quinta-feira, fevereiro 26, 2009

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Cansada cansada cansada estou sempre cansada cansada cansada.
Quando fui criança acreditei que só as pessoas mais velhas é que se sentiam assim cansadas.
Agora sou mais velha, mas nem tão velha, e já descobri o cansaço, o cansaço mesmo, assim de esgotar idéia, desabar corpo ladeira abaixo, estirar na cama e só levantar no outro dia, mas ainda assim, no outro dia, sinto muito cansaço e assim por diante. Por diante, quero dizer, assim: acordo e durmo cansada todos os dias.
Uma vez tive anemia e me sentia assim cansada. Mas agora não tenho anemia. Tenho estado até mais gordinha (e isso me irrita tanto). Gordinha e cansada no trânsito, gordinha e cansada no ensaio, gordinha e cansada no banho, onde quer que eu vá: gordinha e cansada. Não sou velha nem nada e me sinto gordinha e cansada. Aliás, sempre pareci mais nova do que sou (dizem as outras pessoas - pode ser tudo mentira, só pra ter assunto, só pra me agradar, o povo mente o tempo todo o tempo todo mente o povo todo). O barulho de britadeira no fundo me enferniza os miolos, tímpanos e ne inpede de dormir todo este cansaço.
Boa noite.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Viagem de Volta

Volta, meu irmãozinho, volta. Que você partiu e me deixou a ver navios em frente ao mar. Que você me deixou só com o Rubi. Volta, irmãozinho, para fazermos música, pra conversarmos noites afora, pra passearmos na noite linda de São Paulo, em meio a fumaça, mendigos e luzes, mas linda. Volta baby brother, a Avenida São Luís não é a mesmo sem ti. O porteiro Otaviano manda notícias, também ele sente saudades. Volta que quando você foi parecia que tudo morria. Volta Gordines. Venha ver essa gente bronzeada mostrar seu valor. Que Europa que nada. Aqui estamos com a faca e o queijo. Não neva. A gente é quente por dentro e por fora. Volta que as mulatas te querem no sambódromo no carnaval. Volta que a Inês faz tutu de feijão pra você. Volta, irmãozinho, que o Guimarães pra mim caiu no esquecimento, sem você por perto pra me ler trechos cansativos e geniais. Venha ver a tua irmã de cabelo curto. Venha ver a vista do Ambassador - 8b. Venha que nada mudou muito. Nada mudou. Tudo te espera. Venha ver a minha peça que estréia no dia do seu aniversário. Venha irmãozinho. Venha ver Irene rir e venha mostrar tua risada. Que Europa que nada. Vamos dar cambalhota, assistir Chaves, perseguir o Tom Zé, Gero Camilo, nos entupir de comida em Jaú. Vem meu irmãozinho que já não dá mais pra não te ter por perto. Vem que o coração arde.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Isso de medo

Que medo de merda isso de medo é uma merda medo do quê cara pálida? Medo de quem, oras bolas? Medo do medo do medo de não saber mais de onde vem o medo. Tão grande ele já é. Há tanto já se instalou. E você deixou ficar o medo, aí morar o medo, então ele fica, então ele mora e aceita esse lar que o medroso o cedeu. Não há melhor lar para o medo do que o corpo do medroso. Isso de medo é invenção ancestral pra não nos deixarem viver, não nos deixarem deixar o lar dos papais e mamães, não sairmos viajando mundo afora e largar o que nos gerou pra trás. Isso de medo acorrenta pés, ata nós em nós mesmos, paralisa. É uma grande merda imensa o medo. Medo de quê? Medo de quem? Se for da morte, nem o sinta, nem precisa. A morte virá quando tiver que vir, ninguém a contem, nem medo nem nada. A morte é forte mais forte que o mundo e quando está determinada a chegar, é preciso apenas abrir as portas e entregar. Nada a fará parar. Muito menos medo. O medo serve só pra não deixar os vivos degustarem do presente vida que lhes foi dado. O resto é se jogar.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Joãozinho

Cortou o cabelo igual de menino e foi pra rua se mostrar. passou batom vermelho, colocou brinco e saia pra não ser confundida. entrou na rua errada, se confundiu. tava distraída demais com aquela nova ela que surgia. nova mesmo. cabelo mexe com as profundezas; e começou a reparar de fato, pela primeira vez, que quase todo homem tem cabelo curto e quase toda mulher tem cabelo comprido e que isso é engraçado demais, afinal de contas, é uma convenção, porque no fundo é tudo gente igual. tirando algumas diferenças, é tudo igual. homem e mulher. e quem inventou isso de cabelo curto cabelo comprido tava mais é enganado. que homem de cabelo comprido é bonito igual mulher de cabelo curto. mas que por vias da dúvida, era melhor que ela passasse um batom, enroscasse um brinco na orelha e vestisse uma saia para não ser confundida por aí.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

À ELT, minha homenagem

A Escola Livre de Teatro é a prova viva e pulsante de que existe uma saída para o Ser Humano; sim, nós podemos nos suportar, nos ouvir, nos amar e até podemos produzir arte. Tudo ao mesmo tempo. Sem dinheiro. Com pombos e goteiras. Ratos e moscas varejeiras vigiando nossos passos. Sim. Mesmo assim. É possível. Na periferia de Santo André existe um lugar em que as pessoas aprendem a ser Ser Humano. E é isso que interessa. E o melhor: não paga nada. Aceita-se: ricos, pobres, analfabetos, acadêmicos, cegos, surdos, gringos, atores, não-atores, enfim, aceita-se gente. O que importa é a disposição e disponibilidade para a entrega absoluta. Da mente, do corpo, das noites, do transportar-se até lá diariamente. Do afinco. Do amor a isso tudo que é possível de criar, recriar, do amor à vida, do amor à arte, do querer descobrir-se mais e mais a fundo. Da pesquisa. Eu amo tanto isso tudo que já começo a chorar quando lembro que me resta tão pouco tempo lá dentro. Mas que foi eterno. Pra mim será eterno até o fim da minha vida.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Elas, as

Não sou máquina de escrever. Meus dedos doem de bater no teclado depois de noites incessantes de palavras e cocaína. Tremem. Que eu durmo sonho acordo escrevo durmo. Escrevo dormindo. Escrevo acordando. No carro, na ioga, na sala de estar, trepando com meu namorado, assistindo tevê. É que palavras me perseguem. Frases chegam prontas na minha cabeça e eu tenho a obrigação de armazená-las em mim. Não escolho o momento em que chegam. Elas vêm quando querem (quando não querem não vêm). E quando cismo em escrever sobre elas, as palavras, saem correndo de mim. Acho que não gostam da metalinguagem, preferem ser utilizadas para escrever sobre outros temas ( e é possível escrever sobre tantos, não? As palavras dão conta de tantos temas!). Todos os temas estão nas palavras. E elas me vêm assim, aos montes, às vezes toneladas de palavras caem sobre mim durante o dia, então as descarrego no caderninho, no blog, na parede, no travesseiro, no ralo do chuveiro... Mas eu não sou máquina de escrever. Sou coisa de sentir de viver, não quero ter que escrever sempre e detestaria ser escritora (escrever por obrigação é um fardo!).E agora, tendo dito isso, todas as palavras se perderam de mim, me deixaram só, de frente para o branco da tela que é igual ou pior que o branco do papel em branco.

terça-feira, janeiro 20, 2009

"(...) É preciso afirmar que o sonho também faz parte da vida tanto quanto o cotidiano; isso precisa ser imposto (...)"


Heiner Muller

domingo, janeiro 11, 2009

Ser e não ser

Eu sou de cada um um pouco/ Um pouco amontoado - diz o Gero Camilo.
Enquanto eu: eu sou um amontoado de cada um um pouco.
Tenho um braço de cada tamanho e olhos de cores diferentes. Tenho língua de um, cheiro de outro. Tenho medo de amor. Sinto forte, tenho suor de uns três, quatro, cinco. Tenho voz de muitas. Amor de mãe, dor de filha. Tenho eu com cinco anos, treze anos, dezenove. Sou amontoado de fotos, fatos, pactos de vida e morte, arrependimentos e marés de sorte. Um aglomerado de tias, vós, bisavós. Enterros. Linhas da mão. Passado e futuro no aquiagora. Sou todos os corpos que passaram por mim. Tenho pernas de mil antepassados, força de mil espíritos. Sou Logun Edé. Tigre. Virgem ascendente Touro. Sou minha mãe, meio Bel meio Ana, meio Clara Iza, meio Marina, meio Julia. Meio Cecília. Sou minhas mulheres em mil, em mil em mim. Sobreviventes de guerra me habitam, sobrevivi ao nascimento e chorei nos piores e melhores momentos. Sou uma qualquer. Uma lembrança. O que poderia ter sido. A máxima potência. O menor pecado. De carne osso e sentimento que corta e sangra. Sou todas as menstruações, sou óvulo e espermatozóide. Sou as piores trepadas e os melhores orgasmos. Sou cabelos caindo no ralo, olheiras na ressaca, sou produto frágil: cuidado que entorna. Sou venenosa e líquida. E fleumática e melancólica. E chega disso.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Inescrevível

Sei que sobre experiência de vida se escreve a todo o momento. Tudo são experiências de vida. Relatos, descrições, contos, matérias jornalísticas, romances, poemas, memórias. Escreve-se sempre sobre o dia-a-dia, imagens flagradas na rua, conversas de boteco, filmes ou peças a que assistimos, isso, enfim, a que chamamos vida.
Mas quero hoje escrever sobre algo que vou chamar assim: experiência de morte.
Será que pode?
Sim, estou aqui, meus dedos se movem, meu cérebro funciona, meu estômago ronca - sim, estou viva - mas quero relatar um pouco do que se apresentou para mim na minha experiência de morte e não, não quero gerar expectativas. Não, ainda não sei o que há do outro lado. (Mas agora estou começando a acreditar que deveria ter começado este texto de outra maneira. Assim, só descrevendo o que estou chamando de experiência de morte, sem dar nome, sem começar dizendo que se costuma escrever sobre experiência de vida mas que neste caso eu falaria sobre outra coisa, algo pouco mais incomum mas que é tema de tudo no mundo, ao mesmo tempo).
É o abismo abrindo as suas portas para mim. Quando tenho coragem ele se mostra um pouquinho, quando vem o medo o enjôo toma conta de mim, minha cabeça gira, sinto que estou realmente morrendo. Se esqueço medo corpo Terra gente, enxergo coisas que antes não poderia sequer imaginar. Será que é proibido escrever sobre isso? Será que é escrevível escrever sobre isso? Está difícil. A experiência toda é muito difícil, muito difícil, muito difícil. Me seguro no que me resta: meu ser Sofia, não superior nem inferior a nenhum outro ser, meu ser sabe do seu tamanho, sabe que pode se aguentar - é preciso que eu aguente o meu próprio corpo para que eu continue viva. É preciso morrer assim, essa dor e essa dificuldade, esse abismo me sugando e eu tentando em vão me segurar nos meus sapatos. Preciso me deixar ir, voar queda abaixo e ladeira acima, me entrego Sofia, me entrego ser humano pra voltar melhor, mais corajosa, mais disposta a encarar este mundo de experiência de vida, preciso aprofundar minhas experiências de viva mortal que sou enquanto dura há de ser eternidade.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Materno

Te tiro filho e te tomo mulher. Te bebo, ingiro - indigna do posto Mãe. Mas me esforço - talvez com mãos delicadas demais para me chamar mulher - me esforço por recompensar a tua orfandade. E embalo nos braços um filho com pelos barba cabelos a mamar nos meus seios: secos. Enquanto me mama, me suga, um homem sem fome de filho, com nome de homem, a barba que me machuca a pele fina de menina se fazendo mulher. Te rapto filho e me faço mãe, injusta; um filho que chupo e sequer tive o trabalho de criar. Me chegou pronto, crescido, cheio de pelos e medos pelo corpo todo, crescido dos cuidados da mãe real. A que te nomeou e amamentou sem sentir prazer sequer nos seios, estes sim, cheios de leite e de vida para te dar, para que sobrevivesse ao crescimento e chegasse até mim, assim formado, assim, para me lamber os seios a boca e me chamar de sua mulher. E me disponho, cumprindo um papel roubado da outra - aquela sim, mulher - te amamento de nada, com mamilos vazios e rosados de menina que ainda sou. Enquanto isso fumo, eu a mãe torta, a mãe que pode fumar enquanto dá de mamar, mãe e mulher de um filho homem e pai de mim. Já me chega peludo, cheio de raiva e tesão, os erros da outra - daquela mãe mãe - sou eu quem devo arcar. Não tive a chance nem o trabalho árduo de te educar, mas posso lhe ensinar o ponto onde sinto mais prazer quando me toca, me lambe me roça, eu a mãe que fuma, que se entrega pros seus pelos e medos. Mas nunca te poderei ter pra sempre, já que ela, ela é que sempre o terá, como o pariu filho homem, peludo, barbado, pai de mim.

terça-feira, novembro 04, 2008

Massa

Cadê tua voz
Tua alma
Tua saga?

Cadê Homem nessa estrada?

Tua língua?
Tua pátria?

Tua sorte mora onde morre tua sorte
Onde mora Homem nessa casa?

Cadê tua cruz, vida,
cadê tua saída?

Te retorce
Esperneia
Inventa maneira pra fazer escutar

Se gritasse
Se gemesse
Se tocasse
Se cansasse
Se dormisse
Se morre...

sexta-feira, outubro 17, 2008

Satisfaction

Que me apaixono com a mesma facilidade com que me entristeço. São nuvens que pairam sobre a minha cabeça. De amor, de tristeza, de euforia. Em cada momento me embrulho numa nuvenzinha diferente e embarco; ela permanece instaurada até que venha outra um pouco mais densa, um pouco mais atraente, que me toma e eu - vou.
Tomar as rédeas próprias do meu corpo cavalo. Aprender a domá-lo. Aprender a ser dentro dele, habitando a única casa que me pertence de verdade. Se eu não morar em mim, quem é que vai? Se eu não gostar daqui, quem é que vai? Se eu não domar a mim mesma, se não me confiar, se não me entregar nem pra mim, pra quem será?
É difícil lidar com algo que não me foi dado o poder da escolha (nascer, onde nascer, como, com quem, em que formato!). Ao mesmo tempo, penso, ainda bem que não dependeu de mim a escolha. Talvez eu não tivesse nascido nunca. Teria ficado pra sempre escolhendo qual seria a melhor casa, o melhor corpo, os melhores pais, o melhor signo (quereria ser de Sagitário!). E como não existem as tais condições ideais de pressão e temperatura eu não teria vindo nunca pra esse mundo.
Prefiro ter vindo toda incompleta, mas vim! Prefiro que me tenha sido dado este direito de aprimorar, de trabalhar, de ser, de me deparar, de ir e vir. Prefiro a vida do que a perfeição. Prefiro a dificuldade do erro do que o estático. Prefiro aprender na raça. No vivo. Com os vivos. Prefiro isso tudo a uma espera eterna pelo ideal que não existe. Ideal sedutor, perfeição filha da puta, signo difícil.
Mas que eu queria ser de sagitário, ah, como eu queria!

segunda-feira, setembro 29, 2008

História real

Acordamos com a fumaça invadindo a sala, pela janela do quarto pela janela da sala, pelas frestas deste apartamento antigo que habito. Quatro da manhã. Ao invés do galo, meu pai: "Acorda. Vamos sair daqui. Tá pegando fogo". Não pensei em nada. Calcei meu sapato, peguei um casaco e corri. Quando te perguntarem: "O que você salvaria num incêndio?" responda que apenas a sua própria pele. Impossível pensar em salvar alguma outra coisa. Enquanto desço as escadas do prédio descubro os outros habitantes daqui, aqueles que só encontro vez ou outra no elevador, que às vezes dou bom dia noutras nem tanto, que às vezes até me tratam bem - os vizinhos enfim. Agora descubro-os todos de pijama (e todos descobrem o meu pijama lastimável!). Descemos aflitos e medrosos as escadas intermináveis deste prédio antigo que habitamos. Quantos idosos moram aqui! E eu nem sabia! Tantos já nem andam mais. E agora o zelador os coloca nos ombros e desce com eles as escadas. Corremos para a rua e de lá a visão: um apartamento inteiro em chamas. Chamas grossas, largas, fogo mesmo. Fogo brabo, cruel varrendo o apartamento do sexta andar. Eu moro no oitavo andar e morro de medo de que as chamas o alcancem. "Devia ter pego isto, devia ter salvado aquilo. E o meu celular? Não pegeui nem o celular?" Não. Está tudo lá. Uma vez sonhei que a minha casa pegava fogo inteira, não restava nada e eu só lamentava as minhas perdas materiais. Quanto apego. Quantos materiais. Quantas coisas que ficam guardadas em nossa casa. Nossa vida, eu diria. Aquela nossa vida que vai além da vida fisológica. Aquela vida dos registros, dos sons, dos livros, dos sabores, das roupas, dos lençóis, dos dinheiros. Aquela outra vida que nós temos. E o fogo avançava a cada segundo, rápido que ele é. Os bombeiros se enfiaram no prédio armados de mangueira, muita água para tanto fogo. Lentamente, as labaredas imensas deram lugar à uma fumaça densa e preta. Controlaram o fogo. Aprisionaram o louco, o rebelde o sem limites. Agora havia paz novamente. Amanhecia e os vizinhos voltavam às suas tocas enfumaçadas.

sexta-feira, agosto 29, 2008

os de nós

Será que é de escrever que preciso?
Mesmo que escrever não seja preciso.
Mesmo que viver seja inventar a cada dia um dia novo. Porque a tendência é todo dia ser igual. Sol nasce. Flor murcha. Nuvem passa. Nós, seres de carne e sentimento, de cimento e ciúmes, nós é que inventamos que um dia é diferente de outro dia. A natureza é sempre ela, tem ciclo, tem tempo, mas não está mais feliz num dia do que no outro. Não está de bom ou mau humor. Ela s i m p l e s m e n t e está. E convive com seus semelhantes simplesmente estando. Nós é que destruímos e nos deixamos destruir pelos semelhantes. Nós é que fazemos barulho no sono dos outros. Nós é que engarrafamos o mundo. Nós é que. Nós é que.
Mesmo que escrever não seja preciso, nós é que escrevemos.

às vezes, é o que me resta. noutras, o que me basta.

domingo, agosto 10, 2008

Do tanto que lembrar me dói

Bate relógio bate cabeça na parede
joga relógio no chão
cabeça voa
pé fincado no cimento
agarra



Bate pirulito que bate bate
o anel que tu me destes
joga ciranda na parede
cai de bunda quebrada no paralelepípedo



Qual é a palavra mais difícil do mundo?



Bate na porta
tempo que bate torto
joga tempo pela janela
Sobra eu o relógio o mundo a parede o asfalto



Bate e me parte ao meio
um seio aqui
ali outro seio
um meio que fica meio sem saber
aonde ir

sábado, julho 12, 2008

descabido

Mas do que falávamos, amor meu?
De reveillon e de libido.

Ela escorria libido. Sofrera sempre com a questão de ser ela a mais dada à "coisa".

Mas por quê reveillon?

Porque a palavra francesa que designa mudança de ano mexia com ele.

E ele mexia com ela. E com a libido dela, certamente. "Reveillon é algo libidinoso" costumava dizer a ele que sempre enchia a cara até cair duro na cama. Ou mole, melhor dizendo.

Mas teve aquela vez em que tomamos um ácido e fui eu quem revirei na cama até vomitar - lembrou sabiamente. Ainda possuía alguma memória.

Sabe?, amor meu, eu acho que nunca fui feliz ao lado de um homem.

Ele caiu mudo. Ligou a televisão acendeu cigarro comeu chocolate atrás do outro.

Ainda mudo, olhou com coragem para os olhos cruéis da mulher (de mulher). Ela sorria.

Sabe?, amor meu, - agora era ele quem arriscava - eu fui feliz com você.

Ela vibrou.

Até certo ponto - ele continuou.

Ela lembrou da desmedida das coisas. Sempre extrapolava o tal do ponto. O tal do ponto. Que ponto? Que porra de certo ponto? Ponto errado do caralho. Ela quis gritar. Não o fez. Enfiou chocolate e cigarro na boca seca de mulher.

Até chegar aqui. E olhar daqui pra trás e dar por falta de mim - ele chiou.

E eu por falta de tudo o que de mulher havia em mim antes de você chegar.

Você com essa coisa de mulher. Não tem nada disso. Não me engana, você não consegue me enganar.

Imbecilidade de homem achar que conhece assim tão dentro.

E é essa sua ingenuidade que te impede de ser mais. mulher.

Tenho libido de sobra. Escorro libido.

Uma mulher é mais do que isso.

Você agora quer me ensinar? Agora que me roubou de mim, vai usar o que de mim apreendeu para me E N S I N A R ?

Você me pertencia. Não precisei roubar nada. Me foi dado. Sem choro. Fácil. fácil.

E eu sinto falta do seu sexo de homem que me abandona na cama dormindo de lado pra parede criado mudo do caralho. Você é um criado mudo do caralho.

Não quero te pertencer. Sou maior sou mais que isso de pertencer. MAis que isso de homem e mulher. Sou ser humano. ISso sou.

Até que fomos um tanto gente um ao lado do outro. Mas depois você virou decoração na minha vida. Uma fitinha vermelha extremamente desnecessária. Sou mais mulher que isso de homem e mulher, que isso de pertencer, que isso de ser ser humano. Sou mais. Mulher, amor meu. E isso você não vai aprender nunca.

quarta-feira, julho 09, 2008

dica cultural (!)

Copacabana, mon amour é o melhor filme de todos os tempos. Viva Sganzerla. Viva Brasil.

sábado, junho 28, 2008

cérebrando

agarrar o teclado com a goela toda. engulir computador. letras. parágrafos. explodi-los num espaço mais real, mais concreto, menos ilusório. o que não é ilusório nestes tempos fictícios? minha unha vermelha é uma mentira. meu sangue negro, branco, amarelo e luso-italiano é uma mentira das grandes? eu sou de pele e de osso. dentro é osso fora é fosso. mas me atiro como quem finge saber por onde anda, em que pisa a sola, onde imprime seu rastro. tudo mentira que nada. egocêntrica, inválida: gosta de escrever depressões no relevo. inscrever na terceira pessoa é menos comprometedor. quero e não (quero) comprometer. escrevo sem significado, as palavras vão me guiando e me desviando de mim. fumaça é hoje o tempo duro de roer. duro de passar músculo, veias e ossos pra chegar no c e r n e .

rfef

gfuhfdshfszbkfduh