às vezes o tempo falta, noutras ele sobra.
agora sobra. e vim matar duas horinhas numa lan house no bixiga onde sempre me sinto uma estrangeira. na minha própria cidade natal. me sinto em cuba, puerto rico, sei lá eu.
e ao entrar nesta lan house de um casal de chineses (2 e 50 a hora) me lembrei de berlim e dos turcos donos das internet kaffes, onde tantas vezes chorei, me desesperei, ou encontrei meus amores.
tinha uma que eu elegi como a minha internet, e durante um tempo só frequentei aquela. o kit kat custava 50 centavos. o turcão era bem mau humorado, eu ficava chamando ele pra perguntar onde estava o arrouba no teclado, ou o acento tal, ou como faço pra imprimir?? ele não entendia uma palavra do meu inglês, eu não entendia uma palavra do seu alemão-turco. em suma, a gente não se dava lá muito bem. mas acredito secretamente que com o tempo fui conquistando-o, nada me prova isso, só gosto de pensar assim. afinal, ele já conhecia meus horários, minha bicicleta e a minha cara de choro.
daí um dia fui numa outra lan house de um outro bairro de um outro turco. e foi lá que explodi em lágrimas porque não conseguia falar com o meu amor há uma semana e estava desesperada pensando que ele tinha me esquecido. fui pagar no caixa com a cara deformada de tanto que eu chorei. daí o turco me perguntou se eu estava com saudade da minha família. eu respondi - mentindo - que sim. daí ele falou que me entendia porque ele não via a sua família há 23 anos. eu fiquei chocada e fui embora logo antes que ele me perguntasse há quanto tempo eu não via a minha: 3 meses, eu teria que responder...
agora voltando pra cá no espaço tempo. são paulo, 19 de outubro, 16 e 47 da tarde. salto. to com vontade de fazer xixi. o espaço do elevador ta trancada e o tempo deve passar rápido pra que chegue logo 7 da noite, horário do meu ensaio.
estava caminhando na rua e me senti como um espírito que morreu e não percebe que morreu. e por instantes descobri que esta deve ser, sem a menor dúvida, a PIOR coisa a acontecer a alguém (mesmo que este alguém seja um espírito...).
e vou parar por aqui, já está assustador e um pouco esquisito este texto. e vou extrapolar minha hora aqui na lan house dos chinas.
quarta-feira, outubro 19, 2011
quarta-feira, outubro 05, 2011
entres
silenciar-me
trancar nos meus calabouços os meus calabocas.
ami da li te
ali
onde a lua nasceu
onde dói um filho
onde dói a vida
onde o mundo vibra
ali na beirada da tragédia que tento compreender como atriz
no meu corpo
nas minhas beiras
nos meus entres
eternos
ali que é sem palavra
e junta com essa raiva que aqui tem habitado
e crescido
e eu a rego sem perceber
carrego pra todo lado
sei lá raiva do quê
xô.
trancar nos meus calabouços os meus calabocas.
ami da li te
ali
onde a lua nasceu
onde dói um filho
onde dói a vida
onde o mundo vibra
ali na beirada da tragédia que tento compreender como atriz
no meu corpo
nas minhas beiras
nos meus entres
eternos
ali que é sem palavra
e junta com essa raiva que aqui tem habitado
e crescido
e eu a rego sem perceber
carrego pra todo lado
sei lá raiva do quê
xô.
segunda-feira, outubro 03, 2011
com os olhos voltados pra dentro da cabeça
miolos
o pescoço afundado nos ombros
torcicolo
e as pernas e braços recolhidos
toco
não quero sair daqui
me deixe ficar aqui
ficar em silêncio e só
na minha navegação solitária rumo ao lado de dentro
re organizar
meu organismo dezorganizou
quero meu eu de volta
vibrando
feliz
agora é névoa
é transição de algo pra um algo outro
já vivi isso antes, sei como são as coisas. algumas delas. as minhas, eu ando sabendo mais.
raiva bate na portinha vez ou outra
com frequência ela vem
e eu a barro
quero deixá-la entrar
preciso das minhas ferramentas
arregaçar as mangas
e ajeitar as coisas por aqui.
aqui dentro
onde meus olhos olham pros miolos, a cabeça esmaga o pescoço pra dentro, os braços e pernas se recusam a sair.
aqui não é bom nem ruim. aqui só é. e é longe de você, o que melhora as coisas.
tchau
miolos
o pescoço afundado nos ombros
torcicolo
e as pernas e braços recolhidos
toco
não quero sair daqui
me deixe ficar aqui
ficar em silêncio e só
na minha navegação solitária rumo ao lado de dentro
re organizar
meu organismo dezorganizou
quero meu eu de volta
vibrando
feliz
agora é névoa
é transição de algo pra um algo outro
já vivi isso antes, sei como são as coisas. algumas delas. as minhas, eu ando sabendo mais.
raiva bate na portinha vez ou outra
com frequência ela vem
e eu a barro
quero deixá-la entrar
preciso das minhas ferramentas
arregaçar as mangas
e ajeitar as coisas por aqui.
aqui dentro
onde meus olhos olham pros miolos, a cabeça esmaga o pescoço pra dentro, os braços e pernas se recusam a sair.
aqui não é bom nem ruim. aqui só é. e é longe de você, o que melhora as coisas.
tchau
sábado, setembro 17, 2011
história de amor
nossa dramaturgia começa com
"você já viu a lua?"
e do portãozinho da casa da vanessa pra uns beijos no carro na garagem da thaís em santa terezinha foi um pulo.
daí eu ganhei uma despejada de cera quente de vela na cabeça da cor dos ciúmes.
depois, um dia, um telefonema:
"vem comigo. vamos juntos. eu te apoio e você me apoia. vem comigo, vem".
fui.
e no dia seguinte fomos namorados.
e de namorar para casar, foi outro pulo, curto. longo. árduo. lindo.
tem berlim entre uma coisa e outra.
nossa dramaturgia é de risco.
é de jogar tudo pro alto e recomeçar a cada dor, a cada foda, a cada dia.
mas nosso sonho é junto. é nosso. lindo.
minha declaração maior é a minha certeza. é o fechar os olhos e "me guia" que eu vou. confio. acredito, plenamente. concordo. identifico. pedaço de mim que encontrei perdido no mundo. e juntou pé com cabeça, virgem com escorpião, e florescemos. juntos. lindo.
nossa dramaturgia também é difícil. envolve coisa ruim, lixo, saudades, erros e mancadas, grandes merdas. nossa dramaturgia tem conflito. ô se tem.
hoje a dramaturgia tá no limite. no risco maior que todos os que já foram. sou uma equilibrista de sombrinha literalmente. abora aporta de casa pisando em ovos. mas ainda assim, vou dormir ao seu lado que é o melhor lugar do mundo, sorrindo.
e acordando com seu sono imóvel. sorrindo.
vai passar meu amor.
vai passar.
a nossa dramaturgia não tem desfecho.
beijos,
sua.
"você já viu a lua?"
e do portãozinho da casa da vanessa pra uns beijos no carro na garagem da thaís em santa terezinha foi um pulo.
daí eu ganhei uma despejada de cera quente de vela na cabeça da cor dos ciúmes.
depois, um dia, um telefonema:
"vem comigo. vamos juntos. eu te apoio e você me apoia. vem comigo, vem".
fui.
e no dia seguinte fomos namorados.
e de namorar para casar, foi outro pulo, curto. longo. árduo. lindo.
tem berlim entre uma coisa e outra.
nossa dramaturgia é de risco.
é de jogar tudo pro alto e recomeçar a cada dor, a cada foda, a cada dia.
mas nosso sonho é junto. é nosso. lindo.
minha declaração maior é a minha certeza. é o fechar os olhos e "me guia" que eu vou. confio. acredito, plenamente. concordo. identifico. pedaço de mim que encontrei perdido no mundo. e juntou pé com cabeça, virgem com escorpião, e florescemos. juntos. lindo.
nossa dramaturgia também é difícil. envolve coisa ruim, lixo, saudades, erros e mancadas, grandes merdas. nossa dramaturgia tem conflito. ô se tem.
hoje a dramaturgia tá no limite. no risco maior que todos os que já foram. sou uma equilibrista de sombrinha literalmente. abora aporta de casa pisando em ovos. mas ainda assim, vou dormir ao seu lado que é o melhor lugar do mundo, sorrindo.
e acordando com seu sono imóvel. sorrindo.
vai passar meu amor.
vai passar.
a nossa dramaturgia não tem desfecho.
beijos,
sua.
quarta-feira, setembro 14, 2011
cala a boca bárbara
debaixo da terra é silêncio
debaixo da pele é silêncio
debaixo da água é silêncio
no mergulho dos sonhos é silêncio
ali - entre a quietude e alguns sussurros
o grito abafado no sonho - e eu mordendo o travesseiro.
no som truncado do silêncio
o pesadelo e a queda ancestral
ali, onde adão e eva
ali pecado
ali não
bem ali.
debaixo da pele é silêncio
debaixo da água é silêncio
no mergulho dos sonhos é silêncio
ali - entre a quietude e alguns sussurros
o grito abafado no sonho - e eu mordendo o travesseiro.
no som truncado do silêncio
o pesadelo e a queda ancestral
ali, onde adão e eva
ali pecado
ali não
bem ali.
segunda-feira, setembro 12, 2011
mon day
na outra encarnação fui um homem.
e aí que eu já sei como é.
prefiro ser mulher, mas gosto da companhia dos homens. às vezes prefiro, até.
trago daquela outra vida a simplicidade, o desejo e a coragem.
------
agora meu cabelo crece a olhos nus. quero impedi-lo. não dá. todos os dias acordo e olho pra maquininha e ela olha pra mim e nos perguntamos, juntas: é hoje?
agora eu estou um pouco gorda.
agora eu lido com um bilhão de coisas que eu não lidava antes.
agora tenho uma casa. e às vezes me sinto como a minha mãe e não gosto da sensação. agora, daqui a pouco, tenho 25 anos.
uau. fuck. no.
agora é. agora sou. logo agora. justo agora.
bem aqui, assim. posso ser? pode sim. só querer. um dois três e já.
quero, logo hesito.
logo penso.
logo sou.
logo agora. justo agora.
e aí que eu já sei como é.
prefiro ser mulher, mas gosto da companhia dos homens. às vezes prefiro, até.
trago daquela outra vida a simplicidade, o desejo e a coragem.
------
agora meu cabelo crece a olhos nus. quero impedi-lo. não dá. todos os dias acordo e olho pra maquininha e ela olha pra mim e nos perguntamos, juntas: é hoje?
agora eu estou um pouco gorda.
agora eu lido com um bilhão de coisas que eu não lidava antes.
agora tenho uma casa. e às vezes me sinto como a minha mãe e não gosto da sensação. agora, daqui a pouco, tenho 25 anos.
uau. fuck. no.
agora é. agora sou. logo agora. justo agora.
bem aqui, assim. posso ser? pode sim. só querer. um dois três e já.
quero, logo hesito.
logo penso.
logo sou.
logo agora. justo agora.
terça-feira, agosto 30, 2011
De mudança
Chove na cidade sobre as nossas cabeças num dia típico calor-frio-calor-frio-chuva-torrencial. Sobre a casa: ela ficou vazia do dia para a noite. Há buracos pela sala, a geladeira partiu e deixou um grande vazio na cozinha, o quarto ao lado do nosso foi desocupado. Minha companheira de casa foi-se para o ex-primeiro mundo. Restam eu e o cigarro que sempre fumo. Eu e a casa metade cheia metade vazia. Eu e o país emergente. E o Bob Marley cantando no sonzinho novo.
Tudo muda o tempo todo.
Insistentemente, muda.
Eu, muda, na cozinha, tomo chá. Mudo, junto. Tudo, junto. Sempre tudo muda tudo. Ou nada muda tudo. Simplesmente muda, assim. Tec. Num estalar de dedos, num atravessar a rua, num dia frio que se torna infernalmente quente. Numa vontade que vira apatia. Ou numa frieza que vira desejo.
Ou o desejo que permanece, que não se esquece, que não deixa sossegar).
Tudo muda o tempo todo.
Insistentemente, muda.
Eu, muda, na cozinha, tomo chá. Mudo, junto. Tudo, junto. Sempre tudo muda tudo. Ou nada muda tudo. Simplesmente muda, assim. Tec. Num estalar de dedos, num atravessar a rua, num dia frio que se torna infernalmente quente. Numa vontade que vira apatia. Ou numa frieza que vira desejo.
Ou o desejo que permanece, que não se esquece, que não deixa sossegar).
domingo, julho 31, 2011
sobre os desejos que vem me atormentar
bom, eles vem sempre, direto, cotidianamente.
isso me deixa feliz e angustiada, ao mesmo puto tempo.
1. feliz:
porque desejar é bom. é sinal de que estou viva. muito viva. pulsando. querendo. sinal de que a vida me atravessa, de que abro espaço pra ela entrar.
2. angustiada:
porque vivo numa sociedade baseada, há séculos, numa Moral cristã-monogâmica-casamento-felizes- para-sempre-na-saúde-e-na-doença-na-alegria-e-na-tristeza, onde a família é super valorizada, em que se condena brutalmente todos os tipos de desejo, e, em especial, aqueles de natureza extra conjugal.
e porque não posso tocar neste assunto. nem com meu cônjuge que eu amo tanto.
é que a minha cota bicho não me deixa esquecer. tampouco me imuniza do desejar.
e a cota bicho é egoísta mesmo. e isso é necessariamente ruim? ou será, pura e simplesmente, natural?
era uma vez uma mulher que vivia há um certo tempo sob a égide da monogamia. e se descabelava.
era uma vez uma mulher que se apaixonou por dois homens ao mesmo tempo quando tinha quinze anos de idade. e descobriu que era possível. e impossível, ao mesmo puto tempo.
era uma vez uma mulher que amava muito. tanto. que cabia se apaixonar por um, dois, cinco de uma vez.
e queria experimentá-los, todos. ela não era bruxa, nem histérica, nem vadia.
ela era uma mulher.
e uma mulher é uma mulher.
um homem também é um homem e também carrega dentro de si uma cota bicho considerável.
me atrai esse animal que existe em nós - seres homens e mulheres.
me cativa, me prende, me impulsiona, me atormenta, me amedronta, me seduz.
esse lugar que ainda não foi colonizado por completo.
deve ser por causa da minha herança indígena brasileira. ou da minha herança-macaco. ou por conta da minha herança homem das cavernas. não havia monogamia nas cavernas.
mulheres e homens são bichos lindos e cativantes e é uma perda gigantesca e avassaladora não podermos nos relacionar como realmente gostaríamos.
como bichos livres; como homens e mulheres civilizados.
isso me deixa feliz e angustiada, ao mesmo puto tempo.
1. feliz:
porque desejar é bom. é sinal de que estou viva. muito viva. pulsando. querendo. sinal de que a vida me atravessa, de que abro espaço pra ela entrar.
2. angustiada:
porque vivo numa sociedade baseada, há séculos, numa Moral cristã-monogâmica-casamento-felizes- para-sempre-na-saúde-e-na-doença-na-alegria-e-na-tristeza, onde a família é super valorizada, em que se condena brutalmente todos os tipos de desejo, e, em especial, aqueles de natureza extra conjugal.
e porque não posso tocar neste assunto. nem com meu cônjuge que eu amo tanto.
é que a minha cota bicho não me deixa esquecer. tampouco me imuniza do desejar.
e a cota bicho é egoísta mesmo. e isso é necessariamente ruim? ou será, pura e simplesmente, natural?
era uma vez uma mulher que vivia há um certo tempo sob a égide da monogamia. e se descabelava.
era uma vez uma mulher que se apaixonou por dois homens ao mesmo tempo quando tinha quinze anos de idade. e descobriu que era possível. e impossível, ao mesmo puto tempo.
era uma vez uma mulher que amava muito. tanto. que cabia se apaixonar por um, dois, cinco de uma vez.
e queria experimentá-los, todos. ela não era bruxa, nem histérica, nem vadia.
ela era uma mulher.
e uma mulher é uma mulher.
um homem também é um homem e também carrega dentro de si uma cota bicho considerável.
me atrai esse animal que existe em nós - seres homens e mulheres.
me cativa, me prende, me impulsiona, me atormenta, me amedronta, me seduz.
esse lugar que ainda não foi colonizado por completo.
deve ser por causa da minha herança indígena brasileira. ou da minha herança-macaco. ou por conta da minha herança homem das cavernas. não havia monogamia nas cavernas.
mulheres e homens são bichos lindos e cativantes e é uma perda gigantesca e avassaladora não podermos nos relacionar como realmente gostaríamos.
como bichos livres; como homens e mulheres civilizados.
sexta-feira, julho 29, 2011
doce tarde
flagrei um homem me espionando da janela do outro lado da rua. credo.
sono da tarde, sem sonhos. janela aberta, luz da tarde entrando, barulho de carro da oficina do outro lado da rua. homens falando, outros me espionando.
sono infantil da tarde, durmo, chafurdo. me entrego pra esse sono gostoso e descompromissado das crianças. acordo com o celular tocando e uns pensamentos esquisitos: "quando eu era um bebê, referia-me a mim mesma como bebê teodoro."
Oi, muito prazer, eu sou o Bebê Teodoro.
Pode um pensamento desses?
A porta range no seu abre-fecha. Estou sozinha em casa. Acordo com tesão, tesão da tarde, pensamento vaga por uns e outros.
Amo a janela entreaberta e a luz que vem de fora, junto com a sombra que a árvore faz no teto do quarto. Amo os galhos dessa árvore velha bem na minha janela que se misturam com os fios e o poste, a árvore abraçou o poste, impossível podá-la, eles viraram uma coisa só.
E chega de sono e divagações que já vou me atrasar.
A vida é concreta. A alma não.
sono da tarde, sem sonhos. janela aberta, luz da tarde entrando, barulho de carro da oficina do outro lado da rua. homens falando, outros me espionando.
sono infantil da tarde, durmo, chafurdo. me entrego pra esse sono gostoso e descompromissado das crianças. acordo com o celular tocando e uns pensamentos esquisitos: "quando eu era um bebê, referia-me a mim mesma como bebê teodoro."
Oi, muito prazer, eu sou o Bebê Teodoro.
Pode um pensamento desses?
A porta range no seu abre-fecha. Estou sozinha em casa. Acordo com tesão, tesão da tarde, pensamento vaga por uns e outros.
Amo a janela entreaberta e a luz que vem de fora, junto com a sombra que a árvore faz no teto do quarto. Amo os galhos dessa árvore velha bem na minha janela que se misturam com os fios e o poste, a árvore abraçou o poste, impossível podá-la, eles viraram uma coisa só.
E chega de sono e divagações que já vou me atrasar.
A vida é concreta. A alma não.
quinta-feira, julho 28, 2011
Momento Itamar Assumpção
Dor Elegante
Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios édens analgésicos
Não me toquem nesta dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios édens analgésicos
Não me toquem nesta dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
terça-feira, julho 26, 2011
essa velha senhora
"Seria demais, certamente, supor que eu não precise mais da realidade.
Seria de menos, todavia, suspeitar sequer que a realidade, essa velha senhora, possa ser a verdadeira mãe destes dizeres tão calares".
Paulo Leminsky - introdução de Distraídos Venceremos
Seria de menos, todavia, suspeitar sequer que a realidade, essa velha senhora, possa ser a verdadeira mãe destes dizeres tão calares".
Paulo Leminsky - introdução de Distraídos Venceremos
segunda-feira, julho 25, 2011
Ah que saudades de escrever e só. E ponto. E já.
Escutando uma música maravilhosa do Itamar. Nova aquisição.
De barriga cheia de macarrão de tomate com mussarela de búfala e cerveja gringa.
Amo minha casinha, meu maridinho, minha vidinha maluca.
Tanta tanta crise e no final tá tudo bem, vai ficar tudo bem, confio, confio, confio. Porque não escolhemos o caminho mais fácil então tem que confiar. Troquei um trabalho de carteira assinada e salário bom por um trabalho artisticamente muito mais interessante e financeiramente muito pior. Mas se eu não escolho a arte ela nunca vai me escolher. E eu sempre vou escolhê-la. Como sempre fiz. E não me arrependo de nada, nem da minha escolha, nem da minha devoção, dedicação, anos de escola, não me arrependo.
Só ganhei com tudo isso. Desenvolvi um olhar pro ser humano, pra vida, pros outros, pro mundo, pra estética, pra configuração das coisas, pra desconfiguração das coisas, pro jeito que elas funcionam, não funcionam, deveriam funcionar, ou quebrar, pras brechas, pras frestas, pra janela que dá pro lado de lá do oceano, do tempo, pro fim das coisas e pro inacabado, pro infinito e pro nosso fim, que sempre se aproxima.
Por mais macarrão, cerveja gringa, cigarro, espiritualidade, cidade...
Tem fim.
Escutando uma música maravilhosa do Itamar. Nova aquisição.
De barriga cheia de macarrão de tomate com mussarela de búfala e cerveja gringa.
Amo minha casinha, meu maridinho, minha vidinha maluca.
Tanta tanta crise e no final tá tudo bem, vai ficar tudo bem, confio, confio, confio. Porque não escolhemos o caminho mais fácil então tem que confiar. Troquei um trabalho de carteira assinada e salário bom por um trabalho artisticamente muito mais interessante e financeiramente muito pior. Mas se eu não escolho a arte ela nunca vai me escolher. E eu sempre vou escolhê-la. Como sempre fiz. E não me arrependo de nada, nem da minha escolha, nem da minha devoção, dedicação, anos de escola, não me arrependo.
Só ganhei com tudo isso. Desenvolvi um olhar pro ser humano, pra vida, pros outros, pro mundo, pra estética, pra configuração das coisas, pra desconfiguração das coisas, pro jeito que elas funcionam, não funcionam, deveriam funcionar, ou quebrar, pras brechas, pras frestas, pra janela que dá pro lado de lá do oceano, do tempo, pro fim das coisas e pro inacabado, pro infinito e pro nosso fim, que sempre se aproxima.
Por mais macarrão, cerveja gringa, cigarro, espiritualidade, cidade...
Tem fim.
quarta-feira, julho 06, 2011
dia mundial da falta de voz
perdi, literalmente, a voz.
Engoli um sapão. Uns, talvez. Que bloquearam a minha faringe, e colaram as pregas vocais umas nas outras impedindo a passagem do ar. Daí, calei. Emudeci. Sussurrei bem baixinho o dia todo. Quem ficou perto de mim pôde experimentar a sensação de falar, falar, falar sem ser interrompido. E daí, num certo momento, se entediaram. Se cansaram da minha muda companhia.
Deixei de falar na hora que tinha que falar e agora não falo nunca mais. Sem voz, sem lugar.
Até me perguntaram se eu era muda.
Imagina? Me senti mesmo, várias vezes, como uma muda e só sei que deve ser bem difícil. Mas também, ao mesmo tempo, vi que tem muita coisa desnecessária que deixo de falar. Basicamente tudo, eu diria. As falas por necessidade mesmo são algumas, poucas, ao longo de um dia. O resto vem pra tapar lacuna, preencher o tempo, soar simpatico etc etc.
Contra a mudez, é preciso se colocar na hora certa e da maneira certa.
Ontem fui dormir pensando nisso. Hoje acordei sem voz. Realmente. Preciso plantar meus pés no chão e aprender a dizer uns NÃOS de boca cheia, redondos e sonoros. E me fortalecer de mim. Convicção e confiança. É disso que preciso mais do que nunca. Fiel a mim. Sabendo de mim. Observando o que está ao redor, sem ficar sonsa, distraída, me perder. Não dá mais pra me perder.
Engoli um sapão. Uns, talvez. Que bloquearam a minha faringe, e colaram as pregas vocais umas nas outras impedindo a passagem do ar. Daí, calei. Emudeci. Sussurrei bem baixinho o dia todo. Quem ficou perto de mim pôde experimentar a sensação de falar, falar, falar sem ser interrompido. E daí, num certo momento, se entediaram. Se cansaram da minha muda companhia.
Deixei de falar na hora que tinha que falar e agora não falo nunca mais. Sem voz, sem lugar.
Até me perguntaram se eu era muda.
Imagina? Me senti mesmo, várias vezes, como uma muda e só sei que deve ser bem difícil. Mas também, ao mesmo tempo, vi que tem muita coisa desnecessária que deixo de falar. Basicamente tudo, eu diria. As falas por necessidade mesmo são algumas, poucas, ao longo de um dia. O resto vem pra tapar lacuna, preencher o tempo, soar simpatico etc etc.
Contra a mudez, é preciso se colocar na hora certa e da maneira certa.
Ontem fui dormir pensando nisso. Hoje acordei sem voz. Realmente. Preciso plantar meus pés no chão e aprender a dizer uns NÃOS de boca cheia, redondos e sonoros. E me fortalecer de mim. Convicção e confiança. É disso que preciso mais do que nunca. Fiel a mim. Sabendo de mim. Observando o que está ao redor, sem ficar sonsa, distraída, me perder. Não dá mais pra me perder.
terça-feira, junho 14, 2011
o vinho e mais ninguém
me saca neste momento
será que já foi difícil assim?
quem virá me resgatar desta vez?
e agora mais do que nunca parece que está nas minhas mãos
minhas duas mãos, frias frágeis
são apenas duas mãos pra dar conta de tanta tanta
conta
tudo errado como dois e dois
carcarááááá
eu uivo
eu guincho
relincho
carece ter coragem e coração
já sei
já sei
meu uivo guincho relincho sem direção
sigo queimando em febre
em amor saudades e o que mais vier me azucrinar
me saca neste momento
será que já foi difícil assim?
quem virá me resgatar desta vez?
e agora mais do que nunca parece que está nas minhas mãos
minhas duas mãos, frias frágeis
são apenas duas mãos pra dar conta de tanta tanta
conta
tudo errado como dois e dois
carcarááááá
eu uivo
eu guincho
relincho
carece ter coragem e coração
já sei
já sei
meu uivo guincho relincho sem direção
sigo queimando em febre
em amor saudades e o que mais vier me azucrinar
domingo, junho 12, 2011
about whisky
se arrumou, se enfeitou
(percebeu que era pra ele)
os fios invisíveis da cidade os conectou na noite fria.
(percebeu que era pra ele)
os fios invisíveis da cidade os conectou na noite fria.
quarta-feira, junho 01, 2011
a moira
Escrever sublimar
Escrever entender
Escrever elaborar
Meu pensamento passa pelas palavras lançadas na tela
Encher a cara de vinho
Sozinha
É não pensar?
Ou é sentir tudo mais mais mais
Tenho 10ml de vinho pra me embebedar
Não basta
Tenho natureza melancólica
Tenho beleza na melancolia
Mas sei ser alegre
Sei ser forte
Às vezes é só escolha, mesmo. De colocar For no One do Caetano me embebedar com 10ml de vinho e fumar. E escrever, claro.
Se eu pudesse escolher, eu teria sido na outra encarnação uma poetisa, do romantismo, das tabernas, do vinho e do absinto sinto, sinto muito.
Eu sinto, sinto muito se eu sinto muito.
Eu teria sido uma mulher que anda na companhia dos homens. Dos pintores. E eu escolhia sair com eles pelas noites de paris, sei lá porque paris, mas poderia ser também outro país, outra cidade cheia de história, cheia de clima, cheia de outono. Eu escolheria passear pelos parques, livre. E me envolver com os homens sem me envolver. Sabe como é? Eu sei. Só eu sei. Não, quanto pretensão! Muitos sabem como é. Me envolvendo até o ultimo fio de cabelo, até o último pelo pubiano, sem envolver... alma. Não! Alma envolve sempre, eu envolvo, sempre. Então eu me enganaria, fingindo não me envolver, tratando com banalidade, com cotidianidade. E aquilo ficaria ecoando tanto que eu nem me daria conta e um dia aquilo explode em sonho, em desejo, em vontade de...É sempre assim que começa e sempre assim que acaba. Eu me apaixono. Eu me atraio. Me atrapalho. E daí eu estava tentando mudar o destino, a moira, a maldição que jogaram na minha cabeça, no meu corpo, meu sexo. Eu estava tentando com força. Mas essas coisas parece que nem a força controla. Ou controla? E eu é que não deixo, eu é que quero, sim, me envolver e...Sou eu que escolho? Ou meu corpo? Mas meu corpo sou eu, não?
E agora, terminados os mililitros do vinho eu partiria pra cerveja. Gelada cerveja na noite fria. Fantasmagórica. O vizinho ouve Janis Joplin e eu e meu Caetano de sempre.
Não sei se é ele quem me atrai ou é a minha necessidade de sempre me apaixonar, de desejar uma pessoa nova. Uma aventura. Um marinheiro.
Fugindo e procurando. Fingindo e fugindo e buscando e indo de encontro a.
Escrever entender
Escrever elaborar
Meu pensamento passa pelas palavras lançadas na tela
Encher a cara de vinho
Sozinha
É não pensar?
Ou é sentir tudo mais mais mais
Tenho 10ml de vinho pra me embebedar
Não basta
Tenho natureza melancólica
Tenho beleza na melancolia
Mas sei ser alegre
Sei ser forte
Às vezes é só escolha, mesmo. De colocar For no One do Caetano me embebedar com 10ml de vinho e fumar. E escrever, claro.
Se eu pudesse escolher, eu teria sido na outra encarnação uma poetisa, do romantismo, das tabernas, do vinho e do absinto sinto, sinto muito.
Eu sinto, sinto muito se eu sinto muito.
Eu teria sido uma mulher que anda na companhia dos homens. Dos pintores. E eu escolhia sair com eles pelas noites de paris, sei lá porque paris, mas poderia ser também outro país, outra cidade cheia de história, cheia de clima, cheia de outono. Eu escolheria passear pelos parques, livre. E me envolver com os homens sem me envolver. Sabe como é? Eu sei. Só eu sei. Não, quanto pretensão! Muitos sabem como é. Me envolvendo até o ultimo fio de cabelo, até o último pelo pubiano, sem envolver... alma. Não! Alma envolve sempre, eu envolvo, sempre. Então eu me enganaria, fingindo não me envolver, tratando com banalidade, com cotidianidade. E aquilo ficaria ecoando tanto que eu nem me daria conta e um dia aquilo explode em sonho, em desejo, em vontade de...É sempre assim que começa e sempre assim que acaba. Eu me apaixono. Eu me atraio. Me atrapalho. E daí eu estava tentando mudar o destino, a moira, a maldição que jogaram na minha cabeça, no meu corpo, meu sexo. Eu estava tentando com força. Mas essas coisas parece que nem a força controla. Ou controla? E eu é que não deixo, eu é que quero, sim, me envolver e...Sou eu que escolho? Ou meu corpo? Mas meu corpo sou eu, não?
E agora, terminados os mililitros do vinho eu partiria pra cerveja. Gelada cerveja na noite fria. Fantasmagórica. O vizinho ouve Janis Joplin e eu e meu Caetano de sempre.
Não sei se é ele quem me atrai ou é a minha necessidade de sempre me apaixonar, de desejar uma pessoa nova. Uma aventura. Um marinheiro.
Fugindo e procurando. Fingindo e fugindo e buscando e indo de encontro a.
terça-feira, maio 31, 2011
brainstorm
meyerhold, susanne linke, sayonara pereira, berlim, em mil em mim, sola, osso duro de roer, espaço - página em branco, minha tinta é meu corpo quem pinta, contando uma história de mulher, parto doído, nasci, pari um homem barbado, chupado, sugado, a cena do meu filme particular há quase um ano na avenida paulista. meu material minha letra. rascunho. no final, entram em cena 200 mulheres, como em Lorca. 200 mulheres. E um homem.
"mas se não saio dessa, sufoco".
"mas se não saio dessa, sufoco".
quarta-feira, maio 18, 2011
work in progress
uma só. sozinha. sola. no canto do palco, vestido de balé preto, sentada numa cadeira. preta. cabelo curto. varal de papéis antigos, cartas, mofo.
cocorosie. dança da bailarina triste. "quero gritar pro mundo: NASCI". acendem as luzes. movimento desenfreado de parto parindo pedaços de flor destroçada. chora ri. visto a camisa de homem. "te tiro filho e te tomo mulher. te bebo, ingiro, indigna do posto mãe. mas me esforço - talvez com mãos delicadas demais pra me chamar mulher - por recompensar a tua orfandade". põe tira camisa, joga, amassa, veste, transforma.
entra um homem em cena. ele e ela dançam, de costas, sem nunca mostrar o rosto. o homem sai e não volta mais. uma só. sozinha. sola. anuncia: "do meu filme particular. Cena de filme. Começa com ele me dando um livro do artaud de presente."
no mais, de agora é só.
cocorosie. dança da bailarina triste. "quero gritar pro mundo: NASCI". acendem as luzes. movimento desenfreado de parto parindo pedaços de flor destroçada. chora ri. visto a camisa de homem. "te tiro filho e te tomo mulher. te bebo, ingiro, indigna do posto mãe. mas me esforço - talvez com mãos delicadas demais pra me chamar mulher - por recompensar a tua orfandade". põe tira camisa, joga, amassa, veste, transforma.
entra um homem em cena. ele e ela dançam, de costas, sem nunca mostrar o rosto. o homem sai e não volta mais. uma só. sozinha. sola. anuncia: "do meu filme particular. Cena de filme. Começa com ele me dando um livro do artaud de presente."
no mais, de agora é só.
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