julho 10, 2010

Que chegou num ponto que não me resta mais alternativa. Aqui ficou insustentável. Agora é questão de fuga. Agora é questão de sobrevivência, de saúde. Preciso ir. Logo. E ponto.

quinta-feira, julho 08, 2010

estou eu aqui
dia se desfazendo na minha frente
eu envelhecendo
o tempo
e o tempo

os meus avós
ontem

sinto eu secando
atrofiando
preciso atuar agir criar
to parada
to só das noitadas vazias
falta a arte
ela
plena
nos tirando daqui e levando pra passear

(tava ficando cega e acendi a luz
ufa)

preciso ler me alimentar botar pra fora quebrar paredes

to com a força de um leão paralisada aqui dentro

quero sair

quero tirar daqui.

preciso dançar falar gemer

espremer o músculo da imaginação botá-lo pra trabalhar

lidar com o poético sublime. subjetividade para a minha sobrevivência!

chega de profano
chega de nhénhénhé
blábláblá

problemas insignificantes e conversas babacas

queria me propor a ficar três dias sem falar coisas babacas

queria me propor a só reagir quando fosse extremamente verdadeiro

queria me propor a não pensar em que roupa vou vestir e vestir qualquer uma que aparecer

queria me propor a ler um livro por dia

queria me propor a mudar os caminhos, as conversas, as pessoas sempre as mesmas, as músicas sempre as mesmas

sinto que esse mesmo mesmo mesmo vai acabar mesmo atrofiando o meu cérebro

um artista não pode parar nunca jamais never em hipótese alguma endurecer paralisar estagnar engessar endurecer nunca jamais

e estou meio assim acomodada por causa da viagem

mas a viagem

a viagem vai me tirar daqui me botar pra me virar revirar contorcer espremer te vira no alemão conhece gente teatro vê ouve frui tudo pela primeira vez da mesma forma quando cheguei neste mundo cão - virgem.

voltar a ser virgem
voltar a não entender nada
voltar pro estado de aprendizado profundo
viva o novo

domingo, julho 04, 2010

O amor é um oceano quentinho feito pra você soltar o corpo e boiar boiar boiar sem saber onde vão te encontrar (se é que vão). Pode ser que só encontrem seus restos espalhados, quebrando com as ondas na areia. Aqui uma perna, ali adiante um pedaço de rosto, mais ali uma mão. Pode durar anos. Ou segundos, a viagem. Pode atravessar afundar ou afogar.

E quando você estiver perdido em alto mar, em volta só os azuis que não te deixam definir o que é céu, ou se é mar, e a linha do horizonte te dizendo no ouvido: vem que eu to pertinho, vem que eu to pertinho, pare e desconfie. Se agarre numa ilhota, numa baleia ou pedaço de pau. Finque os pés no chão do mar. E experimente ficar aí, por alguns segundos.

Mas ele não vai deixar. Ele vai fazer de tudo pra continuar te levando. Vai mostrar toda a força que ele tem e escancarar a sua impotência. A sua mortalidade. Aquilo que em você é mais humano. Ele vai passar por cima. Alastrar.

É a ressaca absoluta. A maré enlouquecida, que vem e não quer saber. E toma onda na cabeça. Água no nariz. E você vai se sentir uma formiguinha, um inseto imbecil, correndo no mesmo lugar.

O amor é duro e líquido, como oceano.

O amor é pra valer: divino. e terrível.
escrever é a única arte que eu tenho praticado com constância.
é a única que faço sem me pedirem. faço porque quero. quando quero. e se quero.

mundana.

de tudo o que é de pegar, de comer, de sentir o gosto. de tudo o que é de sentir. de pele, de pelo, saliva, boca carnuda, corpo quente esquenta meu corpo, me embrulha pra presente e me leva pra passear nesta casa confortável que são suas coxas, sua nuca, seu cabelo.

me leva pro mundo, seu corpo, meu corpo encaixa no seu corpo.

sou de mim e do mundo. quem quiser que me leve, aproveite, me tome as rédeas, me oriente.

eu aqui, boiando neste oceano delicioso. solta. e calma.

sou mundana taurina imunda.

da matéria.
do de pegar, do de comer, do de cheirar. são esses que me movem.

agora sim. agora eu quero ficar pra todo o sempre neste edredom vermelho seu corpo cobrindo meu corpo, seu cheiro, seu gosto, seu todo absoluto e eu aqui largada, devota, escancarada. me leve, leve.

sou sua sou sua sou sua sou sua sou sua

só agora. a pro vei te .
só agora. se de lei te .

que eu passaria o resto dos meus dias nesse movimento. de dorme acorda. de amor. de amor. de come, dorme, acorda. me ama. me come.

esse amor que é concreto; tem gosto, tem cara, tem carne - o amor.

eu carnívora insaciável.

sanguinária. eu da raiva e do amor, uma ao lado da outra.

sábado, julho 03, 2010

pegue umas máscaras.
misture com carcaça, armadura, barreira, trincheira.
junte um disfarce.
bata com 2ks de ego.
100g de competitividade.

frite na frigideira, tudo junto.

pronto.

temos um relacionamento explosivo.

B U M