domingo, dezembro 13, 2015

peso-pesado


Antes de começar de novo, eu perguntaria:
Você tem certeza?

E eu advertiria sobre os meus defeitos, os piores, sobre a minha carência eterna, interna, sobre a demanda de atenção, sobre os esquecimentos, sobre os mimos e o desejo de que se viva em função de, sobre o nunca é o suficiente, sobre a minha capacidade de sugar você e te trazer pra dentro deste mundo, e você vai querer sair dele e eu não vou deixar. Mas eu já te avisaria de antemão para que isso não viesse a ser um problema, uma questão, uma dr. Oi, tudo bem? Eu sou assim, e você?

Antes de começar de novo, eu abriria tudo de uma vez, de mão beijada, eu falaria tudo que penso e sinto vontade, tudo que me aprisiona e eu não suporto, eu falaria que não sou animal de gaiola embora sempre me prenda a vocês, que me acorrento até os pés e sigo lutando pra me soltar, que eu mesma seguro a corrente, que eu te acorrento junto e seguro a ponta da corrente, que sou uma monstra maluca e egoísta, sim, mas estaria tudo às claras, as cartas todas na mesa, você topa? Você encara?

Antes de começar eu escancararia a porta, as janelas, os banheiros sujos, as louças sujas, as roupas sujas, EU estaria suja, sem banho, “Oi, quando estou suja eu sou assim, tá afim?”.  Para quê perfume e maquiagem? Quando eu acordo eu tenho bafo. Meus pijamas são feios. Eu fico menstruada a cada 28 dias. Sim, eu sangro, muito. Quer mesmo assim?

E se ainda assim, depois de tudo, você encarar, vai ter que tolerar eu pegando todos os seus piores defeitos e jogando na sua cara, é, eu saco as pessoas, eu sou crítica e impiedosa, eu quero te moldar para ser exatamente como eu espero, eu tenho altíssimas expectativas e quero que elas sejam superadas, sim, como não? Mas eu já te avisei, eu sou um pequeno monstro em potencial, um barril de pólvora, uma caixa de surpresa, você nunca pode saber o que esperar de mim. E aí? Tá afim?

Diário de um fim de viagem


Otto é o nome dele. O que me acompanhou por toda a viagem. Mas ele não sabe disso. Vou manter em segredo, acho.

O outro é o Wagner, que num dia assim calado, me mostrou a vida.

E eu, que antes da viagem sabia escrever. Não logo antes da viagem, bem antes, quero dizer anos antes, anos de escrita pesada viciada nas noites de centro de São Paulo eletrizantes, anos de 22 anos e Avenida São Luís. E muita muita escrita nesta tela acesa. Da avenida todos poderiam ver a janela acesa queimando do oitavo andar, e lá dentro a menina que aprendia a ser atriz e a viver a vida. E que já fumava, claro.

Durante a viagem eu soube escrever e soube viver como quem não teme, como quem vai o mais longe que o trilho do trem pode levar, pro desconhecido, pro perrengue, pro deleite, o divino, o que tem de novo no continente velho.

Da viagem sobrou um diariozinho de dimensões pequenas, difícil de escrever no trem e ônibus, mas deu pro gasto, capa de bolinhas verdes.

Sobrou a casa ainda de pé, a casa roxa na esquina de uma rua com uma outra rua, nesta cidade nova e velha e sem ar.

Sobrou só essa falta de ar.

E todo esse fim que abriu um rombo na minha vida nesta cidade, a cidade de sempre e nesta vida, a vida de sempre.

nesses dias em que me cérebro vira uma máquina de escrever


Nesses dias em que meu cérebro vira uma máquina de escrever galopante ta tatátátá tatá ta fábrica de histórias E nada passa batido, ileso, incólume. Não escapa pensamento desordenado que não ganhe ordenação na máquina, imagem vira fotografia, vira descrição, narrativa. Eu viro a personagem principal, ou a câmera subjetiva, depende do caso. No carro, a cidade passa tipo filme pela janela, eu a super pilota guio a minha nave e passo batido pela cidade. A cidade que só passa, não me atravessa. Mas a vida nesses dias é estranhamente grande e parece que eu seria capaz de fazer qualquer coisa, eu a super pilota adquiro super poderes e não existe dinheiro, fronteira ou conhecimento que possa me barrar. Eu decolo meu cavalo nave carro, eu salto no ar e sou a protagonista de todos os filmes de todos os cineastas mais legais que já existiram, e de repente eu vivo em nova iorque num loft e pego meu casacão pra ir até a esquina tomar um café com meus amigos porraloucas novaiorquinos artistas fantásticos como eu e tomamos café e depois cerveja e depois whisky e terminamos a noite na casa de um jovem poeta que acabamos de conhecer e ouvimos vinis no tapete do seu studio de janelas grandes sem cortinas com vista pras luzes novaiorquinas que não são como as de São Paulo, são muito muito mais legais porque são novaiorquinas e tudo o que é novaiorquino é mais legal, óbvio. Daí eu visto meu casacão, a minha bota e saio galopando sozinha na rua madrugada bêbada, e meus saltos fazem ta tata tatata ta tata tatata e eu danço tango com os gatos e rio com os caminhantes noturnos e então amanhece e a maquiagem já borrou e eu uso óculos escuros porque sou atriz e vou tomar café da manhã numa esquina charmosa. Mas daí já é Berlim e a câmera subjetiva dos meus olhos capta aqueles jovens malucos estirados na rua no dia seguinte de uma noitada da pesada e está calor. Corta para cenas no parque, Corta para cenas no rio, corta para cenas no metrô, Corta para três jovens encostados num poste enrolando um baseado corta para um flat com chão de madeira, poucos móveis, e um casal trepando alucinadamente. A vida que ainda vamos viver não tem tristeza, angústia, testes, editais, reuniões, brigas, invejas, competição, dinheiro. Não tem dinheiro, Não tem dinheiro, Não tem dinheiro. E não sou eu que não tenho dinheiro é o dinheiro que não tem. A vida que ainda vamos viver não tem passagem aérea, nem visto, nem passaporte. E todos falam todas as línguas e todos se comunicam sem parar e trocam experiências intercontinentais. A vida que ainda vamos viver não tem profissão definida, nem vestibular, nem anos passados na carteira do colégio. Mas tem musica e músicos incessantemente. Tem pessoas que conversam coisas legais e se amam e viajam juntas pelo mundo. Tem cafés da manhã com pão na chapa e café com leite no interior do Brasil, tem Brasil, tem Brasil. Tem cama desarrumada no domingo de manhã. Tem casa de pé direito alto e prédios baixos. Tem cinema o tempo todo e tem teatro e tem textos lindos e legais de serem lidos em voz alta com os amigos. Tem gatos que dançam tango na madrugada com seus saltos de madeira. Tem crianças coloridas de todas as cores que prevêem o futuro e fazem mágicas e nos fazem felizes. Tem fazendas subaquáticas com cavalos marinhos. Tem estrelas no céu e estrelas no chão, na imensidão de uma ilha. Corta para mim. Corta para mim na areia de uma ilha infinita pros dois lados. Corta para mim, estou nua, doida, cor de rosa, eu meus seios cor de rosa e eu dou pequenos pulos na beira da água e canto e falo alto todos os textos que um dia eu decorei. Não tem ninguém ao redor. Só o mar a areia o céu imenso e um pequeno barco ao fundo, quase sumindo no horizonte. E eu sou o barco, a água, a areia. E eu sumo.

sexta-feira, outubro 31, 2014

essa noite foi estranha.
cavalo e criança afundaram em um pântano
depois, eu os via petrificados no chão, tipo fóssil.
Eu sentia culpa, a pior das culpas
chorava esperneava
Mostrava pra minha família o que eu tinha feito, me retratava.
quem mais ligava era a minha tia elisa, que também chorava. o resto achava triste, mas logo esquecia.
acordei com os olhos inchados.

terça-feira, fevereiro 25, 2014

poema ela outra



eu fumo
a outra também
até os 30, diz ela
vai saber

ela sabe que não para quando quiser
a outra tem vontade de ser a todo instante
e garante
é bem melhor assim

mas não há intensidade que se mantenha
e precisa sossegar
aí sossega e chora, ela, a mesma

a outra não vem sempre visitar
ela sente saudades da outra
mas não chama,
não precisa chamar

porque a outra vem sem avisar
dá um rolê pelos palcos
pelos blocos
pelas ruas da madrugada paulista
se disfarça de sei lá o quê (deve ser de ela mesma)
pra poder então enfim,

ser.

Pode o ator ter medo? Pode o ator não querer passar de um certo ponto? Não esbarrar naquilo que dói?


dois.

Cherry dorme. Eu o amo. Somos parceiros de espírito e carne, de casa e trabalho, de gosto e de criação, de cama, lençol, quarto, comida, chuveiro, privada, louça, conta, viagem, festa, almoço, janela. Somos parceiros de tudo o que existe. Louco. Foda.

quinta-feira, setembro 19, 2013

É tudo uma questão de auto propaganda.
Propagar-se internet afora. Quanto mais views, likes e afins, mais amados nos sentimos. Mais e mais nos propagamos mundo virtual adentro, mais e mais somos de mentira. 
Somos o que queremos ser na internet.
Somos só a parte boa. Bonita. Descolada. 
Sorrimos eternamente. Somos belos e trabalhamos em coisas incríveis. E tá tudo sempre dando muito certo pra todos nós. Poxa. Que alegria. Penso: então está tudo certo? É simples assim viver, né? Simples assim estar no mundo, saber que vamos morrer a qualquer momento e que nossos vestígios internéticos se perderão por falta de atualização. 
Super tranquilo ser um ser humano neste tempo, nesta cidade, nestes corpos. Todos super satisfeitos consigo mesmos. Todos amando suas vidas e querendo que os outros amem também. Só na televisão é melhor que isso, não? 

terça-feira, setembro 17, 2013



qual é que é a desse minotauro?

pra mim, bate assim:
sobre monstros que no fundo do fundo do fundo do labirinto
somos nós mesmos.




silêncio.

o monstro faz barulho ou faz silêncio?
o monstro come o quê? quem?
o monstro dorme ou tá acordado? sempre?

quem a gente imagina que é o monstro? quem a gente gostaria que fosse? contra o quê lutamos?

que todos os heróis tem suas falhas trágicas e são degolados pelos deuses.

que deuses são esses? julgamentos? punições? guardem seus monstros pra si!, gritam os deuses!
o destino é um rio que corre corre sem parar... o destino é o tempo?

cada monstro se encontra com dédalo pra pedir ajuda:
me dá uma solução! arruma a minha vida! me dá uma invenção milagrosa que resolva todos os meus problemas!!!

então é:
sobre monstros  e muros  e paliativos tecnológicos




segunda-feira, agosto 05, 2013

no que é que fomos nos meter?
que estrada é essa que leva, leva, leva sem parar?
vou abrindo porta, conhecendo cidade, campo, terra fora de mim, dentro da cabeça é silêncio.
caminhos bitrifurcando. Expandindo implodindo deixando o que já conhece e indo pro que desconhece. Conhecer a mim já não é o foco, agora é pra fora, caminhar caminhos de cascalho, toco, pedra, pluma. Respirar. Sempre. Com você ao meu lado, passo ante passo, noite após noite, cama, carro, rua, ensaio, espaço, ensaio, conversa, cafécafécafé. Você é meu mestre e meu marido, e meu amigoinimigo de todo dia, meu espelho, meu parágrafo, meu diretor, minha base sólida, você e eu caminhando de mãos dadas vida afora, burilando nossa expressão íntima e necessária. Essa vida nos escolheu, meu amor e o teu.

terça-feira, julho 02, 2013

s o b r e tudo

Se é pra escrever que seja agora, que seja frio, à seco, como dizem. Sem música, sem cigarro, sem vinho. Que seja pá pum. Aqui e já. Agora. Escrever escrever escrever sobre o frio que está desmedido, sobre os dias estranhos, mas assim, só anpassan. Uma passadinha pela Paulista, um filme doido, Tabu, um puta filme, português.  Sobre o novo projeto de mi vida. Sobre todos os projetos de mi vida. Sobre mi vida. Foda-se mi vida, isso si. Que este blog é público medos privados em lugares públicos? Será que a gente sabe escrever se não for sobre nós mesmos? Vou dar um pulo ali na FLIP e já volto com a resposta. Mas é verdade que este ano senti vontade de ir pra FLIP. Ouvi dizer que o Brasil precisa de roteiristas novos. E de repente sonhei em ser uma roteirista. Puf. E parece que na FLIP vão ter uns papos com roteiristas, inclusive aquele cara foda, Luís Fernando Carvalho, estará lá. E eu quis. Ir. Mas não, porque nunca posso, porque ensaio, ensaio, ensaio e não chego nunca a lugar... A vida é como um ensaio, eu tenho percebido. A gente ensaia ensaia mas parece que nunca encara assim, pra valer, estamos eternamente ensaiando a vida, o viver, meus escritos são ensaios que vão do nada ao lugar nenhum. E sinto que escrever assim, em fluxo livre leve e solto, é para os amadores. Bueno, é isso que sou mesmo. Uma amadora da escrita, amante das palavras, vedete das letras e das frases.

Mas é tudo culpa do Lenz, aquele poeta esquizofrênico, que de repente se apossou de mi vida. Sim, aquele doido, maluco que me pegou e me levou para o NADA. O vazio, o nada, o vácuo da existência. Me tira daqui, Oberlin! Quando escurece Lenz sente tanto medo que precisa se jogar no poço, na água, a água sempre o traz de volta para o "mundoreal". Agora me pergunto qual será o meu poço? Talvez este cigarro que acabei de acender e desaprendi a digitar, não o cigarro não, porque ele me leva pra mais longe, isso sim. P r e c i s o e n c o n t r a r m e u p o ç o p a r a m e e n c o n t r a r co m L e nz?

terça-feira, abril 30, 2013

Doeu chorei 
doeu paralisei
doeu paca tatu cotia não
doeu elefante
monstro
doeu agudo
doeu desatou choro nó e faladeira insana
as pessoas são capazes de cometer loucuras quando dói
falei o que vinha o que eu fingi que doía mas era dor de verdade coluna entrevada alma presa estancada precisa sempre travar pra olhar?
porque tava numas de não conseguir chorar, numas de aguentar que não é a minha cara. numas de passar por cima, atropelar, carro, marcha, lenta, taurina engessada e trampando sem parar pra ver. 
ver o quê? 



sábado, abril 20, 2013


Sonhar você
uns beijos proibidos debaixo d'água
o único lugar onde ninguém podia nos ver
fomos espertos
(nos sonhos, somos espertos sempre).

Fugas boas. Dava certo. Ninguém desconfiou.

Confissões e água. Era bom.

Sempre no sonho, sempre você nos sonhos, sempre eu e você nos meus sonhos será que somos nos seus também? Odeio você nos meus sonhos. Amo você nos meus sonhos. Quero você fora dos meus sonhos já. Quero você dentro dos meus sonhos. Já. Quero você dentro e fora dentro e fora dentro e fora já.

Acordei e te vi numa foto. Horroroso, cara de besta. É você mesmo? Aquele que eu sonho que me atormenta nos meus sonhos? Credo. Como eu tenho mau gosto. Acho que inventei uma pessoa que não existe.

segunda-feira, outubro 22, 2012

Ele transa com o violão
Elétrico
Eletrocuta-se todo

Ela esperta pesca tudo
Electra
Ela gosta de brincar de medo

Nunca vou adivinhar o seu segredo

Fui brincar me arranhei inteiro

Ela vive ali na beira

Me convida pra dançar no abismo

E eu louco par cair

Brinquedo
Medo bom

Caixinha negra
Cuidado que explode
Cuidado que pode explodir

Ela nunca vai se jogar

E eu louco par mergulhar
ali.


sexta-feira, agosto 31, 2012

domingo, agosto 12, 2012

para

e

mergulha.

para

e

reflete.

para

e

assimila.

agora, vai, voa passarinha, abre o peito e finca pé no chão.







depois
para

e lembra do vôo.

domingo, agosto 05, 2012

E sempre que termina a peça

"que os deuses não nos notem"

faz-se silêncio entre os mortais

a mortal platéia
e o também público mortal

unem-se na escuridão do teatro.



hoje mais uma morte e mais um vento de vida no palco da Ifigênia

hoje mais um despertar de profundezas da alma

hoje uterina, filha, guerreira

hoje suor e sangue

conta a todos nós, Ifigênia: com quantos sacrifícios se entra para a História?

sexta-feira, julho 27, 2012

Bagunça criativa neste retiro em Jaú. Retiro ao mesmo tempo alimentar, espiritual, trabalhístico, familiar, emocional, maternal, oxigenal, cerebral, sentimental. U a u . Que bênção esse lugar Deus Meu. Obrigada tataravô, tataravó, bisavô, bisavó, avô, avó! Obrigada antepassados meus, por este lugar existir. Obrigada aos que fazem e conservam este lugar até hoje. Que pri vi lé gio meu deus, que privilégio um lugar assim, com todas as minhas raizes reunidas, enterradas nesta terra boa e roxa, todas as minhas memórias de infância nestas paredes, corredores, vacaria e cocheira, e terreirão e cafezal, canavial, aos cavalos, às galinhas, que bom é ter vocês todos aqui reunidos, basta uma viagem de três horas e meia da minha casa em são paulo que chego aqui neste lugar fora do tempo (será que existe mesmo isso aqui?) e me encontro diretamente COMIGO, e minha família, e a minha avó que já morreu, mas ainda assim me encontrei com ela de um jeito tão lindo desta vez. Que me sentei na sua escrivaninha e mexi em suas fotos e diários e descobri quão linda ela era jovem!! Eu nunca tinha visto a minha avó jovem! Que mulher! Cheia, transbordante de vida! Ela tinha aquele tipo de sorriso com uma gengiva que aparece e eu acho isso tão lindo nas mulheres (acho que minha prima Joana herdou este sorriso..). E como é legal ficar encontrando as minhas tias na minha avó e até ME encontrar na minha avó, meu deus, como é bom saber de onde a gente veio, e as características boas e ruins que vieram para nós sem a gente escolher!

Consegui me aproximar mais da Kátia. Imaginei-a, toquei piano, peguei folhas, pedras, gravetos, flores para levar para São Paulo e usar na cena. E construir meu Totem-Kátia. Escrevi muito como Kátia. Kátia é bichinho do mato, filha da natureza, vive só e bem, inventa suas estórias, se apaixona, loucamente, desvairadamente. Kátia é bichinho desconfiado, observador, se esquiva. Kátia colhe flores. Toca piano. É uma mulher, já. Sente falta do pai, teme a irmã, pouco carinhosa, muito rígida, seca. Criei os cinco quadros mas quero criar outros cinco. Li a novela inacabada do Púchkin, me envolvi, de repente, puft, acabou, ele parou de escrever, nunca saberemos o fim da estória, é terrível!

Minha mãe menininha. Minha tia Lu. Meu irmão. Tonicão.

Estou maluca e feliz.

Obrigada Jaú. Boa noite. Até a volta,

sua

S.

domingo, julho 22, 2012

Apinéia.

Sonho com um mar vermelho transparente cheio de dejetos, sujeira. A onda passa por cima da minha cabeça, estou de pé, ela passa sem me molhar, estou dentro dela, vejo toda a sujeira passando por cima sem me tocar.

Meu caos organizado. Não meto o pé na lama, amo fria, ando sóbria sem chafurdamentos.

Novidade nenhuma, ela ri.

É uma intensidade limpinha. Nem lá nem cá.

Queria não entender tanto. Não explicar assim. Deixar-me ser mar inteira mar. Can't live with no love. Sem paixonar-se é tédio.

Tanto por fazer sem conseguir começar. O processo criativo não pode ser assim racional e ordenado, não é assim, tem que sentir alguma coisa, intuir uma fresta, e IR.

Os dias de julho tem sido lindos e eu nessa casa fria de frente para a porta, vendo os cachorros passearem felizes, vendo sol se por e imaginando como deve estar lindo lá fora mas sem me atrever a sair. Só saio quando escurece e aí é igual, mesmas luzes frias dos postes, mesmo carro, ruas todas iguais quando é de noite. Tem sido assim.

O processo de criar a Kátia está muito dentro, lá no fundo, não consegue ir pra fora, escancarar janela do corpo. Fiz uma colagem, foi uma tentativa de botar fora o que está dentro, um bom primeiro passo, acredito.

E agora pra onde? Criar os quadros, como? Desenhá-los? Botar no corpo? Criar o totem que o Wagner sempre fala. Preciso. Começar é que é difícil, já disse Beckett.

Fico sempre querendo as seguranças, os acertos, só começo quando tenho certeza. Mas como fazer diferente desta vez? Partir de um intuito, de uma imagem, deixar meu instinto procurando trilhas, seguindo alguma coisa mesmo que nebulosa, mas confiante.

Kátia toca piano de maneira séria e severa. Kátia é solitária. Kátia é feliz quando tinha tudo para não ser. É órfã, foi educada pela irmã, vive longe da cidade, com a irmã e a tia velha e chata. Mas é feliz assim. Kátia ama os pássaros, ama a natureza, é inteligente e tem personalidade forte, como a irmã. Kátia está pronta para amar, é tudo o que ela quer. Quando os dois rapazes aparecem em sua casa é um grande acontecimento para ela e sua vida pacata e sozinha. Kátia sente vergonha e muitas vezes mergulha para dentro de si e não há quem a arranque de lá. Kátia é irônica e soube direitinho como fazer para Arkadi ficar a seus pés. Serpentinha. Deixa os rastros de maçãs, uma trilha, uma armadilha, é ardilosa, observadora. Kátia é russa e nova. Nunca deve ter estado com um homem. Quer conquistar a sua liberdade, sair desta casa, dos domínios da irmã autoritária.